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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

As duas grandes correntes no zen



Vamos comentar um pouco sobre o que é a prática e o que é a iluminação. Existem duas grandes correntes no Zen.

Uma delas considera que a prática em si é a iluminação. Essa corrente tornou-se bastante forte e muito popular entre monges e mestres. Ela tenta deixar de lado o que é o “kensho”,(a experiência mística) ou o “satori”(a posse da iluminação) como eventos místicos e psicológicos de grande profundidade, e essa corrente dentro da Soto Zen se concentra na prática em si. Ela diz: “não pense nada, não procure nada, não ambicione, você deve se concentrar na forma” - ou seja, entre no Zendo com determinado pé, faça o gasshô concentradamente, procure a forma perfeita, sente-se ereto, quieto na melhor forma possível, não se mova, faça seu oryoki com a máxima precisão, faça seu mudra certo, não o deixe torto, não faça nada que não seja perfeito, procure a perfeição no seu ato, conserve sua boca fechada em silêncio, pratique o silêncio da prática do sesshin, não deixe sua mente se dispersar, tente seguir cada coisa com a máxima precisão. Não é propriamente a corrente da nossa linhagem.

A nossa linhagem, de Saikawa Roshi, é uma linhagem que enfatiza e que dá ênfase num outro lado, que é do acordar, da experiência mística. O que caracteriza os mestres dessa corrente são as perguntas como – Quem sou eu? – ou – Qual era minha face antes dos meus pais terem nascido? – Essa corrente enfatiza a procura da experiência mística. Então a “forma” nessa corrente é importante, mas se há qualquer engano ou erro, ele não é tomado como capital, mas sim um erro que acontece - “não faço perfeito, ninguém faz perfeito”. Tentamos, mas não é nada trágico se alguém troca o pé e entra na sala com o outro pé. Ele se distraiu, mas a gente sabe que naquele momento a mente dele viajou e ele não fez certo, mas não fazemos disso um grande acontecimento.

Em vez de dizer – Faça certo, preste atenção  - os mestres desta linhagem dizem: Tente, se errar não tem importância, na próxima vez a gente faz melhor. Os ritos e as cerimônias são importantes, são relevantes, mas não são a essência da prática. O sentido não é “a prática é a iluminação”, mas sim “a experiência mística é a iluminação”. Então você procura a experiência, mas como é que se procura a experiência? Procura-se a experiência através do zazen e de procurar acordar, enxergar a realidade da vida através de uma experiência pessoal. Difícil de descrever, mas que é caracterizada por emoções, por percepções, insights profundos. As descrições são algo obscuras como dizer: “subitamente céus e terra desabaram com estrépito”; ou: “uma luz dourada envolveu todas as coisas”; ou ainda: “subitamente uma grande alegria me invadiu e todas as coisas que pareciam ter importância, deixaram de ter. As coisas da vida passaram a ser apenas eventos como de um sonho e enxerguei o fundo da vida. E o relevante nesse fundo da vida, é algo diferente do que pensara até então”. Descrições como: ”sinto-me conectado a todas as coisas e o receio da morte desapareceu completamente”.  (continua)