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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entrevista com Thich Nhat Hanh


Revista: É muito doloroso ver alguém que amamos enfrentando sérias dificuldades, como
doença mental, transtorno do estresse pós-traumático, ou vícios. Às vezes os problemas parecem tão grandes que não nos sentimos capazes de ajudar. Acabamos tendo vontade de nos afastar dessas pessoas e de seus problemas. Outras vezes, tentamos ajudá-las e depois nos sentimos consumidos por suas dificuldades. O que fazer para ajudar em situações difíceis assim sem ficarmos saturados?

Thich Nhat Hanh: SE VOCÊ SE SENTE SOBRECARREGADO, é porque está se esforçando
demais. Esse tipo de energia não ajuda o outro e não o ajuda também. Não fique ansioso demais, querendo ajudar imediatamente. Há duas coisas diferentes: ser e fazer. Não pense muito no que fazer – seja primeiro. Seja a paz. Seja a alegria. Seja a felicidade. E, só depois disso, faça a alegria, faça a felicidade – com base no ser. Primeiro, você precisa se concentrar na prática do ser/estar. Estar cheio de vida, estar em paz. Estar atento. Ser generoso. Ser compassivo. Esta é a base da prática. É como se a outra pessoa estivesse sentada ao pé de uma árvore. A árvore não faz nada, mas está cheia de energia, está viva. Se você ficar como
essa árvore, emanando ondas cheias de vida, ajudará a acalmar o sofrimento do outro.

Sua presença deve ser agradável, calma, e você deve estar presente para ajudar essa pessoa. Isso, por si só, já é muito. Quando as crianças gostam de vir e sentar perto de você, não é porque você tem um montão de biscoitos para distribuir, mas porque é gostoso ficar ao seu lado, é revigorante. Portanto, sente-se perto de alguém que está sofrendo e faça o melhor para ser você mesmo – agradável, atento, cheio de vida.

Revista: Se eu estiver sentindo uma emoção muito difícil - como raiva ou tristeza profunda - e tentar me concentrar em minha respiração, não estaria evitando minhas emoções?

Thich Nhat Hanh: As pessoas tendem a se perder em fortes emoções e ficam
sobrecarregadas. Esta não é a forma de lidar com as emoções, pois quando isso acontece você se torna vítima da emoção. Para não se tornar vítima, respire, mantenha a calma e terá o insight de que uma emoção é apenas uma emoção, nada mais do que isso. Este insight é muito importante, pois a partir dele você não sentirá mais medo. Estará calmo, sem tentar fugir, e poderá lidar melhor com a emoção. Sua respiração é você, e você precisa formar uma aliança com sua respiração para ser mais você, para ser mais forte. Isso lhe permitirá lidar melhor com sua emoção. Não tente se esquecer de suas emoções: em vez disso, tente ser mais você mesmo, tornando-se suficientemente sólido para lidar com elas.

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Revista: Viver no momento presente e divertir-se com a mídia são aspectos conflitantes? É possível estar em plena consciência e desfrutar da internet, da TV, de filmes e livros?

Thich Nhat Hanh: Há bons livros e filmes por aí. Tudo bem, é bom desfrutar deles. No entanto, às vezes a qualidade do filme ou do livro não é nada boa e, mesmo assim, você não deixa de assistir ou ler porque, se parar, terá que voltar para o sofrimento que está dentro de você. Esta é a prática de muitas pessoas em nossa sociedade. Muitas pessoas não conseguem ficar com si mesmas. Sentem dor, tristeza, preocupações internas e lêem, vêem filmes ou escutam música para encobrir tudo, para fugirem de si mesmas.

Consumir mídia dessa forma é simplesmente uma fuga e não tem um efeito duradouro. Você pode se esquecer do sofrimento por um tempo, mas no final terá que voltar para dentro de si. O Buda recomendou que devemos nos esforçar para não fugirmos de nós mesmos. Em vez disso, devemos aprender a nos cuidar e a transformar nosso sofrimento.

Revista: O que você diria a alguém que acha a meditação sentada dolorosa, difícil e que lutam para praticar?

Eu diria para parar.

Revista: Verdade?

Thich Nhat Hanh: Sim, sim. Se você não acha agradável, então não pratique meditação
sentada. Você precisa aprender o espírito correto do sentar. Se você tiver que se esforçar muito ao sentar, ficará tenso e isso produzirá dor em todo o corpo. Sentar deve ser algo agradável. Quando você liga a TV na sala da sua casa, pode ficar lá horas a fio, sem sofrer.
Mas, ao sentar para meditar, você sofre. Por quê? Porque você precisa lutar. Você quer ter êxito na meditação, então acaba brigando. Ao assistir TV, você não luta. É preciso aprender a sentar sem brigar. Se você souber se sentar dessa forma, a meditação será muito agradável.

Em uma das visitas de Nelson Mandela à França, um jornalista lhe perguntou o que ele mais gostava de fazer. Ele respondeu que, por estar sempre ocupado, o que ele mais gostava de fazer era simplesmente sentar e não fazer nada. Porque sentar e não fazer nada é um prazer – restaura as energias. É por isso que o Buda fala de sentar-se em uma flor de lótus. Quando você se senta para meditar, deve se sentir leve, cheio de vida, livre. E, se não sentir isso, a meditação sentada se tornará um trabalho forçado.

Às vezes não dormimos o suficiente ou estamos resfriados, algo assim. Neste caso, talvez a meditação sentada não seja tão agradável como você gostaria. Mas se você estiver normal, é sempre possível sentir o prazer de sentar. O problema não é sentar ou não sentar, mas como sentar. Como sentar para que você possa se beneficiar ao máximo – caso contrário, estará perdendo tempo.

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Revista: Gostei muito da meditação caminhando ao ar livre que fizemos neste retiro.

Thich Nhat Hanh: Em geral, na tradição budista, você se senta, depois se levanta, caminha lentamente na sala de meditação e depois se senta de novo. Não fazemos assim aqui. Em vez disso, caminhamos ao ar livre. Essa prática ajuda muito, pois você pode aplicá-la na vida diária. Você caminha normalmente – não excessivamente devagar – assim as pessoas nem percebem que você está praticando e vêem isso como algo normal. E, ao voltar para casa, ou ao andar do estacionamento para o escritório, você pode desfrutar desse caminhar também.

A base da prática consiste em gostar do que você está fazendo – gostar de caminhar, de sentar, de se alimentar e tomar banho. É possível desfrutar de tudo isso, mas nossa sociedade está organizada de tal forma que não temos tempo para desfrutar. Temos que fazer tudo rápido demais.

Revista: Na sua opinião, o que faz com que uma pessoa seja budista?

Thich Nhat Hnah: Uma pessoa pode não ser chamada de budista, mas pode ser mais budista que um budista. O budismo é composto por plena consciência, concentração e insight. Se você tiver todos eles, você é budista. Se não tiver, não é budista. Se você olha para uma pessoa e vê que ela tem plena consciência, compaixão, é compreensiva e tem insight, então saberá que ela é budista. Pode até ser um monástico mas, se não tiver essas energias e qualidades, terá a aparência de budista, mas não o conteúdo de um budista.

Revista: Existe alguma cerimônia para se tornar budista?

Thich Nhat Hanh: Não, não é através de uma cerimônia que alguém se torna budista. É através do compromisso com a prática. Os budistas se apegam a muitos rituais e cerimônias, mas o Buda não gosta disso. Nos sutras, principalmente no ensinamento dado pelo Buda logo após sua iluminação, ele disse que devemos nos libertar de rituais. Você não se ilumina nem se liberta por fazer rituais, mas as pessoas acabaram tornando o Budismo excessivamente ritualístico. Não estamos sendo muito bonzinhos com o Buda ao agirmos dessa forma.

Revista: É preciso acreditar em reencarnação para ser budista?

Thich Nhat Hanh: Reencarnação significa que há uma alma que sai do seu corpo e entra em outro corpo. Essa é uma idéia muito popular e muito errônea da continuação no Budismo. Se você acredita que existe uma alma, um self que habita um corpo e que se vai quando o corpo se desintegra e assume outra forma, isso não é budismo.

Ao olhar para uma pessoa, você vê cinco skandhas, ou elementos: forma, sentimentos,
percepções, formações mentais e consciência. Não há alma, não há self fora desses cinco, portanto quando os cinco elementos se dissolvem, o karma, as ações que você fez ao longo da vida são sua continuação. O que você fez ou pensou ainda continua existindo como energia.
Você não precisa de uma alma, ou de um self para continuar. É como uma nuvem. Mesmo
quando a nuvem não está ali, ela sempre continua existindo como neve ou chuva. A nuvem não precisa ter alma para ter continuidade.

Não há início nem fim. Você não precisa esperar até que este corpo se dissolva totalmente para ter continuidade – você continua a cada momento. Vamos supor que eu transmita minha energia a centenas de pessoas; essas pessoas serão minha continuação. Se você olhar para elas, poderá me ver nelas. Se você acha que sou isso [Thay aponta para si], então você não me viu. Mas se você me vir em minhas palavras e minhas ações, verá que elas são minha continuação. Ao olhar para meus discípulos, meus alunos, meus livros e meus amigos, você vê minha continuação. Nunca morrerei. Este corpo se dissolverá, mas isso não significa que morrerei. Continuarei, para sempre.

E isso é verdade para todos nós. Você é mais do que este corpo porque os cinco skandhas estão sempre produzindo energia. Isto se chama karma ou ação. No entanto, não há ator – você não precisa de um ator. A ação já é suficiente. Isto pode ser entendido em termos de física. Massa e energia, e força e matéria – não são duas coisas separadas. São a mesma coisa.

Revista: O que fazer com o grau de materialismo em nossa cultura?

Thich Nhat Hanh: Podemos organizar um ambiente onde as pessoas vivam felizes, com
simplicidade, e convidar outras para vir e observar. É a única coisa que as convencerá a abandonar sua idéia materialista de felicidade. Acham que serão felizes somente quando tiverem muito para consumir, mas muitas pessoas são muito ricas e infelizes. E há aquelas que consomem bem menos e são mais felizes.

Precisamos mostrar que viver com simplicidade, com a prática do dharma, pode ser algo que nos realiza muito. As pessoas precisam ver e vivenciar isso primeiro para se convencerem. Em Plum Village, rimos o tempo todo e, ainda assim, nenhum de nós tem uma conta no banco.
Ninguém tem um carro particular ou seu próprio celular. Só consumimos alimentos
vegetarianos. E não sofremos por não comermos ovos ou carne. Na realidade, isso nos deixa mais felizes, pois sabemos que não estamos consumindo seres vivos e protegemos nosso planeta. Isso traz muita alegria. Temos a sorte de conseguirmos viver assim e de nos alimentarmos dessa forma.

Muita gente acha que, se não tiver muito dinheiro, se não conquistar uma alta posição na sociedade, não poderá ser feliz de verdade. É duro desapegar-se de uma crença, mas é possível quando você vê a verdade e percebe que pode ser feliz de outra forma. Ver esta verdade possibilitará o futuro de nossos filhos, portanto acho que nos círculos budistas precisamos nos reorganizar e mostrar às pessoas uma forma de viver feliz com base na compreensão mútua, não no materialismo. Não basta ouvir uma palestra do dharma, pois uma palestra do dharma é só uma palestra. As pessoas precisam ver uma comunidade não-materialista. Somente quando virem as pessoas vivendo assim, poderão se convencer de que isso é possível.

( Trechos de entrevista exclusiva feita por Andrea Miller para a Revista Shambala Sun
(Tradução: Denise Kato) Comente esse texto em http://sangavirtual.blogspot.com

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Shantum Seth em Florianópolis


O Professor do Dharma, ligado a Thich Nhat Hanh, Shantum Seth, fez palestra sobre as peregrinações budistas que realiza na Índia na Comunidade Zen budista de Florianópolis, passou aqui rapidamente com sua espôsa e duas filhas pequenas. Na foto ele brinca com uma mistura do aperto de mãos e do gasshô, misturando no gesto os dois cumprimentos.


O que espiritualidade significa pra o Senhor?

Consciência, estar presente e estar consciente do que está acontecendo dentro de mim e à minha volta. É uma forma de ser, não é algo que eu faço meia hora, cantando ou sentado numa almofada e depois abandono o resto do dia.
Shantum Seth.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

PALESTRA COM O PROFESSOR DO DHARMA SHANTUM SETH



PALESTRA ABERTA COM O PROFESSOR DO DHARMA SHANTUM SETH

Shantum Seth tem contribuído em alguns livros do mestre zen Thay, incluindo "Caminhar com o Buda”, “Eu cheguei, estou em casa" e "Voluntários contra o conflito”. Ele também foi consultor em filmes como "A vida do Buda”, produzido pela BBC e Discovery, "A História da Índia” produzido pela BBC e PBS, e está atualmente está trabalhando em uma produção de Hollywood, intitulada "Buddha".

Shantum é graduado em Estudos de Desenvolvimento, com a sua tese em A Economia de Gandhi. Shantum trabalha no setor de Desenvolvimento Social e há quinze anos faz parte do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas e da UNESCO, gestão de programas de promoção de voluntariado, educação para a paz, patrimônio da humanidade e programas de subsistência sustentáveis​​.

Ele vive com sua esposa, duas filhas e os pais em Noida, próximo a Nova Delhi na Índia.

Leia mais aqui: www.buddhapath.com

Confirme sua presença através do email centrozenfloripa@gmail.com ou (48) 9982.1969

Comunidade Zen Budista de Florianópolis
www.daissen.org.br

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A AMENDOEIRA NO SEU JARDIM


Pausa em retiro zen de silêncio em Florianópolis.

A AMENDOEIRA NO SEU JARDIM

Falei sobre a contemplação na interdependência. Sei, Quang, que você entende que os métodos para se encontrar a verdade devem ser vistos como meios e não como fim. Convém, no entanto que fique claro aos praticantes que a meditação na interdependência é aplicada para remover as falsas barreiras da discriminação e capacitá-los assim a ingressar na harmonia universal da vida. Seu propósito não é criar ou aderir a algum sistema filosófico.
Hermann Esse em seu romance Siddharta, não tinha ainda visto isso. Por conseguinte, seu personagem Siddharta filosofa sobre a interdependência com palavras um tanto ingênuas. O autor oferece um quadro da interdependência, em que tudo está inter-relacionado e nenhuma falha pode ser encontrada: Tudo tem que se encaixar dentro do sistema infalível da mútua dependência, e diz que esse é um sistema no qual não pode ser considerado o problema da libertação nesse mundo.

Segundo os ensinamentos do Vijnanavada, a realidade tem três naturezas: imaginação (Vikalpa), interdependência (Paratantra) e perfeição última (Nispanna). Consideremos primeiro a interdependência da forma sugerida pelo Vijnanavada. Por causa do esquecimento e dos preconceitos, nós normalmente encobrimos a realidade com o véu da falsa visão e das opiniões. Isto é ver a realidade através da imaginação. A imaginação é uma ilusão da realidade que concebe a realidade como uma agregação de entidades separadas e com existência própria. A fim de romper com a Vikalpa o praticante medita na natureza da interdependência ou inter-relacionamento dos fenômenos no processo da criação e da destruição. Essa consideração é uma forma de contemplar e não uma base de uma doutrina filosófica. Se o praticante se atém apenas ao sistema de conceitos ele encalha. A meditação Paratantra é para ajudar a pessoa a penetrar na realidade e assim se tornar una com ela, e para não aprisioná-la a conceitos filosóficos da Paratantra. O barco é usado para atravessar o rio, e não para ser carregado sobre os ombros. O dedo que aponta a lua não é a lua.

Finalmente chega-se ao Parinispanna, ou seja, à natureza da perfeição última. Parinispanna significa realidade livre de todas as falsas ilusões produzidas pela imaginação. Realidade é realidade, ela transcende todos os conceitos. Não existe conceito que possa descrevê-la adequadamente, nem tampouco o próprio conceito da interdependência. Para assegurar que o praticante não se apegue à Parinispanna como um conceito filosófico, os ensinamentos do Vijnanavada falam das três não naturezas, impedindo assim que ele se aprisione à doutrina das três naturezas. A essência do ensinamento mahayana reside nisso.

Quando a realidade é percebida em sua natureza de perfeição última, o praticante atinge o grau de sabedoria conhecido como mente não discriminativa: uma maravilhosa comunhão na qual não mais existe distinção entre sujeito e objeto.

Quang, isto não é um estágio tão distante e inatingível. Qualquer um que persista em praticar tem a chance de, ao menos, provar o seu sabor. Em minha escrivaninha, tenho uma pilha de papeis requisitando a adoção para crianças órfãs. Traduzo alguns deles por dia. Antes de começar a traduzir uma pilha, olho dentro dos olhos da criança na foto, observando atentamente sua feição e expressão. E sinto uma profunda ligação entre mim e cada criança, que me permite entrar em especial comunhão com elas. Ocorre-me agora, enquanto lhe escrevo que a comunhão que experimento ao traduzir uma simples linha desses pedidos é uma espécie de mente não discriminativa. Eu não mais vejo o “eu” que traduz os pedidos para as crianças, não mais vejo a criança que recebe amor e ajuda. A criança e eu somos um só: não há um que se compadece e outro que pede ajuda. Não há tarefa, não há traba lho social a ser feito, não há compaixão. Quang, se esses momentos não são de mente não discriminativa, o que hão de ser então?

Quando a realidade é experimentada em sua natureza de perfeição última, a amendoeira em seu jardim revelará sua natureza, em perfeita totalidade. Amendoeira é ela própria Verdade, Natureza de Budha, Realidade, seu próprio Eu. De todas as pessoas que passaram por seu jardim, quantas realmente “viram” a amendoeira? Um artista, por ter o coração mais sensível e aberto, é capaz de ver a árvore de uma forma mais profunda que os outros: já existe uma certa comunhão natural entre ele e a árvore. O que conta é seu coração. Se seu coração não está nublado pelas falsas visões, você será capaz de entrar em comunhão com a árvore; a amendoeira estará pront a a revelar-se em sua totalidade. Ver a árvore é ver o Caminho. Quando pediram à um mestre zen que explicasse a maravilha da Realidade, ele apontou para fora dizendo: “Olhe para aquele cipreste”. Entende o que ele dizer Quang? Eu acho que sim.

PARA VIVER EM PAZ – Thich Nhat Hanh
(cortesia de Michel Seikan)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A paz a cada passo


Praticantes de Florianópolis oram antes da refeição em zazenkai realizado em Águas Mornas.

"A. J. Muste, líder do movimento pacifista em meados do século XX nos Estados Unidos, que inspirou milhares de pessoas, disse uma vez, "Não há caminho para paz. A paz é o caminho." Essa frase nos diz que podemos concretizar a paz aqui e agora com nosso olhar, nosso sorriso, nosso pensamento, nossas palavras e nossos atos. O trabalho pela paz não é um meio. Cada passo que damos deveria ser a paz. Cada passo que damos deveria ser a alegria. Cada passo que damos deveria ser a felicidade. Se tivermos determinação, podemos fazê-lo. Não precisamos do futuro. Podemos sorrir e relaxar. Tudo que desejamos está aqui no momento presente."

Extraído do livro "Paz a cada Passo", de THICH NHAT HANH.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Encontrando Um Ente Querido Perdido


Encontrando Um Ente Querido Perdido

"A mesma coisa acontece quando perdemos alguém que amamos. Quando as
condições que os mantêm vivos não são mais suficientes, eles se
retiram. Quando perdi a minha mãe, sofri muito. Quando se tem somente
sete ou oito anos é difícil pensar que, um dia, iremos perder nossa
mãe. Com o tempo, todos nós crescemos e perdemos as nossas mães. Se
você souber praticar, quando esse dia chegar, você não sofrerá muito.
Você perceberá rapidamente que ela estará sempre viva em você.
No dia em que minha mãe morreu, escrevi no meu diário “Um grande
infortúnio aconteceu na minha vida!”. Sofri por mais de um ano a sua
morte. Mas uma noite, nas montanhas do Vietnã, eu estava dormindo no
meu eremitério e sonhei com ela. Vi-me sentado ao seu lado e tendo uma
conversa maravilhosa. Ela parecia jovem, linda, com seu cabelos
soltos. Foi tão agradável esse momento que foi como se ela jamais
tivesse morrido. Quando acordei, era umas duas horas da manhã e eu
estava com uma forte sensação de que nunca havia perdido a minha mãe.
A impressão de que ela ainda estava comigo era muito clara. Nesse dia
eu compreendi que a idéia de perder a mãe era apenas uma idéia. E era
óbvio nesse momento que ela sempre estaria presente em mim.
Abri a porta e saí. Toda a colina estava banhada pela luz do luar. Era
uma colina coberta por plantações de chá e minha cabana estava atrás
do templo, a meio caminho entre o topo e a base. Ao caminhar
lentamente sob o luar e por entre as fileiras de chá, percebi que
minha mãe estava ali comigo. Era ela a luz do luar me acariciando,
como tantas vezes tinha feito antes, doce e gentil...Foi maravilhoso!
A cada vez que os meus pés tocavam a terra, eu sabia que ela estava
ali, comigo. Compreendi que esse corpo não era somente meu, mas uma
continuação viva não só da mãe, mas do meu pai, dos meus avós e
bisavós. De todos os meus ancestrais. Estes pés, que antes eu via como
“meus”, eram, na verdade, “nossos”. Juntos, eu e minha mãe estávamos
deixando pegadas no chão molhado.
Daquele momento em diante, a minha idéia de que eu havia perdido a
minha mãe, desapareceu. Tudo o que tenho que fazer é olhar a palma da
minha mão, sentir a brisa na face ou a terra sob meus pés para me
lembrar que ela estará sempre aqui, comigo, disponível a qualquer
momento.
Quando você perde um ente querido, você sofre, mas se observar
profundamente, terá a chance de perceber que a natureza dessa pessoa
não é nem nascer e nem morrer. O que existe é apenas a manifestação e
a cessação da manifestação a qual prepara uma nova manifestação. Você
precisa estar muito atento para reconhecer a continuação de alguém.
Mas com prática e um pouco de esforço, você conseguirá.
Assim, tomando a mão de alguém que conhece a prática, faça uma
meditação caminhando juntos. Preste atenção às folhas, flores e
pássaros e às gotas de orvalho. Se você parar e observar, será capaz
de reconhecer a pessoa amada muitas vezes e de diferentes formas. E
assim, você sentirá a alegria de viver."

Thich Nhat Hanh (Mestre zen budista da escola Thien do Vietnam)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Mais um monge brasileiro: Pháp Giang


Mestre Thich Nhat Hanh do budismo zen vietnamita, (chamado Thien no Vietnam).
Notícia sobre a primeira ordenação brasileira desta escola budista.

No dia 21 de novembro de 2009 fui ordenado como monge noviço em Plum Village, França, na tradição do ven. Thich Nhat Hanh. A cerimônia foi simples e leve, entremeada por pequenos descuidos que a tornaram mais leve e bem humorada ainda. sei que para os europeus isso soa estranho, por que eles adoram atividades muito formais e sem a presença do acaso, mas para nós, brasileiros, tudo isso é muito bem
vindo e me faz sentir mais em casa ainda...

Fui ordenado com mais dez amigos (seis homens e quatro mulheres, um do Canadá, dois da França, um estadunidense, dois vietnamitas, uma japonesa, uma holandesa, um alemão e uma chinesa - e eu do Brasil), no mesmo dia, vinte vietnamitas foram ordenados via internet.
Thay deu a essa família o nome de Lótus Cor-de-Rosa (já houve famílias com o nome de Lótus Branca e Lótus Dourada).
Essa família tem algumas características especiais, como diversidade de países e a idade (a maioria se situa na faixa dos 30 a 40 anos, um pouco velha para o costume).

Apesar dos muitos altos e baixos durante o período de aspirante, estou feliz com a minha escolha. Plum Village ainda é marcadamente européia, norte-americana e asiática, então espero tornar mais estreita a ligação entre Plum Village e o Brasil e a América Latina e enriquecer a diversidade cultural que é a marca dessa tradição.
Gostaria de destacar dois fatos que considero sintomáticos:

O primeiro foi que o monge responsável pela distribuição das roupas não sabia meu nome e como eu não estava no quarto na hora em que ele trouxe o meu hábito de aspirante, ele apenas escreveu num pedaço de papel "Brazil". Como único brasileiro e latino-americano desta comunidade senti nesse momento o peso da minha escolha e o impacto dessa escolha na vida da comunidade e, talvez, alguma expectativa também deles em relação a mim. Mas, é claro, uma das práticas aqui é não ter expectativas...

O segundo foi durante a ordenação, quando Thay pronunciou o meu nome de dharma monástico, Pháp Giang. Para os que não sabem 'Pháp' em sino-vietnamita quer dizer 'Dharma' (e em vietnamita moderno quer dizer França) e 'Giang'(pronuncia-se aproximadamente como Young em inglês, ou iang) significa 'Rio' - ou seja, Rio de Dharma. Para mim foi uma grande e agradável surpresa. Tendo vivido na Amazônia por muitos anos, quando ele disse esse nome, senti o rio Amazonas correr dentro de mim e me senti realmente como um rio. Mas sei que é um desafio ser realmente um rio, como nas metáforas que o Buda usou para expressar algo que a tudo abraça e a tudo transforma.

Interessante também ver que recebi o meu sanghati, hábito para grandes cerimônias formais, de um monge theravada da Tailândia, T. Pittaya, e que agora mora em Plum Village permanentemente. O Ricardo Sasaki sabe o quanto tenho apreço pelo budismo theravada e o quanto aprecio que o budismo praticado em Plum Village tenha uma mistura interessante com essa tradição, então foi com muito bom gosto que recebi de suas mãos.

Nesse período em que permaneci aspirante aprendi a duras penas a largar minha expectativas em relação a mim e em relação à comunidade e a não tentar pensar demais se serei um bom monge ou mesmo se serei um monge por toda vida...o que importa é o presente e no presente farei o melhor possível para mim e utilizando os elementos da nossa cultura para expressar esse melhor - não posso esquecer, e isso não é possível, que sou um monge cearense, de Quixeramobim, a maior parte de minhas raízes
está lá, trago dentro de mim o mandacaru e suas flores, a seca, a caatinga, a esperança de chuva, minha fala nordestina e muitos maneirismos dos meninos do interior do sertão e isso será, provavelmente, minha contribuição à diversidade cultural de Plum Village.

Agradeço a todos e todas que torceram por mim, direta ou indiretamente, ou que simplesmente se alegraram por saber que há um pedaço de Brasil nesta grande comunidade.

Samuel / Pháp Giang