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quarta-feira, 13 de junho de 2018

A Mudança da Sociedade



O que nós vemos no Brasil hoje e nos causa desconforto são fruto da própria mitologia brasileira. Quem são os heróis míticos do início do folclore brasileiro? Curupira, Saci, Macunaíma - todos são trapaceiros. Eles são nossos heróis míticos, os espertos. Nós temos lá no fundo da nossa mitologia, lá dentro do nosso cérebro, na nossa cultura, algo que diz que os espertos, os trapaceiros, os que são capazes de enganar todo mundo, esses é que são os exemplos. Temos até um ditado: “o mundo é dos espertos”, e esse conjunto de mitos é que faz a nossa sociedade ser o que é.

O budismo acredita que nós mudamos a sociedade não através de força ou imposições e sim através da mudança do que você pensa, da mudança interna das pessoas. Se as pessoas acreditarem que vale a pena ser honesto, por exemplo, nós teremos uma sociedade mais parecida nesse sentido com a japonesa, onde você pode esquecer algo de valor e ao voltar horas depois esse objeto ainda estará lá, pois o padrão, o que se espera das pessoas, é um comportamento honesto. (Não que os trapaceiros não existam nos mitos japoneses, caso de Raiko , por exemplo, mas o imaginário que se tornou padrão na sociedade é o da consideração pelos outros, diferentemente do Brasil em que o povo perdoa e reelege os trapaceiros). Por isso hoje os japoneses não gastam dinheiro com polícia, com armamento, etc. É uma sociedade onde roubar é vergonhoso, e a vergonha é algo tão importante que quando eles fazem algo errado a única saída é se matar. Eu já falei muitas vezes que isso seria uma epidemia de mortes no Brasil, porque esse conceito não está impregnado aqui.

Obs: Sobre a pergunta: O Curupira, conhecido protetor das matas, é também trapaceiro? Sim, este é um dos aspectos deste personagem folclórico: "Os contadores de lendas dizem que o curupira adora pregar peças naqueles que entram na floresta. Por meio de encantamentos e ilusões, ele deixa o visitante atordoado e perdido, sem saber o caminho de volta. O curupira fica observando e seguindo a pessoa, divertindo-se com o feito."

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]