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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Os 12 Elos da Roda da Vida (Parte 01)



 
Nossa própria originação advém de uma cadeia de elos que se repete. O primeiro elo é a ignorância (avidya), um agarramento que motiva uma pessoa a criar as condições para renascer no samsara. 

O segundo, a composição interdependente, o samskara, as marcas cármicas que nós fazemos e que criam os impulsos que nós chamamos de carma. 

O terceiro elo é a consciência interdependente, vijnana, que não pode ser confundida com um eu inerente, mas sim com quantum de carma que deixa uma marca que gera a próxima manifestação.

O quarto elo, denominado nome-forma, nama-rupa, os agregados que nos constituem. Contato, sensação, percepção, formações mentais, a própria consciência, o próprio fenômeno consciência. 

As fontes interdependentes, sadayatana, quinto elo, são as faculdades sensoriais e a faculdade mental. 

O sexto elo é o contato, sparsa, fator mental que acompanha cada momento de consciência. Ele surge do nosso contato, da nossa sensação, nossa faculdade sensorial e nos faz definir se gostamos, se não gostamos, se somos indiferentes a uma coisa. 

O sétimo elo é a sensação interdependente, vedana, que se segue ao contato.

O oitavo, o anseio, tanha, é o nosso apego que gera o impulso que nos leva a nos manifestarmos novamente. Ele é extremamente importante na hora da morte, porque a mente que você tem na hora da morte é a mais definidora do que vai acontecer a seguir.

O nono elo, o agarramento interdependente, padana, a intensificação desse desejo que nos faz ter a ação. 

O décimo elo, a existência interdependente, bhava, que é a primeira que nós vamos comentar.

(continua) 

[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Plena atenção e os desejos

                                                       O grande mestre Saikawa Roshi

" Cinco. Plena atenção. Conservar os ensinamentos sem esquecimento é chamado de plena atenção e também lembrança perseverante. Buda disse, ”Praticantes, se vocês procuram um bom mestre protetor, nada se compara a plena atenção. Aqueles que mantêm a plena atenção não são invadidos pelas aflições e permanecem livres de várias ilusões, portanto vocês deveriam se manter plenamente atentos, pois aqueles que perdem a plena atenção, perdem as virtudes e seus méritos. Se vocês mantiverem a plena atenção se manterão ilesos mesmo quando cercados pelos desejos. " Porque você verá o desejo surgindo, não há porque se culpar pelo surgimento de um desejo, não é pecaminoso, se o desejo surgir apenas o identifique e identifique sua causa. Essa é a raiz do meu sofrimento, eu sofro porque cultivo esses desejos, eles é que escravizam. Devo entender como eles surgem dentro de mim, porque esse é o meu carma, são as minhas marcas se manifestando, se manifestam em mim dessa forma, estou sendo prisioneiro disso. Para quebrar esse ciclo tenho que enxergá-lo, ver como surge e praticar, pelo simples fato de ser reconhecido ele perde forças.

Pergunta – Se a gente ficar totalmente ausente de desejos não correria riscos de viver sem rumo?

Monge Gensho – Aqui há um problema. Em sânscrito existem várias palavras para desejo. Tanha é o desejo do tipo apego, desejo teimoso que sempre volta. Em termos de alimentos. Tanha seria a força que faz com que a pessoa fique gorda, atacar a geladeira e comer um quilo de sorvete. A pessoa sabe que não pode fazer, mas continua fazendo. Esse desejo, esse apego, leva ao sofrimento. Outras formas de desejo tem palavras especificas em sânscrito. Por exemplo, ditti é o desejo de defender opiniões, dou minha opinião e quero que ela seja aceita. Quando a pessoa está em uma conversa e dá uma opinião, essa opinião é dela, e por ser dela, se alguém disser algo ao contrario inicia-se uma discussão ferrenha, onde qualquer artifício é válido para que sua opinião seja aceita. Então ditti é o desejo de ter, manifestar e defender opiniões. Isso aparece em todos os lugares, inclusive na sangha.

No sesshin (retiro) o que a gente faz? O professor está dando uma palestra, lendo um texto, nós ouvimos, mas não manifestamos opiniões, justamente para treinar o fim de ditti, o nosso apego e desejo por defender e manter opiniões próprias. Em vez de se procurar a verdade, se agarrar a primeira idéia que surge em nossa mente. Existe o desejo de realizar coisas boas alcançar realizações espirituais, desejo de felicidade. Só que o desejo de atingir a felicidade não é alcançado através da obtenção de bens, ficar rico ou coisas desse tipo. Obter a felicidade é obter uma mente correta que sabe usar as benesses do mundo. Não é necessário ver a riqueza ou o dinheiro como uma coisa errada, é um instrumento e pode ser usado. No budismo não existe a idéia de que, em si, apenas a pobreza leva a uma realização espiritual. Para isso temos o famoso sutra de Vilamakirti, que era no tempo de Buda, um poderoso comerciante. Ele era muito sábio e vencia todos os discípulos em discussões do Dharma.

Os discípulos de Buda tinham problemas com ele quando se tratava de discussões do Dharma, ele sempre dava respostas que os discípulos não conseguiam contradizer. No sutra de Vilamakirti, ele está doente e se pede aos discípulos visitá-lo. Cada discípulo, então, apresenta como motivo o fato de ter sido derrotado em discussões do dharma, para não visitá-lo. Até que aparece Manjushri. Nós temos no Zendo uma estatua de Manjushri, discípulo de Buda que é representado sentado em meditação em cima de um leão, segurando uma espada. A espada de Manjushri corta em um. Manjushri vai então ver Vilamakirti , (em outra ocasião Vilamakirti já havia dado uma resposta forte aos discípulos , ele estava voltando de uma visita à Buda e encontra com os discípulos que perguntam,”aonde vais?”, Vilamakirti responde, “Vou ao mosteiro”. E os discípulos dizem, “Como assim, o mosteiro fica na outra direção!” e Vilamakirti responde, “Vocês estão indo para o mosteiro de vocês, o meu mosteiro fica na cidade, é a cidade, onde existem pessoas que precisam de comida, empregos, habitação e pessoas que precisam de ajuda e é onde eu trabalho, lá é meu mosteiro”. Então Manjushri pergunta, “Você é um Bodhisathava, por que está doente?” e Vilamakirti responde, “Todo o mundo está doente, todos os seres, por isso eu estou doente”. Vilamakirti é o exemplo de Bodhisathava para os leigos. Aquele que trabalhando no mundo, adoece pelo mundo, trabalha todo o tempo para os outros, não trabalha para si. Ele é rico, mas a riqueza dele não é para ele, a sua riqueza é para ajudar todos os seres. O modelo do leigo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Desejo e materialismo espiritual



Pergunta – Mas tem que haver o desejo de sentar, ou não?

Monge Gensho – Muito interessante, pois começamos sempre assim, a partir da insatisfação com a vida. Essa é a história do próprio Buda. Ele vê o sofrimento, e porque se sente angustiado com isso, deixa todas as coisas e vai procurar uma solução. Mas isso não é iluminação.

Observação – Mas é um desejo.

Monge Genshô – Sim. A palavra desejo causa alguns problemas. Porque a usamos em português para uma série de significados que em sânscrito são palavras diferentes. Desejo que causa sofrimento é tanha, um desejo apegado, teimoso, adquirente. Existem outros desejos, por exemplo, ditti, que é o desejo de ter uma opinião, de defendê-la, de manifestá-la. E existe o impulso de conseguir se libertar, ele é benéfico, mas quando começamos ele é aquisitivo, é materialismo espiritual. Todos  começamos sempre assim. Vamos a um centro do Dharma procurando adquirir algo, como uma palavra que o professor nos diga e que nos salve, procurando tranqüilidade, serenidade, através da meditação. Alguma coisa sempre queremos adquirir.
 Isso está bem segundo o caminho do Dharma, porque a pessoa vai se sentar, procurando por algo através desse materialismo espiritual. Mas à medida que você vai crescendo e amadurecendo, percebe que tem que sair desse estágio e partir para um outro, no qual, o aluno, ao ser perguntado pelo professor “porque você está praticando?”, ele responda: “não sei mais!”. Nesse momento foi dado um grande passo. Esse passo é maravilhoso, porque é uma libertação do materialismo espiritual de querer obter algo para si.
 A trajetória de Buda também é assim. Ele parte à procura de mestres de ioga, pratica duramente, faz jejum, medita, martiriza seu corpo, fica magro e sofre durante anos, sem encontrar a saída. Quando, finalmente, ele senta-se embaixo de uma árvore e diz “eu desisto” do ascetismo, depois de sete dias, se ilumina. O que faz ele então? Fica com a iluminação para si? Não, ele se levanta, sai para o mundo e durante quarenta anos ensina sem parar. Ele faz isso por compaixão. Nesse momento é que ele é Buda, até o momento anterior ao da iluminação, ele era Sidharta Shakyamuni que estava tentando se libertar do samsara, como todos nós.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O desejo de se libertar


Pergunta – Mas tem que haver o desejo de sentar, ou não?

Monge Gensho – Muito interessante, pois começamos sempre assim, a partir da insatisfação com a vida. Essa é a história do próprio Buda. Ele vê o sofrimento, e porque se sente angustiado com isso, deixa todas as coisas e vai procurar uma solução. Mas isso não é iluminação.

Observação – Mas é um desejo.

Monge Gensho – Sim. A palavra desejo causa alguns problemas. Porque a usamos em português para uma série de significados que em sânscrito são palavras diferentes. Desejo que causa sofrimento é tanha, um desejo apegado, teimoso, adquirente. Existem outros desejos, por exemplo, ditti, que é o desejo de ter uma opinião, de defendê-la, de manifestá-la, agarrado a suas próprias opiniões. E existe o impulso de conseguir se libertar, ele é benéfico, mas quando começamos ele é aquisitivo, é materialismo espiritual. Todos praticamos assim, começamos sempre assim. Viemos a um centro do Dharma procurando adquirir algo, como uma palavra que o professor nos diga e que nos salve, procurando tranqüilidade, serenidade através da meditação. Alguma coisa sempre queremos adquirir. Isso está bem segundo o caminho do Dharma, porque a pessoa vai se sentar e começar assim, procurando por algo através desse materialismo espiritual. Mas à medida que você vai crescendo e amadurecendo no Dharma, percebe que tem que sair desse estágio e partir para um outro, no qual o aluno, ao ser perguntado pelo professor “porque você está praticando?”, ele responda: “não sei mais!”. Nesse momento foi dado um grande passo. Esse passo é maravilhoso, porque é uma libertação do materialismo espiritual de querer obter algo para si. A trajetória de Buda também é assim. Ele parte à procura de mestres de yoga, pratica duramente, faz jejum, medita, martiriza seu corpo, fica magro e sofre durante anos, sem encontrar a saída. Quando, finalmente, ele senta-se embaixo de uma árvore e diz “eu desisto” do ascetismo, depois de sete dias, se ilumina. O que faz ele então? Fica com a iluminação para si? Não, ele se levanta, sai para o mundo e durante quarenta anos ensina sem parar. Ele faz isso por compaixão. Nesse momento é que ele é Buda, até o momento anterior ao da iluminação, ele era Sidharta Shakyamuni que estava tentando se libertar do samsara, como todos nós.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Desejo na língua Páli



Muitas vezes se pergunta se o desejo é ruim, na verdade a palavra em português engloba vários significados diferentes em Páli, o desejo de ajudar alguém é obviamente bom, assim como o de iluminar-se.
Abaixo algumas palavras em Páli que são traduzidas como desejo causando estas confusões de compreensão.


"Tanha – Desejo: Sensações agradáveis tendem a produzir a alegria e o prazer, desejo e busca por mais sensações agradáveis; quanto às sensações estressantes ou desagradáveis existe o desprazer, o desejo de destruí-las ou eliminá-las. A sensação neutra neste contexto é considerada como uma forma sutil de sensação prazerosa porque ela não perturba a mente e evoca um certo contentamento."

"Upadana – Apego: à medida que o desejo se intensifica, ele se transforma no agarramento ou apego ao objeto em questão. Enquanto um objeto ainda não tiver sido alcançado, haverá desejo; assim que o objeto for alcançado, ele será agarrado com firmeza pelo apego. Isso se refere não somente aos objetos sensuais, (kamupadana), mas também a idéias e opiniões, (ditthupadana), métodos de prática ou técnicas, (silabbatupadana), e a noção de um eu, (attavadupadana)."

segunda-feira, 23 de março de 2009

O desejo é sempre mau?


O desejo que produz maus efeitos é identificado por "tanha" e outras palavras em páli, ele não pode ser confundido com os outros significados de desejo em língua portuguesa, por exemplo, o desejo de ajudar os outros, que é um bom impulso, ao contrário do desejo de acumular coisas para si mesmo. Trata-se de um problema de tradução, por a língua na qual Buddha ensinou ser mais rica de sutilezas nestas questões.Em páli, por exemplo:

Tanha - desejo por um ganho pessoal.

Mana - desejo de dominar.

Ditthi - desejo de impor suas idéias/opiniões.