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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Procure as coisas elevadas


P: A idéia de que todos os seres se iluminam, não seria uma idéia desse tempo que transcorre?

Monge Genshô – Mas um tempo muito, muito longo. A duração de um universo. Então, o fato de haver uma tendência à um aumento de consciência e de clareza, a longuíssimo prazo, no âmbito que nós olhamos, de nossas vidas, ou de poucas vidas, é imperceptível. Não é muito difícil destruir sua vida. Existem pessoas com vidas maravilhosas, talentosas, tornam-se artistas, começam a ganhar dinheiro, fama e alguém lhe oferece drogas. Em pouco tempo temos uma pessoa totalmente drogada, sem trabalho, sem amigos e que ninguém quer por perto. Então essa pessoa morre, morre de overdose. Essa pessoa tinha tudo e perguntaríamos, “mas porque”? Tinha tudo que alguém poderia ambicionar, talento, beleza, saúde. Nasceu com excelentes condições cármicas, nasceu para ter uma vida divina, com tudo que quisesse, pelo menos em termos materiais. E essa pessoa consegue destruir tudo, morre numa péssima condição, basta você se deixar arrastar, então, é fácil destruir sua vida ou causar grande sofrimento às pessoas que estão a sua volta, é muito fácil, é só ceder a prazeres fugazes. A longuíssimo prazo pode-se sair disso? Sim, mas quantas vidas você terá que repetir fazendo a mesma coisa se você constrói um carma assim? A mente com que a gente morre é muito importante para a próxima vida. A tradição diz que o mais importante é o impulso final, o que acontece agora na hora da morte, que mente eu tenho? Isso é a coisa mais importante e, como você não escolhe a hora da morte, é melhor ter uma mente preparada. O melhor é se sentir atraído pelas coisas boas, quem se sente atraído pelas coisas elevadas irá nascer em um ambiente onde as coisas elevadas estão disponíveis. Agora se você procura o fugaz, o baixo, o maldoso, irá nascer numa vida cercada por essas condições, pois se sentirá atraído por isso.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Demolir o pequeno EU



Voltemos ao nosso tema do eu. Como é que nós treinamos para fazer com que o nosso eu enfraqueça. Como é isso? Primeiro nós sentamos em zazen. Por que sentar em zazen funciona para diminuir a noção de um eu? Porque se você senta e não cogita nem julga você é capaz de olhar, cheirar, degustar, tatear, sem colocar um eu nessas coisas, nem colocar um eu que está apreciando essas coisas. Todo o treinamento do Zen está focado em demolir o eu, é por isso que muitas vezes as pessoas não gostam do treinamento do Zen e se irritam com os professores do Zen, porque leram livros sobre o Zen Budismo e quando vêm conhecer um centro do Dharma, um monge verdadeiro ou um sesshin, em vez de eles terem oportunidade para se manifestar, para mostrar o seu eu, eles são todo o tempo instados a calar a boca, a fazer tudo junto com os outros, a não corrigir os outros, a não criticar, a não elogiar, a não fazer nada que está ligado ao eu.
São estratégias para diminuir o eu. A primeira estratégia é sentar em zazen e então ouça o pássaro cantar lá fora, mas não pense “um pássaro cantou lá fora”. Não coloque um eu no pássaro. Não há uma identidade no pássaro. Também não há uma identidade que ouve o pássaro. Não diga para si mesmo: eu estou ouvindo um pássaro, como é bonito o canto do pássaro. Todos esses são julgamentos. Nós temos que sentar no zazen, ouvir o canto do pássaro sem colocar nenhuma identidade no pássaro e nenhuma identidade no observador, que somos nós, do pássaro.
O som do canto tem que nos atravessar. Passar por nós de um lado ao outro. Não deixar rastro. Surgir e desaparecer. Estamos conscientes profundamente do canto. Ouvimos com nitidez o canto, mas ele passa por nós de um lado a outro. Nós não agarramos , não julgamos , não nos colocamos nele. Não pensamos o que aconteceu antes do canto ou o que vai acontecer  depois. Não esperamos o próximo canto. Não cogitamos do canto que já passou.
Ficamos sentados em zazen deixando que o canto dos pássaros aconteça naquele momento, não no passado nem no futuro. Não diga, agora o pássaro cantou, porque agora já é passado. Simplesmente sente e cante com o pássaro. Você é o próprio canto do pássaro. Você é o pássaro. Não é o pássaro que canta. Todo o universo canta. Você canta junto com todos os seres. Não há lá nem aqui. Não há passado. Não há futuro. Há só (estala os dedos) e pronto! Essa é a maior prática.
Se você atingir essa prática não precisa nenhuma outra porque todos os seus sentidos deixaram de funcionar para enganá-lo, para criar a consciência de um eu, você desarmou a armadilha que surge com as percepções e com a instalação da consciência.

(trecho do livro: O Pico da Montanha é onde estão os meus pés)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A ponte do meio balde - cont


Todas essas histórias, desde a da ponte do meio-balde até a dos chipanzés, têm relação com nossa atitude de integração e respeito com toda a natureza e com tudo o que nos cerca. O primeiro preceito budista diz “Não matar”. Isso não significa, somente, não matar seres humanos, mas tem relação com tudo o que nos cerca. Meu primeiro professor do Zen dizia que esse preceito inclui não matar uma pedra, simplesmente porque também uma pedra pode ser danificada. Se não houver um motivo plausível, não temos o direito de destruir qualquer coisa ou de causar qualquer sofrimento. Esse é um questionamento que cada um deve fazer com relação a si mesmo e sua vida no mundo.

Quando penso em moralidade, penso que o budismo não tem uma moral no sentido de regras que temos que seguir, porque as regras já existem. Não é uma questão de moral no sentido convencional, como questionar-se sobre a roupa a vestir ou de como nos comportamos; não se trata de uma moral. Trata-se de uma ética em relação ao sofrimento, logo, todo ato que cause sofrimento aos outros deve ser questionado, o que engloba gestos, palavras e em última análise, pensamentos – neste caso, porque o pensamento leva a que se cometam as palavras e os atos que irão gerar sofrimento.

Por isso Buda disse que o caminho budista é ser senhor de sua mente. Somente sendo senhores de nossas mentes seremos capazes de evitar sofrimento aos outros e a nós mesmos. Através do descontrole de nossa mente é que começamos a sofrer, porque temos sentimentos que nos perturbam e esses sentimentos é que têm que ser transformados. Mas não basta policiá-los, pois o simples ato de controlar pode falhar, e então, fracassamos. O que temos que mudar é o sentimento real, visto que, ao proceder assim, palavras e gestos serão automaticamente alterados. Mas isso tudo é extremamente difícil, então, para tentar transformar nossa mente através de um esvaziamento dos condicionamentos de que ela está plena, fazemos zazen.

Zazen é a técnica cuja prática permite que nossa mente se transforme. Mas, na trajetória de nossa vida diária, a cada pequeno ato de pensamentos, gestos ou palavras, nós podemos nos questionar: “por que eu falei assim?”, ou, “por que eu disse isso?”, “por que agi dessa forma?”, “por que pensei assim?”, “de onde vem esse sentimento?”, “o que ele é?” Isto é a prática budista. Quando dizemos que somos praticantes, deveríamos dizer que somos praticantes para nos tornarmos senhores de nossas mentes, para não deixar que a mente corra livre e desembestadamente, sentimento após sentimento. Hoje mesmo comentei com minha esposa que um dos piores conselhos que já ouvi na minha vida foi “siga seu coração”. Não devemos seguir os sentimentos tais como eles surgem, porque eles não são bons conselheiros. Os sentimentos são paixões e as paixões nos conduzem de forma desordenada. Na realidade, ser senhor de sua mente significa ser senhor de seu coração.

Palestra do Monge Genshô - íntegra aqui