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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Somos movimento cármico



Pergunta: Ouvindo suas palavras me veio à mente uma analogia. É como se pegássemos um livro da Agatha Christie com 30 ou 40 personagens e de repente chega um personagem que diz: “não tem essa história de crime, nós todos somos personagens de um livro e saímos todos da cabeça dessa autora, somos todos uma coisa só”. Óbvio que a analogia tem um limite, mas entra algum conceito desse tipo quando se diz que tudo é uma coisa só? A ideia de haver algo maior e que quando tudo se dissolve surge algo, como uma mente búdica?
Monge Genshô: Não é bem isto. Na verdade nós somos diferentes, temos características, temos personalidades e estamos aqui nos manifestando no mundo com essas ego-entidades. O que o ensinamento de Buda quer dizer é: tudo bem, os redemoinhos que aparecem na natureza estão ali de fato, eles existem, mas eles, assim que desaparecem, são só atmosfera. O que realmente existe é a atmosfera. Redemoinhos são movimentos cármicos, por conta desses movimentos você tem impulsos e isso se manifesta como a ilusão de um eu, que é como o eixo do redemoinho. Tudo gira em volta do eixo do redemoinho, mas é real esse eixo? Não, ele é só função do redemoinho. Nessa analogia o carma é o movimento que faz girar, que levanta poeira e que faz aparecer o redemoinho. Nós olhamos e dizemos: “aí estou eu”, mas na verdade essa entidade é puramente ilusória, puramente temporária, evanescente, produto de causas e condições, mas não é algo independente em si. O difícil é nós enxergarmos isso, esta interdependência, em nós mesmos. (continua)