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terça-feira, 13 de abril de 2010

Experiência de retiro


Recebida de uma participante no seshin do final de semana. Publicada na lista da Comunidade Zen budista de Florianópolis.

As regras foram claras, apenas o silêncio. Estar absolutamente no presente. "Que desafio", pensei. E assim seguimos no primeiro dia e entendi rapidamente que praticar o silêncio significa também calar todos os desejos externos que se infiltram na minha consciência e assim poder me interiorizar profundamente e sentir minha essência e esquecer todas as atribulações. Apenas eu.

No primeiro dia e até a metade do segundo era apenas o meu eu se manifestando com a dualidade. Via tudo separado. Era eu e as outras pessoas, eu e o zafu, eu a perna com câimbra, eu e a formalidade, eu e aquele lugar. Não entendia porque perder tempo com tanta formalidade, principalmente nas horas das refeições, eu só queria sentar e entender a vida. Mas acho que Buda ouviu todos os meus anseios, e eis que me vieram todas as respostas já na primeira palestra do dharma pelo monge. E em suas palavras, vi todas as minhas dúvidas e angústias se dissipando como uma névoa passageira. Sentindo o poder transfigurador de suas palavras em minha própria experiência, surgiu ali o entendimento que eu precisava para me unificar aquele sesshin. Enquanto ouvia atenta tudo que ele dizia, senti a conexão que ia se restaurando entre coração e mente. Não só para mim, mas acredito que essa corrente refletia-se em todos ali presentes.

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O restante do segundo dia e o terceiro (último) dia, ocorreu como uma comunhão divina entre meu eu e a prática. Tudo se unificou. Eu era o zazen, o zafu, o sino, a formalidade.

Grande é a minha alegria de ter ido, de ter ouvido algumas verdades profundas. Possam as palavras sublimes do Monge ficar para sempre guardadas em nossos corações. Que esse despertar me acompanhe suavemente e, ao mesmo tempo, portentosamente: forte como um leão, manso como uma pomba. Grande é a minha alegria de estar com todos vocês na prática.

A viagem de volta pra casa correu tudo bem. Apesar de o aeroporto estar muito cheio e com filas quilométricas, foi tudo tranqüilo. Meu corpo estava na fila, mas a mente nas alturas. O avião também estava lotado, meu corpo estava na poltrona apertada entre duas pessoas desconhecidas, porém a mente fazia meu eu flutuar e colocar meu corpo em zazen, mesmo que aparentemente ele não estivesse de fato.

De volta pra casa, percebi que verdadeiramente não existe espaço entre minha casa em Brasília e a sangha em Florianópolis. Mas estamos aqui, e pensamos que temos que viajar uns 1.700km, umas 3horas de avião para nos encontrarmos. Nossa consciência material nos diz o que é necessário para cobrir essa distância. No entanto, estamos sintonizados, interconectados, não existe espaço. Posso fechar os olhos e estar com vocês em zazen. Estamos em locais diferentes e, contudo, todos esses quilômetros são mera expansão do nosso pensamento.

Estarei e estou sempre entre vocês.