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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Além do Entendimento


A tradição tibetana tem uma história interessante. Um aluno recebeu a instrução para construir uma torre de pedras, trabalho cansativo, e ele o fez. O Mestre então mandou-o desmanchar: “desmanche a torre, pois eu não gostei”. No outro dia chamou o discípulo e disse: “faça a torre de pedras”. E esse procedimento de fazer torres de pedras e demoli-las durou oito vezes. 

O que o Mestre pretendia? Para nós pode parecer muito absurdo, mas o objetivo, evidentemente, não eram as torres; o objetivo era algo dentro do aluno.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Prisão


Bem, há muitos métodos de fazer o que chamamos meditação. Há métodos preparatórios, de observação do corpo, com o propósito de nos tornarmos conscientes. Há métodos com recitações que nos dão uma âncora e, mais do que isso, um som harmônico que pretende nos sintonizar com o todo. 

Há também métodos voltados a algo que está fora de nós, e eles conduzem a um grande engano, um sentimento de separação, porque é necessário chegarmos a noção, ao sentimento de que entre nós e fora de nós não existe distância alguma, que todo fora está dentro e o que está dentro pertence a esse fora. Nós somos altamente perturbados pelo fato de que nos sentimos separados, por causa da nossa mente, do funcionamento das nossas formações mentais, da nossa consciência que é dependente dos nossos sentidos: nós abrimos os olhos e vemos tudo fora, separado de nós. Então, é necessário criar um insight, uma visão de que na verdade estamos como que aprisionados dentro desse saco de pele, cheio de ossos e órgãos. Nós nos agarramos a este aprisionamento como um prisioneiro que amasse a sua cela, e não quisesse dela sair. Nossa libertação é altamente dependente do fato de que temos que abandonar esse amor à nossa prisão, a essa prisão que vivemos e sentimos por estarmos aqui, como seres, e estendermos nossos sentidos a um mundo que nos rodeia.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Eu tenho a capacidade de ficar sem nada





Pergunta: Sobre a questão da experiência, uma vez eu li sobre um problema seu. O senhor fala que você voltou para casa, pensando naquilo tudo e foi sentar em zazen. Então gostaria que o senhor falasse pensando em alguém que não é budista, ou não tem uma prática meditativa, como essa pessoa pode dar um primeiro passo para começar a lidar com as crises da vida?

Monge Genshô: Essa foi uma experiência bem interessante, porque foi um insight. Eu estava numa empresa onde eu era avalista de operações e houve um desfalque. Um sócio roubou o dinheiro. Eu voltei para casa dirigindo o meu carro e pensando “a empresa vai à falência, meu nome será arrastado, perderei crédito, vai acontecer mais isso, isso e aquilo”. Toda a minha vida profissional estava vindo abaixo naquele instante e fui para casa pensando no tamanho desse desastre e em como eu não sabia como sair dele. Quando cheguei em casa, sem saber o que fazer, peguei um zafu (almofada), coloquei no quarto, fechei a porta e me sentei. Não demorou muito para me vir o seguinte insight: “eu posso falir, eu posso perder meu nome, meu crédito, eu posso! Eu tenho essa capacidade. Então não tem problema, porque eu tenho a capacidade de ficar sem nada”.

Levantei-me consciente dessa capacidade de perder tudo, peguei o carro e dirigi de volta para a cidade onde estava a empresa. Cheguei e tomei providencias: vamos vender o estoque, vamos negociar com os credores, vou sentar na frente de cada um deles e explicar que houve um desfalque e que quero que eles me ajudem a resolver, vamos vender as máquinas, etc. Resolvi. Resolvi tudo.

Semanas depois eu estava vendo televisão e vi uma entrevista de um diretor de uma empresa contanto sobre um projeto, olhei e pensei que poderia fazer melhor. Liguei para ele, me apresentei e disse que tinha uma ideia sobre o projeto que ele estava querendo fazer. Sentamos juntos e estruturamos, pedi porcentagem de remuneração sobre o resultado, os sócios conversaram e algumas semanas depois fechamos o contrato. Vendemos 2 milhões de dólares e eu ganhei um percentual sobre o valor. Essa era uma empresa de turismo. Naquela época sofríamos com uma inflação violentíssima com o governo Collor e eu bolei um sistema de poupança turismo para eles e nós vendemos isso para as pessoas. Deu muito certo, foi o primeiro projeto de poupança turismo. Isso foi em 1989. Então faz muito tempo, mas a história é interessante no sentido de: enquanto eu pensei que era um problema enorme, ele me esmagava. Quando eu pensei “posso perder tudo”, o problema se resolveu. Então se você pensa “eu posso morrer”, está resolvido. Não existe um problema tão grande que seja superior ao seu próprio desaparecimento, mas isso é inevitável, então não existe um problema real.

Nessa época eu não era Monge, não tinha nem o meu rakusu, só sabia o que era sentar em zazen e já me foi possível resolver um problema assim, através de um insight. Isso é possível. Espero que vocês achem esse tipo de história interessante, mas provavelmente todas as pessoas já passaram por algum momento na vida onde pensaram: minha vida está sem sentido, destruída, ou qualquer coisa assim, mas isso não é verdade. Não é verdade se você olhar com outros olhos.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pensar é Inútil





Monge Genshô: Eu me lembro de passar um ano me levantando de madrugada para fazer zazen e no fim do ano eu estava muito desiludido, ainda era leigo, e pensei: “afinal de contas, o que eu aprendi em um ano me levantando de madrugada para sentar?", e me veio a ideia do que eu tinha aprendido – “Pensar é inútil”. Você está tentando resolver os problemas todos pensando, e devemos saber que não é pensando que vamos resolvê-los.


Aluno: Como resolvemos?

Monge Genshô: Eu não deveria responder, mas é através de insights. Você resolve através de uma claridade que lhe vem e que resolve tudo de uma vez só. Não é através de soluções raciocináveis. É por isso que muitas pessoas vão fazer terapia psicológica anos e anos raciocinando na frente do seu terapeuta, e passam 10 anos e ainda não resolvem, porque não é pensando que nós resolvemos.

  
Contudo, isso não quer dizer, em absoluto, que as terapias sejam inúteis. Elas são úteis e devem ser usadas por pessoas que estão com dificuldades, mas não vão alcançar iluminação com isso. Quando uma pessoa tem dificuldades sérias, eu digo que precisa de uma terapia, ou mesmo um psiquiatra, como na anedota: - O aluno chega e diz -”Eu acredito em homenzinhos verdes na galáxia de...” - e eu digo: "sim, está bem. Eles falam com você?". Ele diz: "não". "Ah então não é grave. Se eles falam com você, então lhe encaminho ao psiquiatra".


Se essa pessoa sentar em zazen, virão outras alucinações na sua mente, porque mesmo uma pessoa que está bem e tem discernimento do que é fantasia e realidade, ela sofre. O Zen tem finalidade diferente: não serve para tratar de distúrbios.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Abrir os Olhos


O que faz com que eu tenha essa consciência aqui e agora? Minha onda cármica. E minha consciência construída nesse momento, momento a momento, como fotogramas em um filme. Eu tenho uma sensação de continuidade porque eles se sucedem rapidamente. Mas, se eu tomar um instante de consciência, é só isso, não é mais nada. 
Para começar a clarificar as coisas a gente manda a pessoa sentar-se em zazen, não é? E diz: "não olhe para o  passado, nem para o futuro, é só esse fotograma de agora. Então descubra, olhe isto, só olhe.". À medida que fazemos esse exercício, a lucidez começa a aumentar. 
É que, na realidade, nós estamos procurando, no budismo, fazer pessoas lúcidas, não iludidas, não crentes; não pessoas que vão atrás de crenças, mas pessoas que enxergam. É isso que é iluminação, que, diga-se, é uma má palavra, pois parece que vem uma luz dali e me ilumina, e não é isso. A palavra correta seria "despertar": despertar das ilusões, abrir os olhos. É um grande insight. É isso.