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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Desejo e materialismo espiritual



Pergunta – Mas tem que haver o desejo de sentar, ou não?

Monge Gensho – Muito interessante, pois começamos sempre assim, a partir da insatisfação com a vida. Essa é a história do próprio Buda. Ele vê o sofrimento, e porque se sente angustiado com isso, deixa todas as coisas e vai procurar uma solução. Mas isso não é iluminação.

Observação – Mas é um desejo.

Monge Genshô – Sim. A palavra desejo causa alguns problemas. Porque a usamos em português para uma série de significados que em sânscrito são palavras diferentes. Desejo que causa sofrimento é tanha, um desejo apegado, teimoso, adquirente. Existem outros desejos, por exemplo, ditti, que é o desejo de ter uma opinião, de defendê-la, de manifestá-la. E existe o impulso de conseguir se libertar, ele é benéfico, mas quando começamos ele é aquisitivo, é materialismo espiritual. Todos  começamos sempre assim. Vamos a um centro do Dharma procurando adquirir algo, como uma palavra que o professor nos diga e que nos salve, procurando tranqüilidade, serenidade, através da meditação. Alguma coisa sempre queremos adquirir.
 Isso está bem segundo o caminho do Dharma, porque a pessoa vai se sentar, procurando por algo através desse materialismo espiritual. Mas à medida que você vai crescendo e amadurecendo, percebe que tem que sair desse estágio e partir para um outro, no qual, o aluno, ao ser perguntado pelo professor “porque você está praticando?”, ele responda: “não sei mais!”. Nesse momento foi dado um grande passo. Esse passo é maravilhoso, porque é uma libertação do materialismo espiritual de querer obter algo para si.
 A trajetória de Buda também é assim. Ele parte à procura de mestres de ioga, pratica duramente, faz jejum, medita, martiriza seu corpo, fica magro e sofre durante anos, sem encontrar a saída. Quando, finalmente, ele senta-se embaixo de uma árvore e diz “eu desisto” do ascetismo, depois de sete dias, se ilumina. O que faz ele então? Fica com a iluminação para si? Não, ele se levanta, sai para o mundo e durante quarenta anos ensina sem parar. Ele faz isso por compaixão. Nesse momento é que ele é Buda, até o momento anterior ao da iluminação, ele era Sidharta Shakyamuni que estava tentando se libertar do samsara, como todos nós.