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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Convite ao Despertar


É difícil demais enxergar e superar nossa prisão, porque nós estamos na situação da rã no poço: ela nasceu num poço. Quando ela olha para cima, vê um pequeno círculo de luz no céu, as paredes do poço e aquela água no fundo. A rã está lá, um pássaro vem e ela conversa com ele. O pássaro diz que há um mundo imenso lá fora e ela diz que não pode ser, que o universo é aquele cilindro de pedras que ela conhece, com aquela poça no fundo. Não pode existir alguma coisa maior e nem um céu maior do que aquele círculo que ela vê lá em cima, nem mais alimento, nem mais insetos que caem no poço todos os dias. À rã tudo é tão suficiente, tão pleno, mas para o pássaro não. Para o pássaro existe o oceano, florestas, luz, milhares de poços, muitos seres lá fora. Ele viu. A rã nunca viu, e ela acha que tudo é aquilo que ela já tem. 

Nós não somos diferentes da rã, pois nós olhamos para nós mesmos e pensamos: o universo é isso tudo que esta embaixo da minha pele. Eu sou estes pensamentos, este corpo, estes sentimentos, eu sou isto. Você senta-se em zazen e vê isto, o seu poço, a sua cela. O Zen é um convite para que você abandone a cela, é um convite à rã para que pegue uma carona com o pássaro e voe lá fora, e veja o mundo de forma completamente diversa. Mas para isso é necessário abandonar nossa identidade, que é a nossa cela, que é esse acreditar em si mesmo, em “minhas opiniões”, “meu eu”, “minha vida”, “minhas doenças”, “meu corpo” - tudo isso é o aprisionamento, a cela, a limitação, não tem nada a ver com o infinito, com universo. No entanto, é possível para a rã pegar carona com o pássaro, está disponível, ela só precisa ter coragem para isso. 

 [Trecho de Palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Esquecer-se de si mesmo


Nós ouvimos as pessoas dizerem que nós temos uma missão aqui, nossa missão na Terra, mas o Zen vai dizer que não há essa missão que você não é importante, que você é só consequência de carma e que não existe nada tão importante assim para ser alcançado. Ao mesmo tempo, nós nos sentimos amarrados a essa cela, a essa prisão, e mesmo que as portas sejam abertas, nós não queremos sair, porque essa prisão é tudo que conhecemos, é tudo que amamos como a nossa própria identidade. E quando perguntamos a alguém quem ele é, ele responde sobre as qualidades de sua cela: eu sou assim, eu sou assado, eu tenho tal nome, eu tenho tal genealogia, tenho tais títulos, então aqui na minha cela tem os cursos que eu fiz, a minha aparência está aqui nesse retrato, e tudo é a cela, ela é tudo o que você olha, é a prisão. Então, nós nos sentamos em zazen, como disse Dogen, “para nos esquecermos de nós mesmos”, mas esquecer de si mesmo é abandonar a cela, é ver que não tem significado você se agarrar a esse nome e forma, e esta é a única maneira em que você pode sair da cela e engolir o universo, sendo participante do próprio universo e compreendendo todos os seres. O único jeito de abrir a porta é esquecer de si mesmo. Por isso, Dogen disse que "estudar o Zen é estudar a si mesmo, e estudar a si mesmo é esquecer de si mesmo, e esquecer de si mesmo é ser iluminado por todas as coisas".

[Trecho de Palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O que é onda cármica?



Pergunta: O que é onda cármica?
Monge Genshô: Ela é uma manifestação cármica, é uma onda no universo. Normalmente falamos sobre esta vida e vidas passadas, mas na verdade estamos falando em manifestações da mesma onda. Mudaram todos os átomos, mudou o corpo, mudou tudo, mas a onda é a mesma, de forma que existe uma manifestação anterior a sua vida presente e existirá uma posterior. Essa manifestação surge dos seus impulsos, assim como você é continuidade de uma onda anterior. Qualquer coisa é continuidade de algo anterior. É como as árvores, a semente da manga produz uma mangueira que dará mangas muito parecidas, não serão mangas iguais, mas também não serão pêssegos. A manga que nasce é uma continuidade muito parecida da manga que deu origem a ela. Da mesma forma você é o mesmo de uma vida passada? Não, mas é muito parecido, porque é uma continuidade.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Ser consciente da impermanência

 
Esse corpo que parecia sólido, que tem uma aparência, etc, se dissolve, desaparece, como admitir isso? Parece chocante demais. Parece incompreensível. Não é assim que todos sentem? Vocês não sentem a estranheza dessa circunstância? Uma pessoa bela vai envelhecer, vai ficar feia, seu corpo vai ser comido pelos vermes, ou vai ser torrado numa câmara de cremação e não vai sobrar nada?
 Esse pensamento é muito antigo no budismo. Uma mulher bonita não é mais que um saco de pele e de órgãos, e se for esfolado não vai ser diferente de um coelho. Antigamente colocavam os monges para meditar na frente de cadáveres em decomposição para se conscientizarem claramente da sua impermanência, do vazio da sua existência. Mas quando a gente olha agora, não parece real.
 Quando vemos uma mulher bonita, os nossos olhos brilham. Mas isso é ilusão, é o movimento do carma nos conduzindo, e nós não somos senhores do movimento, por isso Buda diz 'seja senhor de sua mente'. Se você for senhor de sua mente, a consequência é ser senhor do movimento. Não ser arrastado pela paixão.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Delimitamo-nos para nos sentirmos seguros



Eu estava tendo uma entrevista, um dokusan, há pouco tempo, e o aluno me pediu uma explicação melhor para o que eu estava dizendo sobre nossa identidade, então usei esta: nós temos aqui um copo d’água. Esta água que está aqui dentro está delimitada pelas paredes do copo e assim este cilindro contém uma quantidade determinada de água. Eu digo que existe aqui um copo d'água e todos concordam, não é verdade? Mas o Sutra diz: não é verdade. Eu estou atribuindo qualidades e características a esta água e assim eu a delimito, por isso na minha mente ele é um copo d’água. Vocês também são assim. Delimitados com seus corpos, com seus pensamentos, com as coisas que aconteceram em suas vidas, com os seus carmas e com seus movimentos cármicos. Vocês são como um copo delimitado e dizem “eu sou”. Se eu pego este copo e jogo ali no mar, deixou de existir algum átomo desta água? Não. Toda a água continua, nada está perdido, tudo que havia aqui continua existindo, no entanto eu joguei o copo no mar e ele é indistinguível. Eu não sei mais onde está o copo ou onde está a água, mas toda ela está lá.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Parar o corpo ajuda a parar a mente


Aluno: Praticar vipassana ou samatha não é praticar zazen, então?
Monge Genshô:
Não é. Mas quem está praticando zazen de fato aqui nesta sala? Vocês estão praticando zazen alguns segundos ou minutos dentro de cada sessão. O que está acontecendo é: você senta, imobiliza o corpo, começa determinadamente tentando fazer tudo certinho até que o corpo cansa, então você se curva, a cabeça cai, a perna dói, etc. Tudo isso faz parte do processo, mas o problema está na mente porque essa parte da postura, embora seja complicada e difícil de executar bem, ainda é viável. A mente é o verdadeiro problema. Parar o corpo ajuda a parar a mente, mas ela quer viajar, você traz ela para cá, tenta ouvir o som do ar-condicionado, ouvir os pássaros, olha fixamente para a parede, mas começa a ver figuras, encontra dois pontinhos e acha parecido com um rosto, então procura a boca e assim por diante. Na verdade você tem que sentar e não ver nada. Mas se eu quiser ver, então vou ver. A pergunta é sempre: onde estão essas coisas que vejo? Na sua cabeça. Os pensamentos estão na sua cabeça e não fora. Você pode lutar com seus pensamentos e tentar parar de pensar? Isso seria tolo, você não consegue fazer isso. Nós apenas ignoramos, se a mente quer viajar ela que vá, eu não preciso dar nenhum sustento para ela. Ela pensa em cavalos e eu não tenho nada a ver com cavalos, então faço nada. Apenas deixo passar. Seja lá qual for o pensamento eu não preciso acompanhá-lo. Se a mente pensa em árvores eu não procuro os frutos, não desenvolvo o pensamento e se eu me comportar assim a cada nova tentativa da mente eu volto para cá, até que ela cansa. Se a mente consegue se repousar no não pensamento de ficar aqui, ouvindo os sons, apenas sendo e vivendo neste mundo, isto sim é zazen.

Quanto mais tempo você ficar assim, mais você treinou a sua mente e se tornou senhor dela. Nós chamamos esse estado de samadhi, que é um estado onde você não é arrastado por paixões, você só aceita tudo que está vindo. Por que fazemos isso? Isso vai fazer com que o zazen produza um insight? Não. Provavelmente não durante o zazen, mas fora, andando, comendo, vendo algo ou mesmo depois do sesshin. Depois do sesshin, durante dois ou três dias, você consegue manter um estado especial. Mas depois que para de sentar sua mente volta para a loucura.

Eu comparei ainda há pouco com um redemoinho, você é um redemoinho girando sem parar, levantando poeira e destruindo coisas, mas a sua natureza não é de redemoinho. O redemoinho é apenas o movimento da nossa mente, é o nosso carma. O eixo é o nosso eu, que você olha e reconhece como o olho do furacão, mas que na verdade não é algo e sim ilusão. Ele está lá, mas não tem uma natureza inerente, ele só existe porque existe redemoinho, então é efeito do movimento. Qual é a nossa verdadeira natureza? É atmosfera. Nós somos atmosfera. Imensa, com milhões de possibilidades, mas estamos perdidos na consciência de um redemoinho e por isso não vemos essa verdadeira natureza. Se nós desfizéssemos o movimento do redemoinho e acalmássemos a mente completamente, o redemoinho desapareceria. Desaparecendo o redemoinho desaparece junto aquele eu pequeno, então surge a possibilidade de darmo-nos conta de que nós somos imensos, grandes, muito mais do que um eu pequeno. Nós somos todo abrangentes e todas as tempestades não são mais nada do que nós mesmos. Nós não percebemos que somos atmosfera porque estamos perdidos acreditando que somos redemoinhos. Todos aqui agora são pequenos redemoinhos de movimento cármico manifestado em carne e osso.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

APRENDENDO A SENTAR EM ZAZEN (Zazen Parte I)




Eu vou falar sobre o zazen. O zazen, de certa maneira, é como morrer. Você senta em zazen e desliga, esquece memória e esquece imaginação sobre o futuro. É isso que você tem que descartar. Eu sei que é muito difícil. Então, o que acontece quando a gente senta em zazen, e deve ter acontecido com vocês, é que você senta e aí percebe que a sua cabeça não para e pensa: “minha cabeça não para, eu não consigo fazer zazen”. Esse é o problema de todo mundo. Todas as pessoas tem o mesmo problema. Você tem que usar a técnica e tentar, com o corpo, ancorar a mente. Então você para completamente, imóvel, e deixa que o corpo ancore o universo inteiro. É como se você fosse o centro de todas as coisas, de todo o universo. 

Mas a sua consciência está limitada a você na sua vida diária, só “eu, eu, eu”, “meus” pensamentos, “meus” problemas. Então você tem que esvaziar isso. Para isso, a primeira coisa é, sentar-se e relaxar todos os músculos do rosto. Então, os músculos da testa, todos os músculos que se contraem com a expressão, devem relaxar. Isso resulta num rosto muito tranquilo, e parece realmente que morreu ali, porque tudo parou, todas as reações pararam. Você tem que fazer isso, relaxar. 

Depois observe os músculos dos ombros. Às vezes eu passo atrás e tem pessoas que visivelmente estão tensas. Quando for dor, tente levantar os ombros e depois baixa-los. Às vezes é preocupação. Quando nós tocamos atrás, nos ombros das pessoas, quando tem preocupações de trabalho, financeiras, normalmente o lado direito está contraído. E quando é assunto emocional é o lado esquerdo que se contrai, afetivo. Então a gente pega a pessoa e diz, “ah, você está assim, tem um problema amoroso”, não tem nenhuma mágica, simplesmente é perceptível quando a tocamos.

Mas quando você se senta, o que tem que fazer? Conscientemente, todos os reflexos do corpo, você tem que relaxar, afrouxar. O mudra universal é como se ligasse você ao universo inteiro. Seus dedos estão se tocando levemente. Se você pensa, ou se preocupa, os dedos apertam, as unhas ficam brancas, e os dedos sobem. Se você se deixa tomar por um torpor ou uma sonolência, os dedos caem. Se você pensa muito, os dedos até se separam, vai um para um lado e outro para outro. O professor passa e olha o mudra e, “ah”. Ele está dizendo “isso”, o professor sabe. Então depois tem uma entrevista, ele pode dizer ao aluno: “está acontecendo isso com você”. Eu já vi alguém dizer: “ele lê pensamento”. Não. Ele lê mudras e corpo. As suas costas mostram o que está acontecendo com você, e o corpo é reflexo da mente. Quando uma pessoa não consegue parar, isso é a mente. Ontem sentou alguém aqui pela primeira vez e vi que era impossível para ele parar, coça nariz, ajeita a blusa, etc, é uma mente que não parava. Como a mente não para, o corpo não para. 

Então, no Zen, nós fazemos o contrário. Eu não vou conseguir parar a mente, então, eu vou parar o corpo, e assim eu vou atingir a mente, eu vou conseguir atingir a mente. Por isso, sem a prática do zazen fica muito difícil, porque você fica preso na teoria.
(continua)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A função do eu



Monge Kômyô:  O que é o EU? O “eu” é um composto, sob a ótica budista. Esse composto pode ser subdividido em 5 fenômenos, 5 aspectos que juntos vão compor uma identidade pessoal. Pensamentos, percepções emocionais, formações mentais, consciência, todas essas reunidas em uma forma, um corpo. A bem da verdade, o fenômeno é um binômio mente – corpo. Mas a mente nos ensinos de Buda é, digamos assim, subdividida em 4(quatro) principais fenômenos.
A identidade pessoal é um construto, no que diz respeito à nossa vida. O eu é necessário, não é supérfluo. No samsara o composto está numa personalidade, na sua funcionabilidade, o eu tem a sua função também, como tudo na existência. O fato dele ser um artifício, não significa que no plano psicológico, psicoemocional, o eu não tenha uma função.
A problemática do eu é que ele era um guardião que se tornou guarda. Era um protetor que se tornou um ditador.  Às vezes dizem que nós temos que aniquilar o eu nós temos que acabar com o eu e isso não é muito correto! O eu como construto, é o próprio fenômeno da existência traduzido nesse artifício chamado eu, e ele possui camadas. Na experiência contemplativa há um momento em que nós podemos entrar em contato quando conseguimos derrubar as camadas superficiais e condicionadas do nosso eu. Entramos em contato com o que se chama “o verdadeiro eu”, sendo que na linguagem ZEN é chamado de “não-eu”. O termo para nossa mente, mente mais cartesiana, mais racional, parece um termo negativo,  “não-eu”, e aí pode-se imaginar,  claro, naturalmente, que se tem que acabar com o eu. Mas o não-eu é uma definição para um estado de percepção profunda em que os artifícios não saudáveis do eu condicionado, são superados. Daí que o “não-eu” é uma experiência de integração com o todo. ( continua )

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Corpo, repetições e o manto


Pergunta – O sofrimento físico, não digo nem apenas somente a dor nas pernas, mas uma doença grave, uma ferida aberta, isso compromete este estado de lucidez e concentração?

Monge Genshô - Com certeza. Mente e corpo estão ligados. Se você está doente, a doença atrapalha você. Não adianta dizer que não é verdade, se você não cuidar do seu corpo, um dia ele começa a atrapalhar. Esses dias eu cheguei na minha casa e disse à minha esposa: “está na hora d´eu mudar de corpo porque esse aqui, já era, está com esclerose em articulação, artrose, etc, começa a dar problema”.

Então, o corpo é um instrumento muito necessário, uma âncora que segura você aqui, e permite fazer uma determinada prática. Se você perde o corpo, muitas portas de acesso ao universo são fechadas, o olhar, os ouvidos, nós usamos o corpo muito, ele não é nem um pouco desprezível. Então quando nós dizemos “mente”, mente e corpo são uma coisa só. Por isso, cuide do seu corpo, e cuide da oportunidade que você tem agora, há uma oração no fim do dia nos mosteiros Zen, que diz assim: “praticantes eu lhes peço encarecidamente, não percam tempo, porque o tempo rapidamente transcorre e a oportunidade se perde”.

Vocês têm a oportunidade de praticar e despertar. A outra forma é: continuem iludidos. Morram iludidos, nasçam iludidos e repitam tudo de novo. Esse na realidade é que é o verdadeiro castigo, ficar preso aqui, repetindo tudo de novo. Já pensaram? Vou morrer, aí eu nasço, não sei quem sou, mamãe me dá um nome, me manda para o colégio, eu tenho que aprender tudo de novo, aí tem colegas mais fortes para me dar cascudos,  tudo de novo!  Começar ignorante, tudo de novo. Isso é o verdadeiro castigo, porque a única coisa com que você conta quando nasce, que você pode levar, é seu carma.

Então você tem que ter um carma que direcione você para coisas melhores e certas, senão você vai ser direcionado para as coisas piores. É uma péssima idéia, por exemplo, morrer de overdose.  Nascer de novo com vontade de se drogar? Uma péssima idéia morrer com raiva, já nascer num mundo de ódios. É uma boa idéia morrer com os pensamentos mais belos, e a vontade de se manifestar num mundo belo, num lugar com pessoas de bons sentimentos.

Nós dizemos que a prática tem imenso poder. Nós dizemos que o manto budista tem grande poder. Há uma história de uns ladrões que roubaram o manto de um monge, e levaram para um cabaré, deram para uma prostituta e disseram, “te veste de monja e faz um strip tease em cima das mesas”. E sob os assobios e palmas dos homens ela fez o strip tease com o manto do monge. E por causa disso, ela renasceu em uma família budista e recebeu excelentes ensinamentos e tornou-se uma monja. Pois é. Tal o poder do manto. Como a história budista é surpreendente não é? Todo mundo fica esperando um castigo, e não tem. Portanto, é grande bênção ter esse contato.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os ventos após a morte


5) No ultimo zazenkai em Joinville falávamos sobre as dores do zazen e do retiro em si e o senhor falou que sem um corpo seria muito difícil praticar. Poderia explicar isso melhor?

Monge Genshô – Quando você está sonhando, sua mente vai para todos os lugares. Você não consegue ficar aqui nesse momento, pois não tem a âncora que é um corpo. Na morte nossa consciência perde o ”eu” e é arrastada pelo carma.

6) Mas ainda existe a consciência após a morte.

Monge Genshô –  Existem apenas nossos impulsos, desejos e apegos. É nossa natureza que deseja se manifestar e para isso ela transita de um lado para outro procurando se manifestar por aquilo que se sente atraída. Não há nada que a segure, não existe uma âncora. Nosso corpo é nossa âncora, o levamos para o zafu, olhamos para a parede e dizemos que não levantaremos, mas nossa mente pode levantar e sair a vagar, nosso corpo não. Quando você não tiver um corpo será arrastada pelos seus desejos e apegos até encontrar onde se manifestar e será onde estes desejos e apegos se sentem atraídos.

Por isso estamos aqui, nos sentimos atraídos para estarmos aqui. Não existe efeito sem causa, raciocinem, por quê estamos aqui? Por quê nossas personalidades se manifestaram neste corpo, nesse país, nesse mundo, nessas condições? Por quê me sinto atraído por esse local e por esta maneira de viver? É lógico, não é? Estamos aqui por nos sentirmos atraídos para esse tipo de lugar, nossa personalidade, desejos e impulsos vieram de algum lugar. Da mesma forma que somos responsáveis por todo nosso futuro, assim é com nossa vida aqui na Terra. É incrível que tenhamos nos sentido atraídos pelo sesshin. Tem que haver uma marca dentro de nós para nos induzir a procurar esse tipo de lugar. É um lugar muito puro onde tudo que é falado é voltado para o bem e para o desenvolvimento da consciência. Toda nossa vida é assim, procuramos pessoas com os mesmos gostos que nós. Quando não tivermos mais esses corpos algo irá querer se manifestar e, de acordo com a mente que construímos, iremos definir a continuação. Por isso é tão importante a construção de nossa mente e é isso que fazemos no sesshin, tentamos construir todo nosso futuro, que é a construção da própria felicidade.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Indo para sentimentos mais elevados



3) O senhor falou agora sobre a felicidade. Ela pode ser eterna? Até onde eu entendi tudo na vida é transitório.

Monge Genshô – Buda recusou duas idéias - eternalismo e nihilismo - o budismo é o caminho do meio. Pela própria definição do que é a vida, nada pode ser eterno. Existem vários estágios de clareza para serem atingidos, a iluminação tem muitos degraus. Embora você tenha um insight e atinja um kenshô, isso não significa que em toda sua vida você agirá perfeitamente sem perder a paciência ou que não surgirão pensamentos dentro de você. Talvez a diferença seja que você olha para você mesmo e perceba isso acontecendo.

Conforme você avança na prática, haverá o dia em que estes sentimentos não mais se manifestarão e seus atos transparecerão este estado mental. Tudo sempre continua, não igual, mas mudando, e pode haver um dia em que você não caiba mais em um corpo humano. Haverá a necessidade de outro estado, talvez não necessariamente no mundo da forma. Apesar de se falar nisso no budismo, isso para nós agora é só teoria, pois estamos envolvidos nas coisas mais comezinhas, mais bobas e dos sentimentos mais tolos. No entanto se conseguirmos sair deste tipo de sentimento para sentimentos mais elevados, esta será uma vida mais feliz.

4) Eu li em um livro uma vez algo sobre quando você toma consciência de como você é, você consegue mudar, é assim que funciona, à medida que você vai percebendo as coisas você vai mudando?

Monge Genshô – O simples fato de perceber ajuda imensamente, pois isso significa uma auto-crítica, já é um primeiro passo. Quando você sabe que está fazendo algo errado, já é muito bom.

Estudar e compreender a si mesmo são coisas muito importantes. Dogen disse que “estudar o Zen é estudar a si mesmo e estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo”, então, quando você conseguir esquecer-se de si mesmo, seus erros e suas dificuldades, esse sim será um enorme passo, pois enquanto você estiver olhando para si mesmo ainda existe uma grande noção de um ego.

Nós estamos num sesshin e se ocorre a você um pensamento do tipo “por que eu estou aqui?”, isso é um “eu” pensando. O correto seria você sentar quando tem que sentar, comer quando for para comer, ir ao banheiro quando tiver vontade e em momento algum pensar no “eu” e nos motivos que o fazem estar aqui, esteja simplesmente aqui com todos os outros, fazendo o que todos estão fazendo. Se você conseguir esse nível de sentimento é um grande passo.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Quem sou se tirar o "eu" ?


Aluno - Porquê?

Monge Genshô -  Porque o “eu” é muito nítido, muito forte, você abre os olhos e vê os outros. Você tem ouvidos e ouve sons. E você pensa “Ah, isso sou eu!” Isso não é você, isso são sons, é a visão, são os cheiros. Porque você pensa que é o que ouve, o que vê, o que cheira, o que prova. Nós pensamos que nossa mente somos nós mesmos, essa conformação mental é nossa consciência, esse que pensa como Descartes “Penso, logo existo”. Eu penso, logo eu existo. Não é isso. Eu penso, só penso. Esse pensar não fez um “eu”. Assim como a chuva que cai não faz nada, não faz um “eu”. Nós pensamos, só pensamos. Esse pensar nos atrapalha, cria a ilusão de um “eu”. Por isso sentamos e tentamos fazer com que nossa mente se acalme. Porque quanto mais ela cogita, mais ela se agarra à sua identidade e tem medo que sua identidade desapareça. Tem tanto medo que a identidade desapareça que cria fantasias religiosas. “Eu vou continuar para sempre, eu tenho uma alma eterna. Quem morre não sou eu, é só o corpo, eu continuo depois.” Vemos isso nos desenhos animados. Tom, o gato, morre e a alma dele vai saindo do corpo e ele consegue agarrá-la pelo rabo e a puxa de volta. Nós criamos essas fantasias mas não existe uma alma eterna. Nós somos o movimento da vida. Nós somos eternidade. Nós temos continuidade sim, há continuidade, não há com ir embora. A morte é uma ilusão.

Pergunta - Então porque a vida inventou o pensamento?

Monge Gensho – A vida não inventou o pensamento. O pensamento é só uma função da vida. Porque as plantas fazem fotossíntese? É uma função das plantas fazerem fotossíntese. Porque nós temos sentido, os nossos sentidos nos dão informações, eu toco e percebo, esse contato produz uma sensação, essa sensação viaja pelos meus nervos até meu cérebro e assim eu tenho uma percepção – “Ah, o braço da cadeira” – essa percepção junto com outras percepções faz as formações mentais, porque eu tenho percepções mentais eu crio uma consciência que diz – “Eu sinto o braço da cadeira” – preciso do “eu” para sentir o braço da cadeira, não é que o “eu” seja uma coisa inútil, precisamos dele para viver, caso contrário não posso falar, me movimentar, fazer as coisas. Só que confundo o “eu” com minha verdadeira natureza. Minha verdadeira natureza não é o “eu”. Minha verdadeira natureza é a unidade de toda a vida. A minha verdadeira natureza não é contato, percepção, sensação, formação mental consciência. O “eu” é construído com esses sentidos, agora, se eu tirar isso, o que resta? É por isso que os homens inventaram as religiões, porque eles ficam apavorados com essa sensação, “meu eu irá desaparecer, eu sou o meu eu”! “Quem eu sou se tirar o eu”? Então surge a angústia, a angústia da morte, porque todos percebem que os corpos se desfazem, a gente morre, e a gente quer que o “eu” continue.

Por isso criamos as histórias de paraísos, reencarnações, almas eternas. Nós queremos uma solução para todas as coisas da vida. Então as religiões mais bem sucedidas são as que apresentam uma solução mais bem acabada, mais fácil. Imaginem, a religião mais popular no nosso meio que é o cristianismo, nos trouxe um conceito que no evangelho Cristo não ensina, mas que é criado depois por seus sucessores, principalmente Paulo - a idéia de um Deus que veio à terra, que é um salvador e que carrega os pecados do mundo. Isso resolve todo problema cármico, porque eu não pago mais pelos meus pecados, há um salvador que paga para mim.  Se eu fiz algo errado se eu matei, mas me arrependo, vem um salvador paga pelos meus pecados e eu não preciso pagar as conseqüências, então eu retiro o carma, pois tem um salvador para pagar por mim.

Isso retirou dos homens a culpa, porque o pecado tem perdão, tem um salvador, tem um redentor. Vejam que isso é uma solução muito bem sucedida, pois com isso, você está liberto de todas as consequências, de todos os seus pecados, vai para o paraíso ser feliz para sempre, para toda a eternidade. Nunca mais nenhuma morte, para sempre, pela eternidade sem fim sempre com um eu, minha alma pessoal junto da divindade. É a solução, tudo resolvido.

Uma solução dessa tornou-se muito popular e é muito mais sucedida que as religiões que a antecederam, que não tinham soluções assim. Haviam os deuses do império romano ou grego, que eram seres humanos que maltratavam homens e as pessoas ficavam submetidas aos desejos desses deuses que eram não racionais ou não bondosos, você era joguete dos deuses, era uma solução falha. E o cristianismo tem todo o mérito de viver com uma solução assim que tudo resolve. Mas o budismo não tem essas soluções. A idéia do Zen budismo é: vou tirar todos os tapetes e bengalas nos quais você se apóia. Não há nenhum salvador e não há perdão, o que você fez tem conseqüências e essas conseqüências são inescapáveis, não há ninguém lá fora para socorrer você.

O budismo diz que você está enganado quando pensa que você é um “eu”. Você é muito mais que isso, se você sair desse enredamento, você se liberta. O dedo do budismo aponta para liberdade, para o despertar. Mas ele exige grande esforço, nada virá de graça, através de uma concessão divina ou intervenção de alguém, então você tem que trabalhar para se libertar. É o que a gente faz no sesshin. Não existe um caminho fácil no budismo, todo ele tem esforço. E não existe nenhuma promessa de fé ou qualquer coisa assim, não existe mágica no budismo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Corpo e mente estão ligados


Aluno – Monge, tenho um questionamento que venho pensando há algum tempo sobre a diferença entre o corpo e a mente. Eles andam juntos, mas o corpo e a mente são a mesma coisa ou estão separados? Isso é muito confuso para mim…    

Monge Genshô – Nós separamos as coisas com palavras na tentativa de entendê-las. Nosso corpo e nossa mente estão intrinsecamente ligados. Se você ficar com febre, irá se sentir mal, bastante impaciente e vai querer sair daqui, ir para casa deitar e dormir. Sua mente será diretamente atingida pela doença do seu corpo. Por outro lado, se você tiver uma mente com raiva e sentir ódio de alguém, seu coração vai bater mais rápido, você vai ter adrenalina circulando, etc. Se você sentar em zazen e começar a pensar em uma situação de briga, sentirá as consequências. Seu corpo estará parado, mas sua mente agitada. Seu corpo, portanto, está ligado à sua mente, eles não podem ser considerados separados.

Por isso nós usamos o corpo para controlar a mente. Nós aquietamos o corpo e isso ajuda a aquietar a mente. Não adianta você dizer: “ah, eu quero ter uma boa mente”, mas vive agitando o corpo todo o tempo sem parar, ou com fones de ouvido com música bem alta, balançando as pernas e pensando: “o que vamos fazer agora?”. Eu fui pegar um parente no aeroporto e ele disse: “E aí, qual é o programa?”. Eu disse: “não tem programa…nós vamos chegar em casa em uma reunião de família, quando sentirmos fome colocamos a mesa, comemos, conversamos, se tiver um tempo bom podemos sair para caminhar, ir à praia… não tem programa”. Para ele aquilo é muito difícil. Ele estava com as costas muito tensas, pois trabalhava em uma empresa muito competitiva. Tentei levá-lo para o zendo em casa. “Suas costas estão terríveis, vou bater um pouco com o kyosaku (bastão zen)”. Ele deve estar contando a história até hoje. Na realidade, ele tinha que tratar o corpo, que estava tão atingido por essa tensão constante porque a mente dele está constantemente turbulenta.

A maioria das pessoas está vivendo um sonho assim, um sonho agitado e de grande ilusão. Então não conseguem aproveitar e viver a vida. Meu mestre, Saikawa Roshi, diz assim: “Enjoy your life”, aproveite a vida. Mas o que é aproveitar a vida? Ah, vamos sentar no jardim e conversar um pouco. Vamos regar as plantas… Mas nunca, até hoje, eu recebi um Monge na minha casa que tenha dito assim: “E ai, vamos ver televisão?” Isso é bastante interessante. Isso diz muito sobre o que o treinamento budista acaba fazendo. Não estou dizendo que não podemos ver televisão, mas o que você está vendo? Por que está vendo? O que pretende com isso? Quer enriquecer sua vida? Hoje temos canais apenas com concertos e coisas assim, mas suponho que eles tenham tido grandes dificuldades para vender isso. Não é o que parece lógico para as pessoas, assistir um concerto ou uma missa. É coisa de louco!

Durante toda a história do Budismo, muitos mestres foram considerados pessoas loucas no seu tempo. Ryokan é um dos mestres mais interessantes. Ele viveu há uns 200 anos atrás. Grande poeta e calígrafo. Filho de um político, ele retirou-se e foi viver em uma cabana que tinha quatro tatames. Significa que a cabana tinha mais ou menos 4x2m. Esta era o espaço onde ele vivia. Este poeta e calígrafo muito famoso, Ryokan, estava um dia em sua cabana catando piolhos e colocando em uma folha de papel. E estava muito frio, por isso Ryokan pensou “Ah, eles vão passar frio!” e os recolocou na cabeça. Perfeitamente louco não é?  Muito maravilhosa a atitude de Ryokan.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sementes cármicas


TEXTO
“Os budas e ancestrais devido à sua ilimitada misericórdia, deixaram abertos os grandes portais da compaixão, a fim de que todos os seres – tanto humanos como celestiais – possam assim realizar a iluminação. Embora a retribuição cármica por maus atos deva surgir em um dos três estágios do tempo, o arrependimento abranda seus efeitos, trazendo alívio e pureza. Assim, devemos nos arrepender com toda a sinceridade. O poder-mérito de arrependimento não apenas nos salva e purifica, mas também encoraja o crescimento da pura confiança sem dúvida e o esforço correto em nós mesmos. Quando a pura confiança aparece, transforma a nós mesmos e aos outros, seus benefícios se estendendo a todas as coisas, tanto animadas quanto inanimadas. A essência do ato de arrependimento é o seguinte: “Mesmo que o acúmulo de carma negativo tenha sido tão grande no passado que forme um obstáculo na prática do caminho, rogamos a todos os budas iluminados e misericordiosos que nos libertem da retribuição cármica eliminando todos os obstáculos à pratica do caminho. Que seus méritos possam preencher e reger o reino ilimitado do Dharma, para que compartilhem conosco sua compaixão. Os budas e ancestrais foram uma vez como nós, no futuro seremos como eles”. “De todo meu carma negativo do passado, nascido da ganância, raiva e ignorância sem início, produtos de meu corpo, fala e mente, de tudo agora eu me arrependo.” Se nos arrependermos dessa forma deveremos sem dúvida, receber ajuda dos budas e ancestrais. Mantendo isso em mente e agindo da maneira correta, fazemos abertamente nosso arrependimento, o poder daí advindo cortará as raízes de nosso carma negativo”.

Comentários de Genshô Sensei

Vejam bem, cortam as raízes do carma negativo, mas não cortam suas consequências, de modo que mesmo um Buda paga as consequências de seu carma anterior. Não há quem remova completamente.

Pergunta – Não entendi direito, ele fala em budas e ancestrais que cortam as raízes?

Monge Genshô – Sim, mas não como entidades ou como um salvador que carrega, ele, as consequências, mas sim você corta as raízes de seu carma negativo de modo que ele não tem como florescer. O carma depende de uma semente de determinado sentimento que você planta dentro de você. Vamos supor que você guarde raiva ou rancor de alguém que lhe fez algo, essa raiva é uma semente cármica que está lá aguardando. Depois de dez anos você reencontra essa pessoa e se você guardou essa semente ela irá florescer, dizemos que a semente amadureceu. Se houverem condições favoráveis a semente irá despertar. Agora, se você se arrepender da raiva e perdoar verdadeiramente aquela pessoa e ao encontrá-la não sentir raiva, pelo contrário, sentir compaixão e ajudá-la, a semente dentro de você morre.

Quando fazemos ações e criamos carmas, colocamos sementes dentro de nós, porém se jamais dermos condições para que as sementes despertem, não se manifestarão. O arrependimento e a mudança da mente têm o poder de fazer murchar as sementes. Uma pessoa que não consiga esquecer a raiva e todos os dias planeje vingança, vai fortalecendo essa semente e tornando-a poderosa a ponto de ocupar seus pensamentos. Esse sentimento corrói como um tumor e no momento oportuno ele irá florescer e se manifestar, e ela irá cometer um crime.  É assim que funciona.