Mostrando postagens com marcador asceta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador asceta. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A História de Buda (parte 2: O Ascetismo)





Aluno: e por que ele escolheu esse caminho?

Monge Genshô: esse era o caminho  disponível naquele momento na Índia [jejum e martirização do corpo]. Havia a tradição de que aquele que tem uma angústia espiritual vai ser um samana, um asceta e tentar resolver o problema de verdade. Isso era encarado como uma escolha legítima, e esse ascetismo era levado a um ponto muito agudo, tão agudo como ele próprio relata: quando ele está no fim, está quase morrendo. O seu sentar parecia uma pisada de camelo. Eram só os ossos do ilíaco, e ele era tão magro que todas as suas costelas e ossos do rosto apareciam. Ele estava quase morrendo de tanto se sacrificar e tentar chegar a uma solução.  Os mestres que ele teve o ajudaram bastante a pensar, raciocinar e fazer exercícios cada vez mais duros. Cada um deles ofereceu a ele para ser seu sucessor, mas Shakyamuni não aceitou, pois achava que não tinha conseguido uma solução real. (continua...)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

“Você, meu “eu”, não me enganará mais”



(continuação)

Depois de Platão, no ocidente, começamos a acreditar firmemente em almas. E as almas solucionavam o problema. Eu tenho um “eu”, uma identidade própria. Se eu morrer, minha alma não morre. O corpo é só a casca. Até nos desenhos animados, morre Tom e a alma do gato vai saindo e ele a puxa pelo rabo. Mas a alma é ele! O corpo não é nada! Então está solucionado: eu vou viver para sempre, pois eu tenho uma alma eterna. Então, eu preciso de alguma coisa para essa alma, e o que eu dou pra essa alma? Um paraíso ou quem sabe um corpo novo. Aí chamamos essa solução de reencarnação.

Vamos para o Budismo?

2.600 anos atrás, Siddharta Gautama vai pra floresta e torna-se um asceta. Torna-se aluno de dois grandes mestres Iogues e treina duramente. Diz-se que ele jejuou tanto, que a marca do seu sentar parecia a pisada de um camelo. Ele era bem magro. Ele é representado nas estátuas “Buda em Austeridade” com as costelas aparecendo e os ossos do rosto saltados. Eu não sei o que aconteceu no ocidente. Em algum momento, alguém trouxe uma estátua de “Papai Noel da China”, “Po Tai”, bem gordo, dando risada e colocaram nas vitrines das lojas e começaram a vender como Buda. Buda, historicamente, é um asceta. Não este Buda da vitrine. Aquele, que chama-se “Po Tai” em chinês e “Ho Tei” em japonês, nada tem a ver com Buda, algumas vêzes diz-se o buda do futuro, um futuro de abundância e felicidade.

Para explicar melhor essa história imagine que alguém vem de um lugar remoto e não conhece o cristianismo. Chega aqui em Goiânia e assiste as festividades de Natal. Volta e perguntam a ele: “Você foi lá? Fui. Como é a religião deles? Ah é meio estranha, eu assisti à festa principal deles, chama-se Natal. E o Deus deles, como é? Ah é gordo, se veste de vermelho, anda num trenó com renas”. É só o que ele viu, não é verdade? O que é que a gente vê no Natal? As tradições vão sendo modificadas e deturpadas com o tempo.

Mas voltando ao tema.

O problema de Siddharta Gautama é que depois de 6 anos ele desistiu. Não aguentava mais. Aceitou arroz e leite de uma moça chamada “Sujata” e sentou-se embaixo de uma árvore, uma figueira, uma “fícus religiosa”, e disse: eu não me levantarei daqui, enquanto não resolver o que nós chamamos hoje em dia de “angústia existencial”.

7 dias. Ao amanhecer do 8º dia, surgiu a estrela da manhã e aquela luz o atravessou, e repentinamente ele percebeu as ilusões em que estivera metido. E ele disse uma frase extremamente importante para nossa palestra: “Você, meu “eu”, não me enganará mais”.

Ele descobriu simplesmente que esse “eu” que nós tanto acreditamos e que em todos os tempos as pessoas quiseram que sobrevivesse à morte, não passa de uma construção mental, uma ilusão. Que você não é este “eu”. E estou aqui pra dizer pra vocês: o segredo de uma mente equilibrada é compreender, dentro de você mesmo, com o seu sentimento, não com a sua mente, que seu “eu” é uma ilusão completa, você não é o que você pensa que é.
(continua)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Desejo e materialismo espiritual



Pergunta – Mas tem que haver o desejo de sentar, ou não?

Monge Gensho – Muito interessante, pois começamos sempre assim, a partir da insatisfação com a vida. Essa é a história do próprio Buda. Ele vê o sofrimento, e porque se sente angustiado com isso, deixa todas as coisas e vai procurar uma solução. Mas isso não é iluminação.

Observação – Mas é um desejo.

Monge Genshô – Sim. A palavra desejo causa alguns problemas. Porque a usamos em português para uma série de significados que em sânscrito são palavras diferentes. Desejo que causa sofrimento é tanha, um desejo apegado, teimoso, adquirente. Existem outros desejos, por exemplo, ditti, que é o desejo de ter uma opinião, de defendê-la, de manifestá-la. E existe o impulso de conseguir se libertar, ele é benéfico, mas quando começamos ele é aquisitivo, é materialismo espiritual. Todos  começamos sempre assim. Vamos a um centro do Dharma procurando adquirir algo, como uma palavra que o professor nos diga e que nos salve, procurando tranqüilidade, serenidade, através da meditação. Alguma coisa sempre queremos adquirir.
 Isso está bem segundo o caminho do Dharma, porque a pessoa vai se sentar, procurando por algo através desse materialismo espiritual. Mas à medida que você vai crescendo e amadurecendo, percebe que tem que sair desse estágio e partir para um outro, no qual, o aluno, ao ser perguntado pelo professor “porque você está praticando?”, ele responda: “não sei mais!”. Nesse momento foi dado um grande passo. Esse passo é maravilhoso, porque é uma libertação do materialismo espiritual de querer obter algo para si.
 A trajetória de Buda também é assim. Ele parte à procura de mestres de ioga, pratica duramente, faz jejum, medita, martiriza seu corpo, fica magro e sofre durante anos, sem encontrar a saída. Quando, finalmente, ele senta-se embaixo de uma árvore e diz “eu desisto” do ascetismo, depois de sete dias, se ilumina. O que faz ele então? Fica com a iluminação para si? Não, ele se levanta, sai para o mundo e durante quarenta anos ensina sem parar. Ele faz isso por compaixão. Nesse momento é que ele é Buda, até o momento anterior ao da iluminação, ele era Sidharta Shakyamuni que estava tentando se libertar do samsara, como todos nós.