Follow by Email

terça-feira, 11 de maio de 2010

Encontrando Um Ente Querido Perdido


Encontrando Um Ente Querido Perdido

"A mesma coisa acontece quando perdemos alguém que amamos. Quando as
condições que os mantêm vivos não são mais suficientes, eles se
retiram. Quando perdi a minha mãe, sofri muito. Quando se tem somente
sete ou oito anos é difícil pensar que, um dia, iremos perder nossa
mãe. Com o tempo, todos nós crescemos e perdemos as nossas mães. Se
você souber praticar, quando esse dia chegar, você não sofrerá muito.
Você perceberá rapidamente que ela estará sempre viva em você.
No dia em que minha mãe morreu, escrevi no meu diário “Um grande
infortúnio aconteceu na minha vida!”. Sofri por mais de um ano a sua
morte. Mas uma noite, nas montanhas do Vietnã, eu estava dormindo no
meu eremitério e sonhei com ela. Vi-me sentado ao seu lado e tendo uma
conversa maravilhosa. Ela parecia jovem, linda, com seu cabelos
soltos. Foi tão agradável esse momento que foi como se ela jamais
tivesse morrido. Quando acordei, era umas duas horas da manhã e eu
estava com uma forte sensação de que nunca havia perdido a minha mãe.
A impressão de que ela ainda estava comigo era muito clara. Nesse dia
eu compreendi que a idéia de perder a mãe era apenas uma idéia. E era
óbvio nesse momento que ela sempre estaria presente em mim.
Abri a porta e saí. Toda a colina estava banhada pela luz do luar. Era
uma colina coberta por plantações de chá e minha cabana estava atrás
do templo, a meio caminho entre o topo e a base. Ao caminhar
lentamente sob o luar e por entre as fileiras de chá, percebi que
minha mãe estava ali comigo. Era ela a luz do luar me acariciando,
como tantas vezes tinha feito antes, doce e gentil...Foi maravilhoso!
A cada vez que os meus pés tocavam a terra, eu sabia que ela estava
ali, comigo. Compreendi que esse corpo não era somente meu, mas uma
continuação viva não só da mãe, mas do meu pai, dos meus avós e
bisavós. De todos os meus ancestrais. Estes pés, que antes eu via como
“meus”, eram, na verdade, “nossos”. Juntos, eu e minha mãe estávamos
deixando pegadas no chão molhado.
Daquele momento em diante, a minha idéia de que eu havia perdido a
minha mãe, desapareceu. Tudo o que tenho que fazer é olhar a palma da
minha mão, sentir a brisa na face ou a terra sob meus pés para me
lembrar que ela estará sempre aqui, comigo, disponível a qualquer
momento.
Quando você perde um ente querido, você sofre, mas se observar
profundamente, terá a chance de perceber que a natureza dessa pessoa
não é nem nascer e nem morrer. O que existe é apenas a manifestação e
a cessação da manifestação a qual prepara uma nova manifestação. Você
precisa estar muito atento para reconhecer a continuação de alguém.
Mas com prática e um pouco de esforço, você conseguirá.
Assim, tomando a mão de alguém que conhece a prática, faça uma
meditação caminhando juntos. Preste atenção às folhas, flores e
pássaros e às gotas de orvalho. Se você parar e observar, será capaz
de reconhecer a pessoa amada muitas vezes e de diferentes formas. E
assim, você sentirá a alegria de viver."

Thich Nhat Hanh (Mestre zen budista da escola Thien do Vietnam)