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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O Eu e o Sofrimento




Rodamos o mundo tentando criar valores especiais para nós, para o nosso nome, para a nossa fama, para a nossa glória, sendo que o nosso valor é igual ao das folhas de grama. Enxergar isso é a iluminação. Então, quando você se senta em zazen, o verdadeiro pensamento é Hishiryô: pensar além de pensar.

Se você abandonar todos esses conceitos e noções acerca de si mesmo, então você cria espaço para ver sua verdadeira natureza, e se você enxergar a sua verdadeira natureza, você se integrou a esse universo. Então, este integrado, este que tem tal percepção, não nasce e nem morre. Por isso eu pedi para ler ontem o Sutra do Coração em português no início do sesshin. Ali no Sutra do Coração está escrito que um Bodhisattva, quando enxerga a vacuidade dos agregados, livra-se instantaneamente de toda dor e sofrimento, porque toda dor e sofrimento, toda angústia surge do fato de você acreditar em si mesmo. Porque você crê em você e quer ser eterno e continuar sendo quem você é, por causa disso há sofrimento.

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

"Eu o Vi Sem Ver"




A história do budismo é uma história de renascimentos doutrinários. Porque é difícil, mesmo dentro do budismo e dentro da prática dos monges nós encontrarmos bons mestres. É difícil.

Quando Bodhidharma, no ano 600 d.C., chega à China, ele encontra um budismo que já não é aquilo que nós estamos falando aqui. O diálogo dele com o imperador Wu mostra isso claramente. O imperador se considerava budista, um grande budista, um patrocinador do budismo. Ele manda vir aquele mestre que veio da Índia e a primeira pergunta que o imperador Wu faz é: “eu construí muitos templos e mosteiros para o budismo. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso?”. Ele queria trono. Então Bodhidharma, que era um mestre zen, responde “Mérito nenhum, majestade”. O imperador faz outra pergunta: “Então qual é a grande verdade da sagrada doutrina?” E Bodhidharma responde: “vazio ilimitado”. Na realidade ele está dizendo Anatta, nenhuma coisa tem um eu inerente; todas as coisas são vazias de uma identidade própria; todas estão interconectadas; todas são interdependentes. Não existe isso de “eu sou separado”, essa ilusão que nós sentimos de separação. Nós somos o Tudo. 

E Bodhidharma responde isso para o imperador, que não entende essa resposta. “Vazio ilimitado é a grande verdade. E não há nada que possa ser chamado de sagrado”, Bodhidharma responde. E o imperador não entende, se irrita e pergunta: “então quem é que eu tenho na minha frente?”, e Bodhidharma responde: “não faço a menor ideia”, vira as costas e vai embora. 

Depois disso o imperador escreve um poema, manda procurá-lo, mas não o encontra mais - “Eu o vi sem ver”. Bodhidharma não aceita nenhum aluno durante 9 anos. As pessoas vão procurá-lo e ele não aceita ninguém. Ele só aceita Taiso Eka, que tem a coragem de cortar o braço para pedir para ser aluno. Nós vamos fazer essa tradição aqui [risos].

[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A Interdependência



Aluno: Os conceitos de vazio e o conceito de interdependência eles têm relação (são a mesma coisa)?

Monge Genshô: Não. (Não são a mesma coisa) O conceito de vazio está muito ligado a “anatta”, a negação de um eu. O conceito de interdependência, interconexão, está ligado exatamente ao fato de que nenhuma coisa é independente, todas são ligadas, dependentes. Nada existe isolado. Essa coisa existe porque aquela existe, porque aquela existe. Nós somos seres constituídos de átomos muito antigos, átomos de ferro que andam no nosso sangue, que enferrujam no pulmão, e levam oxigênio para as células e trazem dióxido de carbono, etc e tal. Esses átomos são velhíssimos, muito, muito velhos. Eles são anteriores à existência da Terra.

Nós somos dependentes desse universo. Completamente. Nosso funcionamento, como vida na Terra, é dependente das plantas, dos outros animais, uma coisa está amarrada na outra, e se não fosse uma, a outra não sobreviveria. A Terra parece, na verdade, um acidentalismo cósmico raríssimo. Ela parece isso, parece uma coisa muito rara, nós olhamos em volta e não vemos nenhum lugar onde a vida possa se tornar complexa. Embora nós tenhamos a esperança de encontrar vidas em outros planetas, provavelmente será vida primitiva. Vida sofisticada parece tão rara no universo e tão afastada de nós, que é difícil de encontrar.

Isto o budismo sempre disse, que a oportunidade de nascer como ser humano é raríssima. Se nós olharmos a quantidade de espécies que já surgiram na Terra, há uma estimativa de mais ou menos 30 bilhões de espécies diferentes. Algumas são muito mais abundantes que a nossa, pra cada um de nós, tem um milhão e meio de formigas por exemplo. Mas desses 30 bilhões de espécies diferentes, cada espécie de formiga é uma espécie, e os homens só têm uma espécie que sobreviveu, então, de 30 bilhões só há uma que chegou a esse ponto de se reunir, sentar e perguntar: “Quem eu sou? Sou eterno ou não? Como é que é o fim das coisas?”. Só essa espécie desenvolveu essa angústia existencial, só essa conseguiu olhar para si e dizer isso.

Seria muito interessante encontrar outros. Mesmo sendo a Terra pequena, em geral, as pessoas não sabem nada do budismo. O budismo parece uma coisa muito estranha e completamente fora da vertente das religiões, porque ele diz o contrário, ao invés dele dar apoio, porque as pessoas vêm procurar apoio nas religiões, o que o budismo, especialmente o Zen faz? Tira, tira o apoio. “Ai eu queria tanto continuar, queria tanto que você me dissesse que eu vou continuar”. E ai você vêm e diz: “Mas por que você acha que vai continuar se você não sobrevive nem mesmo a uma doença?”. Só pode continuar alguma outra coisa, seus impulsos e seus atos,  mas SE continuarmos, você vai se manifestar de novo como criança e vai dizer assim: “Quem eu sou?”, e sua mãe vai dizer: “Você é Sofia”, e você: “Ah, sou Sofia, meu nome é Sofia”. Qual é seu nome? “Sofia”. Agora você vai ser Sofia, mas antes disso estava completamente esquecida.

Você se lembra da sua vida anterior? Há algumas especulações sobre o fato de que crianças pequenas (tem um livro especulativo, embora seja ligado a pessoas da medicina) têm memórias. Então listam 60 casos de crianças narrando histórias: “na minha vida pregressa eu estava em tal lugar, era assim”. Vão a tais lugares e elas descrevem esses lugares, ou até localizam pessoas que conheceram, etc. Mas, mesmo com esse tipo de relato nós não temos uma evidência concreta para verificar. Eu “tendo” a achar que faz sentido. Pelo menos dentro do budismo faz sentido. Mas com certeza, aos quatro anos, o cérebro sofre uma espécie de reprogramação, onde a memória dos quatro primeiros anos é apagada e começa de novo. Parece que todos passam por isso. Em todo caso, eu não conheço pessoas adultas que relatam sua vida anterior com alguns laivos de verossimilhança. Normalmente encontramos pessoas que dizem que fizeram regressão ou hipnose e era “Cleópatra”. Já devo ter conhecido umas quatro ou cinco. Eu contei para vocês, esses dias um rapaz escreveu dizendo que ele era o “Rei Ricardo, Coração de Leão”. É bastante interessante, eu estou aguardando um que vai me escrever dizendo que era uma criminoso sem vergonha, fui executado, torturado. Sempre eram reis ou rainhas.

Por outro lado, apesar de conceitos separados, interdependência e vacuidade tem entre si o fato de que os fenômenos não existem por si mesmos, dependem um do outro, não são isolados como disse há pouco, desta forma podemos dizer que é condição da vacuidade de um eu o fato de que todas as coisas são ligadas entre si, respondo "não" para que não se pense que estes conceitos são uma mesma é única coisa.