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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A sabedoria da outra margem



(Continuação) No budismo tibetano eles têm um treinamento inicial de completar 100 mil prostrações. Você faz 500 por dia até completar 100 mil. No início você não consegue fazer 500, fazer 100 já deixam as pernas doendo. Então uma pessoa normalmente leva meses para conseguir completar suas 100 mil prostrações e quando completa vai até o Mestre e ele pergunta: “e agora o que você sente quando faz prostrações?”. A pessoa diz “não sinto nada, os sentimentos foram embora”, e o Mestre: “ah, muito bem, agora vou lhe dar um mantra para recitar”. Nós não temos no Zen essa prática de acumulações, mas nós temos as prostrações e as repetições. Você fala o Sutra e pensa “isso não tem sentido”, você não sabe o significado, mas repete, repete, repete, até que um dia você se pergunta: “o que é isso que estou dizendo?”. Então lhe dão uma tradução do Sutra do Coração e você vê que está escrito no Sutra: “vazio é forma, forma é vazio, vazio nada mais é do que forma e forma nada mais é do que vazio”. Depois de ler você não entende, porque tudo está sendo negado e é assim também que acontece com este Sutra que estamos lendo, este também faz parte da coleção Prajnaparamita. Mas o que significa Prajnaparamita? Prajna significa “sabedoria”, paramita significa “outra margem”, então é “a sabedoria da outra margem”. Significa que existe um rio da ignorância e eu estou na margem dos perdidos e iludidos, se eu atravessar o rio, na outra margem vou encontrar a sabedoria. Por isso se chamam Sutras da sabedoria da outra margem, é esse o significado. (Continua)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Iluminação é despertar de um sonho


Kodo Sawaki Roshi disse que “o pior vício do ser humano é o desejo de fama”. Poder, coisas que nem são materiais, mas pelas quais os homens estão dispostos a fazer tudo. Para conservar o poder ditadores podem jogar fora o dinheiro que acumularam ou roubaram de seus povos, matar pessoas, mandar bombardear, fazer qualquer coisa. Esse desejo de poder e fama é um desejo terrível. Às vezes nos perdemos com desejos de coisas e ficamos infelizes atrás de uma casa nova, um carro qualquer coisa. Esse “estar perdido” é frequente quando olhamos as crianças pequenas que ainda não aprenderam a esperar, se você disser – Não, agora não, chocolate agora não, depois do almoço, daqui a vinte minutos, depois que você comer, eu lhe dou essa barra de chocolate – então eles começam a chorar desesperados, muito infelizes pois eles querem o chocolate agora, não conseguem esperar um instante. Isso é uma falta de clareza da percepção de como o tempo transcorre.

Mas nós adultos também nos perdemos, não vemos a vida com clareza porque não percebemos que a morte ilumina a vida. Se nós colocássemos as coisas numa perspectiva de que vou morrer em uma semana – O que é relevante agora, o que eu realmente faria, o que seria importante? – Aí as coisas ganhariam um significado diferente. Nós vemos que pessoas que passam por experiências mais radicais de vida, ou o anúncio de uma doença grave, podem passar a ver a vida com mais clareza depois, porque ela se esvazia das coisas minúsculas, das coisas que não tinham importância. Quando as pessoas estão no leito de morte perdoam todo mundo, é freqüente estar lá e não ter mais importância a briga que eu tive com meu irmão por causa de um terreno ou de uma herança, não tem mais importância, porque o que eu quero morrendo, é me reconciliar com meu irmão. É comum ouvir um médico dizer que ele vê no leito de morte as pessoas se importarem com isso, com as reconciliações e não mais com as coisas, porque eles não levarão as coisas, é claro que haverão aqueles que estão morrendo e pensarão que vão levar e ficam desesperados de como fazer para levar as suas coisas.

Li um conto uma vez de um homem que era muito rico e pediu para ser jogado no mar, então ele mesmo preparou seu caixão. Ninguém sabia o que ele havia feito da sua fortuna. E no conto eles decifram o que ele fez. Pegou todo seu dinheiro e comprou e platina, que é mais caro que ouro, e fez seu caixão de platina. Sem que ninguém soubesse do que era feito o caixão ele foi jogado ao mar com todo seu dinheiro. Isso pode acontecer. Mas isso conduz a um renascimento com o mesmo tipo de angústia, mas sem a platina. Vai ter que acumular e procurar de novo e pode repetir isso mil vidas sem nunca se libertar. Então o que é acordar? O que é iluminação? A iluminação é despertar de um sonho. Nós estamos mergulhados em um sonho, o sonho de nossa identidade. Eu acho que sou eu, eu estou me importando com as coisas do “eu” aqui e agora. Não estou enxergando a unidade de todas as coisas, a interconexão, o fato de que todas as coisas e eu somos um e, como não enxergo isso, então estou sonhando e esse sonho do “eu” que tanto amamos, da nossa identidade pessoal, é nossa perdição. Por isso que quando Buda se ilumina ele diz para o vulto dele mesmo “tu não me enganas mais!” porque quem nos engana somos nós.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Diligência



" Quarto, diligencia. Conservar virtudes sem interrupção é chamado diligência pura e genuína avançando sem olhar para trás. Buda disse; “Praticantes, se vocês forem diligentes em seus esforços nada será difícil, é como um pequeno fio de água que é capaz de perfurar uma rocha se continuamente cai sobre ela. Entretanto, se forem negligentes em sua prática e suas mentes constantemente desanimarem, isso será como friccionar paus para produzir fogo, mas parar antes que eles fiquem quentes. Pode algum bom resultado ser esperado disso? "

Isso é interessante, não é? Porque também os praticantes Zen, e isso é normal, iniciam a prática indo ao centro Zen e fazendo meditação com o grupo, mas não conseguem praticar em casa, não conseguem uma prática diligente mesmo caminhando, mesmo ao examinar a própria mente . Isso seria a prática diligente, não é uma prática ocasional, de quem de vez em quando vai ao Zendo. Esse tipo tem pouco resultado. Basta ver o que acontece em um sesshin, onde somos, em razão do grupo, obrigados a ficar sentados e agüentar uma prática de que sozinhos nós desistiríamos. O grupo ajuda muito, a Sangha dá uma força tremenda. Inclusive, professores, candidatos a monge, a mesma coisa, não se sentariam assim se não estivessem praticando junto com grupo. É necessário que a gente se comprometa com atividades do Dharma para ganhar força para nós mesmos. Senão é como se fosse uma pessoa que assumiu o compromisso de levar uma flor no Zendo toda semana, ela tem que ir, pois se não for ficará faltando a flor pois ninguém colocará no lugar dela. Esse compromisso é que faz com que surja a prática, a diligência. A sangha é importantíssima para proporcionar as oportunidades de uma prática maior e os efeitos de um sesshin (retiro) podem ser vistos. Fazer um treinamento em sesshin é muito mais do que se fizesse o mesmo numero de zazens uma vez por semana. Levaria dois meses para fazer o que a gente faz em um dia de sesshin. Como é acumulado e difícil, o efeito é muito maior.