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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sofrer junto



Pergunta – O senhor sempre fala das construções, não é? Eu tenho sempre que olhar para dentro de mim pra ver que construção é essa que eu faço, se é boa ou não. Tenho que ter sempre essa preocupação?

Monge Genshô – Nós precisamos ter clareza e lucidez para poder observar que tipo de construção é. O importante é não se agarrar a nada. Há pessoas que sofrem por causa de coisas e outras por causa de pessoas, isso é mais fácil de entender, mas o absurdo é sofrer por bandeiras. Se conseguirmos descartar os apegos, os sofrimentos diminuirão. Temos que conservar o amor. Essas coisas que são construções da mente não têm importância.

Pergunta – Mas é difícil observar coisas como o sofrimento de outras pessoas e imaginar que isso não tenha importância.

Monge Genshô – Claro, isso é importante. Se você vê o sofrimento de outros seres e se compadece, vai sofrer junto. Isso é muito bom. Não sofrer quando uma pessoa que você gosta sofre, seria muito estranho. Parece que o treinamento do Zen faz com que as pessoas fiquem insensíveis mas é exatamente o contrário.

Pergunta – Mas como lidar com isso em situações que não há nada a ser feito?

Monge Genshô – Sofra junto. Se você não pode fazer nada, apenas chore junto. É claro que não há como comparar o que você como monge ou médico sente e se compadece, com o que sente a pessoa mais intimamente ligada a quem sofre. De certa forma você sofre, mas mantém certa distância, pois logo em seguida virá outra pessoa sofrendo e se você se mantiver em constante estado de sofrimento, facilmente perde a sanidade. Muitas vezes para mante-la você deve sair de dentro de você e perceber o que você está fazendo em relação ao outro. Eu tenho um neto com leucemia e observo que mesmo sendo meu neto, meu sofrimento é muito menor que o da minha filha. O que ela fez foi observar todas as mães que sofrem e tentar mudar o contexto. Ela está olhando para além do próprio sofrimento, isso é que é importante.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O sofrimento vem do apego, não do amor


Pergunta – O que é ser verdadeiramente homem?

Monge Genshô – Uma pessoa perguntou à Buda o que os Monges faziam? E ele respondeu: “acordamos, trabalhamos, oramos, comemos, dormimos”. “Mas isso todo mundo faz”, disse o homem e Buda respondeu: “Não é verdade, as pessoas não fazem isso integralmente”. Então muitas pessoas quando deitam para dormir ficam pensando nos problemas que têm quer resolver no outro dia ou, hoje em dia, comem na frente da TV ou lendo um jornal para saber das notícias. Um homem verdadeiramente homem, senta para comer e saboreia a comida sem pensar em mais nada, sente o gosto de cada garfada colocada na boca. Isso é o contrário do que normalmente as pessoas dizem, “eu quero me divertir” ou “eu quero me distrair”. Isso é como se desligar da vida e não pensar, ou como ter que ter um som de música ou TV para não ficar sozinho consigo mesmo. Esse não ficar consigo mesmo é um sintoma de uma doença. A sanidade é você conseguir sentar e pensar apenas naquele momento, no dia maravilhoso, no cheiro das flores, nos pássaros que passam por você ou um latido de um cachorro. Estar ciente da maravilha que é você poder escutar, ver e sentir as coisas ao seu redor.

Pergunta – Em alguns textos de Buda ele fala de construtores, não li o texto original em Páli, mas ele fala “ó construtores”. O que seriam esses construtores? Ele também fala que encontrou o fim do apego,  isso porque seria o apego o final dos doze elos?

Monge Genshô – Não, o primeiro é ignorância e o ultimo é morte.

Pergunta – Mas por que ele fala então em se cortar esse ciclo?

Monge Genshô – Veja bem, onde você sofre? Não é no amor, as pessoas dizem que o amor é sofrimento, não é o amor em si um sofrimento, mas sim o apego. Quando você corta a ignorância que é o primeiro elo, também acabaria com o sofrimento, pois porque há ignorância é que se gera o apego.

Com relação à primeira pergunta, o construtor do sofrimento é a mente que ignora e em razão disso constrói um “eu” e porque construiu uma identidade, esse “eu” construído, criando-se um grande engano, é que dá-se a origem ao sofrimento. Você tem apego porque tem um “eu”, mas se você percebesse que todas as coisas são vazias de um “eu” inerente, não haveria, para você, início ou fim de alguma coisa. Não haveria nascimento ou morte, isso é dimensão histórica das coisas, na dimensão absoluta não existem nascimento e morte.

Pergunta – Nesse caso os doze elos são impermanentes?

Monge Genshô – Não existe nada que não seja impermanente. Mas você está preso num ciclo e não consegue sair, pois passa de uma coisa para outra. Você tem nascimento, morte, ignorância e a ignorância gera novo nascimento e o ciclo se repete. Se você obtém uma compreensão perfeita desse ciclo, remove a raiz do sofrimento.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Compromisso de sanidade


Estar presente
Inteira
Atenta
Serena
Sem me deixar intimidar.
Manter o equilíbrio.
Fazer tudo com o coração.
Mas com a razão sempre a guiar cada ato.
Olhar para frente.
Entender que o erro é produto do risco.
E que só cria quem arrisca.
Arriscar-me por inteiro.
E permitir-me rir do erro.
Abraçar o mundo inteiro,
Sabendo que meus braços são curtos
e não alcançarei tudo.
Mesmo assim, estar sempre de braços abertos.
Corrigir os erros,
com ternura,
principalmente por si mesma.
Entender-me, perdoar-me, exigir-me, sem me deixar atropelar.
Não permitir que o mundo me agrida,
Não me permitir agredir o mundo.
Estar no mundo.
Mudar o mundo e mudar com o mundo.
Deixar que a direção se revele a cada passo da caminhada.
Sem deixar, que mesmo assim, o caminho tenha sido planejado,
Que o destino tenha sido desejado.
Amar, amar profundamente,
Sem permitir que o amor domine o destino e abafe os sentidos
principalmente, o sexto sentido.
Confiar na intuição,
Mas cercar-me de conhecimento,
pensamento, discernimento.
Saber a diferença entre o certo e o errado,
Mas julgar menos, perdoar mais.
Carregar o coração de compaixão,
Mas lutar contra cada injustiça do dia-a-dia.
Melhorar sempre.
Progredir.
Aperfeiçoar.
Estar presente em cada passo da caminhada.
Inteira,
Íntegra.
Mas saber ver-me de longe, de onde nada me alcance,
nada me abale, nada me diminua.
E ver-me no palco da vida.
Atuando em todos os meus papéis.
E amar-me profundamente,
Por saber-me lá.
Olhar-me, com os olhos de Deus.

Valéria Chalegre