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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Budismo: Uma Cultura de Paz




Na China, o budismo já foi destruído umas 3 vezes, e, depois, ressurgiu das cinzas. No Japão, não faz tanto tempo, no final do século XIX, o império quis acabar com o budismo, porque era uma religião estrangeira e prejudicava o nacionalismo japonês. Afinal de contas, o budismo não é japonês, veio senão da Índia. Em 1872, o imperador ordenou que todos os monges se casassem, porque assim eles iriam desmoralizar o budismo. Não deu muito certo, porque os monges casaram-se e continuaram budistas. Mas, de certa maneira, houve mudanças que enfraqueceram o espírito do budismo. Porém, do outro lado, facilitou a difusão do budismo; eu não seria monge hoje se não fosse o édito imperial de 1872.



Então, hoje, o budismo mais bonito, mais idealista, é aqui, no ocidente. Dizemos até que o budismo anda para o leste, e ele vai morrendo lá atrás, porque não tem força suficiente para brigar. O budismo não tem uma doutrina que permite que você faça guerra ou destrua os outros. Então, aqueles que estiverem dispostos a destruí-lo vão conseguir, porque os budistas não vão conseguir enfrentar, como aconteceu no Tibete. O Tibete podia enfrentar a China? Não, o Tibete não tinha nem um exército decente, não tinha nada. Tão impregnados de budismo, não iriam investir em armas. Mas, para que o mundo funcione bem assim, todo mundo precisa pensar assim. Essa é a perspectiva histórica, de modo que é um verdadeiro milagre que o budismo esteja aqui e agora.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O budismo está vivo

Foto de Mauricio Hondaku

Pergunta: Estamos falando do Zen japonês, não?

Monge Genshô: Sim. Nós estamos falando em Zen, e Zen é uma a palavra japonesa. Existe zen em outros países mas com nomes locais, Ch’an,  Son, Thien. Mas isso, em relação a casamento só acontece no Japão porque, em 1872, houve um édito imperial que ordenou aos monges budistas de todas as ordens que casassem. Na realidade, a intenção do império japonês era enfraquecer o budismo, para fortalecer o Xintoísmo, que era uma religião nacional. Era um movimento nacionalista e militarista do Japão, que acabou redundando primeiro em vitórias como a que houve contra a Rússia, por exemplo, em 1905, na guerra russo-japonesa. Depois, na invasão da China, na Manchúria, e acabou culminando na sua aventura militar contra os Estados Unidos. Tornaram-se aliados do eixo, da Itália e da Alemanha, na 2ª Guerra Mundial, e acabaram com uma derrota fragorosa.

Antes deste período, durante 250 anos o Japão ficou isolado, pacífico. Não empreendeu nenhuma guerra, não se militarizou, não invadiu ninguém. Foi um grande período de prestígio do Zen, porque ele estava sob o governo de samurais, do Xogum. Embora eles fossem guerreiros, eles estavam impregnados da filosofia do Zen. E isso redundou num imenso pacifismo e num treinamento de toda a população japonesa num outro padrão de educação, porque o Japão estava longe de ter a educação que tem hoje, no período anterior. Antes desse período ele viveu guerras civis violentas, assaltantes nas estradas, roubos, era um país em convulsão constante. A unificação do Japão ocorre por volta de 1600 e inicia esse período, que é o período “Tokugawa” – período de domínio dos Xogum. Depois de 1868, vocês viram que o edito ordenando aos monges para que se casassem, de 1872, era uma tentativa de desmoralizar a instituição monástica budista, perante a população. Na verdade, é um desses tiros pela culatra. Não deu muito certo. É como se hoje o Papa resolvesse reformar o celibato católico e dissesse aos padres que poderiam se casar. Talvez nós tivéssemos uma grande revolução no catolicismo, através do surgimento de muitas vocações religiosas, não é?  E, talvez isso, em vez de ser uma fraqueza, como aconteceu com o Zen, acabasse sendo uma fortaleza. Poderia acontecer.

Na realidade, houve uma tentativa de desprestígio do budismo, através dessa ordem para os monges. Mas, agora nós temos aqui  exemplos. Eu sou casado, o monge Tokushi é casado, o postulante a monge Daitetsu San é casado. E aí o florescimento fica mais fácil, bem mais fácil. Essa é uma consideração, vamos dizer assim, organizacional. Mas, também mostra um fato, que eu estou repetindo sempre, de que o budismo é vivo. Ele não é uma coisa morta, congelada em ensinamentos de 2600 anos atrás. Sempre que alguém vem e me diz assim,  “ah, os quatro elementos, o ar, a terra, a água, o fogo, não é... e a vacuidade...”  Quando alguém diz isso, eu sempre penso: “isso ainda é atraso no budismo”. Porque nós já passamos há muito tempo desse tipo de concepção do universo. Pode ter uma vantagem simbólica para narrações, um sentido alquímico, mas nós temos a tabela periódica dos elementos, hoje. Podemos achar outras imagens. Eu nunca uso esse tipo de teoria de dois milênios atrás como forma de ensinar, porque acho que, na realidade, não ajuda mais. Não adianta nós falarmos em astrologia, ou alquimia, ou coisas assim. Isso não ajuda. É melhor nós olharmos o conhecimento moderno e adaptarmos ao budismo. E o budismo está vivo o suficiente para lidar com tudo.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Monges zen e casamento



Quadro de Eduardo Salinas
Pergunta: Monge, o senhor pode falar um pouco sobre o contexto da fala de Buda que diz sobre o abandono da família?

Monge Genshô: Ela perguntou sobre Shukke Tokudo, que é a ordenação de Monge. Então, Buda deixou sua família – mulher, filho – e foi pra floresta praticar. E, nos primeiros tempos, a tradição sempre foi os monges deixarem o lar e seguirem apenas o caminho monástico. Isso durou milênios na realidade. Os Monges Zen japoneses casam-se desde 1872, ou seja, é um acontecimento recente na história do Zen. Mas, como eu já expliquei numa palestra anterior que foi publicada, o vinaya indiano, que são as primeiras regras do tempo de Buda, foram abandonadas pelo Zen já por volta do ano 720 d.C.

Pai-Chang, na China, adaptou as regras para um outro contexto. Na Índia e no sul da Ásia, mendigar sua própria comida era uma coisa admissível. Mas, na China, isso não era admissível. Nos países frios, coisas assim, ter um contingente de pessoas vivendo de mendicância, não era uma boa ideia, de modo que Pai-Chang escreveu novas regras, e essas regras já têm 1400 anos para o zen. Essas regras enfatizam o trabalho. Pai-Chang disse: “Dia sem trabalho, dia sem comida”, de modo que os Monges foram morar em monastérios, cultivavam a terra, e produziam sua própria comida.

Assim, aparecem duas perspectivas diferentes. Uma perspectiva diz: “Ah, os monges deixaram de depender da sangha, e isso os tornou independentes”. Então, a distância entre o monge e a sangha aumentou, porque antes, se a sangha não sustentasse o monge, ele morria de fome, mas ele estava sempre disponível para ajudar a sangha em tudo, ele não tinha outras obrigações. Isso é uma crítica. A outra perspectiva é “ah, mas isso deu força ao Zen”, certa independência dos monastérios. Os monastérios conseguiram sobreviver bem às perseguições e tudo mais, porque podiam se isolar, podiam viver em comunidade, sem depender do mundo externo. Então, essa distância lhes deu força de sobrevivência, e isso levou o Zen a chegar ao ponto de ter 5 milhões de monges na China, numa época em que a China não tinha 50 milhões de habitantes.

Era tanta gente, que o Império resolveu acabar com essa brincadeira, porque entendeu que os homens iam para o monastério para ser monges e escapar do serviço militar. Então, aconteceram grandes perseguições e destruições. Três grandes perseguições ao budismo aconteceram dentro da China, por causa dessa questão. Mas, nessa época ainda, os monges viviam isolados, longe de suas famílias.

Nós estamos vivendo  os últimos dois séculos – o século passado e esse – que é uma outra época para o budismo, em que os monges zen japoneses são, em certa medida, leigos, porque casam, trabalham, etc, não dependem da sangha para viver. Mas, de outro lado, isso facilitou muito a geração de monges, e trouxe para uma classe sacerdotal no Zen, uma plêiade de leigos de alta qualidade, que daí então, com sua dedicação, conseguem fazer o budismo progredir. Isso deu ao Zen uma possibilidade muito maior de expansão no Ocidente.  Isso pode ser olhado tanto como decadência, como com adaptação e flexibilidade a novos tempos, porque os sacerdotes casados do Zen deram a este uma força diferente. O que está sendo atingido por isso é só o formato institucional. Se alguém quiser ser um monge celibatário hoje, ele pode fazer isso também. Já tivemos grandes exemplos no século XX mesmo, grandes monges celibatários, que passaram sua vida asceticamente somente trabalhando, vivendo na pobreza, sem casa, como Kodo Sawaki, o mestre sem lar e sem templo, muito conhecido no século XX e muito influente. Então, esse caminho ainda subsiste dentro do Zen.