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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

As Origens das Regras


No jogo de xadrez, mudaram-se tantas coisas por causa do ambiente que inicialmente a peça mais forte do jogo de xadrez era um Marechal de Campo, que era um general, e ficava ao lado do rei. Na idade média, quando o jogo chegou na Europa, esse Marechal de Campo era originalmente chamado Vizir, porque o jogo veio com os árabes, na invasão islâmica. Mas isso não apoiava a fé católica, então tomou-se a providência de fazer do Marechal de Campo, o Vizir, não general, mas a Dama, Nossa Senhora, e ela passou a ser a peça mais poderosa. “La Dame”, a rainha em português, mas em várias outras línguas é a Dama. E é o elefante, “el alfil”, até hoje chamado assim em espanhol, uma denominação arcaica do elefante. Alfil em Portugal virou bispo, porque o bispo era a Igreja. Com a dama, Nossa Senhora, o bispo , o xadrez pronto, virou um jogo católico, religioso, então todo mundo podia jogar sem problemas. Assim as coisas ocorrem. Quando olhamos a origem das coisas sempre podemos dar risadas.

Para ilustrar um pouquinho mais, há uma história famosa de um monastério onde apareceu um gato e ninguém queria mandar o gato embora, porque os Monges gostavam de acariciá-lo, e o gato começou a ir à cerimônia, Chokka, e andava de um lado para o outro. Então o Mestre perdeu a paciência com a história do gato perturbando a cerimônia e mandou amarrá-lo. E em todas as cerimônias eles amarravam o gato antes de iniciar. Passaram-se muitos e muitos anos, e, naquele mosteiro, não se podia fazer cerimônias se não houvesse um gato amarrado. Assim funciona a mente humana.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei] 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Errado não, Diferente


Quando nós nos sentamos para fazer cerimônia de oryokis, vocês receberam instruções, então aprenderam as regras. Quando você está fazendo, você esquece de determinada instrução e: “ah, me esqueci”, e fica chateado. Alguém até pode olhar e dizer “aha, errou!”, ambos estão loucos. Alguém pode chegar para mim e dizer: “Sensei, o senhor não vê que está fazendo errado?”. É como diz Saikawa Roshi, quando alguém diz: “o senhor não viu que no ritual fulano fez assim e está fazendo errado”, ele diz: “errado não, diferente”. Diferente, é o que ele tenta ensinar. Esse conceito de errado e certo, aplicado sobre essas coisas não tem o menor sentido. Sim, as regras foram criadas para seguir e fazer o procedimento de determinada forma para que você fique atento a ela, mas se você achar que essas formas são o verdadeiro, o certo, alguma coisa transcendental que os Mestres do passado ensinaram, você está louco, porque não foi nada disso.

Eu posso chegar no próximo sesshin e dizer assim: “não vamos mais fazer isso, vamos fazer assim, diferente”. Pronto, agora o certo é o novo e o antigo, que era certo, não é mais certo. Isso é constantemente feito dentro do Zen pelos Mestres e alguns Monges ficam bravos, porque estão burlando as regras, estão modificando, mas nada é fixo. Apareceu até um movimento no Japão dos que queriam retornar à prática exatamente como era no tempo de Dogen, 800 anos atrás, que diziam: “você tem que entrar por aquela porta assim, e tem que entrar de lá, e não de cá, tem que ser de tal e tal forma, porque esta era a maneira que Dogen fez”. Só que Dogen veio da China e trouxe métodos de lá e modificou. Tettsu Gikai também modificou. No passado mais remoto ainda, lá pelo ano 800, Pai-Chang, em japonês Hyakujo, mudou as regras para os mosteiros. Se você ler as regras antigas do tempo de Buda, os Monges não cozinhavam, era vedado aos Monges fazer qualquer coisa, eles tinham que mendigar comida pronta. Se a comida não lhe fosse dada, eles não iriam comer, porque eles não podiam amanhar a terra, cultivar, plantar, colher, cozinhar, não podiam fazer nada disso. Está lá nos Sutras no tempo de Buda, no Vinaya, mas quando o budismo chegou na China e o Zen teve que ir para as montanhas, houve perseguições e os Monges tiveram que fazer sua comida senão morreriam. Aquela prática da Índia não era era possível lá.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 18 de junho de 2018

É Possível Mudar



Há uma história de um monge, amigo meu, que foi assaltado e a esposa perdeu o filho na ocasião. Nunca mais tiveram filhos. Depois do acontecimento ele disse: “que bom que eu não tinha uma espada”, porque ele seria um assassino naquela hora, se tivesse esse recurso. Então, numa sociedade como a nossa há um enorme desperdício e pobreza por causa dessa cultura, da falta do agradecimento e do respeito ao outro. 

Esses princípios foram impregnados na cultura japonesa através dos séculos pelo budismo. Os livros mostram que antigamente havia muitos assaltantes nas estradas japonesas, lá era um país cheio de guerras civis, e agora tudo mudou. Portanto, se eles mudaram, nós podemos mudar também, mas para isso precisamos pensar de outra forma, enxergar esses mitos ancestrais que nos prejudicam e colocar outros valores na sociedade.

As crianças são uma grande chave para essa transformação: se nós as ensinarmos, teremos uma geração nova, capaz de pensar diferente. Esses ensinamentos de Buda, essa maneira de ver de Buda, criou sociedades muito pacíficas.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A Mudança da Sociedade



O que nós vemos no Brasil hoje e nos causa desconforto são fruto da própria mitologia brasileira. Quem são os heróis míticos do início do folclore brasileiro? Curupira, Saci, Macunaíma - todos são trapaceiros. Eles são nossos heróis míticos, os espertos. Nós temos lá no fundo da nossa mitologia, lá dentro do nosso cérebro, na nossa cultura, algo que diz que os espertos, os trapaceiros, os que são capazes de enganar todo mundo, esses é que são os exemplos. Temos até um ditado: “o mundo é dos espertos”, e esse conjunto de mitos é que faz a nossa sociedade ser o que é.

O budismo acredita que nós mudamos a sociedade não através de força ou imposições e sim através da mudança do que você pensa, da mudança interna das pessoas. Se as pessoas acreditarem que vale a pena ser honesto, por exemplo, nós teremos uma sociedade mais parecida nesse sentido com a japonesa, onde você pode esquecer algo de valor e ao voltar horas depois esse objeto ainda estará lá, pois o padrão, o que se espera das pessoas, é um comportamento honesto. (Não que os trapaceiros não existam nos mitos japoneses, caso de Raiko , por exemplo, mas o imaginário que se tornou padrão na sociedade é o da consideração pelos outros, diferentemente do Brasil em que o povo perdoa e reelege os trapaceiros). Por isso hoje os japoneses não gastam dinheiro com polícia, com armamento, etc. É uma sociedade onde roubar é vergonhoso, e a vergonha é algo tão importante que quando eles fazem algo errado a única saída é se matar. Eu já falei muitas vezes que isso seria uma epidemia de mortes no Brasil, porque esse conceito não está impregnado aqui.

Obs: Sobre a pergunta: O Curupira, conhecido protetor das matas, é também trapaceiro? Sim, este é um dos aspectos deste personagem folclórico: "Os contadores de lendas dizem que o curupira adora pregar peças naqueles que entram na floresta. Por meio de encantamentos e ilusões, ele deixa o visitante atordoado e perdido, sem saber o caminho de volta. O curupira fica observando e seguindo a pessoa, divertindo-se com o feito."

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Impulsos Cármicos




Todos os eventos têm causas pregressas. Não há um evento que possamos olhar e dizer que não há causa anterior. Nós somos responsáveis pelo movimento que faz com que permaneça existindo o redemoinho (nosso ego). Nós geramos um movimento pela nossa própria existência que nos sustenta carmicamente e que faz com que este carma se manifeste novamente.

Foi isso o que aconteceu antes, no passado: eu gerei um movimento anterior que me fez nascer nestas condições, com este tipo de corpo, aqui, neste lugar. Havia impulsos pregressos que fizeram com que eu existisse agora, e se eu continuo gerando movimento através das minhas ações, pensamentos, palavras, este movimento, que são os impulsos cármicos, manifestar-se-ão numa próxima existência com as mesmas características. Então, tendemos a repetir vidas, assim como nesta vida tendemos a repetir o mesmo tipo de erro. Vamos lá e cometemos um erro. Depois vamos lá e cometemos de novo o mesmo erro. Aí nos perguntam: “mas por que é que você faz isso?” E nós dizemos: “não sei, eu sou assim, esse sou eu”.

O Budismo não aceita bem isso, porque você pode mudar o seu carma. Então, esse é você, mas você pode mudar.

(CONTINUA)