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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Além do Entendimento


A tradição tibetana tem uma história interessante. Um aluno recebeu a instrução para construir uma torre de pedras, trabalho cansativo, e ele o fez. O Mestre então mandou-o desmanchar: “desmanche a torre, pois eu não gostei”. No outro dia chamou o discípulo e disse: “faça a torre de pedras”. E esse procedimento de fazer torres de pedras e demoli-las durou oito vezes. 

O que o Mestre pretendia? Para nós pode parecer muito absurdo, mas o objetivo, evidentemente, não eram as torres; o objetivo era algo dentro do aluno.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

sexta-feira, 18 de março de 2016

A força da Linhagem

Monge Genshô: A cerimônia de Zuise que eu fiz agora, início de julho 2015, no Japão, significa ir até os túmulos de dois mestres da Linhagem, Keisan Jôkin Daishô, 57º Patriarca, e Eihei Dogen Daishô, 54º Patriarca, nos templos Eihei-ji e Sôji-ji. Você vai até lá e você só pode ir lá uma vez na vida. Então sobe a escadaria e vai lá estender seu zagu completamente, e faz prostrações para eles. Então, é a partir desse momento que você pode receber o título de Rikishô, professor internacional. Para tanto você tem que ir até lá e fazer isso.

Isso é profundamente simbólico. Então os rituais, os ritos são de um lado coisas que poderiam ser sem sentido, de outro são coisas que falam ao nosso inconsciente porque a linguagem do inconsciente é simbólica, nós sonhamos com símbolos, não com o nosso consciente. Vocês não podem dizer que os seus sonhos não têm significados, os sonhos têm grandes significados se vocês interpretam corretamente. Você sabe, ele significa isso, e através da prática do zazen você pode trazer para o consciente o inconsciente como eu falei recentemente.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Relação Mestre-discípulo

Aluno: Eu tenho curiosidade de saber como se dá a dinâmica entre o professor e o aluno do Zen?
Monge Genshô:
No primeiro estágio não tem essa relação de professor e aluno, quando fazemos dokusan é um amigo que se senta na minha frente e que compartilha experiências. Tornar-se aluno é quando você adota a seguinte postura: “ele é meu professor e eu estou aqui para aprender, se ele disse algo que não concordo vou pensar que eu estou errado até eu entender, mesmo que levem anos”. Formalmente, no nosso caso aqui, é quando você faz o rakusu, assim como a Rachel. Já que ela é minha aluna, ela me escreve como tal, me trata como senhor e a atitude é diferente. O professor também cuida do aluno como se fosse um filho.

Tem um outro nível mais alto que é quando você recebe a transmissão do seu Mestre e então você é reconhecido pelo seu Mestre como uma pessoa que tem a mente dele. A cerimônia dura sete dias e tem uma ocasião em que ele diz exatamente isso: “você tem a minha mente” e isso vem desde Buda. Alguns Mestres tiveram só um discípulo, ou seja, transmitiram para apenas uma pessoa, assim como há Mestres que não transmitiram para nenhum aluno e nesse caso a linhagem desaparece. Saikawa Roshi é Monge há mais de 40 anos e transmitiu para seis Monges. Mas mesmo que você seja Monge e tenha se graduado para receber a transmissão, você só a receberá se o Mestre decidir passar essa herança para você, como se transferisse o Dharma.

Quando eu estava no Japão, Saikawa Roshi me instruiu os lugares que eu deveria ir, como eu deveria fazer as cerimônias e depois me disse que eu deveria fazer uma doação de 50 mil ienes em cada templo. Eu disse: “não tenho esse dinheiro, não me preveni para isso” e no dia seguinte recebi pelo correio um envelope com 150 mil ienes e mais instruções. É assim que o Mestre age. Você recebe tanta coisa que fica difícil retribuir. Você é o continuador da obra dele, dessa forma é como se vocês aqui fossem os netos de Saikawa Roshi.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O que é Buda?


Pergunta - O que é Buda?

Monge Genshô – Buda é mente. Essa é uma das respostas possíveis, outras respostas seriam, Buda significa "acordado", não é o nome de uma pessoa, foi um “título” dado a Sidarta Gautama porque ele acordou, despertou, logo, ele é “O Buda”. Tradicionalmente um grande professor, mas um homem não diferente de nós. Por Buda também podemos entender nossa “natureza búdica”. Todos temos a natureza dos seres que sonham, ou seja, temos a possibilidade de despertar. Buda também é um ideal, o ideal de ter uma mente lúcida e clara sem se deixar enganar por nenhuma ilusão. Em absoluto não é uma estátua, as estátuas existem porque as pessoas gostam de estátuas. Buda também não ajuda ninguém, não adianta lhe pedir nada. Se Buda pudesse ajudar e visse o sofrimento dos seres, ele ajudaria. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

TUDO ESTÁ DENTRO DE NÓS

O que seria o Zen? O Zen é uma das escolas do Budismo e ela enfatiza as práticas de meditação, treinamento mental, que foi exatamente o que Buda fez em seu treinamento de anos, até atingir o que nós chamamos de “despertar”, “acordar”. Acordar do quê? Acordar das ilusões. Então esse acordar das ilusões retirou do Budismo a crença em deuses, almas, espíritos, todas essas coisas. O Budismo não fala nesses assuntos. Esse talvez seja o maior choque que nós temos quando conhecemos o Budismo, pois estamos acostumados a pensar no Budismo como uma religião normal, mais uma religião.

É comum as pessoas perguntarem "Mas vocês não adoram Buda?" Não. Não adoramos. Buda foi um homem como nós, morreu com oitenta e quatro anos com uma diarreia, ficou desidratado. Essa é a história da morte de Buda e a que foi preservada. Sempre pergunto "Vocês já tiveram diarreia? Já? Então são como Buda e podem se iluminar!" Isso é muito importante porque esse pensamento quer dizer que não há algo de milagroso nisso.

Não endeusamos a figura de Buda, ele foi um grande professor, mas não é uma divindade, um salvador ou um ser que trouxe conhecimento de fora para cá. Não. Esse conhecimento é desenvolvido de dentro e é isso que o Budismo preconiza. Você tem que obter sabedoria a partir de seu treinamento e ele vem de dentro, de modo que você sofre muitas dificuldades quando o enfrenta. Todo esse problema por quê? As dificuldades estão dentro de você, são suas crenças, suas ilusões que fazem com que isso aconteça. Então, o contato com o Zen é uma destruição das ilusões.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

DAIOSHÔ – GRANDE MESTRE


Nós só temos opiniões porque acreditamos muito em nós mesmos, nos achamos certos.

Uma vez, há muitos anos atrás, eu tinha um amigo, ele tinha um professor de karatê e o professor foi embora e mandou para ele, que era o aluno mais adiantado, uma faixa marrom, para que ele pudesse dar aula em Porto Alegre. E foi um monge Zen que era conselheiro do Wadokai do Brasil da estrutura do karatê, que foi até lá, chamou o aluno e disse: “Seu Mestre,  me encarregou de lhe entregar essa faixa marrom”.

Ai o meu amigo, Chaves, ficou arrasado porque ele se achava incompetente para assumir essa posição. Ele foi até lá, se ajoelhou na frente do Monge e disse: Não eu não posso aceitar, eu não mereço essa faixa marrom.

Meu professor na época, Igarashi Roshi, gritou com ele: “Quem você pensa que é para achar que a sua opinião e seu julgamento é melhor do que o do seu professor? Que tremenda vaidade você tem, que imensa pretensão você tem dentro dessa sua “cabeça de jerico” de pensar que você sabe mais que o seu professor? Seu professor lhe mandou essa faixa para você botar, ponha essa faixa agora! Calado!”.

E ele foi um grande professor, ele fez a equipe campeã do Brasil, o Chaves.

E foi assim, essa é uma grande lição. Como você pensa? Que imensa vaidade você tem de achar que seu julgamento é melhor do que o do seu professor? Que vaidoso, pretensioso, orgulhoso você é.
É assim que os egos funcionam,  o tratamento do Zen é assim mesmo também, na tentativa de conseguir resolver esse problema.

Então quando nos vemos realmente um grande professor, ele se destaca pela sua humildade, não é pela sua pretensão. É isso que a gente vê.

Pouco tempo atrás tive uma reunião, Saikawa Roshi, estava lá. Quando alguém foi até ele e resolveu fazer críticas, ele pegou um caderninho e anotou calmamente tudo o que a pessoa falou, eu assisti isso, anotou,  aí depois eu perguntei: Então Mestre, o que o Senhor achou de tudo aquilo?

Ele disse assim: “Ah, é ego”.

Só isso, é ego. Não mexeu nenhuma palha não fez nada, também não reagiu, não discutiu. Só ouviu. Isto é um grande mestre.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A RAIZ DA HARMONIA É O SILÊNCIO

E na prática do Zen, nós escolhemos professores, e quando nós escolhemos o professor no início, você tem que aceitar o professor completamente. Como eu estava falando outro dia, nó aceitamos o professor depois de examiná-lo durante longo tempo, não é apressadamente. Eu o conheci, vi, eu aceitei o professor. E quando eu aceito o professor durante o tempo do treinamento eu tenho que agir como um aluno de música, um aluno de um esporte. O que o instrutor diz eu faço e faço daquela maneira. Não tenho a condição de ficar discutindo cada detalhe.
Ah, eu não gostei assim, ‘eu acho” que devo praticar assim, eu acho que esse dedilhado no instrumento não deve ser esse deve ser outro, o professor não tá explicando direito, não é? O professor adiantou mais aquele aluno, deu outro exercício para aquele aluno e não deu o mesmo para mim. Ah, o professor me criticou. Nós não fazemos isso com os instrutores, você tem que aceitar o instrutor ou trocar de instrutor.

Quando você for um virtuose na música, quando você tiver se graduado completamente, ou, no Zen, quando você for um Sensei. Quando o mestre lhe dá a transmissão e diz: “Confio em você, você tem a mesma mente que eu”, quando acontece isto, então o discípulo pode chegar no mestre e dizer: “Ah, eu acho que as coisas poderiam ser feitas dessa outra forma”.

Mas isso demora anos, muitos anos...e se eu vou pensar na minha experiência pessoal, eu continuo sentando na frente do meu Mestre e o que ele diz eu aceito tal como ele diz. E se eu não concordo, eu espero meses digerindo, quem sabe ele tem razão e eu estou errado. Meses, meses, meses para voltar aquele assunto. Às vezes volto no assunto duas ou três vezes e recebo a mesma resposta, e ai tudo que eu faço é me calar. Porque a essência da harmonia nós praticamos nos sesshins.

O que fazemos no sesshin?

Primeira regra do sesshin : Silêncio.

Primeira regra para os monges que estão praticando e para os que não são professores: Silêncio.
Nós dizemos nos mosteiros para os monges noviços: “cale a boca e limpe o chão”. Porque não é hora dele dizer, ter opinião, não é hora. É hora dele tentar entender e tentar entender “a prática”.

Então nós sentamos nos nossos zafus quietamente, e não julgamos. Sentamos junto com todos os seres e ficamos ali.

Se nós formos capazes de limpar a nossa mente de todas as considerações e julgamentos sobre passado, futuro, se formos capazes de esquecer essa distinção entre “eu e o outro”, então nós criaremos um caminho que permite passo a passo nos aproximarmos de uma compreensão mais correta. Se nós fazemos assim, em silêncio, a Sangha consegue permanecer em harmonia, e a Sangha em harmonia é o ambiente da prática realmente.

A verdade é que não dá tempo para você ficar discutindo cada pequeno detalhe que o aluno não entende. Esta é então no fundo a lição de hoje da harmonia. A raiz da harmonia é o silêncio.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

SUBINDO A MONTANHA

Pergunta: Como faço para aprofundar mais a prática, o caminho?

Monge Genshô: Tem uma imagem bastante interessante que é assim: você tem uma montanha para subir, aí você quer um caminho espiritual. Escolha um caminho espiritual e comece a trilhá-lo seriamente. Agora, se começou a subir a montanha e olha para o outro lado e vê outra trilha mais bonita. Sai da trilha e vai para a outra. Quando está na outra, vê mais outra e muda para lá. Assim não sobe a montanha. Porque você não faz outra coisa se não experimentar trilhas. Não é assim. Você não atinge uma graduação na faculdade mudando de curso. Faz dois meses de um curso, depois muda para outro, outro, outro. Muda quatro ou cinco cursos e não termina nenhum. Não é diferente do praticante espiritual que vive como uma borboleta, trocando de lugar, tentando treinar de forma diferente. 

Caminho espiritual a sério é: escolha seu professor. Mesmo. Normalmente a escola vem junto. Você não escolhe a escola e depois o professor. Normalmente você encontra seu professor aí então treina naquela escola. Treina até ultrapassar o professor. Um bom professor quer que você seja melhor do que ele, e não menos do que ele. Não fica tentando controlar você, mandando, tentando reter os alunos, não tem ciúmes dos alunos, não pretende enriquecer com alunos, nada disso. Procure um professor que você olhe para ele e diga "ah, isto eu admiro". E não espere ver uma pessoa perfeita. Se Jesus Cristo parecesse perfeito, os soldados romanos não conseguiriam cuspir ou bater nele com chicotes. Se Buda parecesse perfeito, não teria alunos que se revoltaram contra eles, quiseram sair, fazer outro grupo, fazer fofoca. Até um tentou matá-lo uma vez. Não seria assim.

Os mestres também estão trilhando o caminho e eles podem ajudar a você. "Eu andei essa trilha até tal lugar, cuidado, nesse lugar você precisa usar tênis. Naquele outro ali, precisa de um bastão. Leve corda para tal trecho." Esse é o guia que pode ajudar você. Mas quem não trilhou um caminho não pode ajudar ninguém. E se você olhar com atenção, vai ver que existem muitos surgimentos de professores que a única coisa que têm é a imagem, que tentam construir imagem. Hoje ficou fácil. Pode pegar o nome de qualquer um e colocar o nome na internet. Pronto. Assim você vai saber. Se pegar um professor como o Dalai Lama (Escola Tibetana), você vai ver que escreveu ensinamentos e 99% do que se fala dele é bom. Agora, se você pegar alguém e metade das pessoas fala bem e outra metade fala mal, vá embora. Procure um professor mais sólido.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Trocar de caminho


Aluno: Como faço para aprofundar mais a prática, o caminho?

Monge Genshô: Tem uma imagem bastante interessante que é assim: você tem uma montanha para subir, aí você quer um caminho espiritual. Escolha um caminho espiritual e comece a trilhá-lo seriamente. Agora, se começou a subir a montanha e olha para o outro lado e vê outra trilha mais bonita. Sai da trilha e vai para a outra. Quando está na outra, vê mais outra e muda para lá. Assim não sobe a montanha. Porque você não faz outra coisa se não experimentar trilhas. Não é assim. Você não atinge uma graduação na faculdade mudando de curso. Faz dois meses de um curso, depois muda para outro, outro, outro. Muda quatro ou cinco cursos e não termina nenhum. Não é diferente do praticante espiritual que vive como uma borboleta, trocando de lugar, tentando treinar de forma diferente.

Caminho espiritual a sério é: escolha seu professor. Mesmo. Normalmente a escola vem junto. Você não escolhe a escola e depois o professor. Normalmente você encontra seu professor aí então treina naquela escola. Treina até ultrapassar o professor. Um bom professor quer que você seja melhor do que ele, e não menos do que ele. Não fica tentando controlar você, mandando, tentando reter os alunos, não tem ciúmes dos alunos, não pretende enriquecer com alunos, nada disso. Procure um professor que você olhe para ele e diga "ah, isto eu admiro". E não espere ver uma pessoa perfeita. Se Jesus Cristo parecesse perfeito, os soldados romanos não conseguiriam cuspir ou bater nele com chicotes. Se Buda parecesse perfeito, não teria alunos que se revoltaram contra ele, quiseram sair, fazer outro grupo, fazer fofoca. Até um tentou matá-lo uma vez. Não seria assim.

Os mestres também estão trilhando o caminho e eles podem ajudar a você. "Eu andei essa trilha até tal lugar, cuidado, nesse lugar você precisa usar tênis. Naquele outro ali, precisa de um bastão. Leve corda para tal trecho." Esse é o guia que pode ajudar você. Mas quem não trilhou um caminho não pode ajudar ninguém. E se você olhar com atenção, vai ver que existem muitos surgimentos de professores que a única coisa que têm é a imagem. Hoje ficou fácil verificar. Pode pegar o nome de qualquer um e colocar o nome na internet. Pronto. Assim você vai saber. Se pegar um professor como o Dalai Lama (Escola Tibetana), você vai ver que escreveu ensinamentos e 99% do que se fala dele é bom. Agora, se você pegar alguém e metade das pessoas fala bem e outra metade fala mal,  há muitas controvérsias, vá embora. Procure um professor mais sólido.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Bodhisattvas e a outra margem



Pergunta – Um monge é um bodhisattva?

Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge.  O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e quarenta anos, os monges zen passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.

Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, uma pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o conhecimento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é quem faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.

Pergunta – E o bodhisattva, é?

Monge Genshô – O bodhisatva em uma tradução literal significa “ser iluminado (que gerou uma mente de compaixão)”. Satva significa ser, e bodhi iluminação ( decorrentemente compassivo). Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.

Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?

Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto houver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.

Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?

Monge Genshô – Um bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A grande dúvida


4) Quais são então os obstáculos para a iluminação no Budismo? Ele me parece extremamente liberal em algumas coisas, mas...

Monge Genshô – Os obstáculos são seríssimos. Coisas com as quais as pessoas não lidam, como ignorância, falta de clareza e ilusão.

Aluno - A dúvida?

Monge Genshô – Não, pelo contrario, é necessária uma grande dúvida. O budismo não encoraja a crença, é muito melhor que você tenha uma grande dúvida. É bom que você chegue ao seu professor e manifeste sua dúvida, mas deve estar preparado para a resposta e admíti-la, seja ela qual for, por exemplo, se eu digo que esse banco é feito de pedra você não deve discutir e dizer que é feito de plástico. Você deve presumir que exista alguma razão para o seu professor dizer que é de pedra e você deve lidar com esse paradoxo. Não é o caso de admitir que seja de pedra, mas sim que você tenha dúvida de sua convicção de que é feito de madeira. A questão é a dúvida, e não a crença. Os koans servem para isso, instigar a dúvida e o paradoxo na mente dos praticantes. Então, voltando à pergunta, os obstáculos à iluminação são: a ignorância, os desejos, apego aos ritos e cerimônias, paixões e a raiva. O amor ou a paixão pelo próprio budismo também é um obstáculo. O pensamento de que as únicas verdades provem do Zen e todos os outros caminhos estão equivocados também é um grande problema.

Aluno - Esses são os dois extremos, o apego e a rejeição.

Monge Genshô – Exato.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Bodhisattvas e santos


Pergunta – Gostaria de saber o significado dos instrumentos.

Monge Genshô – Você deve ouvi-los e descobrir por você mesma. Talvez eu possa explicar o instrumento com forma de nuvem. Ele é tocado sempre antes das refeições. Você deve prestar atenção e ver o que significa para você, se eu explico, algo se perde, você deve sentir o significado. Para o Zen a explicação tira do aluno a oportunidade do insight.

Pergunta – Um Monge é um Bodhisattva?

Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge. Na tradição Tibetana, por exemplo, Lama é professor e não necessariamente um monge. O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e cinquenta anos, os monges passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor leigo nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.

Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o talento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é quem faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.

Pergunta – E o Bodhisattva, é?

Monge Genshô – O Bodhisatva em uma tradução literal significa “ser de compaixão”. Satva significa ser, e Bodhi compaixão. Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.

Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?

Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto houver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.

Pergunta – Jesus Cristo foi um Bodhisattva?

Monge Genshô – Sim, podemos chama-lo assim de um ponto de vista budista.

Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?

Monge Genshô – Um Bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.

Pergunta – Esses poderiam ser os homens santos?

Monge Genshô – Não necessariamente, pois santidade não significa iluminação. Você pode ser muito puro, virtuoso, não ferir ninguém, ajudar as pessoas e ser um santo, porém, não ter nenhuma clareza. Ainda está preso a uma grande ilusão e espera obter algum tipo de recompensa, por exemplo, espera que com seus atos esteja agradando algum tipo de divindade com o fim de obter um lugar em alguma espécie de paraíso. Como está preso numa situação de fé, ainda não é lucidez.

O Zen não pretende formar santos, existe até um ditado que diz que “a santidade cheira mal”. Um Bodhisatva não tenta ser santo, ele quer ajudar os outros seres que sofrem. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Nada para se agarrar


Pergunta – Por e-mail recebo alguns trechos de textos budistas e gostei muito do último que dizia que “a infelicidade, depois que você começa a praticar o Dharma, é um indicador da evolução do seu caminho”. Gostaria que o senhor esclarecesse isto.

Monge Genshô – O Dharma, ao invés de dar algum consolo, retira da pessoa todos seus apoios, de tudo o que você pretende agarrar-se, deuses, anjos, etc.., tudo isso o Dharma tira. Muitas vezes as pessoas, ao viver esta desconstrução da fé, ficam muito perdidas e há um choque. Eu acho este choque muito bom, mas sei que carrega sofrimento. “Tudo que eu tinha o senhor tirou”. Esta é a tarefa do professor no Zen. Caso alguém não se sinta confortável com isso, deve talvez procurar um outro lugar mais confortável.

Sei que isto não é tranquilizador, mas sei que despertar e acordar das ilusões é muito feliz. Sei que isto não é fácil e exige grande esforço. Então, no início pode ser assim, infeliz. Mas pode não ser. Você pode chegar aqui, ouvir todas essas barbaridades que eu disse, e sentir uma sensação de grande alívio. Eu tive isso quando ouvi um Monge Zen a primeira vez.

Pergunta – Fui educada dentro de uma religião e o Zen para mim foi um grande alívio. Pensar em pecado, juízo final, purgatório, traz uma sensação de uma saga sem fim.

Monge Genshô – O conceito de pecado não interessa para o budismo. Na realidade nossas ações tem consequências. E nossa vida baseia-se nisso. Você tem que tentar fazer o bem, e isto vai automaticamente lhe trazer felicidade. Não há ninguém lá fora nos julgando não. Mas os resultados das nossas ações são muito mais implacáveis do que se houvesse alguém para nos perdoar. Se fizermos algo errado, teremos que consertar. É assim que o budismo pensa. Despertar das ilusões.
Temos um método, com raciocínios claros e não estamos dispostos a sermos enganados. Não estamos confiando em crenças. Um monge não tem a verdade para vender e ninguém precisa acreditar nele. Desejo que as pessoas tenham grande dúvida e nunca percam sua independência mental. Por isso, o trabalho do professor do Zen é difícil, pois os alunos sempre estão trazendo perguntas, dúvidas. E isto é muito bom, significa ter alunos de verdade. Quando alguém apenas tem fé e acredita sem questionar, acho que não passa de um tolo.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Coração e mente


Saikawa Roshi, um grande mestre.

Uma vez, aqui mesmo neste local, uma senhora passou e nos viu fazendo zazen, depois comentou com uma praticante: “Como vocês podem ficar o dia inteiro com a cara enfiada na parede? Que monótono”. Somente nós que ficamos o dia inteiro com a cara enfiada na parede e percebemos a quantidade de coisas que emergem e se mexem em nossa mente, sabemos que ficar ali não é monótono. Há muita coisa acontecendo dentro daquelas pessoas sentadas quietas com a cara enfiada na parede. Vocês sabem que dentro de vocês há infinitas coisas acontecendo, há muito assunto para resolver.

Um algumas  escolas existe um retiro onde o praticante é colocado dentro de uma caverna e pratica meditação o dia inteiro, recebe refeições diárias e isso acontece durante três anos. No Zen também existem histórias de retiros assim, Bodhidharma ficou nove anos em uma caverna. Precisa de tempo para aprender algo sobre si mesmo. Nossos retiros são de tempo insuficiente para depurarmos nossa mente. Mas o sesshin é mais uma preparação, no zazen nós preparamos o terreno e é mais provável que lá fora, após o retiro, vocês possam ter um insight, é esse tipo de experiência que estamos procurando, experiências não expressáveis com palavras, mas uma percepção de que algo mudou.

A paisagem é a mesma, mas a maneira de percebê-la é diferente. Antes você olhava para uma montanha e apenas a via, depois você será capaz de ouvi-la. Se você for capaz de ouvi-la, conseguiu algo inenarrável. É por isso que as pessoas sofrem nos retiros, mas estão sempre retornando. Alguma coisa aconteceu.

PERGUNTAS

1) Como funciona essa relação coração e mente? Se o coração é a casa do sentimento como é possível acessar isso?

Monge Genshô – Todos os sentimentos também são construídos. Amor, ódio, paixão, tristeza, alegria e felicidade são construções de nossa mente. Coração e mente são uma só coisa, em japonês elas têm o mesmo radical “shin” formando o “kanji”. Há uma famosa frase “ISHIN DEN SHIN”, que significa “de mente para mente” ou “de coração para coração”, nesse sentido mente e coração são indistinguíveis.

O que temos que perceber, e que às vezes é muito difícil, é o quanto de construção tem em cada coisa. Pensem no seu primeiro amor, quando você olhou para uma pessoa e se apaixonou, imediatamente projetou uma série de sonhos e ideais. Tudo que você construiu a seguir foi pensando nisso. Há muita fantasia e construção nisso, mas conforme o tempo vai passando vamos percebendo que as coisas não são exatamente como foram construídas. A relação será mais bem sucedida se não forem acalentadas demasiadas ilusões e principalmente se você vir que a outra pessoa é apenas um ser humano. Com o professor do Dharma é a mesma coisa, muitos o colocam como um ser superior e infalível o que é um tremendo engano. Por um lado devemos ter grande reverência pelo manto de Buda, mas por outro lado não devemos criar um culto à personalidade. Nós gostaríamos que os sentimentos fossem surgimentos maravilhosos, mas eles são construídos e coração e mente são uma coisa só.