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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

"Eu o Vi Sem Ver"




A história do budismo é uma história de renascimentos doutrinários. Porque é difícil, mesmo dentro do budismo e dentro da prática dos monges nós encontrarmos bons mestres. É difícil.

Quando Bodhidharma, no ano 600 d.C., chega à China, ele encontra um budismo que já não é aquilo que nós estamos falando aqui. O diálogo dele com o imperador Wu mostra isso claramente. O imperador se considerava budista, um grande budista, um patrocinador do budismo. Ele manda vir aquele mestre que veio da Índia e a primeira pergunta que o imperador Wu faz é: “eu construí muitos templos e mosteiros para o budismo. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso?”. Ele queria trono. Então Bodhidharma, que era um mestre zen, responde “Mérito nenhum, majestade”. O imperador faz outra pergunta: “Então qual é a grande verdade da sagrada doutrina?” E Bodhidharma responde: “vazio ilimitado”. Na realidade ele está dizendo Anatta, nenhuma coisa tem um eu inerente; todas as coisas são vazias de uma identidade própria; todas estão interconectadas; todas são interdependentes. Não existe isso de “eu sou separado”, essa ilusão que nós sentimos de separação. Nós somos o Tudo. 

E Bodhidharma responde isso para o imperador, que não entende essa resposta. “Vazio ilimitado é a grande verdade. E não há nada que possa ser chamado de sagrado”, Bodhidharma responde. E o imperador não entende, se irrita e pergunta: “então quem é que eu tenho na minha frente?”, e Bodhidharma responde: “não faço a menor ideia”, vira as costas e vai embora. 

Depois disso o imperador escreve um poema, manda procurá-lo, mas não o encontra mais - “Eu o vi sem ver”. Bodhidharma não aceita nenhum aluno durante 9 anos. As pessoas vão procurá-lo e ele não aceita ninguém. Ele só aceita Taiso Eka, que tem a coragem de cortar o braço para pedir para ser aluno. Nós vamos fazer essa tradição aqui [risos].

[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Bodhidharma e o Imperador Wu (Parte I)

Bodhidharma se apresenta à frente do imperador Wu, chamado por este, que ouviu dizer que um grande mestre budista havia chegado da Índia, lugar de onde era originário o budismo. Chegando à frente do imperador Wu, este pergunta: 

- Eu, imperador, construí muitos templos e mosteiros para o budismo, que méritos eu acumulei nos céus por ter feito isso?

E Bodhidharma responde:

- Mérito nenhum, majestade.

O Imperador não gosta muito da resposta e diz:

- Então qual é a grande verdade da sagrada doutrina?

E Bodhidharma responde:

- Vazio ilimitado, essa é a grande verdade.

O que ele quer dizer? Que nenhuma coisa tem um "eu" inerente, não existe nada que seja um eu no mundo, nada que seja realmente separado. Vazio ilimitado. E não há nada que possa ser chamado de sagrado. 

É uma resposta muito interessante, não há nada que possa ser chamado de sagrado, pois tudo é sagrado. Se tudo é uno, tudo é sagrado. Não há nada separado do sagrado, isso é sagrado, aquilo é profano. Isso é divisão na cabeça dos homens. Tudo é sagrado. 

O imperador não entende a resposta e pergunta:

- Então quem é que eu tenho na minha frente?

E Bodhidharma responde:

- Não faço a menor ideia.

O que é uma resposta coerente com a anterior. Ele diz, "eu não faço a menor ideia de quem está na sua frente", porque eu não sou um eu separado, eu não posso nomear a mim de maneira tal a me distinguir do resto, se eu fizer isso estarei elaborando um engano. É isso que Bodhidharma responde.

Aí Bodhidharma sai, atravessa o rio e vai pra Shaolin, interna-se numa caverna e diz-se que ficou 9 anos fazendo zazen.

(continua)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sem ser visto


Mais tarde o imperador Wu sentiu que um homem superior tinha partido e escreveu um epitáfio para Bodhidharma em que dizia: "eu o vi sem ver, conheci sem ter conhecido, agora como dantes eu me arrependo e lamento isto". Na verdade, o esclarecimento e o despertar são invisíveis para olhos não despertos. Pode passar por nós Shakyamuni Buddha e se estivermos perdidos em nossos pensamentos, terá passado por nós apenas um homem, um ruído de passos, uma brisa, nada mais.