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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Budismo e Religião (2): Abandonar o Barco




Pergunta: A espiritualidade profunda, esta última de concepção e meditação, não está ausente nas outras religiões, porque podemos verificar em freiras religiosas, que se concentram nessa unidade com a divindade e que obtêm o mesmo esclarecimento da concentração e da meditação, não é?

Monge Genshô: Vamos dizer assim, corrigindo um pouco: outros caminhos espirituais conduzem a realizações espirituais. O fato de em alguns deles haver uma prisão em algum aspecto, faz com que o caminho espiritual vá até um certo ponto. Por exemplo, se você pratica um caminho espiritual virtuoso, com uma porção de práticas espirituais, você cresce espiritualmente. Mas se você faz isso para obter algo, você sempre fica preso à identidade, não é? "Eu vou para um lugar assim! Eu vou!". Você fica preso a uma identidade. Você não se liberta disso. Nesses casos, o caminho espiritual vai bastante longe, mas não há uma libertação completa, porque há um materialismo implícito: "EU fiz". 

Houve uma Santa que tinha um caderninho que anotava suas boas ações todos os dias, uma espécie de contabilidade do que eu estou fazendo de certo, de bom: "eu vou cobrar isso. Eu vou cobrar a minha contabilidade". O budismo diria: não, isso é materialismo espiritual. Você está negociando alguma coisa. A única maneira de você conseguir se libertar disso é você conseguir se libertar de toda essa amarra. 

É por isso que há um dito budista  que  diz assim: o budismo é um método, como uma jangada para atravessar um rio. Se você atravessar o rio e chegar na outra margem, você não vai sair carregando a jangada nas costas, não é? O budismo tem uma porta de saída para ele, porque ele também não quer ser aprisionador. Então, também como método de prática, é claro que você pratica, pratica, pratica e parece que nunca tem fim, não tem fim. Mas está dito que se você chega ao fim, você não precisa do budismo. Se chegar na outra margem, você precisa abandonar o barco (o método), senão você não sai andando: fica preso lá na jangada. Essa é a analogia relatada por Buda.
No entanto é preciso não ser pretensioso, há pessoas que tem um vislumbre e se acham plenamente iluminadas e pulam do barco no meio do rio e se afogam...

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Nada a adquirir. Apenas caminhar.



E claro que no início todo mundo vem para a sangha e para a prática querendo alcançar alguma coisa, todo mundo quer seguir os preceitos para sofrer menos, praticar para ter mais serenidade, mais paz, todos começam assim com objetivos egóicos, mas se você sentar em zazen, só sentar em zazen,  todo este esforço, esta dor nos joelhos, essa dor nas costas, isso não parece compensar, porque sesshin após sesshin, prática após prática, não parece que você andou muito para a frente, então não funciona bem para querer “adquirir algo”.

A prática começa a ficar bonita quando a gente pergunta para o aluno: “porque você continua sentando?”, e ele diz: “eu não sei mais, não consigo nada, mas continuo indo ao sesshin, indo na sanga, eu não alcancei nada e já perdi a esperança”. E quando ele perde a esperança, aí sim fica muito bom, fica muito melhor, você não conseguiu nada, mas vai praticar para ajudar os outros. Ele vai para a sangha  pensando em ajudar outros, aí ele esquece de si mesmo e começa a ficar maravilhoso. Foi isso que Dogen disse: “Praticar o Zen é estudar a si mesmo, e estudar a si mesmo é esquecer de si mesmo, e esquecer de si mesmo é  ser iluminado por todas as coisas”. Simples.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

SHIKANTAZA



Aluno – De onde viria a motivação para sentar?

Monge Genshô – No início você vem sentar por causa do sofrimento, porque tem alguma angústia existencial, ou porque demanda alguma coisa, uma procura. Mas esse é o primeiro movimento das pessoas, elas vêm com uma mentalidade aquisitiva. Mas com o tempo a prática de Shikantaza é apenas sentar, sem tentar adquirir nada, porque “adquirir” é um tipo de materialismo espiritual. Assim como nós queremos adquirir coisas na vida, acabamos querendo adquirir coisas espirituais. Então as pessoas vêm até nós e dizem, “ah, eu queria ter mais serenidade, eu queria ter paz, eu queria ter felicidade’. Querem adquirir uma coisa, e isso sempre tem esse sentido de comprar: eu faço e vou receber algo em troca.

Este é um impeditivo para o despertar, porque você trouxe a mentalidade aquisitiva para a prática espiritual, e a verdadeira prática espiritual é uma desistência. Então é muito bom quando o aluno diz “eu não sei mais por que eu estou sentando, eu só venho e sento, sei lá, tô viciado, se eu não me sento eu não me sinto bem, se eu não pratico não me sinto bem”. Isso é um bom momento na prática. Isso é muito sutil, porque pensamos que vamos praticar para obter algo, ou um mérito qualquer. O imperador Wu perguntou a Bodhidharma: “eu construí mosteiros e templos para o budismo, que méritos eu acumulei nos céus por causa disso?”. E Bodhidharma respondeu: “mérito nenhum, majestade”. A "majestade" está acostumada a comprar, todo o tempo, ele queria adquirir. Ele constituiu templos, mosteiros, e tudo o mais, “louvou” Buda, alimentou monges, etc, para acumular méritos, acumular tesouros. No Zen isso é materialismo espiritual.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A Bola de Ferro



Aluno: O que o senhor pode me dar no Dharma?

Mestre: Nada. Eu gostaria muito de lhe dar alguma coisa, mas eu não tenho nada para lhe dar, só uma bola de ferro incandescente para ser engolida.

Conto Zen