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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O caminho da luz


P:  Me parece que a respiração tem uma ligação com o despertar. Até que ponto  ela influencia?

Monge Genshô – A respiração faz parte do método e é uma atividade corporal que tem dois aspectos. Ela é automática, mesmo que você não preste atenção você respira e por outro lado você tem controle sobre ela, podendo variar seu ritmo da forma que desejar. Desta maneira, esse controle permite que você interfira no funcionamento da mente, por exemplo, se você está invadido por pensamentos que não cessam, pode interromper por alguns segundos a respiração, esse ato quebra o ciclo do pensamento invasivo. Você pode seguir fazendo isso cada vez que um pensamento invadir sua mente, passando a ter um mecanismo que lhe permita interferir na sua mente que parece incontrolável e corre como um cavalo desembestado, mas que através desse exercício, você pode colocar-lhe rédeas. Ser senhor de sua mente é extremamente importante. As pessoas costumam dizer que não conseguem parar determinados sentimentos como raiva ou rancor e não conseguem parar a agitação, mas isso não é verdade, sua mente pode ser controlada e o mais acessível mecanismo é a respiração. Depois que você aprende a controlar sua mente no Zazen, pode vir a controlar também na vida diária e isso é muito importante. No Zazen quieto olhando para a parede é mais fácil, embora percebamos ser muito difícil. Mas, mesmo assim, ainda é mais fácil que na vida diária.
 A dificuldade dessas experiências é que elas não são transmissíveis com palavras, são pequenos insights que surgem à medida que vamos praticando e que vão abrindo condições para novos insights. Criar condições para ter insights é muito importante, pois existem pessoas que nunca têm insights de nenhum tipo, desta forma, elas não aprendem coisas que estão disponíveis na vida, que são perceptíveis. 

P: O Satori é um estado sempre presente e nós é que não conseguimos acessá-lo?

Monge Genshô – Está sempre disponível. Depende de você e poderia existir, no entanto, não é nem um pouco fácil ganhar esta habilidade. Na verdade é uma habilidade de voltar ao kenshô quando se deseja. Se você tiver vários insights vai chegar o dia em que terá um “kenshô”, então terá vários “kenshôs” cada vez mais longos e mais profundos. Se você conseguir treinar desta forma e atingir um estado de estar em Zazen em torno de 40% realmente presente, estará amadurecendo a mente de tal modo que o Satori torna-se possível.

Isso não é um milagre e mesmo que atingido esse estágio não significa que a pessoa tornou-se alguém especial e sim que ela conseguiu enxergar algo, mas ela pode se comportar ainda de maneira bem errada. Ela tem a habilidade, mas para que a habilidade penetre na sua vida completamente, ainda leva muito tempo de treinamento. O que normalmente se diz para essa pessoa é que o caminho começa agora e que ela necessita praticar mais e de forma mais intensa. Ter o insight não significa ter terminado o caminho e sim tê-lo iniciado.

Funciona mais ou menos da seguinte maneira: você nunca teve nenhum insight e tê-lo parece ser maravilhoso. Quando você tem o primeiro, não parece mais tão maravilhoso, pois ainda falta muita coisa, então você tem mais e mais insights e cada vez que você olha para trás percebe que tudo que você teve não era nada. Quando consegue um esclarecimento ou despertar, percebe que ainda se sente decepcionado consigo mesmo, pois você não é nada daquilo que pensava que deveria ser. Mas você continua praticando e tentando chegar mais fundo e esse caminho é praticamente infindável.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O caminho é infindável



Pergunta – Me sinto muitas vezes perdida, porque, aquilo lá fora não me diz mais nada e ao mesmo tempo aqui não cheguei em nada ainda...estou entre nada e coisa nenhuma...

Monge Genshô – Por isso o quarto voto do Bodhisatva, O Caminho de Buda é infindável, faço voto de percorre-lo até o fim. Mesmo que a gente tenha uma pequena experiência de despertar e comece a vislumbrar coisas, mesmo assim, você tem uma experiência e pensa que é pequena, embora ela tenha distanciado você das outras pessoas e elas pensem que você é louco e não podem mais entendê-lo. Você percebe que existe muito mais a fazer e passa para um estágio um pouco melhor,  e quando olha pra frente parece infindável mesmo. Genshu Osho, (Osho é o título dos monges plenamente formados não o nome de alguém) não é de uma família de monges, ele é de uma família comum, trabalhou como operário, mas sentia-se inquieto e foi para um mosteiro.

Não ser de uma família de monges no Japão significa uma dificuldade, da maneira como o Zen se estruturou no Japão, em que templos acabam sendo hereditários e confortáveis cartórios para se viver, os monges de vocação são diferentes e essa é a condição dele. Ele foi para um mosteiro e ficou dez anos sem sair, dez anos vivendo como nós estamos vivendo no sesshin, praticando cerimônias, sem família e sem ver o fim, sem nunca ver o fim. Sempre na esperança de chegar um pouco mais longe. Uma vez por mês sesshin. E todos os dias no encerramento das atividades o verso “não desperdice sua vida”. Porque todos os dias passam e você não obteve o despertar. Todos os dias de novo, por dez anos. Então, é claro, o rosto muda.

Ele ficou na minha casa e o que posso dizer dele? Um homem comum, só que em sua conduta não há falhas. Eu disse à ele que poderia ver televisão se quisesse, ele me respondeu que faz 15 anos que não vê televisão, então vai para o quarto e lê, ou senta num zafu e pratica zazen. Depois de dez anos ele ainda precisa praticar. Ele pediu para ficar em casa um dia e o que ele fez? Lavou a roupa, estendeu, limpou a casa. Se você disser, “sim, ele recebeu a transmissão, agora é Osho, isso significa que ele tem alguma realização espiritual, mas qual é esse intelecto, essa inteligência, essa compreensão, essa sabedoria?” A única coisa que posso dizer é que ele limpou a casa.