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sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Verdadeira Natureza




Aluno: o que seria a verdadeira natureza? Existem exemplos?

Monge Genshô: Podemos usar analogias. Uma analogia que usei e gosto bastante é a dos redemoinhos. Porque existem ventos cármicos, porque existem impulsos, movimentos e etc., nós existimos. Assim como o redemoinho, que só gira porque existem diferenças de temperatura que provocam ventos.

Você olha no centro do redemoinho e vê um eixo, mas ele é completamente vazio. Ele só existe porque há movimento em volta. Quando some o vento, o que acontece com o redemoinho? Ele desaparece. O que realmente existe é a atmosfera. O céu azul sempre permanece. Os redemoinhos surgem porque existe diferença de temperatura. Porque existe carma, existe o redemoinho que é você. Porque existe movimento, parece que tem um eixo. Esse eixo em torno do qual tudo gira você chama “eu”.

Mas a sua verdadeira natureza é o céu azul, que você não enxerga, porque só enxerga o redemoinho. O redemoinho surge e tem medo de desaparecer. Ele quer ser eterno. Por isso as religiões inventaram a alma: tem uma alma no centro do redemoinho. Essa alma nasce de novo em outro redemoinho; ou então essa alma vai para o céu dos redemoinhos, que é um céu especial, onde os redemoinhos ficam girando sem parar. O Budismo diz outra coisa: que isso também é ilusão - não existe o céu dos redemoinhos, o eixo do redemoinho também não existe, pois só é formado pelo movimento, e só a extinção do movimento vai causar a libertação. Você é, no fundo, o céu azul.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A arte de descartar os impulsos

O redemoinho também procura satisfazer o seu impulso, ele vai onde há diferenças de temperatura que o alimentem. E nós fazemos isso. Nós andamos pela vida procurando satisfazer os nossos impulsos. Paixões surgem e se esgotam, surgem e se esgotam, surgem e se esgotam.... e você não para de procurar. Isso é o Sansara, o mundo de perambulação. Eu ando para lá e para cá tentando satisfazer o meu impulso, que nem o redemoinho. Quando cessam as diferenças de temperatura o redemoinho morre, não é mais alimentado, desaparece.
O processo é assim, primeiro você compreende intelectualmente. Aí faz zazen, e surge um impulso e você descarta, surge outro impulso e você descarta... surge um pensamento prazeroso, e você mergulha naquele prazer, e fica lá no zazen se comprazendo com aquela história prazerosa, e não sai. Ou mergulha num mundo de torpor e sonolência, e essa sonolência também não permite clareza, você não sai. Ou uma chama qualquer, como uma raiva, excita, e você não sai, porque você continua alimentando o redemoinho.
Então cada vez que o impulso vem, você descarta e volta para o momento presente, que é calma, não está acontecendo nada, a parede está parada na sua frente, o incenso está queimando bem devagar, os colegas estão imóveis, ninguém empurra você, ninguém diz nada, ninguém elogia, ninguém critica, nada, então calma, calma, calma. (continua)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A iluminação é ver o puro céu azul


Quando minha mãe morreu eu levei suas cinzas e joguei no mar de uma praia da cidade onde ela nasceu e vi as cinzas se dissolvendo na água. Eu acho que essa é uma lição que todos deveríamos experimentar, ao invés de tentar conservar ou delimitar, nós deveríamos deixar espalhar, abrir as mãos, porque na realidade isso é uma lição sobre a nossa verdadeira natureza. Então é natural que nós tenhamos amor pelos filhos, mas essa é uma manifestação da nossa ego entidade, porque nós queremos permanecer para sempre, mas nós não enxergamos que nós somos o próprio sempre.
Numa outra analogia que já usei várias vezes: nós somos redemoinhos na atmosfera e o ego é o eixo. Você olha para aquele eixo e diz: “está ali o eixo do redemoinho”, mas nós sabemos que não tem nada nesse eixo, ele só existe porque tem movimento em volta, quando cessa a energia que movimenta o redemoinho o que resta? O puro céu azul. O redemoinho quer permanecer para sempre talvez. Ele acredita no seu eixo, no seu ego, mas na realidade ele é o puro céu azul e só existem redemoinhos porque há energia, calor, movimento e desequilíbrio na atmosfera. Mas o puro céu azul sempre esteve lá. O que nós tínhamos que enxergar em nós é o puro céu azul, mas como não enxergamos, então a energia do nosso redemoinho tende a se manifestar novamente em um novo redemoinho e esse novo redemoinho se diz “eu sou”, “eu quero permanecer”, “eu quero ter filhos”, “eu quero continuar”. Ele também não consegue se ver como puro céu azul. A iluminação é ver o puro céu azul. (continua)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Somos movimento cármico



Pergunta: Ouvindo suas palavras me veio à mente uma analogia. É como se pegássemos um livro da Agatha Christie com 30 ou 40 personagens e de repente chega um personagem que diz: “não tem essa história de crime, nós todos somos personagens de um livro e saímos todos da cabeça dessa autora, somos todos uma coisa só”. Óbvio que a analogia tem um limite, mas entra algum conceito desse tipo quando se diz que tudo é uma coisa só? A ideia de haver algo maior e que quando tudo se dissolve surge algo, como uma mente búdica?
Monge Genshô: Não é bem isto. Na verdade nós somos diferentes, temos características, temos personalidades e estamos aqui nos manifestando no mundo com essas ego-entidades. O que o ensinamento de Buda quer dizer é: tudo bem, os redemoinhos que aparecem na natureza estão ali de fato, eles existem, mas eles, assim que desaparecem, são só atmosfera. O que realmente existe é a atmosfera. Redemoinhos são movimentos cármicos, por conta desses movimentos você tem impulsos e isso se manifesta como a ilusão de um eu, que é como o eixo do redemoinho. Tudo gira em volta do eixo do redemoinho, mas é real esse eixo? Não, ele é só função do redemoinho. Nessa analogia o carma é o movimento que faz girar, que levanta poeira e que faz aparecer o redemoinho. Nós olhamos e dizemos: “aí estou eu”, mas na verdade essa entidade é puramente ilusória, puramente temporária, evanescente, produto de causas e condições, mas não é algo independente em si. O difícil é nós enxergarmos isso, esta interdependência, em nós mesmos. (continua)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Tudo ação e conseqüência



Nós abrimos os nossos olhos, e vemos o mundo em volta e as pessoas que estão na sala, um homem lá na frente usando uma fantasia de Monge, e dizemos: “eu estou separado”. Estou vendo todos os outros ali. Todo nosso corpo nos informa isso. “Eu” estou separado. Só que essa separação é nosso engano fundamental. O nosso “eu” é o nosso engano. E esse “eu” nós queremos que sobreviva à morte. No entanto, se vocês pensarem bem, ele não sobrevive a uma doença de Alzheimer. Você fica velho, começa a caducar, não sabe mais quem é. Ou Parkinson avançado, ou AVC cerebral, você perde sua memória, tem uma amnésia, está numa cama de hospital, eu pergunto a você: “quem você é”? Você diz: não sei. Como foi seu passado? Não lembro. E todos vocês sofrem de amnésia, não é? Você lembra uma vida antes dessa? Não lembra.  Este “eu” é desta vida, se há um “eu” anterior você não lembra.

Como você quer que esse “eu” que não sobrevive a uma doença, sobreviva a uma coisa “um pouquinho” mais grave, que é uma morte e uma dissolução completa do corpo?

Então, Buda “VIU” essa ilusão. Pra nós entendermos melhor essa ilusão, o “eu” é mais ou menos como o eixo de um redemoinho. Há movimento, você vê o centro do redemoinho e diz: há um eixo. “Parece” que há um eixo. Na verdade, há um, enquanto existe o redemoinho, cessou o redemoinho, cadê o eixo? Nós somos redemoinhos na existência, movimentos e fluxos de pensamentos, paixões, e etc. Nosso “eu” é o eixo, mas na verdade, nós não somos redemoinhos. Nós somos o céu azul. Quem sente que é o céu azul, resolveu nascimento e morte. Isso é o Budismo.

Nem almas, nem espíritos, nem ninguém lá fora pra nos ajudar. Nem ninguém pra nos premiar, nem ninguém para nos castigar. Tudo é ação e conseqüência. Você caminha sobre os resultados dos seus atos. Os seus atos provocam resultados. Os resultados, são tudo que você tem. Nós somos “movimento” no universo. Fenômenos, como os redemoinhos.

Como as bolhas, dentro de uma garrafa de champagne. Eu estava em Guaratinguetá, e expliquei, com esta outra analogia: bolhas, dentro de uma garrafa de champagne, são interações entre gás carbônico e o líquido. Você olha e vê a bolha. Ela surge, como que do nada. Sobe, explode na superfície. Todos os constituintes da bolha continuam ali. O gás carbônico continua, o líquido continua. A bolha pensa: “eu sou separada”. Ela olha para as outras bolhas e diz: “eu sou separada da outra bolha” e você que olha a garrafa, vê as bolhas separadas, não vê? Mas as bolhas existem por si mesmas? Não. Elas só existem como gás carbônico e líquido. O vento não existe por si mesmo. O vento é movimento do ar. As ondas do mar não existem por si mesmas elas são movimento da água. Vocês não existem por si mesmos, são movimento de pensamentos. São um fenômeno surgindo e desaparecendo.

Eu falei que contei esta história em Guaratinguetá, porque havia a filha de um amigo meu que estava lá, e de noite eles tiveram uma conversa em casa, que ele me contou. A mãe disse assim: “vai dormir, bolha”. E ela disse assim: “bolhas são vocês, eu sou champagne”. E eu pensei: “Ah! Ela entendeu!”.

Vocês não são bolhas, são champagne. Não são redemoinho, são o céu azul. A dificuldade é enxergar isso. Vocês não são ondas, são o próprio oceano. Quem enxerga isso, não se preocupa com as coisas cotidianas, normais da vida, porque tudo vai passar. Tudo é impermanente, tudo é transitório. Tudo apenas flui. Mas se ele consegue perceber que ele “É” o céu azul, não se preocupa com o início e fim dos redemoinhos. Por isso as respostas tão absurdas dos mestres do Zen.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Redemoinho como analogia



Pergunta – Fazendo uma comparação com o espiritismo: quando morremos, o que acontece com nossa “alma” ou “espírito” até que tenhamos outro corpo?

Monge Gensho – No budismo não falamos em almas nem em espíritos. Não falamos em uma existência corpórea separada, o que seria nós mesmos, separados de um corpo. Essa é uma noção grandemente originária no ocidente do Platonismo. Mas a noção de uma alma separada do corpo, por exemplo, não é uma noção existente no judaísmo primitivo. No Cristianismo, vem por influência grega e o Kardecismo é um herdeiro dessa tradição. É um sincretismo entre idéias hindus, budistas e cristãs. Na verdade, o budismo apenas declara que o carma, que é um movimento no universo, provoca nascimento. Mas não fala de uma alma que conserva seu “eu”, embora possamos encontrar conceitos um pouco mais próximos disso no Bardo, que é o ensinamento pós-morte do livro Tibetano dos mortos. Ele se aproxima dessa noção de uma consciência, de algo que está carregando, de uma entidade que irá renascer. Mas a explicação melhor dentro do Zen seria: olhe para um redemoinho, ele tem movimento, energia e forma e quando você olha para ele, vê um eixo em torno do qual tudo gira, mas esse eixo existe, é algo? Não. O movimento por si mesmo cria a noção de um eixo, mas não é necessário que o eixo exista para que algo seja apegado a ele. É o próprio movimento que provoca o renascimento.

Pergunta – Sei que isso é limitado, precisamos criar uma imagem para podermos entender, mas seria como ondas no oceano?

Monge Gensho – A onda continua, mas a água não se move com a onda. As ondas passam através da água. Quando eu falo o ar vibra, há ondas sonoras, mas o ar não se move para que o som chegue até seus ouvidos, só há vibração, que é pura energia. Não se moveu nada essencialmente, no entanto, o som chegou até aí. Acho que o redemoinho é uma imagem muito boa, porque permite a idéia de uma entidade e coloca tudo num movimento. Você, agindo na sua vida, provoca movimento. Há movimento, há formas de energia, impulsos, desejos e apegos - esses formam o carma. O que renasce? O que provoca o renascimento? O carma.

O carma tem um “eu”? Não. O carma provoca um nascimento e o nascimento diz a si mesmo, “eu sou”. Então, é o carma que provoca o surgimento de identidades, não são as identidades que carregam carmas. Essa é a essência desse pensamento, que é um pouco mais sutil. É mais fácil pensar num espírito que carrega uma mochila de carmas nas costas, não é verdade? Mas não é assim. É o carma que provoca o surgimento de identidades. Nós somos identidades que surgiram por causa de carmas, nossas identidades são ilusórias. Somos um sonho.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Redemoinho


P: Tenho me debatido com algumas questões referentes ao renascimento e carma.
Apesar de ter lido suas respostas às perguntas no site Daissen, ainda tenho dúvidas quanto ao como e por quê se diz que há carma individual enquanto se afirma que o "eu" é ilusão. Em minha lógica infantilóide, não pode haver carma individual se o "eu" for uma ilusão. O carma seria então sempre universal, se manifestando em tudo e todos de forma indiferente.

R: O carma que gera vc é em parte um quantum mantido junto por um conjunto de desejos e impulsos, neste sentido individual, mas também influenciado por um carma de família, país, etc.. portanto se manifesta em todos mas também tem um componente unificado bem marcante.
Agora, este carma ao se manifestar , gera a noção de um eu naquele que vive e pensa, porem este eu particular é momentâneo, limitado a esta existência.

P: Se o "eu" deixa de existir quando abandona os "agregados", como o carma pode "seguir" o que resta, se é que resta algo? O que resta não é, usando uma palavra neutra, o "um"?

R: Imagine um redemoinho dentro da água, ele tem um impulso próprio, uma manifestação que o destaca dentro da vacuidade (a água nesta analogia), é vacuidade sem tirar nem por, mas só tem uma individualidade porque tem movimento. Se este redemoinho se desfaz mas seu movimento desencadeia outro redemoinho mais tarde, ao sabor da corrente, o novo redemoinho tem uma nova identidade e características muito semelhantes pois detem a mesma energia cinética, porém não é o mesmo redemoinho, é outro. (Ou será que é o mesmo? é ou não é?)

P: Se sim, como o carma pode seguir nova manifestação (outro "eu") do "um"?
Se não, então o que resta quando, simplificando, morremos?

R: Resta o carma. (a energia que gera o redemoinho, e ela não consegue evitar se manifestar como redemoinho e com as mesmas marcas
(características)) ela não precisa um eu para se agarrar, assim como o redemoinho não precisa de um eixo em torno de que girar, ele gira e por isto imaginamos um eixo, e damos um nome a este eixo: EU)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Redemoinhos


P: Se o "eu" deixa de existir quando abandona os "agregados", como o carma pode "seguir" o que resta, se é que resta algo? O que resta não é, usando uma palavra neutra, o "um"?

R: Imagine um redemoinho dentro da água, ele tem um impulso próprio, uma manifestação que o destaca dentro da vacuidade (a água nesta analogia), é vacuidade sem tirar nem por, mas só tem uma individualidade porque tem movimento. Se este redemoinho se desfaz mas seu movimento desencadeia outro redemoinho mais tarde, ao sabor da corrente, o novo redemoinho tem uma nova identidade e características muito semelhantes pois detem a mesma energia cinética, porém não é o mesmo redemoinho, é outro. (Ou será que é o mesmo? é ou não é?)

P: Se sim, como o carma pode seguir nova manifestação (outro "eu") do "um"?
Se não, então o que resta quando, simplificando, morremos?

R: Resta o carma. (a energia que gera o redemoinho, e ela não consegue evitar se manifestar como redemoinho e com as mesmas marcas
(características)) ela não precisa um eu para se agarrar, assim como o redemoinho não precisa de um eixo em torno de que girar, ele gira e por isto imaginamos um eixo, e damos um nome a este eixo: EU)