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terça-feira, 30 de maio de 2017

Política



Política

MONGE SEIGEN VIANA·TERÇA, 30 DE MAIO DE 2017

A política parece envolver muita paixão e o Zen é exatamente a inexistência dela. É a percepção direta da paixão como lugar de sofrimento e portanto, inoportuna. Como prática, é cortar este sentimento na raiz. A visão de mundo através da política (paixão) distorce a verdade. No entanto, a verdade é completamente livre e intrinsecamente pacífica. A política cria um comprometimento que na verdade não há entre os corpos e objetos. É como costurar as roupas de uma pessoa na outra, veja o resultado dessa ação.

É um estado confuso, gerado pela ignorância, que o faz buscar certezas. Como as certezas não se encaixam no mundo real, você busca as pessoas para dentro da sua certeza, para confirmar para si mesmo, todo o tempo. As certezas são muito frágeis e efêmeras, por isso pedem confirmação. Se identificar com um lado e nele permanecer faz o sentimento de confusão abrandar, mas não o resolve. O mundo tende a se tornar complexo, mas apenas para a mente humana.

Os impulsos e paixões se engajam, mas você, decididamente não é este movimento. Você pode olhar tudo isso e decidir não se identificar. Você vem de dentro enquanto todo esse movimento político vem de fora. São outras necessidades mais urgentes, que não se satisfazem na política, que estão criando este movimento para fora de você. Lidar com o próprio corpo e existência vem sempre antes. Pergunte à uma criança qual o seu partido, qual a sua ideologia, não haverá resposta. Através do seu corpo você alcança todo o universo e transparência dos mistérios. A política se torna apenas um murmurinho longínquo. Um movimento tirando você do presente. A política tem esperanças no futuro e no passado, está perdida no tempo. Mas você realmente não pode abandonar este instante senão em imaginação. Perfeição e realização é este instante, assim como é. Mas há este movimento altruísta que parece te salvar de si mesmo.

Enquanto houver a crença de que esta realidade da sociedade e dos jornais é real, então as pessoas vão justificar as suas melhores intenções e ações. Quero dizer que não dá para comparar maya com a verdade e se chegar a conclusões precipitadas. Os Budas nascem de maya, a ilusão, mas logo amadurecem e se apartam, se tornam independentes. Há um salto de consciência e não um eterno movimento sofrido.

Em "A Ideologia Alemã" de Karl Marx, ele leva a política até as últimas consequências, até o momento em que você respira pela primeira vez. Ele diz que cada ato da sua vida é uma atitude política, ele cunhou esta ideia. Ele está falando de ação e reação, causa e consequência. A toda ação neste mundo corresponde uma reação, é a teoria do carma, defendida por um filósofo indiano três mil anos antes. Marx está trazendo a política de luta de classes até esta outra teoria, que é muito anterior. Mas seu ponto de vista é social e está dentro de um contexto histórico.

O movimento iniciado por Marx e outros, era reativo à uma ideologia dominante na época, ligada à livre iniciativa e ao poder do capital, o domínio de empresas privadas que se confundiam com o estado. Hoje há o mesmo processo porém mais sofisticado e complexo. Essa nova ideologia atual propõe a liberdade individual frente à tirania e ineficiência do estado. Mesmo que esta “liberdade individual” tenha que ser imposta à todos, mesmo que ela não exista realmente.

O mito de Jesus Cristo coloca a ação em favor daqueles que não têm poder, e isto molda fortemente o entendimento do que é espiritualidade no ocidente. Esta ação também é política e escolhe um lado da sociedade. Os ensinamentos de Cristo vão além disso, mas há esta ação, esta atitude. E no final de tudo Jesus é assassinado pelos poderosos. Fica este exemplo ecoando. Então há esta tendência em querer ajudar aqueles que estão sofrendo materialmente, o que é digno. Entretanto, espiritualidade não se confunde com movimento social.

Mahatma Gandhi também se tornou um grande exemplo de não-violência. No entanto, seu movimento político, apesar de vitorioso, acabou matando tanto quanto outras revoluções que pegavam em armas. Veja que uma coisa é a ideia da não-violência, outra coisa é a repercussão disso no mundo. Gandhi também foi assassinado.

Mas a relação do budismo e do Zen com a política, ela só existe por que o ser humano vive em sociedade, e ele sofre com a própria ignorância, seja como agressor ou oprimido, esteja ele no lado efêmero do poder ou não. Então são as pessoas que têm afinidade com o budismo e se engajam em causas que levam o "seu" budismo para a política. Qualquer pessoa é livre para se expressar como quiser. Apenas seria impróprio acreditar que os budistas teriam forçosamente que se engajar numa causa qualquer, por mais nobre que pareçam. Tenho amigos budistas nos dois extremos do espectro político, todos acreditam que suas causas são para o bem de todos. A conclusão é que o que se engaja não é o budismo e sim as tendências e paixões. O ser humano, em sua profundidade, têm as mesmas necessidades básicas. A verdadeira espiritualidade nos coloca antes de surgirem os impulsos individuais, antes das divisões e dos obstáculos. É neste ponto que nossos olhos despertam. (MONGE SEIGEN VIANA)


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O mal só existe se você acredita no bem



Pergunta: O mal existe?
Monge Genshô: O mal só existe se você acredita no bem. Quando comemos recitamos “comemos para praticar o bem, para evitar o mal e para seguir o caminho de Buda”, isso é a primeira roda do caminho: a virtude. Para a virtude existe o mal e existe o bem, mas esse ainda é o pensamento dual. A verdade é que “bem” e “mal” não existem porque são distinções classificatórias de uma mente que pensa e divide. Isso depende muito do ponto de vista, por exemplo, um jacaré come um pato numa lagoa. Para o jacaré é uma refeição, para o pato é uma tragédia. Onde está o bem e onde está o mal? Não existe bem e mal, nossas visões são obscurecidas pelas nossas paixões. Se um jacaré matar uma criança acharemos que é um mal, porque é uma criança humana, então mata-se o jacaré. Essa é a visão humana, mas não existe bem e mal na atitude do jacaré, ela é apenas uma manifestação da vida. (Naturalmente esta é uma visão a partir do absoluto, na vida diária é preciso distiguir o mal e o bem, assim como é necessário julgar para saber a diferença.)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Apreciar a beleza é ouvir a voz de Buda



Aluno: Em relação às paixões, as coisas que não são fruto da criação do homem como a natureza, os animais... Nós podemos cuidar delas? Podemos gostar delas, mas não ver com olhos de ser uma paixão?
Monge Genshô: Gostar em si, apreciar e ver a beleza em si não é uma paixão, a paixão é aquilo que arrasta, imagine que você é uma folha e o vento sopra e toca de um lado para outro e você vai batendo em paredes, árvores, coisas assim e sendo arrastado. A paixão é assim, é como loucura, ela não tem discernimento, não tem lucidez, isso é que é a paixão. Mas apreciar a beleza é ouvir a voz de Buda, é ver a voz de Buda, por isso o mestre diz: Ouves o som do regato? Sim? Então não tenho mais nada a te ensinar.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A solução está em você



O mundo do Nirvana é o mundo sem paixões. Nirvana quer dizer: fogo extinto ou sem ventos, não sou empurrado pelas paixões, aí automaticamente se estabelece o nirvana. O mundo do Samsara é dominado pelas paixões, na história da monja muito bela, o problema era o mundo das paixões.
No mundo do Nirvana esses problemas não existem. Quando nós dizemos que procuramos o Nirvana, na verdade o Nirvana está disponível todo o tempo, porque Samsara e Nirvana estão no mesmo lugar, eles não são mundos diferentes, são só maneiras de ver, se você “trocar seus olhos” está tudo resolvido. Agora se você tentar resolver o problema por meio dos outros, vai querer que os outros sejam feios ou que cubram seu corpo para não despertar nenhuma paixão, que usem uma burca ou qualquer coisa assim, tudo isso é colocar fora a solução da paixão que está dentro.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Extinguir as paixões



No budismo tem uma história de uma monja que era muito bonita, muito bela. E ai um monge se apaixonou por ela, e sentiu desejo e tentou agarrá-la e o fato se repetiu com outro monge…
E ela pegou uma navalha, cortou seu próprio rosto e disse que ela não queria causar sofrimento, causar desejo. Na verdade esse ato é relativo, porque a culpa não está na beleza. Na realidade o problema, o mau carma é daqueles que não conseguem olhar para dentro de si e ver como surge o desejo, esse é o verdadeiro problema. A solução dela é a solução falsa porque o segundo voto do bodisatva é: As paixões são inesgotáveis, eu faço voto de extingui-las todas, todas as paixões. E é isso que é o ideal do budista, extinguir suas paixões deletérias. (Continua)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A ideia de finitude do eu nos angustia



A voz de Budha não é extraordinária, ela está aqui todo o tempo. Mesmo nós estando aqui, vivos, a perdemos. Somos tocados pelos ventos das paixões, pelo nosso funcionamento, pelos nossos medos, ansiedades, desejos, por tudo. Nós somos impulsionados por tudo isso, é natural que seja assim. Ao mesmo tempo que essa mente potente é nossa grande oportunidade, ela também é nossa grande perdição. Temos uma grande capacidade de perceber, raciocinar, que não é a mesma de um animal, é mais sofisticada. O animal pode esquecer e viver do seu desejo imediato, e isso dá a ele uma vida plena naquele momento e retira o medo da morte, por exemplo, porque ele não a considera. Mas nós sabemos que vamos morrer e nosso eu desespera-se com essa ideia, ele se angustia. (continua)