Mostrando postagens com marcador Tokugawa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tokugawa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O budismo está vivo

Foto de Mauricio Hondaku

Pergunta: Estamos falando do Zen japonês, não?

Monge Genshô: Sim. Nós estamos falando em Zen, e Zen é uma a palavra japonesa. Existe zen em outros países mas com nomes locais, Ch’an,  Son, Thien. Mas isso, em relação a casamento só acontece no Japão porque, em 1872, houve um édito imperial que ordenou aos monges budistas de todas as ordens que casassem. Na realidade, a intenção do império japonês era enfraquecer o budismo, para fortalecer o Xintoísmo, que era uma religião nacional. Era um movimento nacionalista e militarista do Japão, que acabou redundando primeiro em vitórias como a que houve contra a Rússia, por exemplo, em 1905, na guerra russo-japonesa. Depois, na invasão da China, na Manchúria, e acabou culminando na sua aventura militar contra os Estados Unidos. Tornaram-se aliados do eixo, da Itália e da Alemanha, na 2ª Guerra Mundial, e acabaram com uma derrota fragorosa.

Antes deste período, durante 250 anos o Japão ficou isolado, pacífico. Não empreendeu nenhuma guerra, não se militarizou, não invadiu ninguém. Foi um grande período de prestígio do Zen, porque ele estava sob o governo de samurais, do Xogum. Embora eles fossem guerreiros, eles estavam impregnados da filosofia do Zen. E isso redundou num imenso pacifismo e num treinamento de toda a população japonesa num outro padrão de educação, porque o Japão estava longe de ter a educação que tem hoje, no período anterior. Antes desse período ele viveu guerras civis violentas, assaltantes nas estradas, roubos, era um país em convulsão constante. A unificação do Japão ocorre por volta de 1600 e inicia esse período, que é o período “Tokugawa” – período de domínio dos Xogum. Depois de 1868, vocês viram que o edito ordenando aos monges para que se casassem, de 1872, era uma tentativa de desmoralizar a instituição monástica budista, perante a população. Na verdade, é um desses tiros pela culatra. Não deu muito certo. É como se hoje o Papa resolvesse reformar o celibato católico e dissesse aos padres que poderiam se casar. Talvez nós tivéssemos uma grande revolução no catolicismo, através do surgimento de muitas vocações religiosas, não é?  E, talvez isso, em vez de ser uma fraqueza, como aconteceu com o Zen, acabasse sendo uma fortaleza. Poderia acontecer.

Na realidade, houve uma tentativa de desprestígio do budismo, através dessa ordem para os monges. Mas, agora nós temos aqui  exemplos. Eu sou casado, o monge Tokushi é casado, o postulante a monge Daitetsu San é casado. E aí o florescimento fica mais fácil, bem mais fácil. Essa é uma consideração, vamos dizer assim, organizacional. Mas, também mostra um fato, que eu estou repetindo sempre, de que o budismo é vivo. Ele não é uma coisa morta, congelada em ensinamentos de 2600 anos atrás. Sempre que alguém vem e me diz assim,  “ah, os quatro elementos, o ar, a terra, a água, o fogo, não é... e a vacuidade...”  Quando alguém diz isso, eu sempre penso: “isso ainda é atraso no budismo”. Porque nós já passamos há muito tempo desse tipo de concepção do universo. Pode ter uma vantagem simbólica para narrações, um sentido alquímico, mas nós temos a tabela periódica dos elementos, hoje. Podemos achar outras imagens. Eu nunca uso esse tipo de teoria de dois milênios atrás como forma de ensinar, porque acho que, na realidade, não ajuda mais. Não adianta nós falarmos em astrologia, ou alquimia, ou coisas assim. Isso não ajuda. É melhor nós olharmos o conhecimento moderno e adaptarmos ao budismo. E o budismo está vivo o suficiente para lidar com tudo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Os leigos no budismo japonês


"As escolas reformadas refletem as importantes transformações sócio-políticas dos séculos XII e XIII que marcam o fim do antigo Estado Despótico Japonês dominado por uma aristocracia latifundiária associada com a Família Imperial, que é substituído por uma sociedade de tipo feudal dominada pelos samurais ou guerreiros profissionais. O advento das escolas reformadas se liga à insatisfação generalizada contra as velhas ordens monásticas degeneradas em meros instrumentos ideológicos de dominação a serviço da aristocracia decadente. As novas escolas correspondiam à expectativa dos samurais, comerciantes e camponeses, acenando-lhes com a possibilidade da realização espiritual na condição laica.

As principais escolas do Budismo Reformado são:

As escolas devocionais Amidistas da Terra Pura (Jôdo-Shû), fundada por Hônen (1133-1212) e a Verdadeira Escola da Terra Pura (Jôdo-Shinshû), fundada por Shinran (1173-1262); são as escolas em que a abertura para o laicato e mostrou maior, encontrando adeptos entre camponeses, comerciantes e demais grupos sociais.

As escolas contemplativas do Budismo Zen Rinzai, introduzida por Eisai (1141-1215) e Sotô, introduzida por Dôgen (1200-1253); embora não inteiramente fechadas aos leigos e alcançando notável difusão entre os samurais, cujo modo de vida influenciou profundamente, o Zen foi durante muito tempo quase que exclusivamente uma escola monástica.

A escola de Nichiren (Nichiren-Shû), fundada por Nichiren (1222-1282), profundamente nacionalista, que representa uma tentativa de reforma e simplificação da antiga Escola Tendai; alcançou certa repercussão entre samurais, comerciantes e artesãos, sem porém, alcançar a popularidade das anteriores no Japão tradicional; no período contemporâneo, porém, reveste-se de excepcional importância como tronco de onde brotaram numerosos movimentos neo-budistas laicos como o Reiyûkai, o Sôkagakkai, o Risshôkôseikai, etc.

No período Tokugawa, essa atitude de valorização positiva das atividades profissionais foi herdada pelos Myôkônin, místicos amidistas leigos dedicados ao comércio, artesanato, agricultura e outras atividades.3

No Zen encontramos tendências laicizantes no pensamento de Ikkyû (1394-1481), contemporâneo de Rennyo, mas só na Era Tokugawa encontramos autores, contemporâneos de Shôsan ou posteriores a ele, que propõem um caminho ético-religioso de realização para os leigos, como Takuan (1573-1645), Hakuin (1685-1768), etc.4
....................

Outras escolas apresentaram tendências laicizantes nessa mesma época, como as escolas Nichiren e Shingon. Nesta última cumpre destacar a atuação do Mestre Jiun (1718-1804), pioneiro dos estudos de filologia sanscrítica no Japão e autor de vários trabalhos em língua popular de ética budista para leigos, como o Jûzen Hôgo (Sermão sobre os Dez Preceitos Morais) e Hito to naru Michi (O Caminho para a Humanização). Na verdade, podemos concluir que a laicização foi uma tendência geral do Budismo da Era Tokugawa, em parte como reflexo do processo de secularização que marcou todos os aspectos da cultura da época, em parte como uma reação dos budistas à crítica dos confucionistas que condenavam o Budismo como uma doutrina escapista, incompatível com os deveres e solicitações da vida profana.5"

(Trecho de artigo do Dharmanet)