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terça-feira, 30 de setembro de 2008

O que são as "marcas" citadas como do corpo de um Buddha?


É interessante observar que a idéia de que vários sinais, conhecidos apenas por sábios, indicam o destino futuro de uma pessoa é muito mais antiga que o budismo. Os 32 sinais do super-homem pertencem ao manual de astrologia pré-budista. São sinais citados em obras hindus e foram tomados emprestados pelo budismo que assim legitimou culturalmente seu fundador na sociedade hindu.
O budismo sempre foi mestre nestes sincretismos que facilitaram sua penetração. Por exemplo o Ushnisha, "turbante", espécie de capuz representado em estátuas na forma de excrescência no alto da cabeça, a protuberância referida. É representado redondo em Gandhara, cônico no Camboja, pontiagudo no Sião e nas miniaturas de Bengala do sec II, e como chama no Laos.
Em torno da cabeça é colocada uma aura. Na arte de Gandhara (que surgiu com a influência grega) a aura aparece nas figuras de reis e deuses, na arte cristã este símbolo foi adotado depois do sec IV, o budismo o adotou também quando passou a representar Buddha, o que só ocorreu 300 anos após sua morte, até então pintava-se a árvore Bodhi e no máximo suas pegadas. Ele não estava ali. É depois de Alexandre que as estátuas surgem.
Para os budistas modernos este corpo "glorioso" de Buda é um contraponto ao corpo humano do Buda histórico e representa seu poder espiritual.


Arrumadas, as marcas são as seguintes:

1) Protuberância no alto da cabeça
2) Cabelo encaracolado para a direita
3) Testa larga
4) Pequeno círculo de pelos entre as sobrancelhas
5) Olhos azul-preto com pestanas como os de uma vitela
6) Quarenta dentes
7) Dentes uniformes
9) Dentes sólidos
10) Dentes brancos
11) Queixo com a força de um leão
12) Língua fina e comprida
13) Voz melodiosa
14) Ombros largos
15) Sete protuberâncias
16) Peito forte
17) Com pele delicada e dourada
18) Quando em pé, as suas mãos chegam aos joelhos
19) Torso como o de um leão
20) Corpo proporcionado como a árvore nyagrodha
21) Cada cabelo encaracolado para a direita
22) Pelos virados para cima
23) Aquilo que é preciso esconder estará escondido
24) Coxas roliças
25) Mal se notam as articulações dos tornozelos
26) Palmas das mãos e solas dos pés macias e suaves
27) Dedos dos pés e mãos ligados por uma membrana
28) Dedos compridos
29) Palmas das mãos e solas dos pés marcadas com uma roda
30) Pés simetricamente iguais
31) Calcanhares largos
32) Pernas de gazela


Este corpo com as marcas ditas, se levado ao pé da letra seria estranho. Que aos olhos do praticante ele é uma representação simbólica, um corpo glorioso, como o descrito para o Cristo ressuscitado. Buddha também parecia as testemunhas de seu tempo um homem normal.Da mesma forma que Cristo. O que não quer dizer que não tivessem aparência maravilhosa para os que pudessem ver.Ou seja que estas tradições tem um papel místico e por esta razão não é de surpreender que reproduzam coisas de manuais mais antigos. Estão dentro de arquétipos coletivos que reforçam os sentimentos religiosos.

sábado, 3 de novembro de 2007

Por quê "Aparecida Kannon"? Por quê este sincretismo?



Fotos Seigen
Emerson escreveu na lista Chungtao:

"Gostaria de apontar para o fato de que as pessoas de alguma forma ligadas a esta cerimônia de Aparecida Kannon, seja porque fazem parte da comunidade que a organizou, seja porque foram lá participar (no caso, eu rsrsrs), ao serem questionadas sobre o significado de "Aparecida" (e eu fui um dos primeiros que questionei), têm se mostrado evasivas nas respostas.
A razão mais direta de não se responder diretamente a esta pergunta é que, como já foi dito, trata-se de uma proposta do Saikawa rôshi e obviamente ninguém pode responder por ele. Há outras razões e aqui eu gostaria de falar das minhas, pois também fico feliz de que ela possa voltar a ocorrer.
O fato é que, considerando as palavras do Handa-san, que é um monge diretamente ligado a este mestre e que também participou da cerimônia, nem mesmo eles, envolvidos diretamente na preparação e execução, receberam explicações detalhadas sobre esta questão.
Em outras ocasiões, inclusive em um retiro, já tive a oportunidade de estar ao lado do rôshi e, até onde permite ver minha compreensão embaçada, posso dizer que eu o reconheço como um verdadeiro mestre zen. Em outras palavras, acredito que qualquer "proposta" que
venha dele tenha nascido de sua compreensão peculiar.
Mas este é apenas o primeiro ponto.
Neste caso em particular, "compreensão" sobre exatamente o quê? Sobre a compaixão, eu responderia, que, segundo explicações dadas, é o objetivo desta "proposta".
Então temos um mestre zen japonês que, munido de sua "compreensão peculiar", decide fazer em terras tupiniquins uma cerimônia "para a compaixão e comunhão entre todas as pessoas", conforme foi anunciado, e então ordena a seus monges e ao "departamento
feminino" do templo que prepare tudo para a novaCerimônia a "Aparecida Kannon Bosatsu da PazUniversal". Quase isso. Quem olhou e reconheceu, pôde ver no álbum do Seigen o próprio rôshi varrendo o chão e mexendo as panelas. Aqui acho que começa o ponto essencial: esse é um ato de expressão de comunhão entre as pessoas levado à prática, não de discussão
sobre o tema.
Ao se buscar a comunhão temos que primeiro procurar o que temos em comum, não o que nos distingue. O ponto de contato entre Kannon Bosatsu e Nossa Senhora Aparecida é naturalmente a devoção que o povo japonês têm pela primeira e o brasileiro, pela segunda. Mas o
mais importante é que para quem estava servindo no dia, ou sendo servido, isso não fazia a menor diferença.
No fim percebei que é preciso algum coração e se largar mão de muita racionalidade para participar de um evento com este espírito, seja por conta de nossa convicção religiosa, seja por causa de nossos conceitos e idéias sobre as coisas do coração, como compaixão. Na prática, qual é a diferença se a compaixão é encarnada pela santa padroeira ou pelobodisatva? Ambos são conceitos religiosos, pois carecem de uma definição clara (ambos estão associados
aos seus respectivos epítetos) para existirem. E quem precisa de conceitos para comungar, se é verdade que a comunhão é assunto do coração e não do raciocínio?
Assim, não estou escrevendo estas palavras para justificar, seja para os outros ou para mim mesmo, minha participação, nem mesmo para justificar a existência própria do evento, mas para
desconstruí-las, para reconhecer que seria lamentável se eu continuasse necessitando de uma justificativa ou explicação, ou que todos os conceitos precisassem se encaixar perfeitamente na minha cabeça.
Digo desconstruir estas palavras porque só depois de concebê-las, paradoxalmente percebi que se continuasse precisando de justificativas para me aproximar de outras pessoas ou para pôr a compaixão em prática é que eu certamente deveria a começar a participar de cerimônias deste tipo, onde dar uma explicação seja tão difícil quanto dar a resposta a um koan, onde a
questão queimasse fundo todos os conceitos e sobrasse apenas a vivência. E, quem sabe, se continuar praticando assim talvez um dia, em vez de apenas me servir, consiga chegar ao nível de ser capaz de varrer o chão para a cerimônia."

Emerson