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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Nossa Verdadeira Natureza


O que seria nossa verdadeira natureza? Não é quem nós somos, seres humanos, aqui e agora. Nossa verdadeira natureza está além de nascimento e morte. Nós somos seres do universo, manifestações cármicas do próprio universo, ou seja, ondas de energia se manifestando. Esse universo todo de manifestações nós chamamos no Budismo de vazio, ou shunya, em sânscrito. Essa palavra quer dizer: vazio de qualidades, intenções, impessoalidade. Não é um Deus, mas todas as manifestações são manifestações do próprio vazio e o vazio só se manifesta através das formas. 

Por isso o Sutra do Coração da Sabedoria, diz: “forma é vazio, vazio é forma”. É este o significado desta frase: KU SHIKI I FU. KU, em chinês arcaico, significa “vazio”, e SHIKI significa “forma”. Então o Sutra diz que uma coisa é a outra, e você não pode tirar uma sem tirar a outra. 

Isso significa que nós somos a vacuidade, ou seja, as formas são a vacuidade, e a vacuidade se manifesta como formas. Essa é a essência do Sutra do Coração da Sabedoria, que, por sua vez, é a essência de seiscentos Sutras da coleção Prajna Paramita, a 'Sabedoria da Outra Margem'. Prajna significa “sabedoria”; Paramita significa “da outra margem”. A coleção fala, então, da outra margem do rio da ignorância. Você atravessa o rio da ignorância e chega à outra margem.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Budismo e Religião (2): Abandonar o Barco




Pergunta: A espiritualidade profunda, esta última de concepção e meditação, não está ausente nas outras religiões, porque podemos verificar em freiras religiosas, que se concentram nessa unidade com a divindade e que obtêm o mesmo esclarecimento da concentração e da meditação, não é?

Monge Genshô: Vamos dizer assim, corrigindo um pouco: outros caminhos espirituais conduzem a realizações espirituais. O fato de em alguns deles haver uma prisão em algum aspecto, faz com que o caminho espiritual vá até um certo ponto. Por exemplo, se você pratica um caminho espiritual virtuoso, com uma porção de práticas espirituais, você cresce espiritualmente. Mas se você faz isso para obter algo, você sempre fica preso à identidade, não é? "Eu vou para um lugar assim! Eu vou!". Você fica preso a uma identidade. Você não se liberta disso. Nesses casos, o caminho espiritual vai bastante longe, mas não há uma libertação completa, porque há um materialismo implícito: "EU fiz". 

Houve uma Santa que tinha um caderninho que anotava suas boas ações todos os dias, uma espécie de contabilidade do que eu estou fazendo de certo, de bom: "eu vou cobrar isso. Eu vou cobrar a minha contabilidade". O budismo diria: não, isso é materialismo espiritual. Você está negociando alguma coisa. A única maneira de você conseguir se libertar disso é você conseguir se libertar de toda essa amarra. 

É por isso que há um dito budista  que  diz assim: o budismo é um método, como uma jangada para atravessar um rio. Se você atravessar o rio e chegar na outra margem, você não vai sair carregando a jangada nas costas, não é? O budismo tem uma porta de saída para ele, porque ele também não quer ser aprisionador. Então, também como método de prática, é claro que você pratica, pratica, pratica e parece que nunca tem fim, não tem fim. Mas está dito que se você chega ao fim, você não precisa do budismo. Se chegar na outra margem, você precisa abandonar o barco (o método), senão você não sai andando: fica preso lá na jangada. Essa é a analogia relatada por Buda.
No entanto é preciso não ser pretensioso, há pessoas que tem um vislumbre e se acham plenamente iluminadas e pulam do barco no meio do rio e se afogam...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A sabedoria da outra margem



(Continuação) No budismo tibetano eles têm um treinamento inicial de completar 100 mil prostrações. Você faz 500 por dia até completar 100 mil. No início você não consegue fazer 500, fazer 100 já deixam as pernas doendo. Então uma pessoa normalmente leva meses para conseguir completar suas 100 mil prostrações e quando completa vai até o Mestre e ele pergunta: “e agora o que você sente quando faz prostrações?”. A pessoa diz “não sinto nada, os sentimentos foram embora”, e o Mestre: “ah, muito bem, agora vou lhe dar um mantra para recitar”. Nós não temos no Zen essa prática de acumulações, mas nós temos as prostrações e as repetições. Você fala o Sutra e pensa “isso não tem sentido”, você não sabe o significado, mas repete, repete, repete, até que um dia você se pergunta: “o que é isso que estou dizendo?”. Então lhe dão uma tradução do Sutra do Coração e você vê que está escrito no Sutra: “vazio é forma, forma é vazio, vazio nada mais é do que forma e forma nada mais é do que vazio”. Depois de ler você não entende, porque tudo está sendo negado e é assim também que acontece com este Sutra que estamos lendo, este também faz parte da coleção Prajnaparamita. Mas o que significa Prajnaparamita? Prajna significa “sabedoria”, paramita significa “outra margem”, então é “a sabedoria da outra margem”. Significa que existe um rio da ignorância e eu estou na margem dos perdidos e iludidos, se eu atravessar o rio, na outra margem vou encontrar a sabedoria. Por isso se chamam Sutras da sabedoria da outra margem, é esse o significado. (Continua)