Mostrando postagens com marcador crédito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crédito. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de março de 2014

Apego e aversão


O sofrimento provém do apego, essa é a informação que a gente ouve. Por causa do apego é que nós entramos em sofrimento. Isso é bem verdade, em geral sofremos pelas coisas nas quais colocamos nosso coração, aí estará a possibilidade de nosso sofrimento. Nenhuma das coisas do mundo é permanente, sólida ou estável, tudo está sempre mudando e iremos perder as coisas que julgamos preciosas. Perderemos os amores, as pessoas, o crédito, a fortuna e a fama. As coisas surgem e desaparecem. Porque nos agarramos à elas e nelas colocamos nosso coração, então sofremos pelas perdas.

Temos muita dificuldade de nos libertarmos desse tipo de sofrimento porque sempre fomos ensinados desde pequenos a chamar as coisas de “meu” e “minha”. Primeiro aprendemos que temos um “eu”. Logo depois aprendemos o “é meu”. Como agregamos essas coisas ao nosso “eu”, quando elas partem, sofremos. Quanto mais memória você guardar disso, mais sofrimento terá. Agora mesmo estava me lembrando de quando era pequeno e minha irmã ganhou uma caixinha de música, girava-se uma manivelinha e tocava uma melodia. Eu e meu irmão ficamos muito intrigados e resolvemos desmontar a caixa para ver como funcionava. Evidentemente destruímos a caixinha de musica. Lembro que minha irmã entrou no quarto onde estávamos e viu o que fazíamos. Isso deve fazer uns 55 anos. Mas da última vez que estive com ela, ela me acusou de ter destruído sua caixinha de musica. A caixinha de musica de 55 anos atrás ainda causa sofrimento.

Hoje um aluno me escreveu porque eu havia dito a ele que não era um ser perfeito. Mas o que interessa nessa história é que, porque havia apego, houve sofrimento. Como houve intenção, isso criou um carma e esse carma ainda vive depois de tantos anos. Mas existe outro aspecto que nos causa sofrimento que normalmente é esquecido - a aversão.

Buda ensinou: “sofremos por apego, por aversão e por ignorância”. Nós sofremos também quando sentimos aversão. Aversão a pessoas, coisas, alimentos, enfim, todas as coisas. Desenvolvemos preferências e dizemos: “eu gosto disso”, “não gosto daquilo” e dessa forma criamos sofrimento.

Por causa disso, nos monastérios Zen, quando se servem os alimentos, isso também nos nossos retiros, são servidos alimentos diferentes e você não pode recusar, não pode deixar de comer nenhum deles. Eu pessoalmente nunca gostei muito de comida japonesa não sei porque resolvi ser monge de uma escola japonesa. Já estive em mosteiros onde a comida servida era tipicamente japonesa, não a comida que a gente come em restaurantes, mas a comida mais do dia-a-dia do japonês, ameixas salgadas, pudim que tem pimenta dentro, café da manhã com papa de arroz sem sal e legumes cozidos. Para um brasileiro que não está acostumado, quando se depara com esse tipo de refeição pela manhã, estranha.

O que acontece é que você tem que sentar, receber a comida e comer sem julgamentos de “eu gosto, eu não gosto”. Depois de repetir a mesma comida por dez refeições, você acaba gostando, acaba descobrindo sabores que não conhecia, mas para isso o julgamento “gosto”, “não gosto” tem que cessar. Esse treinamento é feito para superar o sentimento de aversão. Os mestres costumam fazer algumas coisas um pouco incompreensíveis, por exemplo, existe um mal estar entre dois monges, eles não se entendem muito bem. Lembro-me bem de um episódio entre duas monjas que foram reclamar ao mestre, cada uma dizendo odiar e ser odiada pela outra. Então o mestre tomou a providência de colocá-las a dormir juntas no mesmo quarto. Você deve aprender sua aversão. O ensinamento é “Sente-se com seu desconforto”. As opções são: ou você vai embora ou fica e resolve a questão.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O sistema pode ser usado e pode ser abandonado


Pergunta – Algumas pessoas, e isso já aconteceu comigo, quando não conseguem realizar suas necessidades básicas ficam totalmente alteradas e nessas condições é muito difícil se manter lúcido...

Monge Genshô – Corpo e mente estão ligados. Isso acontece comigo também, por exemplo, no final do dia, eu, cansado, com sono e fome, depois de ter resolvido milhares de problemas, surge mais uma pessoa com problema. O melhor seria você poder deixar para outro dia, pois talvez a importância não seja assim tão grande no dia seguinte. Com o passar do tempo as coisas parecem perder a importância. Quando você não está em boas condições físicas isso altera sua mente.

Pergunta – Tudo está também relacionado com a disciplina, não é? Se a pessoa se observar e descobrir que tem determinadas reações que não são corretas, ela deve tentar uma maneira de eliminar esse tipo de sentimento?

Monge Genshô – Sim, ela deve reconhecer que não está bem. Mas ainda assim talvez o pensamento mais correto seja perceber a finitude de todas as coisas, todos iremos morrer e os problemas não têm a menor importância. Alguém pode lhe dizer de forma desesperada que sua empresa irá quebrar ou que você perderá todo seu crédito. Qual a importância disso se você irá morrer? Poderão pensar que você seja louco, mas isso é colocar as coisas sob uma perspectiva mais ampla da vida.

Um amigo me escreveu ontem pedindo conselhos, pois sua empresa está em dificuldades, o condomínio está atrasado etc. Pedi à ele que anotasse em uma folha as contas que ele obrigatoriamente deve pagar, por exemplo, comida, luz e empregados da empresa, senão a empresa não funciona e aí sim ela quebra de vez. Em outro papel as contas que se não forem pagas imediatamente nada acontece.  Então ele respondeu perguntando sobre o crédito dele. Como ele já havia perdido o crédito, também não havia porque se preocupar. Mas e o condomínio? O condomínio irá lhe processar e vai entrar na justiça contra você, mas isso leva meses e quando acontecer, você propõe um acordo. Você já está com quase setenta anos, para que se preocupar tanto, imagine se você morre amanhã?

Pergunta – O Senhor está ensinando a ser caloteiro?

Monge Genshô – Isso é uma questão de sobrevivência. Os assalariados pensam muito no crédito, isso é muito importante para eles. Quem lida com empresas e grandes volumes de dinheiro frequentemente têm que tomar esse tipo de decisão, faltou dinheiro paga-se o quê? Aquilo que é importante, ou seja, o que for importante para que a linha de produção se mantenha funcionando. O banco? Fica para depois. Os impostos? Ficam para depois.  Isso se chama Administração Financeira de Recursos Escassos. Vale a pena se desesperar por causa disso? Não. Existem muitos exemplos de empresários que se matam quando suas empresas não vão bem. Nada é tão importante, no fundo são apenas palavras, por exemplo, quando alguém lhe acusa de estar caloteando um banco. O que é um banco? Uma entidade que empresta dinheiro que sequer tem, através do truque da alavancagem financeira, no qual emprestam até 25 vezes o mesmo dinheiro como sucedeu na quebra de 2008. Esse é apenas um dos exemplos de quantas coisas no mundo são puramente ilusórias e apenas por acreditarmos nelas é que somos, por elas, manipulados.

Esse amigo que me escreveu estava pensando que seu nome era seu crédito, mas quem o convenceu de que isso era importante? Quem atribuiu nome à ele? Quem criou o crédito? Quem criou o instrumento de pressão sobre as pessoas? Quando as pessoas admitem essa ilusão, elas entram no jogo e podem ser manipuladas. Se você conseguir não dar importância ao seu nome e seu crédito, estará livre da pressão. Perdeu o crédito? O que você vai fazer, se matar? Claro que não, continue trabalhando, pague todas sua dívidas e peça o crédito novamente, se você quiser, é claro, pois se você estiver muito rico não precisa de crédito. Só precisa de crédito quem não tem dinheiro.

As coisas não são exatamente o que parecem e é absurdo que alguém morra por perder seu crédito ou sua empresa. Isso não é motivo suficiente para você se matar, lembrem-se, Buda deixou seu reino, seu castelo, suas roupas de príncipe, cortou seus cabelos e foi para a floresta. Ficou totalmente pobre, nada mais que um mendigo e como fez isso porque queria não sentiu-se um derrotado. É que neste momento ele tornou-se totalmente livre.

Quando acreditamos nas ilusões que o mundo nos vende, que são o nome, a forma, crédito etc., somos prisioneiros e podemos ser manipulados pelas invenções que as instituições podem criar. Mesmo as coisas que nos parecem mais preciosas como o nome de família, por exemplo, alguém o convenceu que tem um nome de família e que deveria honrá-lo. A palavra que você usou, caloteiro, é uma palavra deste sistema que coloca um etiqueta na pessoa para aprisioná-la e forçá-la a ficar dentro, útil ele, como o nome e a forma, mas uma construção mental em última análise que você pode usar se quiser e pode abandonar se decidir.