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sexta-feira, 29 de agosto de 2014
O problema de Shakyamuni
Palestra Centro de Yoga (Palmas - Tocantins - Decupado da gravação por Sonielson San)
Buda atingiu o seu despertar através da prática da meditação. Ele teve dois grandes mestres iogues – Brahmaputra e Alarakalama –, com quem praticou até determinados níveis de profundidade. Ainda assim, ele não se sentia satisfeito com a solução do seu problema fundamental, o problema que o havia levado até a floresta e que o fez abandonar a família, o seu principado, a riqueza e o palácio. Buda passou a procurar a solução para a sua angústia, qual seja, - “eu estou aqui, tudo vai terminar em velhice, doença e morte, inevitavelmente”. Qual é o sentido de tudo isso? “Para quê?”, perguntou o Tathagata. Por que estamos aqui nos sentido como corpos, vivendo junto com outras pessoas? Temos pernas, braços, cabeças, como qualquer outro primata, como qualquer outro macaco... temos que comer, que ir ao banheiro, temos pele e ossos, e vemos que todas as pessoas envelhecem, sofrem de doenças e, no fim, morrem. Vemos isso... Então, qual é o sentido disto tudo? Quem sou eu realmente? Esta foi a pergunta que Buda fez. Quem é esse que dentro de mim diz “eu sou”?
Buda sentou-se embaixo da árvore Bodhi e disse que não se levantaria de lá enquanto não resolvesse este problema. E isso não aconteceu do dia pra noite. Como eu já havia falado, ele tinha praticado por seis anos com mestres iogues sem, contudo, conseguir solucionar os seus problemas, embora os mestres o apreciassem tanto que queriam fazer dele um sucessor. Shakyamuni, então, sentado embaixo da árvore Bodhi, na madrugada do oitavo dia, após sete dias de meditação, sem se levantar, viu nascer a estrela da manhã e, naquele momento, ele entendeu, despertou dos sonhos e das ilusões. Quando ele desperta, imediatamente diz: - “Oh, que maravilha!!! Eu, todos os seres e a grande Terra, simultaneamente neste momento, alcançamos a iluminação. É então que Shakyamuni passa a ser chamado, então, de Buda, “aquele que acordou”. Neste momento, ele tinha 34 anos, e ensinou até a sua morte, aos 84 anos.
Nós somos herdeiros desta tradição do despertar. O único sentido verdadeiro do praticante zen budista é o despertar. É frequente, nas entrevistas, palestras e conversas, as pessoas associarem o zen com aspectos que se resumem a acalmar a mente e obter serenidade. Mas isso, para um zen budista, é apenas subproduto da prática. É como dizer a alguém que é praticante de ioga que ele irá utilizar a técnica apenas para adquirir flexibilidade. Isso é um uso da prática apenas pelo seu subproduto. É claro que o subproduto natural da meditação é a serenidade, mas esta serenidade não é o objetivo da meditação. Trata-se de um “efeito colateral” inicial, pequeno e normal. E, inclusive, não é necessário ser budista para obter serenidade através da prática do zazen. (continua)
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Nenhum todo com o qual se unir
Pergunta – Se formos levar ao pé da letra o termo “Shikantaza” (apenas sentar-se), de onde viria a motivação para sentar em meditação?
Monge Genshô – No início você senta por causa do sofrimento, porque tem alguma angústia existencial ou está a procura de algo, esse é o primeiro movimento das pessoas, quase todas vem com uma mentalidade aquisitiva. Shikantaza é apenas sentar sem tentar adquirir nada, adquirir algo da meditação é materialismo espiritual. Muitos chegam aqui com desejos de serenidade, paz, calma ou felicidade, isso é um desejo de adquirir algo e é um impeditivo para o despertar, pois você trouxe a mentalidade aquisitiva para a prática espiritual. A verdadeira prática espiritual é uma desistência. É muito bom quando o aluno diz que não sabe mais porque senta, mas isso é muito sutil, pois as pessoas normalmente praticam para obter algo, algum mérito.
Pergunta – Seria porque o ato de adquirir sugere trazer algo de fora para dentro? E isso não é adequado, pois não há a necessidade de se trazer nada?
Monge Genshô – Por ser um ato egóico. Até poderia ser visto sob esse aspecto, mas não é por isso. O ponto principal é que o “eu” é uma ilusão e a partir do momento que você deseja adquirir coisas para ele, você está apenas reforçando essa ilusão. O desejo de adquirir coisas espirituais também é para seu “eu”. “Eu quero ser santo”, “Eu quero ser puro”, “Eu quero ser uma pessoa respeitada e admirada”, todas essas coisas que são para o “eu” são materialismo espiritual. Esse não é o verdadeiro sentimento elevado, a vida espiritual é morrer para si mesmo, é esquecer-se de si mesmo.
Pergunta – Esquecer-se de si mesmo no sentido de se juntar ao Todo, se sentir o Todo?
Monge Genshô – Não há um todo com o qual se unir. Se você pensa “eu sou o Todo” ainda está pensando em um “Eu”.
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quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Pouco treinamento, pouco resultado
P: Quando estou praticando, não sei dizer se é concentração, mas sinto um pequeno grau de desprendimento, nada profundo ainda, esse estágio mental é uma espécie de treinamento para que eu possa desenvolver esse outro nível?
Monge Genshô – Temos muitos pequenos graus, mas na realidade quarenta minutos são muito pouco. Os leigos vêm praticar, sentam quarenta minutos e pensam que estão praticando meditação. O correto seria eu dizer que estão “fazendo uma limpeza”, estão se acalmando, não é tempo suficiente para ir mais fundo. Por isso sempre aconselho as pessoas a irem aos retiros. Nos retiros são muitas horas de meditação e é comum essa sensação no primeiro dia, de estarmos descartando o lixo. Como agora, sentados ali no zendo, vem à mente aquelas coisas que perturbaram você durante o dia de hoje ou de ontem, ou mesmo que vem perturbando durante dias, mas para ir mais fundo no Zen tornam-se necessárias muitas horas mais de prática.
No segundo dia de retiro estamos desesperados e querendo ir embora e se passarmos por essa fase, a vontade de ficar substitui a ânsia de sair do retiro. Isso pode aumentar se tivermos algum tipo de experiência e então voltar para o mundo dito real é que parece loucura, pois ali no retiro temos paz, serenidade e clareza. Pode ser que você não consiga isso, mas normalmente é o que acontece. Existe um retiro de oito dias, chama-se “rohatsu”, em que você não pára durante sete dias e, no último dia, à noite, o retiro vai até a madrugada sem intervalos. É o “retiro da iluminação de Buda”, pois foi isso que Buda fez. Toda essa história dos retiros, é somente pra dizer que pouca meditação, é igual a pouco resultado. Se você senta só um pouco por dia ou por semana, sempre será só um pouco, e pouco treinamento, pouco resultado.
Uma vez disse ao meu Mestre que queria dar um passo mais adiante e ele me disse para ficar sozinho durante três dias, não falar com ninguém, não ver ninguém e só sentar durante esse tempo. Eu lhe perguntei como havia sido com ele e ele respondeu que quando era jovem queria resolver a questão do “vazio é forma e forma é vazio”, então se sentou por quatro anos. Resolveu.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
O sofrimento é um atalho
Não podemos minimizar o efeito de uma boa meditação de quarenta minutos, que é tempo que um praticante mais maduro deve fazer. Então essa prática para a vida diária vai mudando essas questões do que alcançar. Sentir que não alcançou nada também já é muito bom. Porque um dos grandes problemas de quem começa a praticar é pensar que atingiu algo, ele senta-se e pensa – Ah, eu adquiri serenidade – ou – Que bom, eu pratico meditação e sou mais sereno, sou mais “zen” – como se diz na gíria. Há até quem se ache iluminado. Mas isso não tem nada a ver com o zen. Sentar-se e adquirir serenidade é uma prática que poder ser feita de muitas formas e não precisa, em absoluto, ter um objetivo espiritual. A serenidade é apenas um subproduto do sentar-se quieto em meditação, nada mais que isso. É como muita prática de ioga que se faz hoje em dia e transforma-se em ginástica simplesmente, mas que não tem objetivos espirituais, é mera busca de poder e prazer, a ioga com objetivos espirituais é outra coisa.
Então o primeiro que os alunos fazem quando se apresentam é sentar para meditar. Se você não ficar sentado quieto quarenta minutos não vai ouvir nenhum ensinamento, e se não voltar não tem problemas, porque o Zen não é para curiosos nem para pessoas que esperam resultados instantâneos ou uma panacéia, o Zen é para pessoas com a cabeça em chamas. Então tem que haver angústia, porque só a angústia existencial mobilizou Buda para prática, porque estava angustiado largou mulher, filho e foi para o meio da floresta e treinou, só por isso. Então é necessária a angústia, a inquietude e o desejo de se libertar. Por isso esse sofrimento é um atalho para a realização espiritual. E um corpo humano é a grande oportunidade, porque os homens tem as duas coisas, prazeres e dores.
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quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Todos chegam com grandes Eus
(continuação)
Pergunta – Essa busca do despertar, de eliminar os ganchos que a gente constrói pela vida, essa busca também é construída pelo próprio eu, “eu” quero. Essa questão me parece meio paradoxal, porque o próprio eu se empenha pelo despertar e nesse processo ele pode entrar numa armadilha, à medida em que se esforça demais.....Monge Gensho - Essa é uma grande pergunta, porque inicialmente, todas as pessoas vêm à sangha com seus “eus”, e só vêm porque querem obter alguma coisa a mais. Nunca vi ninguém chegar à sangha e ao ser perguntado por que veio, responder – “Eu vim porque quero ajudar todos os seres, eu vim porque esqueci de mim mesmo e quero me esforçar para libertar outras pessoas”. Não é isso, ninguém faz isso, posso lembrar de mim mesmo. Por que você veio à sangha e senta para meditar? Porque você quer algo para você. Calma, serenidade, felicidade, quer se libertar de angústias, talvez, e, se for profundo, do medo da morte. Quer uma libertação. Depois é que começa a ser confrontado com o dharma, e o dharma irá sempre repetir, tudo começa no eu.
Se nós olharmos para um treinamento budista, ele começa considerando que tem um eu treinando. Ele diz: “você senta, você pratica zazen, você se esforça, você, fique aqui. Olhem os preceitos. Os preceitos básicos - não matar, não roubar, não enganar, não causar sofrimento com sua energia sexual, não usar drogas, não falar das falhas alheias nem apontar e criticar membros da Sangha - são regras para você, para o seu eu, não são regras para quem perdeu o eu. Mas o caminho para chegar lá começa com o treinamento consigo mesmo.
É claro que se alguém não tem eu, não pode ser ofendido nem perturbado, não ambiciona nada, não tem nenhum problema. Mas não é isso que acontece com um praticante. O praticante vem porque quer obter algo para si mesmo. Muitos querem graduações, querem fazer seu rakusu, querem progredir na sangha, querem ser melhores. As pessoas então começam com ambições, e só muito depois é que outras possibilidades começam a aparecer. Mesmo entre os religiosos isso é freqüente. Eu vi uma vez um texto Tibetano em que havia uma autocrítica porque religiosos, Lamas, queriam tronos para sentar e ficavam discutindo para ver quem ficava no trono mais alto. No zen não há tronos, mas há títulos e mesmo os monges querem títulos. Um homem chegou para Shunryu Suzuki, grande mestre zen que trabalhou na Califórnia, e lhe perguntou: “Quantos homens no mundo, o senhor diria que estão realmente iluminados? ”E ele respondeu: “Não mais que uma dúzia”. Estamos falando de um universo de quatorze mil monges só no zen. Então, a iluminação é rara. Resolver o problema do eu não é nem um pouco fácil.
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
A força da comunidade
Retiro zen na Reserva Passarim
Pergunta: Eu vim aqui para ver se eu consigo ficar um pouco parada, sou muito agitada...
Monge Genshô:Como ficou parada então?
Pergunta:Foi um sufoco,mas consegui.
Monge Genshô: Você conseguiu porque estávamos sentados juntos. Porque havia outras pessoas, e isto é o significado da Sangha. O grupo proporciona uma força que nos permite parar. Se você estivesse sozinha, talvez em cinco minutos tivesse se levantado. Mas aqui então é possível ficar. Todos são iguais a este respeito. Mas se começamos a praticar, com o tempo adquirimos a habilidade de fazer meditação sozinhos também e aí podemos nos acalmar, serenizar esta mente que não pára.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Compromisso de sanidade

Estar presente
Inteira
Atenta
Serena
Sem me deixar intimidar.
Manter o equilíbrio.
Fazer tudo com o coração.
Mas com a razão sempre a guiar cada ato.
Olhar para frente.
Entender que o erro é produto do risco.
E que só cria quem arrisca.
Arriscar-me por inteiro.
E permitir-me rir do erro.
Abraçar o mundo inteiro,
Sabendo que meus braços são curtos
e não alcançarei tudo.
Mesmo assim, estar sempre de braços abertos.
Corrigir os erros,
com ternura,
principalmente por si mesma.
Entender-me, perdoar-me, exigir-me, sem me deixar atropelar.
Não permitir que o mundo me agrida,
Não me permitir agredir o mundo.
Estar no mundo.
Mudar o mundo e mudar com o mundo.
Deixar que a direção se revele a cada passo da caminhada.
Sem deixar, que mesmo assim, o caminho tenha sido planejado,
Que o destino tenha sido desejado.
Amar, amar profundamente,
Sem permitir que o amor domine o destino e abafe os sentidos
principalmente, o sexto sentido.
Confiar na intuição,
Mas cercar-me de conhecimento,
pensamento, discernimento.
Saber a diferença entre o certo e o errado,
Mas julgar menos, perdoar mais.
Carregar o coração de compaixão,
Mas lutar contra cada injustiça do dia-a-dia.
Melhorar sempre.
Progredir.
Aperfeiçoar.
Estar presente em cada passo da caminhada.
Inteira,
Íntegra.
Mas saber ver-me de longe, de onde nada me alcance,
nada me abale, nada me diminua.
E ver-me no palco da vida.
Atuando em todos os meus papéis.
E amar-me profundamente,
Por saber-me lá.
Olhar-me, com os olhos de Deus.
Valéria Chalegre
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Pergunta 297 - Site Daissen Zendô

Perg: Não entendo certas histórias zen, como a do monge que faz uma reverência para sua mãe quando ela se afoga em lugar de saltar no rio e ajudar. O que pretendem histórias assim? Penso que não podem ser modelos de comportamento.
R:
O koan não se destina a dar um modelo de comportamento a ser aplicado em diferentes situações. Não é, em absoluto, um exemplo. Se assim o fosse, passaríamos a matar gatos para ensinar, deixar as tragédias ocorrerem sem nos movimentar. Portanto, um koan não pode ser interpretado como uma história edificante, antigo modelo de nossa literatura.
Se você olhar em termos de 'certo/errado', dentro de uma forma cultural, vai salvar a anciã da água, mas no caso do koan, o monge não vê a água como uma condenação, nem a morte da mesma forma e seu conceito de salvar pode ser muito diverso.
Semelhante problema poderia ocorrer hoje em uma UTI. Vejamos:
Uma velha senhora, sua mãe, está em uma UTI amarrada em máquinas e o médico lhe pergunta se deve continuar prolongando artificialmente aquela vida,ocupando um leito necessário. Você tem de decidir se a máquina de diálise deve deixar de ser usada, e isso significa a morte em 48 horas. Você deixa a natureza seguir seu curso ou intervém mandando continuar o prolongamento artificial da vida? Se você decide deixá-la morrer, ditando, inclusive, o momento da morte afogada em líquidos retidos no corpo pelos rins que não funcionam, você se põe ao lado dela e, sabendo que você ordenou aquele processo, você ora profundamente sem nenhuma dúvida? Você consegue aceitar o curso dos acontecimentos? Você permanece tranqüilo? Você percebe que todos os seres do universo são sua mãe? E que aquela ali morrendo por sua ordem é apenas um fenômeno no universo, além de vida e morte? Você alcança que a morte em si é uma ilusão sua? Que seus atos não podem ser ditados pelos seus desejos pessoais de sentir-se justa, mesmo que à custa do momento adequado para o outro partir e do leito necessário para outra pessoa?
terça-feira, 13 de novembro de 2007
A mente inclui tudo

Shunryo Suzuki Roshi (1905-1971)
"Vai levar muito tempo até encontrares a tua mente calma e serena na meditação. Muitas sensações aparecem, muitos pensamentos e imagens surgem, mas são apenas ondas da tua própria mente. Nada vem do exterior da tua mente. Habitualmente pensamos que a nossa mente recebe impressões e experiências do exterior mas essa não é a verdadeira compreensão da nossa mente. A verdadeira compreensão é que a mente inclui tudo. Quando pensamos que alguma coisa vem do exterior significa apenas que algo surge na nossa mente. Nada fora de ti te pode perturbar. Tu próprio é que crias as ondas na tua mente. Se deixares a tua mente tal como é, ela tornar-se-á calma. Esta mente chama-se Grande Mente."
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