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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

As Manifestações Budistas (1 de 2)




O budismo em cada lugar se liga às manifestações locais. No Japão isso também aconteceu. O Japão não é bem zen budista. É shinto-zen budista. Está misturado com uma religião xamânica shintoísta. Há umas coisas que você percebe que não tem nada a ver com o que você aprendeu sobre o zen no Brasil. No budismo tibetano, eles estão ligados à religião Bon, que era uma religião xamânica anterior de lá. E é isso que você vê que é tão diferente no budismo tibetano. Mas para os tibetanos não é estranho.

Agora, aqui no ocidente, está surgindo um zen mais puro. Porque eu estou ensinando aqui e não preciso misturar o zen com nada. E isso só está acontecendo no ocidente porque o aluno que vem aqui não quer isso. Ele quer lógica. Ele não quer deuses nem coisas assim. Mesmo que quando você anda aqui no zendô veja estátua de Kannon ali na sala, Bodhisatva da compaixão. Lá na cozinha uma estátua de Idaten, que é na realidade uma divindade incorporada. Mas é tradicional estar na cozinha, porque ele rapidamente corre pelo mundo para juntar os alimentos para alimentar a sangha. Então é uma divindade mítica. Não tem a ver com o budismo original, tem a ver com o budismo que adaptamos através dos tempos para melhor chegar as pessoas de cada cultura.

(Continua) 

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Não acredite em mim, teste e experimente"



A questão do despertar é um problema porque as pessoas têm uma educação hoje que não tinham em 1910, 90% da população do Brasil era analfabeta, hoje a proporção se inverteu. Nos países do Norte da Europa o número de pessoas que se declaram sem religião, ateus, está ultrapassando 50% e as igrejas são vendidas para outras coisas. Na Holanda existem igrejas que agora são usadas como academias de esportes. Se o mundo continuar assim, só esta forma de religiosidade que nós estamos ouvindo aqui tem chance de sobrevivência, porque ela exige um determinado tipo de pensamento, exige uma mente cética e só o budismo diz “não acredite em mim, teste e experimente”.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A mente que se engana


Pergunta – O senhor falou da mente que se engana, como eu sei que estou enganado?

Monge Genshô -  O que você pensa sobre isso, como você sabe que sua mente está enganada? Como você sabe que está separada das outras pessoas? Você olha para todas essas pessoas e as vê separadas de você. Mas você não vive sem elas. Não vive sem nada que existe, sem sol, sem chuva, árvores, pássaros, na realidade você é tudo isso misturado. Se você pensar sobre o que é esse guardanapo de papel em sua mão, do que ele é formado? Chuva, sol, árvore, carbono, tudo igual a você. Você é tudo isso junto, no entanto você olha para tudo isso e diz: “Eu estou separado”. Isso em si só já é uma grande ilusão. Por acreditar nessa ilusão é que você nasce e morre. Chamamos isso de ignorância. Por sermos ignorantes nascemos e morremos e acreditamos estar separados. 

 Os homens criam muitas histórias para acreditar, todas são ilusórias. As crenças são ilusões, quando você chega no budismo ele não lhe oferece nada em que crer ou algo do tipo, “acredite no que o professor está dizendo”. O budismo é experiencial. Teste e experimente, se funciona para você é bom se não funciona, desista. Se você não gosta do professor porque ele é muito desagradável dizendo coisas desoladoras, pode ir embora. O budismo não faz força para atrair pessoas, mais ainda, costuma dizer coisas para as pessoas irem embora. O Zen Budismo é para despertar, não para acreditar. Uma pergunta que sempre surge é: “Em quê o Budismo acredita?”, a resposta, não sei, isso é problema seu que acha que é preciso alguma crença.

Sempre conto essa historinha ilustrativa, se vem alguém na Sangha dizendo que acredita em homenzinhos verdes de uma galáxia distante, não há problema algum nisso, podem sentar e meditar. Agora, se os homenzinhos falarem com você então o caso é grave e é melhor procurar tratamento. O Zen tem sempre muitas histórias. Conta-se uma história de um monge que sentado em meditação dizia estar vendo os discípulos de Buda em seu redor cantando mantras. O mestre então mandou que os outros monges lhe dessem um banho de água gelada e dessa forma resolveu o problema. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Budismo e Deuses




Monge Genshô: Seu nome, seu título, “Buddha”, esta raiz “Bud”, significa acordado, desperto. Então “Buddha”, significa “aquele que acordou”. Mas acordou do quê? Acordou de tudo aquilo que as pessoas se apoiam, as ilusões. Ele acordou e entendeu que todos os deuses do hinduísmo não existiam por si mesmos. A partir de então, para o budismo, os deuses existem porque as pessoas crêem neles. Não é que eles existam e as pessoas, por causa disso, depositam crenças neles. Não. Eles existem criados pelas crenças. São os crentes que sustentam a existência dos deuses. Quando o último crente deixa de acreditar em um deus, esse deus morre. É como aquela famosa passagem do poeta – “O grande deus Pan morreu. Ninguém mais acreditava no deus Pan, então ele desapareceu”.