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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Disciplina da mente
1) Dentro de uma prática regular, o que o senhor considera bom e razoável, para manter uma disciplina e um condicionamento da mente?
Monge Genshô: Seria bom fazer zazen duas vezes ao dia. Mas mais importante do que só fazer zazen, é começar a prestar plena atenção naquilo que se está fazendo. O que estou fazendo? Plenamente presente significa a mesma mente do zazen, sem ficar no passado nem no futuro. Lavar a louça: lavar a louça. A água caindo nas mãos, detergente no prato, tudo bem limpo, ficou sem gordura, enxaguar, sentir a temperatura da água, colocar para escorrer, outro prato. Aqui e agora. Nada de pensar no que eu vou fazer amanhã, o que aconteceu ontem, as contas para pagar, nada. Você vai fazer zazen lavando pratos, isso é bem importante.
Se você conseguir treinar no zazen estar presente naquele momento, você pode transferir para aquilo que você está realizando, e isso você pode fazer até 24 h por dia. Com uma prática assim, sua mente vai mudar muito, muito.
Dirigir um carro é um desafio. Você está andando, vem alguém atrás, buzina. Você não pensa nada, não se irrita, não se mobiliza, pensa que ele deve estar com mais pressa e dá passagem para ele. Ele passa do lado e diz uns palavrões porque você estava atrapalhando, e você não diz nada. Aceita como se fosse água caindo do chuveiro. Nada, não responde nada. E não continua pensando no assunto, continua dirigindo e dez metros depois você tem que ter esquecido os palavrões. Tentar não ficar com sentimento de ansiedade ou raiva depois, é isso que você tem que conseguir. Não levar nada em conta. (continua)
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
A ponte do meio balde - cont

Todas essas histórias, desde a da ponte do meio-balde até a dos chipanzés, têm relação com nossa atitude de integração e respeito com toda a natureza e com tudo o que nos cerca. O primeiro preceito budista diz “Não matar”. Isso não significa, somente, não matar seres humanos, mas tem relação com tudo o que nos cerca. Meu primeiro professor do Zen dizia que esse preceito inclui não matar uma pedra, simplesmente porque também uma pedra pode ser danificada. Se não houver um motivo plausível, não temos o direito de destruir qualquer coisa ou de causar qualquer sofrimento. Esse é um questionamento que cada um deve fazer com relação a si mesmo e sua vida no mundo.
Quando penso em moralidade, penso que o budismo não tem uma moral no sentido de regras que temos que seguir, porque as regras já existem. Não é uma questão de moral no sentido convencional, como questionar-se sobre a roupa a vestir ou de como nos comportamos; não se trata de uma moral. Trata-se de uma ética em relação ao sofrimento, logo, todo ato que cause sofrimento aos outros deve ser questionado, o que engloba gestos, palavras e em última análise, pensamentos – neste caso, porque o pensamento leva a que se cometam as palavras e os atos que irão gerar sofrimento.
Por isso Buda disse que o caminho budista é ser senhor de sua mente. Somente sendo senhores de nossas mentes seremos capazes de evitar sofrimento aos outros e a nós mesmos. Através do descontrole de nossa mente é que começamos a sofrer, porque temos sentimentos que nos perturbam e esses sentimentos é que têm que ser transformados. Mas não basta policiá-los, pois o simples ato de controlar pode falhar, e então, fracassamos. O que temos que mudar é o sentimento real, visto que, ao proceder assim, palavras e gestos serão automaticamente alterados. Mas isso tudo é extremamente difícil, então, para tentar transformar nossa mente através de um esvaziamento dos condicionamentos de que ela está plena, fazemos zazen.
Zazen é a técnica cuja prática permite que nossa mente se transforme. Mas, na trajetória de nossa vida diária, a cada pequeno ato de pensamentos, gestos ou palavras, nós podemos nos questionar: “por que eu falei assim?”, ou, “por que eu disse isso?”, “por que agi dessa forma?”, “por que pensei assim?”, “de onde vem esse sentimento?”, “o que ele é?” Isto é a prática budista. Quando dizemos que somos praticantes, deveríamos dizer que somos praticantes para nos tornarmos senhores de nossas mentes, para não deixar que a mente corra livre e desembestadamente, sentimento após sentimento. Hoje mesmo comentei com minha esposa que um dos piores conselhos que já ouvi na minha vida foi “siga seu coração”. Não devemos seguir os sentimentos tais como eles surgem, porque eles não são bons conselheiros. Os sentimentos são paixões e as paixões nos conduzem de forma desordenada. Na realidade, ser senhor de sua mente significa ser senhor de seu coração.
Palestra do Monge Genshô - íntegra aqui
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terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Tudo está na mente
Nyoshul Khen Rinpoche (Tibete, 1932 – França, 1999):
Todos os pensamentos, sentimentos, emoções, percepções, sensações, estados da mente, conceitos e tudo mais são como nuvens no céu, momentaneamente se reunindo e depois dispersando, se dissolvendo de volta exatamente nesse mesmo espaço. Que bem pode haver em se apegar a isso? Que bem pode haver em tentar se afastar disso?
Tudo é a exibição ilusória, milagrosa, como um sonho, da própria mente de alguém. Não há nada especial a se fazer sobre isso, exceto reconhecer sua natureza verdadeira, sua vacuidade, e ser livre dentro do que quer que pareça surgir.
Não é necessário julgar experiências e pensamentos como bons ou ruins, como desejáveis ou indesejáveis, proveitosos ou improveitosos. Deixe apenas ir e vir do modo como é, sem se envolver demais, sem se identificar com nada, nem cedendo nem seguindo, nem suprimindo nem inibindo. Simplesmente deixe todas as coisas internas e externas aparecerem e desaparecerem à sua própria maneira, apenas como nuvens no céu, e permaneça acima e além disso tudo, mesmo no meio das atividades e responsabilidades diárias.
Há tantas coisas para se fazer neste mundo, mas há apenas uma coisa que uma pessoa precisa conhecer, e isso é a sua própria natureza. Esse é o medicamento universal, a panaceia que cura todos os males e doenças. O que quer que vem, também vai. A própria natureza, o ser fundamental de alguém, está além — não se afeta pelas manchas que surgem ou por fenômenos temporários. Não vem nem vai: permanece imutável. Ao reconhecer isso, a transcendência inata é vivenciada. Então, samsara e nirvana não significam nem esperança nem medo para o praticante; a dualidade não mais prevalece. Não há nada a esperar, nenhuma queda a temer.
Como Guru Rinpoche, Tilopa e Naropa, e o Mahasidda Saraha disseram: “Com objetos externos, não se preocupe. Como objetos internos (o próprio sujeito), não se preocupe. Sem olhar para fora ou dentro, deixe como é: vazio, livre e aberto. Não são os objetos externos que nos prendem, mas sim o apego interno que nos amarra.”
Essa é a instrução essencial dos mahasiddas da India e dos yogues realizados do Tibet. Ela é baseada nas palavras do próprio Buda Shakyamuni, que disse que a raiz de todo sofrimento é se agarrar, se apegar. Não há outro ensinamento além deste. Isso é a raiz de tudo. Esse é o princípio por trás de todas as diferentes explicações.
A sensualidade não está nos objetos, está na mente que deseja, no próprio desejo. O desejo preenche os objetos com a qualidade de serem desejáveis, com sensualidade e valor. De outro modo, o que é desejável de modo absoluto? Tudo depende da mente, do próprio condicionamento da pessoa; o que uma pessoa deseja e aspira, a outra pode repudiar e evitar a todo custo. Não é óbvio isso?
“Natural Great Perfection”, cap. 7
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