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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Quem é você além de nome e forma?

Pergunta: Parece que o processo civilizatório acelera essa percepção de eu separado.
Monge Genshô:
Eu acho que o problema é o mesmo. Tanto é o mesmo que um texto de dois mil anos atrás fala sobre ele. Nós temos todo o processo civilizatório, um monte de confortos e todas as coisas que facilitam nossas vidas, mas o problema fundamental continua sendo pensar que nasci, pensar que morrerei, ter medo da minha morte, procurar alguma fantasia e não enxergar a minha natureza fundamental. Por isso nós dizemos no Zen: sente e descubra sua verdadeira natureza. Quem é você antes dos seus pais terem nascido? Quem é você além de nome e forma? O Sutra todo revisa constantemente a mesma coisa. (continua)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O eu necessário


Pergunta: Quando o senhor diz que somos iguais, e que devemos esquecer-nos de nós mesmos. Vem-me à mente que a busca do autoconhecimento já não é mais tão importante nesta jornada [espiritual]. É isso?

Monge Genshô – O autoconhecimento é importante sim. A dificuldade aqui é que já estou apontando o fim do caminho, mas existe um caminho para andar, e enquanto você percorre este caminho, você só poderá o fazer com a ajuda deste seu “eu”. A gente diz: - “Esqueça seu eu!”. Mas como você pode esquecer seu “eu”, se você não usar este “eu” para agir neste mundo? Então, até que você chegue a esta dissolução, você só pode caminhar consigo mesma, com seu “eu”. Isto é um conflito, não é? Uma grande dificuldade. Mas todos começam uma prática espiritual procurando alguma coisa para si mesmos, e portanto existe uma mente aquisitiva, afinal “para quem você procura?”. – “Ah, eu procuro para mim!”. Não é esta a resposta? Quando eu venho sentar para fazer meditação, ou venho fazer ioga... quem vem? – “Eu venho!”. Para quem você quer esta libertação? – “Para mim”. Mas você só vai se libertar quando esquecer o “mim”. Mas você precisa deste “mim” para vir fazer a prática, não é? Estou adquirindo a estabilidade, este é o primeiro passo. Esta condição, no entanto, ainda denota uma condição de aprisionamento, como acontece com alguns santos, cheios de virtudes, mas que muitas vezes ainda têm uma postura baseada numa mente aquisitiva.
Na prática do zen é diferente. Um dos meus primeiros professores se encontrou com um homem que estava passando por um grande drama pessoal. Sentaram-se à mesa, e o homem disse: - “Mestre, eu estou passando por um problema muito grande. Eu vou me embebedar! É algo sem solução...”. E o mestre falou: - “Então eu vou me embebedar junto com você!”. Este é um mestre zen! Porque se tem um sofrimento ali insolúvel, e tudo o que você vê que pode fazer é se embebedar, eu me embebedo junto com você, porque eu sofro junto com você. Se não tem solução, eu sofro junto com você.
Algumas vezes as pessoas me perguntam: - “Mas monge, vem alguém e me conta um sofrimento cheio de ego... ‘ah, aconteceu isso, acabou, fui abandonado e etc.’... a pessoa chora, se esperneia. O que o senhor diz numa circunstância destas? O senhor diz pra ela que é ilusão?”. Eu não vou dizer que dor de cotovelo tem “meu” e “minha”, tem o ego envolvido. Não, eu vou chorar junto com a pessoa. O que mais posso fazer? Mas eu sei que daqui a mais um tempo passa, e passa com todos. Já passou comigo, passa para vocês também, não é? (risos).

Pergunta: Mestre, voltando a esta questão da ausência do “eu”, imagino que isso gera um grande conflito na mente da pessoa. Pois nós só nos percebemos, quando também percebemos que o “outro” existe, numa espécie de contraste. Ou seja, porque o outro é diferente é que “eu me percebo como eu”...

Monge Genshô – Este é um verdadeiro koan, não é? Porque nós estamos acostumados a pensar que o mundo só se organiza a partir de uma personalidade estruturada através de um “eu”. A nossa própria psicologia age assim. Quando você vai até um terapeuta, ele faz o quê? Vamos estruturar esta personalidade para ela ser resiliente, resistente ao mundo, para se levantar da crise e enxergar bem o “eu” e o “outro”. A abordagem do budismo é completamente diversa, mas nós não dizemos que vamos aniquilar o “eu”, não é isso, pois você precisa deste “eu” para transitar no mundo. Mas este “eu” é uma mera construção. Vocês foram apresentados para mim agora: - “Ah, este é o monge Genshô”. Monge é uma construção, Genshô é um nome que foi dado durante uma ordenação por um mestre, eu não escolhi. Assim como o nome que minha mãe me deu. Esta roupa é uma fantasia que está sendo usada há séculos, milênios, dentro do zen. Tudo isto são construções. E elas [as construções] são úteis para fazer esta palestra aqui e agora. Se eu entrasse sem roupa, se não tivesse título nem nada, quem me ouviria? Perguntariam “quem é você?”. E eu diria “não sei, não tenho uma boa ideia sobre isso” [risos]. Isso teria credibilidade? Não, não teria! Então na realidade vocês me ouvem, também, por causa desta construção. Mas eu sei que estes paramentos todos são uma construídos, e que quando eu chego ao hotel e penduro a roupa no cabide, o monge Genshô não está pendurado no cabide. E daí eu posso usar outras personalidades. Quando eu sou consultor e entro numa empresa, me indagam: - “Sr. Chalegre, o que o senhor pensa disso?”. Aí eu digo “penso isso, isso e isso!”. Cheio de opinião e certeza. É outra vida, é outro “eu”.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Identidades


Pergunta – Me remetendo à uma pergunta anterior, de que quanto menos identidades tivermos menos sofrimento teremos e, com essa nossa busca por essas identidades e crescimento, como alcançar essas identidades não em um sentido literal,  mas com um outro significado?

Monge Genshô - Nós precisamos dessas identidades para transitar no mundo, então você precisa ter identidade. Veja, eu ponho as roupas de monge e venho aqui falar pra vocês com as roupas de monge, eu uso a identidade “Monge Genshô”, meu mestre me deu esse nome. Fazem 14 anos que eu tenho esse nome, mas essa identidade é uma utilidade que eu estou usando aqui. Se eu chegar em casa, tiro as roupas de Monge,  penduro no cabide e digo: “ah, eu estou lá”, não, eu não estou lá, é só um cabide. São só as roupas de monge que estão lá, aqui há um homem nu que vai tomar banho.

Então, eu chego em outro lugar e sou consultor. Aí dizem: “qual o seu nome”? Eu sou o Chalegre, consultor. O Chalegre, eventualmente usa gravata, terno, é outra identidade. Quem sou eu? Nenhum dos dois. Essas são fantasias que eu estou usando para entrar nesse baile à fantasia.

Aluno – na verdade então, o que traz essa raiva, esse sofrimento, é o apego que se tem a essas identidades?

Monge Genshô - Exato. Se você insultar o Monge Genshô, eu posso chegar em casa e dizer: “ah, fui insultado”, o monge foi insultado, posso tirar as roupas e pendurar no cabide e colocar a roupa do Chalegre e dizer: “poxa monge, foi insultado hein”? Isso seria lucidez. Se eu me identificar com a roupa e o nome, aí eu sofro. Se eu não me identificar e usá-los, aí eles são uma utilidade. É diferente. Deu pra entender melhor?

Pergunta – No zazen nós temos que pensar em quê?

Monge Genshô - Quem realmente está atento? Quem é esse que está atento? Você senta em zazen junto com todos os seres, a grande terra, os pássaros, cães, formigas, todos estão sentados junto com você, você é o centro do universo, o universo gira e você está ali, imóvel. Se é assim, você está atento a quê? Quem está atento, se você e tudo são uma coisa só? Deixe a atenção fora. Você começa com a atenção, mas tem um momento em que você tem que estar além de estar atento, além de percepção e não percepção, mas essa já é uma resposta mais difícil.

terça-feira, 25 de março de 2014

As angústias fabricadas


As angústias do mundo são em sua maioria fabricadas. Você acredita em nome, forma, roupa, bens, você acredita em todas essas coisas e sofre por elas...

Comentário – O ser humano é feito disso, só num momento de libertação último é que consegue se livrar de todas essas coisas...

Monge Genshô - É disso que estamos falando, o monastério serve para a pessoa descobrir que a maior parte disso que dizemos, “eu preciso”, é fantasia. Porque, na realidade mesmo, não precisamos. Você precisa porque todos esperam que você tenha carro, casa própria, família, mas quando você está num mosteiro descobre que é possível dormir no mesmo lugar que você medita, é possível não ter quarto, é possível não ter privacidade, é possível não ter seu próprio banheiro.

Comentário –  é assim, onde vou morar, vou morar na comunidade budista de Florianópolis, então largo tudo e peço ao monge para dormir no zendo e a comunidade é que me sustenta?

Monge Genshô - É que vocês estão pensando que esse é um modelo para a existência, o monastério, e o mosteiro Zen é diferente do mosteiro católico. Em um mosteiro católico você vai para viver a vida inteira, então é muito mais confortável. Num mosteiro Zen você vai para treinar por um período curto, não se espera que um monge em formação fique mais que dois anos num mosteiro, três anos é o máximo. Ele terá uma vida mais dura no primeiro ano, no segundo ano está mais acostumado e no terceiro já estará cuidando dos outros. É um lugar para descobertas, não um modelo de vida. Se fosse um modelo de vida, o monge teria que ser mendicante e não ter ligação com nada. Por isso a designação “Monge” no Zen está errada. Não se trata de monges verdadeiramente, somos “Ministros do Dharma” ou “Reverendos”.

Quando você vai para o mosteiro, vive o celibato, mas quando sai, casa e tem família e muitas responsabilidades, por exemplo, aqui, se um monge quisesse realizar esse tipo de trabalho, teria que receber dinheiro da Sangha, senão como sobreviveria?

5) Qual a utilidade desse processo todo para a humanidade?

Monge Genshô - Essa é uma excelente pergunta. A humanidade mudou por causa dos mosteiros.  Em razão da existência dos monastérios é que a Europa mudou completamente. Os monastérios foram responsáveis por copiar livros, guardar conhecimento, educar, serviram de refúgio, foram as primeiras escolas e inspiradores das universidades. Isso também aconteceu no budismo. Em razão da existência de monges e monastérios, aconteceram estudos filosóficos, surgiu a Universidade Nalanda, na Índia, para preservação do conhecimento, os monges lutavam por paz entre os povos, criou-se na Índia, em razão do budismo, um longo período de paz. Se olharmos para o cristianismo, veremos que os monastérios preservaram a alma do cristianismo. Porque, pelas lutas de poder do papado e guerras internas, o cristianismo já teria desaparecido. O cristianismo ficou refugiado em homens como São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loiola, Santa Teresa D’Avila. Essas pessoas estavam nos monastérios.


7) Voltando àquela questão anterior.  Então é mais um treinamento para que as coisas desejadas não sejam tão grandes. Não é que você não deva desejar, não deva querer, mas não precisa ter tanto apego...

Monge Genshô - Tem que tirar o “tanto”. Na realidade pode ficar plenamente liberto disso. Ter um carro é muito bom, não ter, tudo bem também. Não é esse o problema. Não existe um meio caminho nisso. Quando dizemos, “Ah, não me importo tanto com isso”, é porque você se importa sim. Só amenizou, mas se importa. Tem que quebrar a xícara e varrer os cacos, só isso, sem sofrer pela xícara quebrada. Se formos capazes de varrer os cacos de tudo na nossa vida, daí sim, pois não são somente coisas, coisas são mais fáceis. Emoções, apegos, pessoas, são fontes de maior sofrimento e mais difíceis de lidar.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Descartando até o próprio nome


3) Eu gostaria de entender uma coisa, quando o Senhor falou em aversões,  eu gostaria de me sentir parte dessa natureza, mas por mais que eu trabalhe essas coisas em mim ainda não me sinto no chão, me sinto muito aérea. Gostaria de me sentir presente em algum lugar.

Monge Genshô – Você precisa praticar meditação para aprender a ficar presente, aqui agora, nesse lugar. Mas acredito que seja necessário sentir que tem raízes, porque somos seres móveis, mutantes e também transitamos por todos os lugares e isso nos dá muitas possibilidades e, se você fosse uma árvore e estivesse presa sem jamais poder sair, talvez você dissesse “eu queria ser livre, queria ser um pássaro e poder voar, mas eu com essas raízes que me prendem, não posso”. Nós seres humanos somos muito complicados, nunca estamos muito satisfeitos. Frequentemente tenho conversado sobre isso, porque o mundo tem variado e estávamos falando da Grécia.

No Brasil temos 22% das pessoas que estão trabalhando para o Estado, todos querem ser funcionários públicos.  Porque se tem segurança, nunca se será demitido. E falávamos que a Grécia entrou na zona do Euro e o povo sentiu-se mais rico, o governo com mais condições financeiras resolveu atender os desejos das pessoas. No fim gerou-se até um 16º salário e perto de 50% da população estava em empregos públicos, só que o governo não tinha condições de arcar com tanta despesa, foi pegando dinheiro emprestado e no final descobriu-se que a Grécia não tem como pagar os empréstimos feitos. A lição que vem disso é que não se pode fazer as coisas infinitamente, não existe a possibilidade dos gastos infinitos, da estabilidade para todos. Vivemos em um mundo instável e buscamos cada vez mais estabilidade. Mas essa não é história da humanidade. A história da humanidade é tremenda incerteza.

Até o início do século XIX fome generalizada para países inteiros era coisa comum, só paramos de ter fome em todos os lugares quando foi possível levar navios com alimentos de um lado para o outro no mundo. A história da humanidade é de incerteza, guerras e mudança. É interessante que existam países em que acontece uma certa estabilidade, como é o caso da Suíça de hoje, e isso já ocorre desde a segunda guerra mundial. Mas quando conversamos com jovens, eles dizem que o Brasil é maravilhoso, pois existem muitas possibilidades, muita aventura e muitas coisas podem acontecer. Na Suíça, eles dizem que sabem que irão fazer tal curso, trabalhar em determinada empresa. Tudo já é previsto, muito estável, e a sensação que as pessoas têm é de imensa monotonia. E nós que estamos na parte instável do mundo, onde as coisas sobem e descem, queremos estabilidade. Mas temos conhecimento de jovens que saem desses lugares estáveis para morar no Brasil e América Central em busca de aventura, de mudanças.

Uma vez conversando com um senhor alemão ele me dizia da maravilha, da sorte que eu tinha de morar num lugar onde as possibilidades eram infinitas, uma vez que na Alemanha tudo já estava feito. É interessante que as pessoas tenham esse tipo de sentimento morando em um lugar desses. O que interessa para nós do ponto de vista budista é que o ser humano nunca está satisfeito, quando tem estabilidade quer aventura, quando tem muita aventura anseia pela estabilidade. Uma pessoa me disse que quer estabilidade,  disse à ela que vou levá-la à um país chamado Andorra, que possui cinco cidades. Então ela fez uma pesquisa na internet e descobriu que o país tem menos de cinquenta mil habitantes, é um principado. Vive do turismo e tem um único imposto, 15% de tudo que for comercializado. Não existe declaração de imposto de renda, não possui exército, nada acontece, há muito que o país vive nessa calmaria. Quando estive em Andorra o que as pessoas diziam era que o lugar era monótono, “nasci na casa dos meus tataravós e morrerei nessa mesma casa, aqui é muito chato”. Todos sabem da vida de todos, pois cada cidade tem no máximo dez mil habitantes. Mais ou menos 17% da população é de imigrantes portugueses e angolanos, que fugidos da guerra civil de seu país vão em busca de paz. Para esses imigrantes, Andorra é o paraíso.

4) Tenho um dúvida sobre a disciplina do Zen. Onde se encaixaria a disciplina nesse universo que o Senhor mesmo falou de aventura e mudanças? Entraria como uma espécie de balança?

Monge Genshô – Em um mosteiro a monotonia é imensa. Tudo tem hora para começar e terminar. Vai raspar a cabeça no quarto e nono dias, não existem domingos e feriados, um dia para lavar a roupa, outro dia para cerimônias, é tudo sempre igual, sempre as mesmas coisas. O máximo que pode acontecer é trocar de função. Não existem notícias de fora do mosteiro, sem rádio ou televisão, sem telefones. Você mergulha na mais absoluta paz. Por isso quando o monge sai do mosteiro, pensa que o mundo está uma loucura. Como você viveu em um universo onde tudo é compartilhado, não existe nada de seu, você não precisa de nada, não precisa de bens, não há a absoluta necessidade de adquirir  nada.

Comentário – Mas dessa forma sempre tem alguém por trás pensando e organizando e, de certa forma, financiando tudo isso. Os seres fora do mosteiro trabalham para sustentar esse estilo de vida.

Monge Genshô – Sim, isso é verdade. E essa sempre foi a tradição da humanidade, os religiosos sempre foram sustentados. A sociedade produz um excedente e isso propicia o sustento dos monges. Embora os monges em mosteiros trabalhem, isso não é suficiente para produzir renda para ter um conforto a mais. Os monges dormiam na sala de meditação, suas refeições eram feitas ali também, ninguém possuía quarto particular. Ele só tinha um lugar onde meditar, dormir e fazer suas refeições, isso tudo no mesmo lugar, hoje em dia já há mais conforto, mas era assim mesmo. Só levantava dali para trabalhar ou fazer cerimônias.  A lição quando o monge volta para o mundo, é perceber que os problemas que angustiam e preocupam a humanidade são problemas fabricados, problemas criados por nós mesmos. Acreditando num determinado mito, por exemplo, você tem um nome e precisa defender esse nome. Em um mosteiro você descarta seu nome de família e ganha um novo nome.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vidas e sua sucessão



Pergunta – Essa história dos carmas que passam para as próximas vidas eu consigo entender claramente, mas ainda é difícil para mim, entender essa questão do budismo não ver o indivíduo se repetir em outras vidas, como que uma coisa se relaciona com a outra? Sei que na outra vida não serei eu, mas a essência é a mesma.

Monge Genshô – Sim. Mas isso pode acontecer agora. Vamos supor que você, Glenda, é sozinha e está fazendo uma viagem em outro país, sofre um acidente e perde completamente a memória. A Glenda não existe mais na sua mente, mas naquela localidade onde você foi encontrada sem memória você é aceita, as pessoas cuidam de você, lhe dão um emprego e como você não se lembra de seu nome eles à chamam de Bárbara. Você não se lembra de sua vida pregressa, a vida da Glenda, mas ainda tem os mesmos desejos e apegos. Você é Bárbara. Tirando somente a memória, existe Glenda ou existe Bárbara? Glenda não existe mais. Todos na sua vida de Glenda pensam que você morreu. Podemos ou não dizer que é mesmo “eu”? Para que você diga “eu Glenda”, precisa ter memórias de Glenda. Após dez anos de Bárbara você só tem memórias de Bárbara, amigos de Bárbara, novo marido, filhos, toda uma nova história, agora de Bárbara. É uma continuação da Glenda, mas o “eu” é outro. Por falar nisso, agora você é Glenda, qual era seu nome na sua vida passada? Não lembra, não é? O nosso “eu” é uma construção, quando nascemos não sabemos qual nosso nome, aos poucos vamos sendo ensinados, aprendemos nosso nome e o nome de nossos pais. Qual a diferença entre uma história e outra? Praticamente nenhuma. Na história você é Bárbara porque não tem as memórias de Glenda e agora você é Glenda, pois não tem as memórias de sua vida passada.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Use o sistema mas não se confunda com ele


Pergunta – Então é muita perda de tempo ter raiva, pois tudo faz parte do sistema, faz parte de uma ilusão.

Monge Genshô – Exato e se você puder abandonar tudo está livre. Mas mesmo assim nunca se estará totalmente livre, veja, a pessoa se torna Monge e os seus alunos esperam algo de você. Então é outro tipo de sistema, mas ainda é um sistema, pois você tem obrigações, tem que cumprir com cronogramas de retiros, sangha e etc.

Pergunta – Mas o sistema é necessário para a sobrevivência de todas as pessoas, pois se todos resolvem burlar o sistema, a sociedade para e do que as pessoas viveriam?

Monge Genshô – Exato, mas onde está a grande questão? Eu tenho um nome, mas tenho que entender que ele apenas serve para que eu transite nesse sistema, é só uma fantasia, não uma realidade. Você possui um numero de CPF que lhe é útil para que você consiga uma série de coisas, mas deve entender que esse número não é você, é apenas uma fantasia criada dentro de uma instituição. Se você tiver a consciência clara de que é uma fantasia, poderá perdê-lo sem desejar se matar. A pessoa que se mata porque perdeu o crédito acreditou que ela fosse a fantasia, o nome ou o número. A pessoa pode usar o sistema e seus rótulos como algo útil, desde que não se confunda com eles. É como usar uma roupa, você não pode pensar que você é a roupa. Essa compreensão é muito importante.

Pergunta – Eu fico pensando nessa pessoa e se ela fez algo para que isso acontecesse realmente ou se foram as circunstâncias que o colocaram nessa situação. O problema de ser o caloteiro é quando a própria pessoa cria as condições de ser chamado de tal.

Monge Genshô – Essa é outra situação. Isso é usar de artifícios dentro do sistema para levar vantagens. Mas de qualquer forma esta pessoa também está presa ao sistema. O que eu quero é fazer com que vocês olhem para o sistema e seus rótulos como instrumentos para transitar no mundo, mas não se confundam com eles. Você não é o “eu”, pois nada tem um “eu” inerente, todos os “eus” são construídos e tudo que estamos falando sobre sistema faz parte das atribuições criadas pelo sistema. É funcional? Sim, mas é uma ilusão, não é a realidade e por isso não tem sentido, por qualquer coisa que aconteça dentro desse sistema, você se matar. A grande lição disso tudo é a existência de uma liberdade fundamental da qual você pode usufruir. Você pode usufruir de todo o sistema desde que não perca sua lucidez. O sistema é útil, mas não é a essência da vida. O dinheiro é útil? Sim, mas não somos o dinheiro.

O sistema pode ser usado e pode ser abandonado


Pergunta – Algumas pessoas, e isso já aconteceu comigo, quando não conseguem realizar suas necessidades básicas ficam totalmente alteradas e nessas condições é muito difícil se manter lúcido...

Monge Genshô – Corpo e mente estão ligados. Isso acontece comigo também, por exemplo, no final do dia, eu, cansado, com sono e fome, depois de ter resolvido milhares de problemas, surge mais uma pessoa com problema. O melhor seria você poder deixar para outro dia, pois talvez a importância não seja assim tão grande no dia seguinte. Com o passar do tempo as coisas parecem perder a importância. Quando você não está em boas condições físicas isso altera sua mente.

Pergunta – Tudo está também relacionado com a disciplina, não é? Se a pessoa se observar e descobrir que tem determinadas reações que não são corretas, ela deve tentar uma maneira de eliminar esse tipo de sentimento?

Monge Genshô – Sim, ela deve reconhecer que não está bem. Mas ainda assim talvez o pensamento mais correto seja perceber a finitude de todas as coisas, todos iremos morrer e os problemas não têm a menor importância. Alguém pode lhe dizer de forma desesperada que sua empresa irá quebrar ou que você perderá todo seu crédito. Qual a importância disso se você irá morrer? Poderão pensar que você seja louco, mas isso é colocar as coisas sob uma perspectiva mais ampla da vida.

Um amigo me escreveu ontem pedindo conselhos, pois sua empresa está em dificuldades, o condomínio está atrasado etc. Pedi à ele que anotasse em uma folha as contas que ele obrigatoriamente deve pagar, por exemplo, comida, luz e empregados da empresa, senão a empresa não funciona e aí sim ela quebra de vez. Em outro papel as contas que se não forem pagas imediatamente nada acontece.  Então ele respondeu perguntando sobre o crédito dele. Como ele já havia perdido o crédito, também não havia porque se preocupar. Mas e o condomínio? O condomínio irá lhe processar e vai entrar na justiça contra você, mas isso leva meses e quando acontecer, você propõe um acordo. Você já está com quase setenta anos, para que se preocupar tanto, imagine se você morre amanhã?

Pergunta – O Senhor está ensinando a ser caloteiro?

Monge Genshô – Isso é uma questão de sobrevivência. Os assalariados pensam muito no crédito, isso é muito importante para eles. Quem lida com empresas e grandes volumes de dinheiro frequentemente têm que tomar esse tipo de decisão, faltou dinheiro paga-se o quê? Aquilo que é importante, ou seja, o que for importante para que a linha de produção se mantenha funcionando. O banco? Fica para depois. Os impostos? Ficam para depois.  Isso se chama Administração Financeira de Recursos Escassos. Vale a pena se desesperar por causa disso? Não. Existem muitos exemplos de empresários que se matam quando suas empresas não vão bem. Nada é tão importante, no fundo são apenas palavras, por exemplo, quando alguém lhe acusa de estar caloteando um banco. O que é um banco? Uma entidade que empresta dinheiro que sequer tem, através do truque da alavancagem financeira, no qual emprestam até 25 vezes o mesmo dinheiro como sucedeu na quebra de 2008. Esse é apenas um dos exemplos de quantas coisas no mundo são puramente ilusórias e apenas por acreditarmos nelas é que somos, por elas, manipulados.

Esse amigo que me escreveu estava pensando que seu nome era seu crédito, mas quem o convenceu de que isso era importante? Quem atribuiu nome à ele? Quem criou o crédito? Quem criou o instrumento de pressão sobre as pessoas? Quando as pessoas admitem essa ilusão, elas entram no jogo e podem ser manipuladas. Se você conseguir não dar importância ao seu nome e seu crédito, estará livre da pressão. Perdeu o crédito? O que você vai fazer, se matar? Claro que não, continue trabalhando, pague todas sua dívidas e peça o crédito novamente, se você quiser, é claro, pois se você estiver muito rico não precisa de crédito. Só precisa de crédito quem não tem dinheiro.

As coisas não são exatamente o que parecem e é absurdo que alguém morra por perder seu crédito ou sua empresa. Isso não é motivo suficiente para você se matar, lembrem-se, Buda deixou seu reino, seu castelo, suas roupas de príncipe, cortou seus cabelos e foi para a floresta. Ficou totalmente pobre, nada mais que um mendigo e como fez isso porque queria não sentiu-se um derrotado. É que neste momento ele tornou-se totalmente livre.

Quando acreditamos nas ilusões que o mundo nos vende, que são o nome, a forma, crédito etc., somos prisioneiros e podemos ser manipulados pelas invenções que as instituições podem criar. Mesmo as coisas que nos parecem mais preciosas como o nome de família, por exemplo, alguém o convenceu que tem um nome de família e que deveria honrá-lo. A palavra que você usou, caloteiro, é uma palavra deste sistema que coloca um etiqueta na pessoa para aprisioná-la e forçá-la a ficar dentro, útil ele, como o nome e a forma, mas uma construção mental em última análise que você pode usar se quiser e pode abandonar se decidir.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Quem é você?



Pergunta – Com relação ao “eu”, eu o elimino ou me desapego dele?

Monge Genshô – O “eu” é necessário nessa vida, você o usa como um instrumento. Uma boa imagem para entender isso é a de que precisamos usar uma fantasia para exercer um papel. Eu, por exemplo, coloco minhas roupas de monge, que carregadas de simbolismo - um manto igual ao manto de Buda - me facilitam o exercício do papel de professor do dharma. Mas, quando tiro essa roupa, não posso dizer que estou ali, naquela fantasia que tirei. Eu não sou a fantasia; ela não é eu. Nosso “eu” é, essencialmente, uma fantasia. Nós precisamos usar, na vida, títulos, cargos, coisas, nomes. Mas não devemos nos confundir com nosso nome. Seu nome não é você. Seu título não é você. Por isso é tão difícil responder a essa pergunta: “quem é você realmente?” Nós precisamos de um “eu”, mas o “eu” que usamos para transitar na vida, não é quem somos, é uma fantasia. Começa no batizado, o pai diz, “o nome dele será Fulano”, e recebemos um nome que arrastamos pelo resto da vida. Mas esse nome foi-nos, tão somente, dado por nossos pais. Ele não nos constitui. “Quem é você?” Quando fazemos essa pergunta a uma pessoa, ela responde, em primeiro lugar, seu nome, pois foi essa a primeira coisa que lhe deram. Mas essa pessoa não é só um nome. Certa vez, um homem chegou até Buda e lhe perguntou: “quem é você? Um profeta, um deus, um salvador? Quem é você, afinal?” Ele respondeu que não era nenhum deles, e afirmou: “Eu estou acordado!”

Pergunta – Esta é, na verdade, uma resposta conceitual, não é?

Monge Genshô – Sim.

Aluno – Desculpe, não entendi a resposta.

Monge Genshô – Ao dizer que está acordado, Buda afirma que não possui nenhum “eu”, que está livre de todas as ilusões, que isso tudo é um sonho. Estar acordado significa, portanto, estar livre dos sonhos.

Pergunta – Isso quer dizer que Buda entendeu sua essência?

Monte Genshô – Sim. E sua essência não é ele.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sem objetivo



Nós não sentamos em zazen para nos iluminar. Não fazemos isto e nem viemos ao sesshin para obter a iluminação. Todos já são iluminados intrinsecamente nós sentamos sem objetivos. Só sentamos. Sentamos lá e ficamos quietos com a mente panorâmica que percebe todas as coisas, só escutamos as cigarras cantarem, o vento passar, o riacho. Se você apenas ficar percebendo isto, se em algum momento você for o riacho, fizer o ruído do riacho, você entrar lá, então esse é o momento.
          Há uma resposta de um mestre Zen numa situação muito semelhante.Um discípulo perguntou: Onde é a entrada?O mestre perguntou: você ouve o ruído do riacho? Sim, respondeu o discípulo. É ali, disse o mestre. Essa resposta é a mesma para nós: a entrada é ali. Mas enquanto você ouvir ele fora de você, você não entrou, não passou a entrada. Mas não pense em entrar. Só sente e ouça. Se sua mente se cala você pode entrar. Enquanto sua mente estiver falando: eu sou fulano, eu estou aqui sentada, eu estou cansada, meu joelho dói, enquanto você estiver pensando eu, eu, eu...você não pode entrar porque o passaporte para entrar nessa entrada é não ter passaporte, enquanto você tiver passaporte, impressão digital, retrato, nome, não pode entrar.(Comentário de Monge Genshô)
 Os comentários desta palestra foram sobre o texto de:
Taizan Maezumi Roshi. Ensinamentos da Grande Montanha.Tradução de Rita Moreira. São Paulo:Francês, 2005.