Mostrando postagens com marcador causa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador causa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Efeito Cármico




Logo depois que compreendemos essa estrutura humana, ou seja, como os humanos criaram as suas crenças e justificações, nós podemos examinar também as religiões que descartaram o sobrenatural, e delas só sobreviveu mesmo o budismo.

No budismo, a ética é construída pela ideia de carma: toda ação tem uma consequência; todo efeito tem uma causa; se isso acontece, é porque aquilo aconteceu; se isso acontece com você, há uma causa. Isso leva a pensamentos até difíceis, a exemplo de alguém que nasce com uma doença. É uma criança, parece inocente, e a ideia de carma diz que, na verdade, existe uma causa para isso, uma causa pregressa. Sendo uma causa anterior, porque não existe efeito sem causa, esta pessoa está sofrendo, mas é, em certa medida, seu carma, porque ela mesma, em outras vidas, fez por onde acontecer essa tragédia presente em sua vida atual.


Há um episódio em um sutra em que Buda diz: "tenho dor de cabeça". E alguém, então, pergunta: "como é que o senhor, um ser iluminado, tem dor de cabeça?", do que ele responde: "é que, em uma vida passada, eu matei um peixe, e, por causa disso, agora eu tenho dor de cabeça".

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O ZEN E O SABER

Pergunta – O Budismo acredita em espíritos?

Monge Genshô – O Zen Budismo não é a religião do acreditar.

Pergunta – Mas acredita em vidas passadas.

Monge Genshô – Mas não do mesmo eu. O Zen Budismo não é a religião do acreditar. É a religião do despertar das ilusões. Você não é obrigado a acreditar em nada, nem no que eu digo. Você pode, através do treinamento da meditação, testar se o que eu digo serve ou não para você. Através deste treinamento você pode adquirir sabedoria e isso é muito melhor que qualquer tipo de fé. O que buscamos com o Zen é sabedoria.

Pergunta – Minha pergunta é em razão do carma...

Monge Genshô – Carma é ação e consequência, tudo o que você faz tem uma consequência. Isso afeta não somente essa, como quaisquer vidas que venham depois. Essas vidas que vêm depois não serão você pois não existem almas ou espíritos, mas como continuidades, verão os frutos do carma na medida que causas e condições o permitam. Muito menos haverá um “eu” permanente, aliás, nada existe de permanente.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Minimizando o Carma

Pergunta – As pessoas também poderiam atrair um carma pela omissão, não é?
Monge Genshô – Sim. Na verdade em alguns casos é uma situação sem saída. Se se faz algo como matar um homem que está ameaçando matar outros, atrai um carma, se não faz nada e as pessoas morrem, atrai carma. Você deve escolher. Mas não existe a escolha de viver sem problemas. Assim é a vida, você não conseguirá evitar todo o sofrimento.
Nos tempos de Buda havia os Jainistas, que faziam oposição ao budismo e o desejo deles era evitar todo o tipo de sofrimento. Alguns chegaram a não usar roupas, pois para isso tem que plantar algodão e com isso matar insetos, logo, eles andavam vestidos de vento, não usavam roupas. Quando caminhavam varriam o chão à sua frente para não pisar em nenhum ser vivo e coavam a água com o mesmo objetivo, que toda e qualquer forma de vida fosse salva do sofrimento.
É impossível evitar todo o sofrimento, veja nosso corpo, por exemplo, ele está constantemente matando vidas microscópicas para que você possa estar bem de saúde. Se você tentar levar sua vida a esse extremo, não poderá continuar vivo, pois viver implica em causar sofrimento. O que podemos fazer é minimizar o sofrimento que causamos pelo simples fato de existirmos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Chegando a outra margem


 (continuação)
Saikawa Roshi: - O ensinamento de Buda é sobre a realidade além de nossas atividades mentais. A filosofia ocidental funciona somente com atividade mental e dualismo, branco e preto, ganhar e perder, isso é muito limitado. Com palavras e linguagens só podemos pensar de uma única forma. Buda se comunicava com palavras ininteligíveis para os seres normais, ensinava sobre grandes coisas, não o que está visível para nós, em frente aos nossos olhos, mas coisas impensáveis. No lugar de algo linear com começo e fim, temos um círculo onde em cada ponto é começo e fim. De um lado da moeda temos esses ensinamentos impensáveis, do outro temos a dualidade da vida diária. Se vocês começarem a pensar com um lado e o porquê de nascerem assim ou assado, não encontrarão a resposta, a realidade é que as coisas são como são. A resposta está aqui.

Os ensinamentos de Buda são sobre o outro lado da moeda, um ensinamento imensamente amplo. Em “MUKU SHU METSU DO” ele nega o fim das coisas, sem ignorância, sem fim da ignorância, sem velhice e morte, sem fim da velhice e morte, ele nega também as Quatro Nobres Verdades. Do outro lado da moeda essas coisas que são próprias do ensinamento budista também são negadas. Se você praticar poderá acabar com o sofrimento, pois ele tem uma causa e se existe uma causa ela pode ser eliminada, então mesmo isso ele nega ao dizer que não há sofrimento e nem fim do sofrimento. Dessa forma os Bodhisattvas seguindo a prática do Prajna Paramita, ficando com suas mentes livres ficam sem medo, sem obstáculos, além das delusões e podem atingir o nirvana, obtendo a sabedoria completa. Prajna Paramita é o grande mantra.

A parte final “GYA TEI GYA TEI HARA GYA TEI HARA SOWA GYA TEI” não aparece em muitas traduções, mas uma tradução é “eu fiz, eu fiz, eu atingi a outra margem, até o fim eu alcancei, viva”. Outra tradução é “juntos, juntos, vamos juntos para o mundo do nirvana”. Nessa tradução o título está no fim do Sutra e não no começo como é de costume. Como essa tradução é de um texto indiano, o título se repete no fim que é como é tradição nos textos Indus. (Fim)(continua com perguntas e respostas do mestre)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Dogmas e leis universais


 (continuação, palestra pública)
Pergunta – Para o Zen existem leis universais que regem o universo, por exemplo, causa e efeito é uma lei?

Monge Genshô - Parece que é, não é? Pode ser que um físico quântico diga que existam alguns efeitos sem causa perceptíveis, estamos investigando isso mas até o momento, parece que todos os efeitos têm causa e, pelo menos na nossa vida de mente e de carma, todos os efeitos têm alguma causa. Tudo o que acontece com vocês tem uma causa pregressa.

Se existem leis universais? Nós progredimos muito do tempo de Buda para cá em termos de ciência, muito, muito. Bem mais ainda nos últimos 200 anos.  De lá pra cá, quanta coisa mudou. Na minha vida, quanta coisa mudou! Eu me lembro quando cheguei em casa e a empregada me chamou para ver um fogão novo que ela tinha ganhado e que tinha “um ar que saía de dentro e pegava fogo”. Uma coisa extraordinária, porque ate então só tínhamos visto fogões a lenha e, detalhe por detalhe é tão rápida a alteração neste momento, que é difícil acompanhar, é difícil você se informar de tudo que está acontecendo agora, nesse instante em termos de progresso e conhecimento humano.

Nós devemos manter nossa mente aberta e não nos agarrarmos a nenhum dogma. O budismo conseguiu escapar disso, porque ele nunca se comprometeu com descrições do universo, e aí, a cada nova descoberta, não há problema para o budismo. Mas, quando você tem uma religião e ela tem uma cosmogonia e descreve o universo de uma determinada forma, quando você ameaça aquele dogma, parece que o mundo vai desabar, e às vezes a solução é mandar queimar aquele indivíduo que veio com essa história, porque ela é ameaçadora do “status quo”.

Assim, o budismo se salvou desse problema do dogma, e isso é um grande privilégio. E outro grande privilégio é o fato do budismo não achar que tem que convencer os outros a ferro e fogo, então nós não temos na história, uma guerra de conquista budista nesses 2.500 anos e isso é um enorme privilégio. Não que não tenham havido perseguições ou disputas, até entre budistas, isso houve,  mas não uma guerra.

Pergunta – Mais cedo o Senhor se reportou à historia de uma jovem que reencarnou numa família budista porque havia vestido um manto. Eu não sei se era uma historieta mas, se é fato, de onde vem essa informação de que ela renasceu numa determinada família?

Monge Genshô - Não, essa história é uma anedota Zen. Então ela pretende passar um “ensinamento”, de que o contato com o Dharma, mesmo que seja sobre uma forma espúria, tem um bom efeito. Agora, se informações como essa não existem, pouco importa. Aliás, se você acredita ou não em renascimento, não tem interesse. Se entra alguém aqui pela porta e diz assim: “Monge, eu queria praticar o Zen, mas queria lhe dizer que acredito que há homenzinhos verdes que vivem na galáxia de Andrômeda”. Eu respondo: “Muito interessante você acreditar nisso, mas eles por acaso falam com você”? E ele diz: “Não”. E eu digo: “Bom, então não é tão grave, pode sentar”. Agora se ele fala com os homenzinhos verdes, aí devo mandá-lo para outra pessoa, porque não é a especialidade do Zen tratar com psicoses. Então o que uma pessoa acredita ou não, não tem muita importância.

Eu estava uma vez com Saikawa Roshi e um rapaz perguntou: “E Deus”? E Saikawa Roshi disse: “Ah, esse é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem, se você não acredita, está bem também”. Não faz diferença, vá sentar. Pratique meditação e, quando tiver lucidez, aí as coisas clareiam, e você não precisa ficar discutindo, argumentando a respeito de coisas como essa.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Repetições sem fim



 (continuação da palestra)
Nós temos que substituir as crenças por experiências. Então o budismo é experiencial. Por isso o Zen faz o que nós vamos fazer amanhã, primeiro você senta nesta almofada de frente para a parede e descobre QUEM é você. Descubra o fundamento da sua existência. Onde você estava antes dos seus pais terem nascido? Quem eu sou realmente, além desse nome e forma? Quem eu sou além de Joana, Pedro, Jairo? Quem eu sou? Se eu puder saber quem eu sou, então posso engolir o universo. Mas enquanto eu estiver acreditando na minha individualidade, no meu “eu” como uma coisa sólida, eu estou muito perdido, porque eu tenho mais uma construção, mais uma ilusão, criada pelo funcionamento da minha mente. Eu “sou” aquilo que eu acredito, aquilo que meu pai me disse. Minha mãe me deu o nome de José, então sou José. Quem é você? José. Não, José é um rótulo. Eu quero saber quem é você, além desse nome. Eu sou isso que você está vendo, é verdade? E se eu retirar esse braço, será menos você, ou você continua aí? Não, eu continuo aí. Então você não é seu corpo, porque eu tirei o braço e você continua. Você nem diminuiu...quem é você fora do seu corpo, fora do seu nome, fora de tudo o que as pessoas acreditam que são? Eu sou advogado, doutor, operário, consultor, qualquer coisa, quem é você além dos atributos? Quem é você de verdade? Essa é a pergunta que tem que ser respondida.

À medida que nós vamos andando na vida nós vamos criando carma. Nós já somos produtos de carma, porque nós não estaríamos aqui se não houvesse um efeito anterior. Existe algum efeito sem causa? Não. Qualquer efeito que exista, tem uma causa. Se vocês estão sentados aqui, existe uma causa pregressa. Então, de onde veio essa personalidade, esse apego, esse desejo, essa tendência, essas coisas que vocês sentem desde a infância? Foram criadas aleatoriamente, ou por acaso são efeitos do passado? A lógica diz: são efeitos do passado. Então há continuidade nas existências. A essa continuidade na existência, vamos chamar CARMA.

A onda cármica, ela não carrega nome, identidade, não tem passaporte, não tem sobrenome, não sabe quem é, no entanto se manifesta aqui e nasce, e aí mamãe dá um nome, e você vai descobrindo aos poucos, olhando pra dentro de você, “eu sou assim, eu tenho tendência pra isso, eu tenho tendência para aquilo. Você é uma grande cozinheira, não é? Mas de onde veio este talento? Não foi sempre assim, desde pequena? De onde veio? Surgiu assim? E quando você senta uma criança talentosa num instrumento musical,  você olha o prodígio e diz: “Como pode? Como é possível isso?” Você acha que aconteceu ali como um milagre, ou que tem uma causa pregressa? Como Mozart podia compor musicas aos 5 anos de idade? Como? Então é evidente para nós que existe continuidade de manifestação cármica, e vocês são continuidade de carma muito velho, senão não seriam seres humanos, seriam seres mais primitivos.

Agora, vocês vão continuar repetindo sempre as mesmas experiências? Porque é isso que nós fazemos na vida. Nós repetimos experiências sem fim. As pessoas fazem uma coisa, depois repetem o mesmo erro de novo, depois de novo. É ou não é? Nós não somos assim, seres apaixonados? Nos apaixonamos  uma vez, aí acaba aquele amor e a gente sofre. Aí o que fazemos? Nos apaixonamos de novo.  O monge ouve muito essas coisas, porque senta alguém na frente e diz: “Estou sofrendo muito”... Às vezes o sofrimento é tão grande que eu choro junto. Porque eu sinto que dói, porque também já aconteceu comigo. Mas eu sei uma coisa com certeza: é só a gente esperar 2 anos. E a mesma pessoa vem e eu digo: “E aí, e aquele relacionamento?” E ela responde: “Ah, ainda bem que eu me livrei daquela coisa horrorosa, só foi problema aquilo para mim, mas agora estou com uma pessoa...” Até o próximo desastre. Porque nós somos assim, nós somos repetidores de experiências, porquê? Porque não mudamos o nosso carma, aí repetimos.
(continua)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Fazemos para os vivos






Pergunta – O budismo tem a lei do carma e tudo está sujeito a ele?

Monge Genshô – Sim, pensamos que a natureza tenha a lei do carma. Carma significa ação e toda ação tem uma consequência. Pensar que não seja dessa forma seria contrariar as evidências.

Pergunta – Sim, mas quero dizer não somente carma do que fazemos agora e que irá repercutir no futuro, mas também o que trazemos de outras vidas.

Monge Genshô – Se todo efeito tem uma causa, você não pode pensar que um efeito vem de graça. Não necessariamente o que acontece agora nessa vida tem uma causa também nessa vida, pode vir de outras. Não era eu, até por isso não usamos a palavra reencarnação, mas foi um passado que me gerou e sou herdeiro desses efeitos. A personalidade de cada um tem uma causa, mesmo que não nos pareça lógico, ela tem uma causa. Digamos que uma pessoa tem pavor do doar sangue. De onde vem essa marca cármica? De onde vem essa idéia de medo de doar sangue? Não é gratuito, nada é do nada. A maior indicação de que existe um passado é que temos marcas cármicas diferentes, caso contrário,  seríamos como tábuas em branco. Mas não adianta nos preocuparmos em como isso funciona ou quem você foi na vida passada. Temos que nos preocupar com o agora.

Pergunta – Quando morremos só sobra a ação, certo? O carma. Gostaria de entender porque fazemos a cerimônia dos mortos, se nada mais pode salvar além do carma?

Monge Genshô – Fazemos para os vivos.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Nem almas nem espíritos





6) Gostaria de entender melhor o renascimento na visão Budista.


Monge Genshô – No Budismo falamos em “continuidade cármica”, mas não de continuidade de um “eu”. Retornamos, mas não com nosso “eu”. Nosso “eu” se dissolve a cada vida, assim como se dissolve a cada dia, a cada semana você é um pouco diferente. Esse “eu” fantasia que vestimos nessa vida e a cada nova vida, deve ser construído e o que se manifesta novamente é o carma, mas do ponto de vista da prática do zazen, ninguém precisa aceitar isso como verdadeiro.

Se você quiser pensar que não existe continuidade alguma e que todos os impulsos se dissolvem e que todas as manifestações são manifestações que saem desse conjunto, isso não alteraria a sua prática, não é necessário você ter uma crença em algo para praticar zazen.

Tradicionalmente os mestres falam em continuidade porque seria absurdo que um impulso qualquer se perdesse e nada acontecesse. Uma vez que todo efeito tem uma causa, deve haver alguma causa para o efeito que você é. Essa causa para os Budistas é o carma e não aceitamos a continuidade de um “eu”, de uma alma ou espirito.

Não existem almas imortais, não existe efeito sem causa, sempre haverá continuidade e em razão disso você é responsável por quem você é e pela continuidade que haverá depois de você.

Você é hoje o resultado de coisas que trouxe do passado, suas paixões, seus gostos, seus impulsos e seus atos. Se você deseja mudar, mude sua mente, caso contrário haverá repetição e continuidade, o carma gerará uma nova identidade e tudo continuará igual a agora. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Estava escrito


Pergunta: A pessoa deseja mudar seu destino através de sua vontade, mas às vezes a gente ouve falar que nascemos com um destino e assim será até morrer. A simples vontade é suficiente para mudar isso? Não falo só da iluminação, mas de tudo. Como fazer para que essa vontade modifique verdadeiramente sua situação?

Monge Genshô - Primeiro temos que compreender que destino não existe. Essa coisa de que “está escrito e assim será”, não existe. É frequente ouvir as pessoas dizerem quando alguém morre, que quando chega a hora não tem jeito ou então “foi Deus quem quis”, todas essas idéias são profundamente erradas. Se algo estivesse escrito e houvesse destino, não haveria responsabilidade alguma por parte das pessoas. Por exemplo, um criminoso poria a culpa no destino pelo seu crime e diria não ser possível evitar o ato cometido, pois já estava escrito. Não haveria culpa. Por outro lado também não haveria o mérito, por exemplo, alguém que faça algo muito bom, também estava escrito que ele faria isso, mérito zero. Não existiria nada de bom ou ruim, seríamos como autômatos seguindo uma peça já escrita por alguém, na verdade escrita muito mal, não é verdade? Pois este mundo está cheio de sofrimentos.

O que existe nas pessoas é carma, mas o que é carma? Carma são as energias de hábito e o acúmulo das consequências dos nossos atos pregressos, ou seja, aquilo que causamos. Eu tendo a agir em uma determinada situação de acordo com meu carma. Uma pessoa que seja muito brigona e que nada possa ser dito que ela já começa a se exaltar, o que é isso, destino? Não, é carma. Ela tem esse impulso e acredita que essa seja a maneira de resolver seus problemas, é possível mudar? Essa é tua pergunta. Claro, basta que mude sua mente. É fácil mudar a mente? Não, para mudar a mente precisa um treinamento, por exemplo, meditação. Para que praticamos meditação? Para perceber o que surge em nossa mente. Por isso não desperdicem todo o sofrimento de ficar sentados durante quarenta minutos de frente para a parede. Percebam o que surge em suas mentes, isso que surge é o retrato de seus condicionamentos mentais. Querem mudar suas vidas? Mudem suas mentes. Mudando suas mentes, seus sentimentos e ações mudarão, até mesmo o mundo muda, pois interpretamos o mundo de acordo com nossa mente. Como no exemplo do ciúme, porque uma pessoa sente ciúme e sofre? Por um condicionamento mental, porque dentro de sua mente existe a crença num “eu”, existe a crença de posse e desejos. É muito trabalhoso e difícil, mas toda mente pode ser mudada. Se alguém transformar totalmente sua mente e passar a ter sentimentos de alegria, compaixão, paciência e equanimidade, será um Buda. Terá condições e comportamento de um Buda.

A primeira idéia então, é que destino não existe, tudo é causa e consequência. Tudo tem um motivo ou uma causa anterior. Vocês estão bebendo chá porque alguém colocou água no fogo e fez chá, chás não surgem do nada. Na minha vida aconteceram grandes sofrimentos, mas quando olho para trás não enxergo culpados, eu fiz por onde me meter em situações das quais surgiram aqueles sofrimentos. Ninguém, além de mim, tem culpa. Temos que ter vontade de mudar nossas vidas e somos capazes de fazê-lo. Esse é o ensinamento do budismo, não existem Deuses lá fora ajudando os homens,   se houvesse um Deus ajudando os homens na Terra seria necessário pedir? Se ele fosse um onipotente e se fosse bom, não haveria miséria ou sofrimento. Então mesmo que exista um Deus uma coisa é certa: ele não interfere no mundo. Só quem pode mudar nossas vidas somos nós mesmos. O budismo está baseado nesse tipo de raciocínios e não em crenças.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

HERDAMOS NOSSAS VIDAS



Temos que compreender o “não nascido”. Costumamos pensar que nascemos e morremos e que tudo tem um tempo de início, mas na realidade temos que compreender que não nascemos, somente herdamos, nosso nascimento é um evento de herança e a vida não começa nem termina, ela somente continua.

Os homens sofrem porque pensam em início e fim das coisas, não compreendem que a vida é um imenso fluxo em que nada tem um começo definido nem um fim claro, todas as coisas têm uma continuidade. Temos, aqui e agora, nossos ancestrais presentes em nossos rostos e mãos. Eles continuam em nós e dessa forma toda a vida nada mais é do que herança sem fim. Mesmo quando não há mais uma espécie continuando, ou quando um mundo termina e um universo cessa, ainda sim tudo o que há é continuidade, mesmo a energia se dissipando, ela continua. Um dia essa energia novamente se agrega e continua num novo dia cósmico.

Para compreendermos isso temos que mergulhar muito fundo no zazen e enxergar nossa verdadeira natureza, que não é de inícios e fins, mas sim de continuidade, interconexão e interdependência.

Nada do que nos acontece é um evento isolado, mas sim uma continuidade de eventos do passado. Muitas das dificuldades das pessoas em entender o carma devem-se ao fato de olhar para as coisas e querer encontrar um início. O carma também é continuidade. Somos efeitos de causas pregressas e nada deixa de ter uma causa anterior. Sempre temos que nos perguntar onde está a causa do efeito que vivemos, pois qualquer que seja o efeito, nós construímos a causa de alguma forma.

Assim, em última análise, nada acontece que nós não mereçamos. Caminhamos sobre um chão que nós mesmos construímos. Construímos nosso futuro com as ações do presente e isso não se refere a culpa, mas simplesmente ação e consequência. É assim que o universo funciona e toda a ética do Budismo funciona, de acordo com essa percepção e não tem nada a ver com alguém de fora que premia ou castiga, não existe ninguém que irá carregar as consequências de seus atos e muito menos perdoar suas falhas. Você não pode fugir das consequências de seus pensamentos, palavras e atos. A única forma de resolver seu carma é com novos pensamentos, palavras e atos.