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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Senhores de Nossas Mentes




No Zazen, estamos treinando para ser senhores de nossa mente. Isto pode produzir um nível maior de felicidade, porque cada vez que você se vir com uma ambição desmedida, com raiva, com ciúme, com apego… Se você está treinado a observar a sua mente, você se vê e “ah, é isso o que estou sentindo”. Aí você se dá conta de seu verdadeiro estado. Mas ninguém é senhor de sua mente, de verdade. Para realmente ser senhor de sua mente você precisa de um nível muito alto. 

Se verificarmos aquela famosa escritura dos 10 passos do boi, temos que o quarto nível já é iluminação. Você já teve kenshô, já viu sua verdadeira natureza, sabe que seu ego é ilusão. Você até sabe, mas continua fazendo tudo errado. Chega em casa e a família diz: "mas você não é budista? " (como se houvesse garantia de que, sendo budista, você fosse um iluminado perfeito, que passou tudo para as suas ações).

Primeiramente, chegar ao ponto de ver com clareza já é muito difícil. Mas quando alguém chega, o que o Mestre diz a ele? Bem, agora é o início do caminho. Porque tudo isso que você viu lucidamente, você tem que começar a transferir para as suas ações, para a sua maneira de viver. E isso é realmente o problema verdadeiro.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Nadando contra a corrente


Quando Joshu, aos 116 anos morreu, os discípulos chegaram ao lado dele e disseram: “Mestre nos diga alguma coisa”, e ele - “eu já disse tudo”. Mas um discípulo continuou: “não, mas nos deixe alguma coisa”, e o Mestre disse: “a vida é um sonho”. Cento e dezesseis anos é muito tempo para alguém morrer lúcido, como aconteceu com Joshu, ele é um recordista entre os Mestres Zen. O nosso  superior da ordem que morreu em 2008, Miyazaki Roshi, morreu  com 108, ele trabalhou até 30 dias antes de morrer. 

Esse negócio de ficar sentado de frente para a parede, fazer regime, pensando em termos de vida de Monge Zen, fazendo meditação, acaba não apenas você vivendo mais, como também a vida parece mais comprida, porque é o oposto do que chamam de “se distrair ou se divertir”, que é ouvir música alta, se embriagar, se drogar ou qualquer coisa assim. 

Acaba sendo o contrário, pois para se obter clareza e lucidez, sentamos em meditação. Por isso no Zen dizemos que estamos aqui em busca da clareza e da lucidez, de compreensão, então não usamos nada que altere a consciência. Tudo o que aumente a consciência é o que nós estamos buscando, e acaba sendo distinto do que o mundo procura e chama entretenimento.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Bodhidharma e o Imperador Wu (Parte I)

Bodhidharma se apresenta à frente do imperador Wu, chamado por este, que ouviu dizer que um grande mestre budista havia chegado da Índia, lugar de onde era originário o budismo. Chegando à frente do imperador Wu, este pergunta: 

- Eu, imperador, construí muitos templos e mosteiros para o budismo, que méritos eu acumulei nos céus por ter feito isso?

E Bodhidharma responde:

- Mérito nenhum, majestade.

O Imperador não gosta muito da resposta e diz:

- Então qual é a grande verdade da sagrada doutrina?

E Bodhidharma responde:

- Vazio ilimitado, essa é a grande verdade.

O que ele quer dizer? Que nenhuma coisa tem um "eu" inerente, não existe nada que seja um eu no mundo, nada que seja realmente separado. Vazio ilimitado. E não há nada que possa ser chamado de sagrado. 

É uma resposta muito interessante, não há nada que possa ser chamado de sagrado, pois tudo é sagrado. Se tudo é uno, tudo é sagrado. Não há nada separado do sagrado, isso é sagrado, aquilo é profano. Isso é divisão na cabeça dos homens. Tudo é sagrado. 

O imperador não entende a resposta e pergunta:

- Então quem é que eu tenho na minha frente?

E Bodhidharma responde:

- Não faço a menor ideia.

O que é uma resposta coerente com a anterior. Ele diz, "eu não faço a menor ideia de quem está na sua frente", porque eu não sou um eu separado, eu não posso nomear a mim de maneira tal a me distinguir do resto, se eu fizer isso estarei elaborando um engano. É isso que Bodhidharma responde.

Aí Bodhidharma sai, atravessa o rio e vai pra Shaolin, interna-se numa caverna e diz-se que ficou 9 anos fazendo zazen.

(continua)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

POR QUÊ SENTAMOS EM ZAZEN? (Zazen Parte II)



(continuação)
Em zazen, você está mudando seu estado cerebral. É isso o que acontece. No monastério, por exemplo, você faz longas recitações, trabalho, longas recitações, zazen. Zazen para estabilizar a prática. Trabalhar é prática. Silêncio, vai lá e faz. Concentre-se no que está fazendo. Não pode cantarolar. Não pode ficar cantando enquanto está trabalhando. Faça exatamente o que está fazendo, mais nada. Concentre-se naquilo. Esta é a chamada “prática física”. Mas o zazen é prática, o trabalho é prática. A recitação é prática. Se você aprende isso, você pode levar para a vida diária. Fazemos zazen para estabilizar, para se acalmar, para parar com os hábitos cerebrais negativos que fazem com que você deite na cama e comece a pensar como é que vai ser o dia de amanhã, o que é um grave erro, porque você acorda à noite ansioso, porque lá dentro do subconsciente está trabalhando coisas.  Então você tem que cortar. Essa tendência é comum em todas as pessoas.

Em toda vida diária, nós podemos usar o zazen, podemos usar a técnica da prática. Hora de lavar pratos, lavar pratos. Cozinhar, varrer, todas as coisas que a gente faz na vida. Hora de trabalhar, trabalhar. Hora de planejar, planejar. Acabou, outra coisa. Ficar imaginando sobre o futuro não, é errado. Ficar remoendo coisas do passado, não, é errado. É para isso que a gente faz a prática do zazen. Sentar, praticar o zazen, esquecer passado e futuro, ficar no presente. Você faz essa prática direitinho sentado aqui, depois, quando você está na vida, trate de levar a prática para a vida, aí sim você é um praticante do Zen. 

A prática é levar daqui para a vida. Em cada um desses detalhes. Os rituais não são inúteis, eles têm sentido. Recitações não são inúteis, elas têm sentido. Zazen não é inútil. Não é inútil ficar olhando para a parede. Zazen é, na realidade, treinamento para saber viver. Mesmo os mestres que se iluminam, que têm iluminação profunda, continuam sentando, porque facilmente você cai nos redemoinhos da vida, é muito fácil, porque a vida está sempre puxando você para a agitação, agita, agita, se preocupa. E você tem que aprender a aceitar a vida como ela vai se apresentando. Por isso treinamos, para termos a clareza de saber viver. 
(continua)