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sexta-feira, 29 de julho de 2016

A proposta do zen é agir no mundo

 
 Eu não escapei da vida sendo monge, até tenho que trabalhar dobrado. No zen você só fica no mosteiro enquanto está em treinamento. O objetivo de ficar lá é sair de lá, porque a ação útil é no mundo, normalmente não é dentro do mosteiro.
Ficar num mosteiro para sempre não tem sentido no zen. Tem sentido nas ordens religiosas em que se acredita que ficando lá e orando você está mudando o mundo. Em certo aspecto é até verdadeiro, mas não é a proposta do zen. A proposta do zen é agir no mundo. O mosteiro também não está fora do mundo, pois se você está no mosteiro e trabalha como cozinheiro você é útil, mas se você pensa que vai para um mosteiro zen e vai ficar lá comendo, meditando e levando uma vida maravilhosa para sempre, você vai descobrir que não é.
 Na realidade não é diferente de um presídio, só com outro clima. Se você está lá parado, esperando, sem fazer nada, esperando a morte, todo dia levanta, varre o chão, come, vai ao banheiro, o que você é? O zen diz que você é uma máquina de fazer estrume.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Esgotamento da força pessoal e insights



Monge Genshô: O esgotamento da sua força pessoal propicia exatamente os insights; então você está sofrendo no zazen, não é à toa. Você não vai conseguir nada sentando na poltrona do sofá, não vai dar certo. Nesta prática que estamos fazendo existe um sacrifício, e esse sacrifício tem propósito, ele pode enfraquecer você e fazer você descobrir coisas especiais dentro de si. É uma prática séria, nós estamos imitando de uma forma mais leve a vida em um monastério, a gente fica aqui de dois a três dias, nos monastérios o período é de 90 dias e 1 vez por mês você tem o sesshin, 1 ou 2 vezes por mês, o resto do tempo você faz menos zazen, só 4 h por dia e aqui acaba sendo pouco se você considerar normal; no monastério não é assim, dá em torno de 14 ou 16 zazen por dia no sesshin, e tudo que a gente deseja no fim é ter pernas novas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Atravessando a Ponte


Quando você entra em Sojiji Soin, é colocado numa sala e vem um superior responsável por te guiar durante os primeiros dias. Esse superior abre sua mala e separa os itens que você precisa e os que você não precisa. Aliança, passaporte, documentos, dinheiro, tudo isso vai para um envelope que você só recebe na hora de sair. Depois de tirar tudo isso de você, o superior aponta para uma ponte vermelha e fala “se você passar por aquela ponte,  não pode mais voltar por ela enquanto não receber permissão”. 
Depois você é levado para uma sala com porta sem ferrolho,  você poderia abri-la, passar pela ponte e sair normalmente. Nessa sala não há ninguém, nada para ler, nenhum instrumento musical, não há televisão, ninguém com quem falar, nada, somente um zafu para você se sentar, é uma solitária. Então o superior te diz que você tem que esperar lá até ser admitido no mosteiro. E você espera. O superior traz chá e refeição. Enquanto isso você apenas espera. 
Fiquei cinco dias esperando. Você senta no zafu e quando cansar de sentar, anda. Quando cansar de andar senta. Dorme lá, come lá, tem um banheiro disponível e se quiser desistir, a porta e a ponte estão lá. Normalmente se fica de cinco a sete dias nessa sala.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

OS SALTOS DA PRÁTICA


Pergunta: Em relação ainda à analogia com o banho. Quando não estamos em sesshin, no nosso dia a dia, haveria uma hora melhor para esse "banho"? Início do dia ou final do dia? 

Monge Genshô: Olhando do ponto de vista prático, no início do dia, se você tem uma rotina de levantar e meditar, esse é o horário mais estável, menos perturbado por outras pessoas. Você levanta antes do resto da família e senta. Aí funciona muito bem. De noite, alguém liga para você e diz "vamos tomar um chope?" Pronto. A meditação já foi embora. É por causa disso. Mas os dois são funcionais, úteis, de manhã e de noite. Para cabeça, o de noite é muito importante, pois você vai dormir. Fazer meditação antes de dormir é excelente providência. Agora, os monges nos mosteiros, só para vermos como é a prática no monastério, você levanta de manhã, e às quatro e vinte já está sentado. Tem vinte minutos para se vestir, lavar o rosto e ir no banheiro. Aí você faz uma hora e meia. Quarenta minutos, dez caminhando mais quarenta. Depois começa o dia. Cerimônia, café da manhã, trabalho etc. Antes do meio dia mais uma vez. No meio da tarde mais uma vez, de noite mais uma vez. Somando, dá no mínimo quatro horas e meia por dia de meditação ou seis horas. Quando tem período de retiro, dá mais tempo. 

Mas estamos falando de um modelo de uma pessoa que foi para um mosteiro. O leigo que está praticando em casa, se ele faz duas vezes por dia, já é um praticante diligente. E eventualmente faz retiros para aprofundar. Essa prática diária leva você a outro nível de calma, mas não aprofunda, não é suficiente para isso. Para ir fundo precisa de uns dois ou três dias de prática intensa. Aí você dá saltos na sua compreensão espiritual, nos seus insights. Isso sim pode levar a você a se aproximar dos níveis de iluminação que são possíveis, que são muitos, dos quais o primeiro é uma compreensão acurada da vida, dos mecanismos da vida, uma libertação das ilusões, uma compreensão de que o eu pessoal é uma construção mental e não uma realidade. Aquilo que você acredita que é, quando percebemos que isso é uma construção temporária, muita coisa desaba na vida. Assim, ouvindo aqui, não tem muito impacto. Mas se você vir isto, é altamente destruidor e libertador.


sexta-feira, 13 de março de 2015

A vida se mostra a cada passo



Aluno – Pela forma como o senhor expôs 'O pico da montanha' me parece que os objetivos não têm tanta importância, eles são de certa forma um guia, mas a escalada é que conta mais?

Monge Genshô – A vida se mostra a cada passo. Então, à medida que nós vamos indo num caminho, se nós ficarmos presos num objetivo isso vai ser ruim. É bom ter um objetivo, uma meta, porque isso nos cria uma certa direção, isso se faz constantemente nas empresas, cria planos, é frequente para mim. Mas  acontece algo inesperado e aí, o que vamos fazer? Vamos fazer de acordo com o inesperado, não adianta nos lamentarmos muito. Eu gosto muito da história de Thomas Edison quando o laboratório de Menlo Park pegou fogo, ele chamou toda a família para assistir, disse 'venham, venham, vocês nunca vão ver um incêndio como esse' cheio de produtos químicos de laboratório, um tremendo de um incêndio.

E ele naquela alegria, e era o laboratório dele, era a vida dele, tudo o que ele tinha construído até então. E a mulher perguntou 'mas você não está chateado que está pegando fogo em tudo o que você fez até agora?'. E ele falou assim 'mas pense no laboratório que eu vou fazer agora, um novo, vou fazer tudo melhor, os erros que tinham nesse não vai ter mais'. Ele já estava planejando na cabeça dele que iria fazer um muito mais espetacular do que o laboratório anterior. Então essa era a cabeça de Thomas Edison, por isso ele registrou milhares de patentes. Porque ele estava sempre pensando em uma nova solução.  Não estava preso num objetivo anterior ou no que ele tinha anteriormente, mas estava pronto a mudar de idéia. Pegou fogo? Ah, que oportunidade, o que nós vamos fazer agora? Isso diz muito sobre o caminho, o caminho é assim.

Quando você caminha na vida é assim, que bom que há mudança. Quando nós nos agarramos demais a lamentar aquilo que acabou nós não estamos vendo as grandes oportunidades que estão aparecendo. Agora Chudô San vai para o mosteiro de Sojiji Soin dentro de algum tempo, logo que os papeis estiverem prontos. E Jikihô San vai ser ordenada monja noviça e vai para Kasuisai, que é um grande mosteiro que tem um famoso tenzo,  um roshi que é mestre de cozinha, e ela vai ter uma enorme oportunidade. Vai ser difícil, complicado estar num país com uma língua diferente, uma cultura diferente, dentro de um mosteiro, não é fácil. Eu disse a ela que, se chorar, chore na cama, mas haver solidão, muito trabalho, pouco sono, exigência, uma cultura que não é tão carinhosa como a cultura brasileira, onde se exige muito das pessoas. Isso é uma tremenda oportunidade, então tem que ir com espírito livre, seja o que for, simplesmente a gente tem que pensar 'eu vou aguentar, eu vou aprender, eu vou continuar'.

Depois  que acostuma, começa a ficar cada vez mais fácil,  no fim vai ser um lugar de onde se terá saudades. Então é uma enorme aventura, uma grande oportunidade ganhar uma bolsa da Sotoshu  pra ficar internado num local, a instituição vai cuidar de você, tem cama, comida, lugar para lavar roupa, e grande treinamento. Quando voltarem serão monges de outro nível e ajudarão imensamente nossa comunidade. À medida que essas coisas vão acontecendo torna-se possível, por exemplo, que eu possa morrer e saber que a comunidade continua. E isso é maravilhoso. Então trilhar o caminho assim, quem suporia que isso poderia acontecer? Quando Jikihô San chegou a primeira vez na Sangha, sentou à mesa, eu perguntei a ela 'quem é você, o que você faz?' e ela respondeu 'eu sou quituteira', eu me lembro até hoje, ela disse 'eu sou quituteira, eu faço quitutes'. Agora ela vai ser uma chefe de cozinha com treinamento num dos lugares mais difíceis de ter acesso no mundo. Não é fantástico isso? Quem poderia supor? Se tivesse um objetivo outro não seria assim. Sem objetivo de repente as portas se abrem, basta se esforçar, treinar continuamente. É isso, então. O caminho se mostra a cada passo. E se você não tiver restrições na sua mente ele é absolutamente inesperado. (continua)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Para os que usufruem deste blog



VIAGEM AO JAPÃO DO MONGE GENSHÔ
O treinamento monástico é um importante período de desenvolvimento espiritual e pessoal, mas é, principalmente, um período de tempo e esforço dedicados à Sangha. Com os estudos e treinamentos, os monges poderão ajudar melhor no desenvolvimento das nossas comunidades e do budismo no Brasil.
Monge Genshô irá para o mosteiro de Sojiji Soin fundado por Keizan há 750 anos atrás, no Japão, pelo período de três meses, onde ficará em retiro. A viagem está prevista para 25 de março.
Monge Genshô, deixará de trabalhar durante este período, ficando sua família no Brasil. Ele é sucessor e discípulo de Saikawa Roshi, Superior Geral para o Zen na América do Sul. Este período lhe dará uma graduação essencial que poderá ser repassada a seus alunos e às suas comunidades Zen no Brasil.
A Sangha, amigos, familiares e simpatizantes podem participar desse momento, com o exercício de generosidade e gratidão, pela prática de Dana (Generosidade, Doação, Apoio).
Para tanto, pedimos a todos ajuda financeira para a viagem. O valor necessário ultrapassa R$10.000,00 (passagens aéreas e terrestres até o templo e estadia em Tóquio, e compras de itens necessários não encontrados no Brasil).
Unindo-nos no esforço da doação é possível que consigamos arrecadar o montante. Qualquer valor é muito bem-vindo. Cada um sabe com quanto pode contribuir, de acordo com suas condições, sendo que as doações podem ser anônimas ou identificadas na seguinte conta:
Titular: Petrucio Chalegre (Monge Genshô)
Banco: 001 – Banco do Brasil
Agência: 4550-0
Conta corrente: 6061-5
CPF: 053283060-15
O exercício de Dana (Generosidade, Doação, Apoio) na tradição budista, representa essencialmente a ação consciente e atenta de ajuda e contribuição (seja material, de tempo ou outras) para que o Dharma possa ser estudado e exercido sob condições úteis e abrangentes a todos. Em Dana temos não somente a ação de ajuda e proteção (física, psicológica ou social) a pessoas em necessidade, mas também às pessoas em ação pelo Dharma.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A resposta que responde tudo


 (continuação)
Uma vez eu perguntei para um mestre: “como é quando se entra para um mosteiro”? E ele disse: “Quando se entra temos muitas teorias e no fim resta apenas uma pergunta: “quem sou eu?” Quando você resolve essa pergunta está tudo resolvido, porque você sabe o que fazer, quando e de que  forma. Está tudo resolvido.

Vocês estão vendo anotações que eu fiz para fazer a palestra? Não? Por que? Porque uma mestra da África do Sul me disse assim: “nunca prepare porque o Dharma tem que estar pronto dentro de você, tem que estar livre dentro de você. Quando você estiver na frente das pessoas, a palestra certa acontece, para aquele grupo de pessoas que você está falando”. Se você preparar, é a sua palestra, não é a palestra que aquele grupo quer escutar. Mas isso exige que você esteja pronto, não é?
(continua)

segunda-feira, 24 de março de 2014

Descartando até o próprio nome


3) Eu gostaria de entender uma coisa, quando o Senhor falou em aversões,  eu gostaria de me sentir parte dessa natureza, mas por mais que eu trabalhe essas coisas em mim ainda não me sinto no chão, me sinto muito aérea. Gostaria de me sentir presente em algum lugar.

Monge Genshô – Você precisa praticar meditação para aprender a ficar presente, aqui agora, nesse lugar. Mas acredito que seja necessário sentir que tem raízes, porque somos seres móveis, mutantes e também transitamos por todos os lugares e isso nos dá muitas possibilidades e, se você fosse uma árvore e estivesse presa sem jamais poder sair, talvez você dissesse “eu queria ser livre, queria ser um pássaro e poder voar, mas eu com essas raízes que me prendem, não posso”. Nós seres humanos somos muito complicados, nunca estamos muito satisfeitos. Frequentemente tenho conversado sobre isso, porque o mundo tem variado e estávamos falando da Grécia.

No Brasil temos 22% das pessoas que estão trabalhando para o Estado, todos querem ser funcionários públicos.  Porque se tem segurança, nunca se será demitido. E falávamos que a Grécia entrou na zona do Euro e o povo sentiu-se mais rico, o governo com mais condições financeiras resolveu atender os desejos das pessoas. No fim gerou-se até um 16º salário e perto de 50% da população estava em empregos públicos, só que o governo não tinha condições de arcar com tanta despesa, foi pegando dinheiro emprestado e no final descobriu-se que a Grécia não tem como pagar os empréstimos feitos. A lição que vem disso é que não se pode fazer as coisas infinitamente, não existe a possibilidade dos gastos infinitos, da estabilidade para todos. Vivemos em um mundo instável e buscamos cada vez mais estabilidade. Mas essa não é história da humanidade. A história da humanidade é tremenda incerteza.

Até o início do século XIX fome generalizada para países inteiros era coisa comum, só paramos de ter fome em todos os lugares quando foi possível levar navios com alimentos de um lado para o outro no mundo. A história da humanidade é de incerteza, guerras e mudança. É interessante que existam países em que acontece uma certa estabilidade, como é o caso da Suíça de hoje, e isso já ocorre desde a segunda guerra mundial. Mas quando conversamos com jovens, eles dizem que o Brasil é maravilhoso, pois existem muitas possibilidades, muita aventura e muitas coisas podem acontecer. Na Suíça, eles dizem que sabem que irão fazer tal curso, trabalhar em determinada empresa. Tudo já é previsto, muito estável, e a sensação que as pessoas têm é de imensa monotonia. E nós que estamos na parte instável do mundo, onde as coisas sobem e descem, queremos estabilidade. Mas temos conhecimento de jovens que saem desses lugares estáveis para morar no Brasil e América Central em busca de aventura, de mudanças.

Uma vez conversando com um senhor alemão ele me dizia da maravilha, da sorte que eu tinha de morar num lugar onde as possibilidades eram infinitas, uma vez que na Alemanha tudo já estava feito. É interessante que as pessoas tenham esse tipo de sentimento morando em um lugar desses. O que interessa para nós do ponto de vista budista é que o ser humano nunca está satisfeito, quando tem estabilidade quer aventura, quando tem muita aventura anseia pela estabilidade. Uma pessoa me disse que quer estabilidade,  disse à ela que vou levá-la à um país chamado Andorra, que possui cinco cidades. Então ela fez uma pesquisa na internet e descobriu que o país tem menos de cinquenta mil habitantes, é um principado. Vive do turismo e tem um único imposto, 15% de tudo que for comercializado. Não existe declaração de imposto de renda, não possui exército, nada acontece, há muito que o país vive nessa calmaria. Quando estive em Andorra o que as pessoas diziam era que o lugar era monótono, “nasci na casa dos meus tataravós e morrerei nessa mesma casa, aqui é muito chato”. Todos sabem da vida de todos, pois cada cidade tem no máximo dez mil habitantes. Mais ou menos 17% da população é de imigrantes portugueses e angolanos, que fugidos da guerra civil de seu país vão em busca de paz. Para esses imigrantes, Andorra é o paraíso.

4) Tenho um dúvida sobre a disciplina do Zen. Onde se encaixaria a disciplina nesse universo que o Senhor mesmo falou de aventura e mudanças? Entraria como uma espécie de balança?

Monge Genshô – Em um mosteiro a monotonia é imensa. Tudo tem hora para começar e terminar. Vai raspar a cabeça no quarto e nono dias, não existem domingos e feriados, um dia para lavar a roupa, outro dia para cerimônias, é tudo sempre igual, sempre as mesmas coisas. O máximo que pode acontecer é trocar de função. Não existem notícias de fora do mosteiro, sem rádio ou televisão, sem telefones. Você mergulha na mais absoluta paz. Por isso quando o monge sai do mosteiro, pensa que o mundo está uma loucura. Como você viveu em um universo onde tudo é compartilhado, não existe nada de seu, você não precisa de nada, não precisa de bens, não há a absoluta necessidade de adquirir  nada.

Comentário – Mas dessa forma sempre tem alguém por trás pensando e organizando e, de certa forma, financiando tudo isso. Os seres fora do mosteiro trabalham para sustentar esse estilo de vida.

Monge Genshô – Sim, isso é verdade. E essa sempre foi a tradição da humanidade, os religiosos sempre foram sustentados. A sociedade produz um excedente e isso propicia o sustento dos monges. Embora os monges em mosteiros trabalhem, isso não é suficiente para produzir renda para ter um conforto a mais. Os monges dormiam na sala de meditação, suas refeições eram feitas ali também, ninguém possuía quarto particular. Ele só tinha um lugar onde meditar, dormir e fazer suas refeições, isso tudo no mesmo lugar, hoje em dia já há mais conforto, mas era assim mesmo. Só levantava dali para trabalhar ou fazer cerimônias.  A lição quando o monge volta para o mundo, é perceber que os problemas que angustiam e preocupam a humanidade são problemas fabricados, problemas criados por nós mesmos. Acreditando num determinado mito, por exemplo, você tem um nome e precisa defender esse nome. Em um mosteiro você descarta seu nome de família e ganha um novo nome.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Apego e aversão


O sofrimento provém do apego, essa é a informação que a gente ouve. Por causa do apego é que nós entramos em sofrimento. Isso é bem verdade, em geral sofremos pelas coisas nas quais colocamos nosso coração, aí estará a possibilidade de nosso sofrimento. Nenhuma das coisas do mundo é permanente, sólida ou estável, tudo está sempre mudando e iremos perder as coisas que julgamos preciosas. Perderemos os amores, as pessoas, o crédito, a fortuna e a fama. As coisas surgem e desaparecem. Porque nos agarramos à elas e nelas colocamos nosso coração, então sofremos pelas perdas.

Temos muita dificuldade de nos libertarmos desse tipo de sofrimento porque sempre fomos ensinados desde pequenos a chamar as coisas de “meu” e “minha”. Primeiro aprendemos que temos um “eu”. Logo depois aprendemos o “é meu”. Como agregamos essas coisas ao nosso “eu”, quando elas partem, sofremos. Quanto mais memória você guardar disso, mais sofrimento terá. Agora mesmo estava me lembrando de quando era pequeno e minha irmã ganhou uma caixinha de música, girava-se uma manivelinha e tocava uma melodia. Eu e meu irmão ficamos muito intrigados e resolvemos desmontar a caixa para ver como funcionava. Evidentemente destruímos a caixinha de musica. Lembro que minha irmã entrou no quarto onde estávamos e viu o que fazíamos. Isso deve fazer uns 55 anos. Mas da última vez que estive com ela, ela me acusou de ter destruído sua caixinha de musica. A caixinha de musica de 55 anos atrás ainda causa sofrimento.

Hoje um aluno me escreveu porque eu havia dito a ele que não era um ser perfeito. Mas o que interessa nessa história é que, porque havia apego, houve sofrimento. Como houve intenção, isso criou um carma e esse carma ainda vive depois de tantos anos. Mas existe outro aspecto que nos causa sofrimento que normalmente é esquecido - a aversão.

Buda ensinou: “sofremos por apego, por aversão e por ignorância”. Nós sofremos também quando sentimos aversão. Aversão a pessoas, coisas, alimentos, enfim, todas as coisas. Desenvolvemos preferências e dizemos: “eu gosto disso”, “não gosto daquilo” e dessa forma criamos sofrimento.

Por causa disso, nos monastérios Zen, quando se servem os alimentos, isso também nos nossos retiros, são servidos alimentos diferentes e você não pode recusar, não pode deixar de comer nenhum deles. Eu pessoalmente nunca gostei muito de comida japonesa não sei porque resolvi ser monge de uma escola japonesa. Já estive em mosteiros onde a comida servida era tipicamente japonesa, não a comida que a gente come em restaurantes, mas a comida mais do dia-a-dia do japonês, ameixas salgadas, pudim que tem pimenta dentro, café da manhã com papa de arroz sem sal e legumes cozidos. Para um brasileiro que não está acostumado, quando se depara com esse tipo de refeição pela manhã, estranha.

O que acontece é que você tem que sentar, receber a comida e comer sem julgamentos de “eu gosto, eu não gosto”. Depois de repetir a mesma comida por dez refeições, você acaba gostando, acaba descobrindo sabores que não conhecia, mas para isso o julgamento “gosto”, “não gosto” tem que cessar. Esse treinamento é feito para superar o sentimento de aversão. Os mestres costumam fazer algumas coisas um pouco incompreensíveis, por exemplo, existe um mal estar entre dois monges, eles não se entendem muito bem. Lembro-me bem de um episódio entre duas monjas que foram reclamar ao mestre, cada uma dizendo odiar e ser odiada pela outra. Então o mestre tomou a providência de colocá-las a dormir juntas no mesmo quarto. Você deve aprender sua aversão. O ensinamento é “Sente-se com seu desconforto”. As opções são: ou você vai embora ou fica e resolve a questão.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ainda não acabou?


Pergunta – Quando não observamos mais o início e o fim do ciclo, significa que não estamos mais gerando carma?

Monge Genshô – Não. Enquanto você estiver agindo no mundo vai gerar carma. Suas ações intencionais irão gerar carma.

Pergunta – Nesse caso ainda existe um “eu’.

Monge Genshô – Enquanto você vive no mundo precisa de um “eu”. Eu preciso do “eu” para conversar com vocês e operar no mundo. Porém ele tem a solidez de uma máscara, que usamos pra agir no mundo. O problema é a pessoa identificar-se com a máscara. Quando perguntado sobre quem nós somos, damos as respostas que correspondem com as nossas características e que correspondem na verdade com características da máscara. Nos confundimos com o rosto no espelho, com as roupas, hábitos e identidades sociais de médico, engenheiros etc. Conforme a pessoa vai pendurando coisas no cabide da máscara, vai acreditando ser realmente aquele ser. Mas não é, isso que ela pensa ser é tão sólido quanto uma máscara.

A pessoa que tem alzheimer, por exemplo, com o tempo se olha no espelho e não mais se identifica. Mas onde está o “eu” então? O “eu” vai se dissolvendo quando as características e memórias que você identifica como sendo o “eu” começam a ficar enfraquecidas quando não lembradas. O monge deve ter sempre a morte frente à seus olhos e isso acontece também no catolicismo. Estive uma vez num mosteiro beneditino e na capela andávamos em um corredor sobre as lápides dos monges que já haviam morrido. Temos que nos olhar no espelho e apreciar o trabalho da morte em nossa face, o envelhecimento. Isso dá muito sentido à vida, embora algumas pessoas possam pensar que isso seja horrível.

Se é assim, cada dia é precioso e como você irá viver esse dia de hoje? Se por acaso você descobrisse que teria apenas noventa dias de vida, como viveria o dia de hoje? Isso daria sentido à sua vida. O que é importante? Alguém chega até você querendo discutir sobre cinquenta centímetros de terreno que ele julga ser dele, o que você faz? Pode ficar, você pensa, estou morrendo em noventa dias. É comum em algumas iniciações a pessoa escrever seu testamento. Agora, neste momento, o que você vai deixar? Isso é muito importante, saber como viver tem a ver com olhar a finitude. Você poderá rir, pois as coisas que parecem importantes para os outros, para você não é mais. Tive um amigo que foi um dos meus primeiros professores budistas que teve um infarto e sabia que em breve morreria. O que ele fez? Começou a escrever poemas e dava para as pessoas que encontrava na rua. Ele estava se despedindo.

Certo dia estávamos conversando sobre logo depois do infarto e ele disse que quando acordou no hospital pensou: “Ué, ainda não acabou?!”, perguntei então sobre como ele se sentia e ele disse: “Sem nenhuma ilusão”. Isso é maravilhoso. Os mestres sempre dizem, “aproveitem suas vidas”.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Bia Jikihô: vou ser monja

                     Bia Jikihô escreveu por ela e por Chudô San, vamos ajuda-los?  Genshô.

Querida Sangha,

É com muita alegria que informamos que Chūdō san (Ápio RIcci) e Jikihō (Bia Gonzaga) ganharam bolsas para treinar em mosteiros no Japão no próximo ano. Ele, já ordenado, segue para Sojiji-soin, na Península Noto, zona costeira da Província de Ishikawa, com vista para o Mar do Japão. Jikiho san, ainda postulante, será ordenada monja noviça em 21 de dezembro. Seu treinamento será no templo Kasuisai, situado na bela e virente zona rural de Fukuroi, no Oeste da Prefeitura de Shizuoka.

O treinamento monástico é um importante período de desenvolvimento espiritual e pessoal, mas é, ou deve ser, principalmente, um período de tempo e esforço dedicados à sangha*. Com os estudos, eles poderão servir ao desenvolvimento das nossas comunidades e do budismo no Brasil.

A sangha*, amigos e familiares podem participar desse momento, com o exercício de generosidade e gratidão, pela prática de Dana** (Generosidade, Doação, Apoio). Para tanto, pedimos a todos ajuda financeira para a viagem. O valor necessário ultrapassa R$10.000,00 para passagens áereas e terrestres de ida até os templos e a estadia em Tóquio, onde ficarão por alguns dias para a compra dos itens necessários não encontrados no Brasil. O tempo de estadia e estudo nos mosteiros será custeado pela Soto Shu. Unindo-nos no esforço da doação é possível que consigamos arrecadar o montante. Qualquer valor é bem-vindo; cada um sabe com quanto pode contribuir, de acordo com suas condições, sendo que as doações podem ser anônimas. Abaixo seguem as contas disponíveis e também o link para doações que podem ser parcelados no cartão de crédito. Também podem ser feitas doações em espécie, dentro de envelopes, na CZBF.

Doações anônimas:
Titular: Gabriela Gonzaga Santos
Banco: 033 - Santander
Agência: 4287
C/C: 10018171
CPF: 006.916.569-67

Doações feitas através da conta da Sangha podem ser feitas, mas precisam ser identificadas com o envio de email para centrozenfloripa@gmail.com informando o valor e a data do depósito.
Instituto Educacional Todatsu
CNPJ 04.189.002/0001-21
Banco do Brasil (001)
AG 4550-0
CC 5709-6

Clicando AQUI você pode fazer doações com boleto bancário, cartões de débito ou crédito parcelado em até 12X.

*Reunião de praticantes e/ou monges
** O exercício de Dana (Generosidade, Doação, Apoio), na tradição buddhista, representa essencialmente a ação consciente e atenta de ajuda e contribuição (seja material, de tempo ou outras) para que o Dharma possa ser estudado e exercido sob condições úteis e abrangentes a todos. Em Dana temos não somente a ação de ajuda e proteção (física, psicológica ou social) a pessoas em necessidade, mas também a ação justa e honesta para que o Dharma seja divulgado sob as bases tradicionais da ética buddhista, na forma e apoio às instituições e seu corpo monástico ou dos centros e espaços de prática. (Colegiado Budista Brasileiro)

Desde já agradecemos ao apoio, ao incentivo e ao companherismo de todos. Se não fosse pela prática de vocês, pela força de nossa sangha, nada disso estaria acontecendo. Que todos possam se beneficiar. /\

No Dharma,

Gassho /\

Monge Genshō, Chūdō e Jikihō

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Saber que se estava errado


Pergunta: Sobre esse monge que sumiu, será que ele não viu que estava errado, ficou com vergonha e foi embora?

Monge Genshô - Os sutras não explicam. Os sutras são muito severos com Devadhata. Infelizmente, se você prestar bastante atenção na história da humanidade, olhe os homens deste século, que criaram grandes tragédias e te perguntarei se alguns deles deixou algum documento dizendo que se arrepende, que estava errado. Hitler deixou? Pol Pot, no Camboja, que conseguiu matar um terço da população de seu país, deixou? Stalin deixou? Franco deixou? Nenhum disse que estava errado. Nem os terroristas brasileiros que mataram pessoas, espalharam bombas etc, eles também não pensam que estavam errados. Por outro lado, os torturadores, os militares que mataram e torturaram os terroristas, também não me lembro deles dizendo que estavam errados. Todo mundo estava certo. Todo mundo “pensa” que estava certo. Os terroristas diziam que lutavam pela liberdade. Na verdade, lutavam para criar outro tipo de ditadura. Os militares diziam que estavam lutando numa guerra contra subversivos, que queriam derrubar o governo, que era uma ditadura. Os dois lados foram criminosos. Mas não li nenhum texto de nenhum deles até agora dizendo – “eu estava errado”. Minto, acho que Fernando Gabeira disse que estava errado. Mas é uma exceção. É interessante essa pergunta, porque é difícil as pessoas dizerem – “Eu estava errado na minha opinião, eu escravizei meu povo”. Você acredita que Kadafi vá dizer que está errado por que provocou uma guerra civil e não quer renunciar? Ou Assad? Ou Ahmadinejad no Irã que provavelmente roubou as eleições e depois esmagou os protestos de seu povo? Todos eles se consideram certos.

Aluno: É que com relação a este monge, eu pensei que uma pessoa que tem convívio com um mestre, sabedoria, conhecimento, geralmente essas pessoas não vêem outros lados, normalmente quem vive no mosteiro vê vários lados diferentes.

Monge Genshô – Deveria...

Aluno – E esses conquistadores só olham para a frente, não olham para os lados e nem para trás, vão em frente conquistando, conquistando...

Monge Gensho - Nós temos muitas esperanças nos monges porque estão lá e lêem os textos. Mas nós também aqui na Sangha vamos ali, fazemos cerimônia e lemos os textos. Você toma refúgio no Buda, no Dharma e na Sangha, você diz que a Sangha é o lugar da harmonia, você faz as cerimônias dizendo essas coisas.

Quando olhamos a história do Cristianismo, não era a religião do amor e da compaixão? Mas é a religião que fez as cruzadas. Quantas e quantas vezes os religiosos abençoaram canhões? E cada um dos lados dizia – “Deus está do nosso lado”. Mesmo você lendo textos, o que eu quero dizer é que dentro dos mosteiros você vai encontrar homens. Eles lêem, repetem as coisas. Eu estou dizendo, não estou dizendo? Então no dia que vocês perderem a paciência com os outros, vocês dirão – “Ah, o monge disse isso, mas está acontecendo assim”. E se um dia vocês me virem perdendo a paciência vocês dirão – “Ah pois é, o monge sabe, mas”... Entre saber e fazer certo, há uma certa distância.

O monge  saberia...mas a história não tem mostrado isso. Vocês já ouviram uma passagem chamada “O Remorso”, de um poema de Guerra Junqueiro "A Caridade e a Justiça"? Ele imagina Judas. E Judas vai fugindo pelo caminho, depois da prisão de Cristo e encontra um vulto de  gigante e Judas lhe pergunta - Quem és tu?

"Convulso de terror, fugiu... Mas nesse instante
Surgiu-lhe frente a frente um vulto de gigante,
Que bradou:
-É chegado enfim o teu castigo!
O traidor teve medo e balbuciou:
-Amigo, que pretendes de mim? Dize, por quem esperas? Quem és tu?
-“O Remorso, um caçador de feras
Disse o gigante. Eu ando há mais de seis mil anos
A caçar pelo mundo as almas dos tiranos,


Do traidor, do ladrão, do vil, do celerado;
E depois de as prender tenho-as encarcerado
Na enormíssima jaula atroz da expiação.
E quando eu entro ali na imensa confusão
De tigres, de leões, d’abutres, de chacais,
De rugidos febris e de gritos bestiais,
Fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto:
Caim baixa a pupila e vai deitar-se a um canto.
E quando em suma algum dos monstros quer lutar
Azorrago-o com a luz febril do meu olhar,
Dando-lhe um pontapé, como num cão mendigo.
Já sabes quem eu sou, Judas; anda comigo!”

Então Judas pega o dinheiro e dá para ele. E o Remorso lhe diz - “Não, não Judas, guarda esse ouro, guarda que eu quero derretê-lo e pingar-to gota a gota na tua consciência pútrida e execrável durante toda a eternidade ilimitada e calma, vem Judas, anda comigo”.

Todos os crimes têm dentro de si sua própria tortura e castigo. Isso é a própria lei do carma. No final do poema Cristo fala com ele e o perdoa, e Judas diz – “Não quero teu perdão, sou mais justo do que tu” - e enforca-se. Mesmo naquele momento, se julgava mais certo, mais justo do que Cristo.

Talvez Devadhata tenha a mesma idéia – “Sou mais certo e mais justo” – e talvez todos esses que a gente vê, esses homens que nós estamos vendo hoje matando seus próprios concidadãos, são pessoas que se julgam certos, mais justos que os outros, esse é um grande problema.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mostrar com o corpo



Pergunta – A gargalhada é uma reação fisiológica que faz bem à saúde, nos mosteiros existem atividades que provocam gargalhadas? Jogos? Diversões?

Monge Genshô - Jogos não. Uma vez eu estava em um mosteiro e tinha uma responsabilidade, tinha que tocar um sino antes da hora do almoço. O sino ficava num prédio longe, tinha que sair minutos antes para tocar. Eu tinha que ficar cuidando o relógio do zendo para poder sair no horário. Tínhamos acabado de fazer zazen e havia um monge do meu lado que era da Colômbia, muito meu amigo. Ele sabia muito mais que eu, já tinha feito outros Angôs. Então ele olhou para mim e disse “Genshô, você não tem que tocar o sino?” Comecei a sair rapidamente do Zendô e quando olhei para o relógio percebi que ainda eram nove horas, voltei rapidamente para o meu lugar com todos me olhando e disse, “ainda são nove horas!” e de brincadeira ameacei lhe bater com o Zagu. O zendô inteiro, estavam de pé, voltados para o centro naquele instante, riu, pois pensaram que ele havia me pregado uma peça.

No dia seguinte eu havia pegado uma virose e estava com diarréia, ele então disse que fora por causa do susto e me pedia desculpas porque havia se enganado. Havia também um monge francês, tínhamos acabado de fazer um sesshin de três dias, todos mudos, chegamos ao quarto e ele disse, “acabou o sesshin, tenho uma garrafa de vinho”. Abriu a garrafa e todos nos reunimos rindo, para tomar um cálice, coisa que os instrutores jamais deixariam se soubessem. Na realidade os homens velhos, monges, as vezes acabam se comportando como colegiais. Rir faz parte da vida e os monges são pessoas alegres, tem um treinamento duro, mas tem alegria, uma alegria muito bonita, porque não está eivada de um sentimento baixo, é alegria, solidariedade, companheirismo e amizade, isso é característica do treinamento Zen.

O fato de Genshu Osho estar nesse sesshin, por exemplo, é uma demonstração de grande amizade e afeto por nós. Ele veio do Japão, e estava em São Paulo, quando soube que haveria um sesshin aqui, pediu para participar, então em vez de estar passeando, veio para cá sentar conosco. Isso é na verdade a ação iluminada, não é nada de especial, apenas viver, aproveitar a amizade e o afeto. Como ele não fala português, não pode falar claramente, mas está demonstrando com seu corpo, espero que vocês consigam perceber.

Pergunta – Voltando ao assunto do consciente e inconsciente, a função do nosso inconsciente é nos manter vivos, por exemplo, se ficarmos sem respirar, trancarmos a respiração por alguns minutos, o inconsciente derruba o consciente e assume para que voltemos a respirar, de repente a função do inconsciente de nos manter nesse grupo de loucos, não é para nos manter na tribo, para que não nos sintamos sós?

Monge Genshô – Até pode ser, na verdade no budismo não se faz essa distinção de consciente e inconsciente. Diríamos que esses processos do sistema automático do corpo fazem parte dos mecanismos da vida em que consciente e inconsciente estão misturados e, talvez, por causa do zazen tenha surgido essa não separação de consciente e inconsciente nos termos da psicologia ocidental. Que nosso corpo procure o prazer, a reprodução, a satisfação, isso é natural. Quando engordamos por comermos demais, por que isso acontece? Porque deixamos um processo natural tomar conta, o que não seria correto, se você comesse ração, por exemplo, quando um cão fica adulto não come demais, porque é sempre a mesma comida, mas se você diversificar a alimentação acontecerá o mesmo que com os humanos, engordam, se der doces ficam diabéticos. Temos que sobrepor aos nossos desejos naturais uma consciência do que estamos fazendo e o porque fazemos. Em um retiro é fácil, comemos com oryoki (tigelas rituais), ninguém come demais com oryoki, é fácil em mosteiros, em mosteiros não se vêem monges obesos. Mas em um restaurante é diferente, senta, conversa e come, come mais do que precisa.