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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Quem é este que quer permanecer?


Aluno – Se a pessoa faleceu, a mente acaba também? Gostaria de saber se há uma continuidade...

Monge Genshô – Por que você realmente quer saber isso?

Aluno – Por mais grandiosa que é a vida, às vezes parece pouco. Parece que nós queremos, de certa forma, permanecer na vida.

Monge Genshô – Quem quer permanecer nessa vida?

Aluno – Eu gostaria de permanecer...

Monge Genshô – Cada EU individual quer se manter, permanecer. É por isso que fazemos estas perguntas, como: “A consciência sobrevive à morte”? Mas o EU não tem como sobreviver à morte. Você tem como relembrar da sua vida passada? Portanto o EU daquela vida passada não sobreviveu, uma vez que este EU é basicamente constituído de suas memórias. Então meu EU, nenhum EU, sobrevive à morte. Mas sabemos que a vida continua, que o universo continua. Inevitavelmente, pela lógica, nós continuamos. Nosso carma, essa onda cármica, continua se manifestando. Sua personalidade, certas características, vieram de algum lugar. Portanto você é continuidade, mas não de um eu. Que existe continuidade é certo, que não há continuidade de um EU, também é certo. Até porque não há necessidade de você morrer para que seu EU desapareça. Minha mãe morreu de Alzheimer com 97 anos. Ela não sabia mais quem ela era. Nem quem eu era. Nem como o mundo funcionava. Isso é natural. O nome que ela deu-me é Petrucio. Eu estava sentado com ela, pouco antes dela morrer, quando ela me disse: “Mas quem é você?”. Eu disse: “Eu sou Petrucio”. Ela disse: “Não, Petrucio é uma criança”.

Aluno – A filosofia budista não toca no assunto da reencarnação?

Genshô – Isto não é um assunto budista, como uma alma ou partícula essencial. Essa é a pergunta mais frequente que eu respondo aqui. Essa idéia vem da doutrina hinduísta, baseada na idéia do atman, uma alma indivisível que transita de um corpo para outro. E o espiritismo moderno, que apareceu na França, também assimilou esse tipo de doutrina, que está bastante espalhada pelo mundo. Mas Buda ensinou que não existem nem almas nem espíritos permanentes. Nada é permanente, nem nenhum EU é permanente. Portanto, a palavra reencarnação não se aplica, pois não há nada para ganhar uma carne nova. Esta é uma tentativa do ser humano de permanecer. Como queremos permanecer, há necessidade de ganhar um corpo novo. Eu também quero um corpo novo, este aqui já está um pouco prejudicado. Então nós podemos perceber que nós queremos tremendamente que o EU permaneça, pois nós amamos demais a nós mesmos. E é exatamente por isso que as religiões foram criadas, para dar a esperança que meu EU continue. Então inventamos céus, infernos, reencarnações… Por isso o budismo tem a tendência de não ser muito popular, pois quando as ilusões chegam, a tarefa do professor do Zen é puxar o tapete debaixo do aluno e tirar-lhe todas as muletas, todas as crenças e apoios, e dizer-lhe: “Agora sim, agora você está livre”, e por isso fazemos o voto: “delusões são inexauríveis, faço o voto de extinguí-las todas”. E a mais forte, mais terrível, mais venenosa ilusão é o EU. Parece uma falta de esperanças, mas, na realidade, esta é a grande esperança, maravilhosa, pois significa engolir todo universo e a eternidade.

Aluno – Como realizar tudo isso em apenas uma vida?

Genshô – Não tenha pressa,  há bastante tempo nas próximas...