segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Entrevista: A Visão Social do Zen



3) Qual a sua visão sobre a ação social do Zen? Seria a prática de zazen a mais importante ação social? (na medida que através dela ajudamos os demais a atravessarem para "a outra margem do rio da ignorância”)

A mente humana sempre quer classificar, separar, para poder entender, mas o zazen é inseparável da ação no mundo e é prática essencial do zen o viver plenamente de acordo com nossas capacidades e talentos. O que pode nos atrapalhar nisto é justamente o sentimento egoico que coloca nossos objetivos à frente dos outros. Na sangha zen é essencial trabalhar em conjunto, não tentar destacar-se, não falar inutilmente, não criticar os outros, tudo para cultivar a harmonia como valor mais alto. Aqueles que fazem propaganda de seus atos e acham erros nos restantes esqueceram que o caminho não é este e que o desejo de fama e honra é a pior doença de nosso tempo.


4) Gostaria que o senhor falasse sobre o papel do Bodisatva para o Budismo Soto Zen. Acredito que essa é uma figura fundamental para falarmos sobre o tema pois é ele quem "deve ir ao inferno para ensinar os demais", nas palavras de Taisen Deshimaru. Acredito que o próprio Kodo Sawaki seria um bom exemplo já que ele viajava o Japão para ensinar nos lugares menos tradicionais e até mesmo nas prisões.

A mente de compaixão, a figura do Bodisatva é essencial. Os exemplos são inúmeros em nossas Sanghas: uma praticante iniciou um coral em um presídio em Joinville, outra a prática no presídio em Florianópolis, outros reúnem a Sangha em sua cidade para ajudar ações de organismos dedicados a ajuda social, no Japão e EUA o zen tem hospices, hospitais especiais para ajudar os que estão em estado terminal, outros programas para crianças em escolas, os exemplos são inúmeros e fazem parte da prática de grupos e pessoas individualmente.


[Entrevista concedida à Revista Bodisatva, nº 30, por Genshô Sensei]

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Entrevista: A Importância do Zazen na Mudança do Mundo


2) Alguém que não pratica o Zen poderia perguntar sobre a ênfase que é dada ao Zazen: como assim você senta diante de uma parede e os méritos disso é para todos os seres? Não deveríamos aproveitar melhor o tempo ajudando os que mais precisam do que estar simplesmente sentados?

Na verdade as sociedades são construídas por homens, e, ao levá-los a se libertar das visões errôneas, uma sociedade diferente é construída, não importa o sistema, mesmo que profundamente idealista na teoria. Se deixado nas mãos de homens egoístas e corruptos, ela será fonte de sofrimento e roubo da maioria em benefício dos que detiverem o poder. Não há tempo mais bem aproveitado do que o que leva os homens a despertar de suas ilusões egoicas, de apego a si mesmos. 
Vale lembrar também que quando os homens realizam obras aparentemente benéficas, mas concentrados em obter louros para si mesmos, aplausos e fama, longe estão do caminho budista. A pergunta sobre “simplesmente sentados” é equivalente a perguntar se devemos estudar ou não, se não deveríamos estar agindo em vez de nos instruindo. Quando os homens sentam em zazen, estão estudando a si mesmos; se estudarem a si mesmos, esquecerão de si mesmos; se esquecerem de si mesmos, todas as coisas testemunharão seu despertar.

[Entrevista concedida à Revista Bodisatva, nº 30, por Genshô Sensei]

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Entrevista: O Zen e as Ações Sociais





1) Existe alguma visão oficial da escola Soto Zen sobre ações sociais ou sobre o discurso socialmente engajado? Ou não podemos falar de uma visão oficial, mas sim de uma perspectiva pessoal de cada Mestre e cada praticante?

O Zen se vê como a doutrina do coração de Buda. Assim, todas as ações que tendem a tornar real a prática da compaixão são bem vistas. Se olharmos a atuação de Buda em seu tempo, nós o veremos dedicado a salvar pessoas do sofrimento, tentando mesmo impedir guerras, mas também perceberemos que ações deste tipo são pedidas aos praticantes, e não um objeto das instruções da instituição, dedicadas a libertar os seres da visão egoica e dos objetivos de vaidade. Assim, uma coisa é o objetivo dos centros budistas em libertar através da percepção das ilusões, e outra a atuação no mundo sob qualquer forma ou organização, mesmo que sob as bênçãos e apoio dos mestres.



[Entrevista concedida à Revista Bodisatva, nº 30, por Genshô Sensei]

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Olhar Crítico aos Textos Sagrados



Aluno: a própria bíblia em si, algumas partes dela são compostas de fatos históricos, mas ela também tem muita interpretação dos fatos, não?

Monge Genshô: na verdade, a bíblia é constituída de 60 e poucos livros de muitos e diferentes autores. A palavra bíblia vem de "biblos", que em grego quer dizer "os livros". Então, é uma reunião de textos que não estavam juntos antes - eles foram consolidados muito depois, inclusive os evangelhos foram escolhidos entre 40 diferentes, e todos os outros foram declarados apócrifos e aqueles 4 escolhidos no famoso conselho de Niceia.

Bom, evidentemente a bíblia é então um documento histórico interessante e com muitas referências. Algumas serão contraditórias, outras serão enganos. Por exemplo, lemos que há um objeto grande dentro do templo e que a sua circunferência é 3 vezes o seu diâmetro. Na realidade é só uma aproximação, pois nós sabemos que pi é 3,14 de diâmetro, e não 3 vezes. Mas no tempo da escrita do livro não se sabia dessa relação, de modo que ela é colocada errada no texto. Há muitas coisas deste tipo dentro dos textos históricos.



Mas vamos nos referir aos textos budistas, que também não fogem dessa característica. O Sutra de Lótus, que é um dos muitos famosos, originalmente teve menos capítulos. Hoje ele tem 28 capítulos e isso é uma quantidade importante de interpolação de textos, porque cada vez que alguém compilava dizia: "Poxa, mas faltou alguma coisa", e acrescentava. 

Quando o budismo chega na China, os chineses ficam meio horrorizados porque budistas não davam muita atenção para essas coisas de "meu pai", "minha mãe", "minha avó", "antepassados", e os chineses reverenciavam os antepassados, ponto importante no confucionismo. A China daquela época era toda baseada em respeito filial aos pais. O Sutra do Lótus não falava disso, mas hoje tem um capítulo só sobre pais e filhos, que é originário desse momento na China. 

Também os textos budistas necessitam uma certa desconfiança: “isso aqui é um pensamento original de Buda?”, porque pode não ser. Você tem que verificar se ele é coerente no contexto geral, porque pode ser contraditório. Eu já vi um texto atribuído a Bodhidharma que dizia que não seria errado matar opositores. Como um alguém coloca algo tão sectário e odioso dentro de um texto budista?”. Evidentemente que isso foi escrito por alguém que estava dentro de uma briga feia com outro grupo budista e atribuiu a fala a Bodhidharma somente para ter crédito.