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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Diferença entre Aluno e Discípulo




Aluno é uma posição: você está aqui ouvindo uma aula, então você é aluno. Você se dispôs a ouvir, mas dentro de você existe crítica, existe reação e tudo o mais. Ser um discípulo é diferente, porque você tem que passar um bom tempo observando seu professor para ser capaz de aceitá-lo, integralmente, e dizer assim: “eu vou aceitar”, e se eu não entender alguma coisa, simplesmente vou colocar em reserva, porque para o discípulo o mestre diz: “essa parede, ( que é de alvenaria), isto aqui é madeira”, e o discípulo diz: “Hai, sim senhor, é madeira” - e de agora em diante é madeira, alvenaria é madeira. Eu vou pensar sobre o assunto dois anos, três anos, cinco anos, dez anos, para entender o que ele quis me dizer. 

Então o discípulo tem que ter três atitudes: obediente, não resistente e silente. Então ele cala a boca, ele não dá instruções para outras pessoas quando o mestre está presente. Por exemplo, ele evita parecer que sabe, ele não fica dando suas opiniões: “eu acho isso”, “eu penso aquilo” e etc. e tal, “o senhor está errado naquilo outro” - o discípulo não faz isso. Ele fica silente, e não é que a sua opinião não esteja possivelmente certa, é que isso é expressão de vaidade, ego, orgulho... ter orgulho da sua própria opinião. Tem até um nome próprio em sânscrito para esse defeito: chama-se ditti - o desejo de impor sua opinião. 

O discípulo é obediente, pois o mestre diz: “você vai praticar assim”. Ele não entende, mas vai lá e faz. Se o aluno diz: “eu não gosto de prostrações, acho absurdo a gente ficar fazendo prostrações”, o mestre lhe fala: "bem, agora eu vou lhe dar uma prática: você tem que ir todos os dias fazer 30 prostrações na frente da estátua de Buda", e vai embora. E o aluno, todos os dias, obedientemente, vai lá e faz 30 prostrações na frente da estátua de Buda, até ele perder toda a resistência às prostrações, e descobrir que elas eram remédio para o seu orgulho, que ele não fazia isso porque tinha dificuldade, ou porque estava olhando a estátua de Buda como se fosse Buda,  o que não é.

Ser não resistente é quando você diz uma coisa para o discípulo, e ele não faz nenhuma expressão facial, ele não diz “mas”, ele não argumenta nada, ele simplesmente faz. Essas são as qualidades do discípulo: silente, obediente, não resistente.


Por isso eu sempre digo que alunos eu tenho muitos, mas discípulos são muito raros. É natural. É natural que seja assim. Uma vez eu estava com uma dificuldade financeira quando Saikawa Roshi ligou de São Paulo e disse: “você tem que vir aqui ficar uma semana no templo Busshinji”. Eu falei para minha esposa: “olha, ele me chamou”, e ela disse: “mas nós não temos dinheiro para passagem”. “Bem… nem que eu vá à pé, de carona... eu tenho que ir porque ele me chamou”. É claro que apareceu uma solução qualquer lá, eu consegui ir sem precisar ficar na estrada pedindo carona para os caminhoneiros. É assim que tem que se comportar o discípulo.

[N.E.: trecho de transcrição da palestra realizada por Meihô Genshô Oshô, em novembro de 2016.]

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A RAIZ DA HARMONIA É O SILÊNCIO

E na prática do Zen, nós escolhemos professores, e quando nós escolhemos o professor no início, você tem que aceitar o professor completamente. Como eu estava falando outro dia, nó aceitamos o professor depois de examiná-lo durante longo tempo, não é apressadamente. Eu o conheci, vi, eu aceitei o professor. E quando eu aceito o professor durante o tempo do treinamento eu tenho que agir como um aluno de música, um aluno de um esporte. O que o instrutor diz eu faço e faço daquela maneira. Não tenho a condição de ficar discutindo cada detalhe.
Ah, eu não gostei assim, ‘eu acho” que devo praticar assim, eu acho que esse dedilhado no instrumento não deve ser esse deve ser outro, o professor não tá explicando direito, não é? O professor adiantou mais aquele aluno, deu outro exercício para aquele aluno e não deu o mesmo para mim. Ah, o professor me criticou. Nós não fazemos isso com os instrutores, você tem que aceitar o instrutor ou trocar de instrutor.

Quando você for um virtuose na música, quando você tiver se graduado completamente, ou, no Zen, quando você for um Sensei. Quando o mestre lhe dá a transmissão e diz: “Confio em você, você tem a mesma mente que eu”, quando acontece isto, então o discípulo pode chegar no mestre e dizer: “Ah, eu acho que as coisas poderiam ser feitas dessa outra forma”.

Mas isso demora anos, muitos anos...e se eu vou pensar na minha experiência pessoal, eu continuo sentando na frente do meu Mestre e o que ele diz eu aceito tal como ele diz. E se eu não concordo, eu espero meses digerindo, quem sabe ele tem razão e eu estou errado. Meses, meses, meses para voltar aquele assunto. Às vezes volto no assunto duas ou três vezes e recebo a mesma resposta, e ai tudo que eu faço é me calar. Porque a essência da harmonia nós praticamos nos sesshins.

O que fazemos no sesshin?

Primeira regra do sesshin : Silêncio.

Primeira regra para os monges que estão praticando e para os que não são professores: Silêncio.
Nós dizemos nos mosteiros para os monges noviços: “cale a boca e limpe o chão”. Porque não é hora dele dizer, ter opinião, não é hora. É hora dele tentar entender e tentar entender “a prática”.

Então nós sentamos nos nossos zafus quietamente, e não julgamos. Sentamos junto com todos os seres e ficamos ali.

Se nós formos capazes de limpar a nossa mente de todas as considerações e julgamentos sobre passado, futuro, se formos capazes de esquecer essa distinção entre “eu e o outro”, então nós criaremos um caminho que permite passo a passo nos aproximarmos de uma compreensão mais correta. Se nós fazemos assim, em silêncio, a Sangha consegue permanecer em harmonia, e a Sangha em harmonia é o ambiente da prática realmente.

A verdade é que não dá tempo para você ficar discutindo cada pequeno detalhe que o aluno não entende. Esta é então no fundo a lição de hoje da harmonia. A raiz da harmonia é o silêncio.