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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Paixão e amor

(continuação da palestra de Goiânia, out, 2014)

Monge Kômyô: O complexo de tendências da mente de se perder em projeções passionais não é pequeno. Até porque a nossa vida infelizmente é construída a partir desse tipo de interpretação das coisas. Vivemos num mundo em que a excitação é o norte, não é? Tem que haver algo que puxe a gente. Eu às vezes ouço muitas pessoas falando que elas viram alguém muito bonito ou muito bonita e está morrendo de amores por aquela pessoa. Uma coisa muito comum entre nós é confundir paixão com amor. A paixão é um impulso, não é? É um momento em que nossa mente entra em contato com algo que excita, causa desejo, causa expectativa de experiências excitantes. Criamos uma identificação, um apego, projetamos expectativas e formamos a paixão. O amor é uma experiência de integração e de contato, de troca, de grande capacidade de reinvenção todos os dias, de uma convivência. E o amor, o amor mesmo, por pessoas, ele não acaba, pode ser até que você se separe da pessoa por algum motivo, por circunstâncias, mas se há amor ali, sempre vai haver um vínculo. 

Você nunca vai dizer daquela pessoa: ‘ah, eu odeio ela agora, ela é horrível”. Se você diz isso é porque nunca houve amor, “eu amava ela antes, mas agora”... Entenda que o que eu digo é que o contexto da experiência amorosa é algo que por sua própria sutileza, transcende  circunstâncias ou possibilidades de convívio. É muito estranho falar assim, não é? E a gente imagina como é possível você amar alguém e de repente não conseguir por exemplo, mais viver com aquela pessoa,  por circunstâncias, dificuldades. Mas a experiência de amor é algo mais profundo, daí que, a experiência amorosa, dificilmente é uma experiência egoísta. Então, você não ama uma determinada pessoa, você simplesmente ama, você é capaz de amar. Aí você convive com uma pessoa e se entrega a ela e tem relações ótimas de convívio, diálogo, amizade, e você diz: eu amo essa pessoa. Mas o amor em si é uma experiência ampla. E a experiência amorosa reflete o conceito da experiência contemplativa de ser integrativa, de ser inclusiva.

Então a experiência contemplativa determina que, mesmo diante de circunstâncias inesperadas, você não entra em conflito, você consegue lidar, trabalhar com a sua mente, mantê-la equilibrada e tranquila. Então, isso significa também não entrar em conflito com os mosquitinhos, é respeitá-los e não querer matá-los. Sobre o contexto fundamental da experiência contemplativa, eu amo os mosquitos, e tento afastá-los da minha cara, mas eu amo os mosquitos.

Temos aqui, a base da não-violência no budismo, que um tema, aliás, muito difícil. Eu já dei ao longo dos anos algumas palestras sobre não-violência e não teve uma única palestra dessas que não tivesse sido difícil. Muitas pessoas têm dificuldade de entender esse conceito de não-violência. Eu não sei como é aqui em Goiânia, mas eu sou do Rio de Janeiro, uma região com vários exemplos de violência, aspectos tristes. Mas a questão não é de não-violência apenas, é tudo. É conseguir colocar a nossa mente de forma que ela possa se integrar, compreender e descobrir meios adequados para lidar com todas as coisas. Daqui a pouco a palestra termina, nós vamos sair daqui e os mosquitos vão ficar por aqui. Se eles se tornarem excessivos, muito intensos, não tem problema, vamos terminar a palestra aqui, e vamos para outro lugar mais confortável para continuar, nenhum problema. Não há problema! Não é necessário se aborrecer, criar conflitos na pretensão que vai resolver a questão. E isso não é algo que possa ser feito com a gente se obrigando a fazer. É preciso surgir isso na nossa mente, daí vem o tempo e o esforço.
(continua)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Marcas cármicas



Pergunta – Se ao sair do sesshin, ao chegar em casa, eu comece a praticar a compaixão com o único objetivo de acumular carma, estarei sendo egoísta, por que estou buscando algo em troca para teoricamente me melhorar?

Monge Genshô – Isso chama-se materialismo espiritual. Enquanto você tem esse objetivo, não que esse objetivo seja ruim, nós chamamos no budismo de caminho  pequeno, desprezível, você pratica para você, no Mahayana você pratica para todos os seres.  Hoje, aqui, praticante Mahayana é Giovanni, porque ele tinha um problema, não poderia vir e eu disse à ele – Mas todos te esperam. Então ele veio. Provavelmente todos os outros estão praticando para obter alguma coisa para si, mas é assim que a gente começa. Não acho ruim como motivação, porque todos quando começam a prática no zendo, vão para si mesmos. Todos começamos como prática egoísta e que bom se conseguirmos fazer alguma prática  durante a vida, focada nos outros, Maha quer dizer grande, que abrange tudo, aquele que pratica para os outros. Sim , é verdade, mas não se envergonhem com sua motivação.

(O uso do termo Hinayana causa confusões devido ao fato de não existirem escolas Hinayana no budismo, os termos Mahayana e Hinayana foram usados para embates sectários no passado)

Observação – Podemos mudar o carma?

Monge Genshô – Com certeza, porque a cada pequeno ato compassivo, mesmo motivado egoistamente, acumulando essas circunstâncias um dia você agirá compassivamente sem querer, porque não pode evitar agir compassivamente. São marcas que as pessoas tem. Há gente que quando vê outras pessoas brigando, vai lá e fica torcendo e estimulando para que a briga continue. Semelhante a uma tourada ou outro ambiente com essa motivação de ver o sofrimento. Também existem aquelas que na mesma situação,  automaticamente querem afastar. Qual é a marca cármica dessas pessoas? A pessoa que quer separar, simplesmente sente, ela não pensa em separar, nem pensa em produzir bom carma, boa marca. Ela sente vontade de separar.

Pergunta – Acho que o problema é o conceito de eu, quando tu fazes algo pra ti mesmo, na verdade isso é ruim pra ti mesmo. Mas quando tu te aprofundas e começas a ver que esse “ti mesmo”não é alguma coisa para que valha a pena batalhar, então tu perdes o interesse em fazer coisas para esse ti mesmo. Não é que pense em deixar de fazer para ti e faça para os outros, com o tempo isso se torna natural. Está certo?

Monge Genshô - Ou seja, nós construímos nossas marcas cármicas e essas são sólidas, essas que nascem de impulsos naturais. Porque quando você morrer, o seu carma, o que continua, essa autoconstrução sutil que quer se manifestar, vai procurar manifestação no lugar onde ela se sinta adequada. Como expliquei, se você tem marcas infernais, você só será atraído pelos mundos de vingança. É natural isso. Existem pessoas hoje, no fim de semana, que estão num boteco, bebendo, jogando, fumando ou falando da vida alheia, qualquer coisa desse tipo, nada produtivo, nada bom. Mas eles só se sentem bem ali, já saem de casa direto para o boteco. Existem outros que dizem – Vou pagar para sentar de frente para uma parede em um sesshin (retiro). Tem que ter marca cármica para estar num sesshin. Senão não estaria aqui, tem que ter marca para isso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Não existe efeito sem causa





Pergunta – Se o “eu” de fato não existe e a gente deve buscar eliminar o sofrimento, por que toda essa prática e não, simplesmente, acabar com a vida?

Monge Genshô – Acabar com a vida não resolve nenhum problema. O seu “eu” é provocado pelo carma, uma onda de energia no universo. Você surge porque existe carma atrás de você. Por isso essa manifestação, “você”. Não existiria você se não houvesse carma anterior, se não houvesse movimento anterior no universo. Houve movimento e esse movimento redunda em você, pois não existe efeito sem causa. Se você se mata nesta condição em que está agora, tudo o que vai conseguir é uma nova manifestação, com os mesmos problemas e alguns anexados, porque você cumpre um ato bastante egoísta se matando, pois seus pais, amigos, parentes serão impactados pelo seu ato e sofrerão. Além disso, tal atitude não soluciona nada; você só consegue repetir tudo. Existe a possibilidade do suicídio altruísta, para salvar outros por exemplo em situações limite, mas não é o caso que estamos examinando.

Existe um filme bem interessante, "O feitiço do tempo". O personagem central se vê preso ao mesmo dia, que se repete incessantemente. Todos os dias ele acorda e vive o mesmo dia com os mesmos acontecimentos, porém, só ele sabe disso. Depois de alguns dias, cansado, ele resolve se matar, e todas as vezes que ele se mata acorda novamente no mesmo dia. É um filme bem interessante que reflete a experiência humana. Nós repetimos vidas. A cada vida, há um novo “eu”. O pior de tudo, é que ninguém se lembra de suas vidas passadas. É como alguém que corta um dedo quando criança: apesar de ter feito isso de forma ignorante e inocente, a conseqüência fica com ele. Você não tem o dedo quando adulto porque uma vez, na infância, mesmo que sem querer, mesmo que não se lembre de como aconteceu, você cortou o dedo. O quer que você faça, o carma gerado gravará e manifestará em novas vidas, mesmo que você não lembre o porque de seus méritos ou deméritos.