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quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Só se prega sobre o que há dúvidas
Pergunta – Então tudo está em nossa mente, mesmo os reinos dos famintos, deuses, humanos etc.? Não existem como algo físico?
Monge Genshô – Pode ser, há tantas dimensões... E se existir um mundo infernal para onde uma pessoa que viveu uma vida de maldades vá para pagar por seus erros? Não posso lhe responder, pois ainda estou vivo. Só há uma garantia, boas ações resultam em bom carma, más ações resultam em mau carma. É nisso que você deve confiar, pois tudo que vier depois só pode redundar das ações praticadas. Do bem nasce o bem e do mal nasce o mal.
Temos muitas coisas sobrenaturais em nossa vida. Você caminhar é algo sobrenatural, poder pegar água para beber é algo extraordinariamente sobrenatural. Imaginem a vida sem água? Temos coisas sobrenaturais aos montes em nossas vidas que são verificáveis e saímos à procura de coisas não verificáveis. Posso afirmar para vocês que água e plantas dão origem ao chá, isso é extraordinário e sobrenatural e facilmente comprovável. Vocês nunca ouvirão pregadores desejando que vocês acreditem que água existe, eles só pregam coisas sobre as quais os humanos têm dúvidas, por isso tem que falar todas as semanas e renovar sua crença, “Tenham fé, acreditem!”.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014
Nada para se agarrar
Pergunta – Por e-mail recebo alguns trechos de textos budistas e gostei muito do último que dizia que “a infelicidade, depois que você começa a praticar o Dharma, é um indicador da evolução do seu caminho”. Gostaria que o senhor esclarecesse isto.
Monge Genshô – O Dharma, ao invés de dar algum consolo, retira da pessoa todos seus apoios, de tudo o que você pretende agarrar-se, deuses, anjos, etc.., tudo isso o Dharma tira. Muitas vezes as pessoas, ao viver esta desconstrução da fé, ficam muito perdidas e há um choque. Eu acho este choque muito bom, mas sei que carrega sofrimento. “Tudo que eu tinha o senhor tirou”. Esta é a tarefa do professor no Zen. Caso alguém não se sinta confortável com isso, deve talvez procurar um outro lugar mais confortável.
Sei que isto não é tranquilizador, mas sei que despertar e acordar das ilusões é muito feliz. Sei que isto não é fácil e exige grande esforço. Então, no início pode ser assim, infeliz. Mas pode não ser. Você pode chegar aqui, ouvir todas essas barbaridades que eu disse, e sentir uma sensação de grande alívio. Eu tive isso quando ouvi um Monge Zen a primeira vez.
Pergunta – Fui educada dentro de uma religião e o Zen para mim foi um grande alívio. Pensar em pecado, juízo final, purgatório, traz uma sensação de uma saga sem fim.
Monge Genshô – O conceito de pecado não interessa para o budismo. Na realidade nossas ações tem consequências. E nossa vida baseia-se nisso. Você tem que tentar fazer o bem, e isto vai automaticamente lhe trazer felicidade. Não há ninguém lá fora nos julgando não. Mas os resultados das nossas ações são muito mais implacáveis do que se houvesse alguém para nos perdoar. Se fizermos algo errado, teremos que consertar. É assim que o budismo pensa. Despertar das ilusões.
Temos um método, com raciocínios claros e não estamos dispostos a sermos enganados. Não estamos confiando em crenças. Um monge não tem a verdade para vender e ninguém precisa acreditar nele. Desejo que as pessoas tenham grande dúvida e nunca percam sua independência mental. Por isso, o trabalho do professor do Zen é difícil, pois os alunos sempre estão trazendo perguntas, dúvidas. E isto é muito bom, significa ter alunos de verdade. Quando alguém apenas tem fé e acredita sem questionar, acho que não passa de um tolo.
sexta-feira, 9 de março de 2012
A mente iluminada

P. Não teremos também nesta questão da perfeição a questão da lei kármica atuando de que, por exemplo, não somos nós, mas alguém que morreu, alguém que está ali, que está sofrendo em função de um karma, que matou, gerou um karma, que vai para algum lugar...
M. Genshô: Do ponto de vista relativo você tem razão, do ponto de vista absoluto você é a vítima do terrorista e você é o terrorista porque dentro de nós existem estas condições kármicas, nós estamos neste mundo, você poderia ter sido um terrorista se tivesse sido criado para isto, você poderia ser uma vítima, na verdade ninguém neste mundo é inocente destes crimes... Porque, na verdade, tudo isto são atos das bolhas que somos nós, lembrem da imagem das bolhas dentro da garrafa, na verdade é perfeito porque tudo era gás carbônico e nós só estamos vendo as bolhas que surgem e desaparecem...
P Mas não é perfeito como um processo em evolução?
R. Não é uma questão de evolução, ele só não é perfeito porque nós estamos aqui olhando e daí nós construímos o samsara com a nossa visão, este mesmo samsara que nós estamos olhando, este mundo de ilusões e sofrimento é o nirvana, se a nossa mente muda é o nirvana, por que é o samsara? Porque você está sonhando e é um sonho mau, mas na verdade não há este sonho mau se você acorda, e por isso é iluminação, por isso que já disse uma vez... iluminação é você receber a notícia – seu filho morreu, e você dizer: ah, está bem, porque sabe que esta morte é ilusória, aí é iluminação completa.
P. Eu sinto que eu tenho muito para pensar.
R. Na realidade este ensinamento é muito complexo, a gente só ensina assim no Zen, em qualquer escola Buddhista você vai devagar passo a passo, é no Zen que a gente diz estas coisas assim de repente e o aluno tem que ficar pensando...
Então nós estávamos falando sobre a dúvida – daigidan, então nossa fé profunda nos diz uma coisa e a nossa mente, o mundo que nós olhamos parece imperfeito, cheio de ansiedade , conflito e sofrimento e a nossa fé nos diz que a verdade é o oposto, Buddha está dizendo: não a verdade é o oposto, a verdade é o que você vê naqueles lampejos sentado na almofada, aqueles momentos claros em que tudo é lindo, perfeito, são manifestações da mente iluminada, lampejos da mente iluminada, imagine que você tivesse uma mente que fosse assim todo o tempo, sem passado, sem futuro, consciente do momento presente vivendo tudo perfeito, então seria uma mente iluminada...
terça-feira, 13 de abril de 2010
Experiência de retiro

Recebida de uma participante no seshin do final de semana. Publicada na lista da Comunidade Zen budista de Florianópolis.
As regras foram claras, apenas o silêncio. Estar absolutamente no presente. "Que desafio", pensei. E assim seguimos no primeiro dia e entendi rapidamente que praticar o silêncio significa também calar todos os desejos externos que se infiltram na minha consciência e assim poder me interiorizar profundamente e sentir minha essência e esquecer todas as atribulações. Apenas eu.
No primeiro dia e até a metade do segundo era apenas o meu eu se manifestando com a dualidade. Via tudo separado. Era eu e as outras pessoas, eu e o zafu, eu a perna com câimbra, eu e a formalidade, eu e aquele lugar. Não entendia porque perder tempo com tanta formalidade, principalmente nas horas das refeições, eu só queria sentar e entender a vida. Mas acho que Buda ouviu todos os meus anseios, e eis que me vieram todas as respostas já na primeira palestra do dharma pelo monge. E em suas palavras, vi todas as minhas dúvidas e angústias se dissipando como uma névoa passageira. Sentindo o poder transfigurador de suas palavras em minha própria experiência, surgiu ali o entendimento que eu precisava para me unificar aquele sesshin. Enquanto ouvia atenta tudo que ele dizia, senti a conexão que ia se restaurando entre coração e mente. Não só para mim, mas acredito que essa corrente refletia-se em todos ali presentes.
...................
O restante do segundo dia e o terceiro (último) dia, ocorreu como uma comunhão divina entre meu eu e a prática. Tudo se unificou. Eu era o zazen, o zafu, o sino, a formalidade.
Grande é a minha alegria de ter ido, de ter ouvido algumas verdades profundas. Possam as palavras sublimes do Monge ficar para sempre guardadas em nossos corações. Que esse despertar me acompanhe suavemente e, ao mesmo tempo, portentosamente: forte como um leão, manso como uma pomba. Grande é a minha alegria de estar com todos vocês na prática.
A viagem de volta pra casa correu tudo bem. Apesar de o aeroporto estar muito cheio e com filas quilométricas, foi tudo tranqüilo. Meu corpo estava na fila, mas a mente nas alturas. O avião também estava lotado, meu corpo estava na poltrona apertada entre duas pessoas desconhecidas, porém a mente fazia meu eu flutuar e colocar meu corpo em zazen, mesmo que aparentemente ele não estivesse de fato.
De volta pra casa, percebi que verdadeiramente não existe espaço entre minha casa em Brasília e a sangha em Florianópolis. Mas estamos aqui, e pensamos que temos que viajar uns 1.700km, umas 3horas de avião para nos encontrarmos. Nossa consciência material nos diz o que é necessário para cobrir essa distância. No entanto, estamos sintonizados, interconectados, não existe espaço. Posso fechar os olhos e estar com vocês em zazen. Estamos em locais diferentes e, contudo, todos esses quilômetros são mera expansão do nosso pensamento.
Estarei e estou sempre entre vocês.
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