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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Carta a um amigo à beira de um grande salto


Estava lendo sobre o caminho óctuplo, a seqüência de passos ensinada por Buda para a extinção do sofrimento. O primeiro passo é a visão correta. Significa perceber a impermanência de todas as coisas, a ilusão do eu pessoal.

Ao ler, dei-me conta do quanto nossa conversa tem esbarrado na dificuldade do primeiro passo. Encarar a impermanência e a ilusoriedade do eu é essencial. O primeiro passo é abandonar o apego à existência cíclica.

Ora, estamos apegados às nossas crenças, identidade, amigos, etc. Quando pensamos em abandonar qualquer dessas coisas a que nos agarramos, surge imediatamente um temor. Esse medo e aflição são produto do mecanismo de auto-proteção do ego. O ego está agarrado àquilo tudo e parece que ele equivale àquelas coisas, crenças , afetos , pessoas.

Nosso eu sempre está querendo se ampliar, somar coisas à sua identidade, memórias, amigos, prazeres; quer ser eterno, não abre mão de uma permanência impossível, quer continuar o sonho, como um louco agarrado à sua fantasia. É preciso coragem para largar todo esse apego . É saltar em um precipício sem nada saber sobre o que está lá embaixo.

No entanto, aquele que salta descobre-se subitamente liberto de inúmeras amarras e condicionamentos, que eram nossos donos. Acreditávamos que nós éramos exatamente aquele conjunto de apegos. Como as pessoas que dizem: 'eu sou assim'. Como se esse 'assim' criasse uma identidade que ele chama pelo seu nome.

A nossa verdadeira identidade está muito mais acima desse sonho de peça escolar, é uma identidade luminosa, abrangente, que percebe a inseparatividade de todas coisas, que é ilimitada, não condicionada pela existência cíclica, pelas identidades individuais, compreendendo tudo, percebendo com nitidez sua eternidade não sujeita à mutabilidade de um mundo submerso em condições.

Quero te encorajar a dar este passo. Não significa abdicar da vida, mas sim optar por ela radicalmente, plenamente, aproveita-la com inteira alegria até o fim. Estás com o pé na beira do abismo e tens medo de saltar. Este medo, sobre o qual escreveste, indica que estás pronto para o salto de abdicar do eu e optar pela unidade. É como quando temos medo de descer em uma montanha russa. Mas quando a queda acontece, há uma experiência libertadora e, ao fim, há o prazer de notar que o receio era apenas nossa imaginação e, agora, estamos livres do medo completamente. Nesse momento sentimos uma exaltação, uma euforia por havermos nos libertado daquele medo, estamos vivos e é muito bom. Não é diferente espiritualmente, embora a metáfora seja obrigatoriamente pobre, saltar é preciso. E, de preferência, com os olhos abertos.