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quinta-feira, 30 de março de 2017
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
É possível mudar o carma
Pergunta: Eu posso alterar as consequências do carma?
Monge Genshô: O carma é alterável, você pode fazer esforço e mudar seu carma, para o mal ou para o bem, pode fazer ações com grandes consequências. Você pode fazer uma tatuagem na metade do seu rosto e quando for procurar emprego ninguém dará emprego para você por causa da tatuagem. Quem foi que arrumou essa condição? Foi você. Não existem ações sem consequências.
Eu conheço um homem de uma família de nove filhos, todos do interior, o pai era agricultor, mas ele detestava trabalhar com a enxada e por causa disso ele estudou muito. Nenhum dos irmãos estudou, mas ele se formou como engenheiro e conseguiu uma condição melhor de vida. Ele tinha o impulso de querer escapar daquilo e por isso ele escapou, mas ele precisou se esforçar para isso, porque ele tinha carma para nascer lá no interior.
Todas as causas tem consequências, não existe uma coisa que aconteça no mundo que não tenha uma causa anterior. Eu estou sentado aqui falando para todos vocês. Para que isso acontecesse eu precisei pedir para ser monge, treinar durante 10 anos e fazer uma porção de coisas, algumas delas bastante desagradáveis e difíceis, como ficar em mosteiros incomunicável, mas só porque fiz essas coisas estou aqui hoje. Se eu não tivesse feito esse esforço, eu não estaria aqui. Simples. Então não existe fruto sem plantação. Você faz por onde.
As pessoas começam às vezes com uma ação muito pequena. Como o cigarro, você começa com um e depois vai indo. A bebida também, no começo você entorna só um copo, depois de 20 anos o índice de recuperação de alcóolatras é quase zero. Nesse momento a pessoa já destruiu sua família, seu fígado, está com cirrose e tudo isso são consequências de uma causa anterior. Se você fuma, certamente a longo prazo você vai ter enfisema, dificuldade respiratória e talvez tenha um câncer. Se você morrer disso é uma morte afogado, tentando conseguir oxigênio e sem conseguir porque o pulmão perdeu a capacidade de fazer isso. Mas quando você está com enfisema não adianta mais querer limpar o pulmão, não tem como. O carma é assim, não tem nada de mágico, ele é essencialmente prático. Você faz e recebe as consequências.
No budismo não tem ninguém para carregar as consequências por você, não tem um salvador que vá resolver as coisas para você. Você vai ter que pagar o ônus da sua escolha. Você pode fazer coisas para melhorar, mas dizer que vai resolver completamente, não vai. Se você insulta alguém, a pessoa fica com raiva de você. Se você vai até a pessoa, tentando melhorar esse carma, pede desculpa, a pessoa perdoa você, mas não esquece, portanto você resolveu em grande parte, mas não completamente. E o carma prossegue de vida após vida. Você nasce numa vida e herda as consequências da vida anterior. Você nem sabe por que, ou quem foi que fez algo e no fundo era outra identidade, mas você é herdeiro dela e agora sofre as consequências daquela identidade. É como se aos dois anos você fizesse algo que fez com que você perdesse um dedo. Agora você é adulto, sente falta do dedo e não lembra como o perdeu, mas foi você que perdeu o dedo. O sofrimento está ali, você herda do seu próprio carma. A boa novidade é que a gente pode alterar o carma, pode alterar tudo. Você pode alterar sua mente, suas ações, a maneira como você pensa, reage e assim a sua vida muda junto. Na verdade, quando a gente faz zazen está eliminando carma, porque você senta aqui e apaga, esquece de si mesmo e constrói uma nova vida. Quando você está parado fazendo zazen não gera carma.
Pergunta: Por que o zazen apaga carma?
Monge Genshô: Porque grande parte daquilo que é carma é marca na nossa mente, o que significa que determinadas atitudes provêm da sua maneira de pensar e o zazen faz com que essa maneira de pensar mude. Ouvindo o Dharma você muda, você começa a identificar: “eu fiquei com raiva de uma pessoa e isso é coisa do reino dos infernos, eu não quero nada com isso, não vou cultivar esse sentimento, raiva só produz mais raiva, ódio só produz mais ódio”. Com isso você começa a mudar seu carma, você começa a apagar a sua marca cármica anterior. Por isso o zazen corta carma e por isso ouvir o Dharma corta carma, mas é preciso aproveitar. Se você praticar a sério mudará sua atitude em relação ao mundo e mudará o seu carma.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Há hierarquia entre os seres
Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior, vamos dizer assim, para a pessoa mais esclarecida?
Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências.
Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um estuprador. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe uma relação de grandes crimes que causam grande marca carmica, matar o pai, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Eu pavimento meu caminho
Buda não veio dos céus trazer uma mensagem para nós. Não é isso. O que ele disse que veio ensinar é o Dharma. E o que é o Dharma? O Dharma é a lei, a sabedoria, a compreensão de como funcionam as coisas. Ora, se eu compreendo, então eu tenho que entender qual é a relação entre o meu ato e a sua consequência. Por isso nós estamos falando numa lei de causa e efeito, e não em pecado, regras ou mandamentos. Não é isto. Nós estamos falando: se eu ajo de determinada forma, essa ação vai produzir uma consequência posterior. Essa consequência vai modificar o futuro, ela vai criar um movimento no universo.
E o que é esse movimento que nós criamos no universo com os nossos atos? Vamos chamar aqui, para nossa melhor compreensão, de onda, onda cármica. Não quer dizer que seja uma onda, mas tem certas características que podemos identificar como ondas. Ou seja, ela começa com uma ação e se propaga, e vai continuando e vai produzindo efeitos à medida que anda, isso é o que uma onda faz. Então, a nossa ação produz uma consequência, produz uma onda e esta onda vai provocando consequências contínuas desde que as condições sejam propícias para tanto.
E quando cessam as consequências de uma onda? Ela não cessa. As consequências de uma onda permanecem até que a energia se esgote. E isso então nos dá uma outra perspectiva, que é a perspectiva budista, que é diferente da perspectiva de que “se eu cometer um pecado, este pecado vai causar consequências ou castigos para mim e eu tenho alguém que perdoa e me salva das consequências desse pecado”. O budismo não tem um mecanismo como este, um mecanismo salvador das consequências. O que o budismo diz é: a lógica diz: há efeitos naquilo que nós fazemos. Esses efeitos continuam. Você só pode mudar os efeitos, com novas ações, você não vai poder mudar os efeitos com o perdão. Ninguém vai chegar e perdoar você e dizer: “agora está livre”.
Você chega a um amigo e diz um monte de insultos a ele. Ele fica com raiva de você. Você vai até uma outra pessoa e diz: “pequei. Cometi um pecado contra meu amigo, o insultei e ele está com raiva de mim, o senhor me perdoa, por eu tê-lo insultado?” E essa terceira pessoa diz: “Eu te perdôo”. Do ponto de vista budista isso é uma coisa não funcional. A maneira d´eu diminuir os efeitos da minha ação de insulto, é eu ir lá até aquela pessoa e pedir desculpas, dizer: “eu não quis dizer aquilo daquela forma, eu estava perturbado, irritado, eu estou arrependido, eu quero que VOCÊ me perdoe”. Este perdão do ponto de vista budista é funcional mas não é perfeito, porque ele perdoa você mas, fica um resquício lá. Se você fizer de novo a pessoa dirá: “De novo? Você é a mesma pessoa, não aprendeu nada?” É isso que vai acontecer.
De modo que a ótica budista não é uma ótica com mecânica de interferências externas. Ela todo tempo olha pra dentro de você e vê: Como eu faço? O quê eu faço? Quais são as consequências do que eu faço? E como eu conserto as consequências do que eu fiz? Como eu faço coisas melhores para compensar as coisas ruins que eu fiz no passado? Eu só posso pavimentar o caminho onde eu ando, através das minhas ações, eu não vou pavimentar o caminho que eu ando através de interferências externas.
(Início de palestra pública em Goiânia, será publicada em partes)
terça-feira, 27 de maio de 2014
Perdão
Grupo zen em Goiânia
Monge Genshô – Essa é uma máxima bíblica que diz: “Não perdoe uma pessoa apenas sete vezes, mas sim setenta vezes sete”. Mas este tipo de afirmação com números também acontece nos textos budistas, por exemplo, dizem que Buda deu oitenta e quatro mil ensinamentos. Esse número é apenas uma maneira de dizer “muitos”. Se remontarmos ao budismo, veremos que não existe um conceito como pecado ou desobediência. Nas religiões teístas existe uma divindade que dá mandamentos e você, ao desobedecê-los, comete um erro passível de ser punido, mas também de ser perdoado por alguém superior à você.
Já no budismo o que existe é o conceito de ação e consequência, que é o carma. Você comete uma ação que terá consequências inescapáveis, pois não há ninguém que irá perdoá-lo de maneira que você não sofra as consequências. As consequências virão. O que você pode fazer é minimizá-las, tratando de praticar ações que melhorem seu carma, como é o caso de ofender alguém e pedir desculpas, mas sempre fica um resíduo nesse pedido. Em caso de ocorrer uma nova ofensa, a outra pessoa está pronta para responder de forma mais explosiva, ou seja, o carma não é eliminado inteiramente em razão de uma desculpa.
Temos que considerar que o conceito de perdão que limpa, não existe no budismo, mesmo o conceito de pecado inexiste no budismo. Mas no terreno humano, que está por trás desta escritura que você citou, sua capacidade de desculpar tem que ser infinita, porém, o caminho para que ela seja infinita não é “eu perdôo”, mas sim, “eu compreendo realmente como funciona a mente daquele que me ofende e sei perfeitamente que eu também sou assim, que ele e eu somos idênticos”, esse é o caminho da compaixão.
Sem dúvidas um caminho muito difícil, pois muitas vezes simplesmente não aceitamos e por não nos colocarmos no lugar do outro, não o perdoamos. Falamos com muita facilidade de compaixão, mas compaixão com nossos iguais é muito fácil, agora ter compaixão com um criminoso que mata seu filho? Isso é muito difícil.
Pergunta – Porque existem ações com consequências muito graves e outras nem tanto, sendo que são da mesma natureza? Por exemplo, matar um Monge ou como na história do assassino Angulimala, que se tornou Monge.
Monge Genshô – A história de Angulimala, que era um assassino que foi convencido por Buda que poderia mudar, fala que o resgate é sempre possível. Você pode sair do mais profundo erro e tornar-se uma pessoa boa. Porém, Angulimala não escapa da consequência de seus atos. Depois de tornar-se monge, um grupo de pessoas que o odiavam e não o perdoavam pelo mal por ele praticado, se reúnem e lhe batem até quase o matar. Buda lhe diz apenas: “Aguente Angulimala, aguente. Foi você que provocou todo esse ódio”. Certamente durante muitas vidas ainda haverá consequência pelos seus atos. Muitas vezes nos perguntamos porquê uma pessoa que aparentemente é inocente sofre tanto. Talvez não tenha feito nada para merecer o sofrimento nessa vida, mas esse é um carma antigo. Mesmo Buda, uma vez ele se encontrava doente com fortes dores de cabeça e alguém lhe pergunta: ”Mas como que o senhor uma pessoa desperta sofre com dores?” e Buda lhe responde: “Agora, mas em uma vida passada eu matei um peixe e este carma está aqui”.
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sexta-feira, 9 de maio de 2014
Mudar o carma
Pergunta – É possível mudar nosso carma?
Monge Genshô – Sim. Nos dois sentidos. Vamos supor que você seja uma pessoa maravilhosa, que tenha feito muitas coisas boas para muitas pessoas, mas faz o mal, comete um crime e sua vida começa a decair. Você tinha um bom carma e o transformou em mau carma. Por outro lado, você tinha feito coisas muito ruins, mas começa a mudar sua mente e realizar bons atos, isso vai gerar bom carma. Mas isso é muito difícil, a maioria das pessoas está metida numa espécie de enredamento com seu carma e acaba repetindo sempre as mesmas coisas. Se você não cuida de sua mente, quando morre, é com essa mente que se manifestará uma nova vida, seus impulsos, desejos e apegos é que serão seu carma para a próxima vida e para um novo eu, que não se lembrará do porque, embora sofra as consequências.
Pergunta – Como trazer o zazen para a vida prática?
Monge Genshô- Essa mente construída no Zazen, de não se preocupar com passado ou futuro, deve ser levada para a vida diária. O zazen é somente a base da prática, não é a prática em si. Quando estiver varrendo o chão, somente varra o chão, esteja ali presente. Quando for lavar a louça, mente do zazen. Uma excelente oportunidade é no seu trabalho, sempre que surgir uma discussão, observe e perceba seu ego presente na sua necessidade de manifestar opinião, na necessidade de estar certo, na necessidade de ser o melhor. Torne-se consciente de você mesmo. Essa é a verdadeira prática espiritual, não é acender velas, incensos ou fazer cerimônias. Esse tipo de coisa serve para exercitar uma mente atenta, que deverá ser transferida para o resto de sua vida, até o momento de sua morte. É muito importante ter uma boa mente no momento de sua morte. Uma mente tranquila, sem desespero, equânime, compassiva e uma mente capaz de perdoar, não somente aos outros, mas a si mesmo. Seus impulsos no momento da morte é que serão levados para a outra vida, por isso é muito importante saber morrer.
Pergunta – Sempre que o senhor fala de vaidade e ego, pega exemplo ruins. Falar sobre coisas boas, como por exemplo, estou me sentindo ótimo, estou apaixonado...
Monge Genshô – Isto também é ruim. Quando fazemos os votos do Bodhisattva, o que falamos? Delusões são inexauríveis, faço voto de extingui-las, todas.
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segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Libertar das ilusões
Pergunta – Quando meu corpo físico morrer meu carma continua?
Monge Genshô – Sim, o carma não cessa. Seus impulsos, paixões e apegos é que continuam, mas seu “eu” não tem como sobreviver. Nada do que você costuma amar, assim como você mesma, vai continuar. Todas as religiões foram construídas para dar às pessoas o consolo da continuidade do seu “eu”, inventando uma alma ou espírito e um “eu” que continua de alguma forma. Por isso poucas pessoas ficam no Budismo, pois ele não tem esse consolo para oferecer, todos querem escapar da morte e por isso as religiões falam em salvação, mas o Budismo não é um ensinamento para salvar da morte através de uma ressurreição milagrosa e sim para libertar. Libertar do quê? Libertar das ilusões. O Zen não fala em depois, as pessoas querem muito pensar no depois, no que acontece após a morte. O Zen se preocupa com o agora, por isso a orientação no zazen é não pensar em futuro ou passado. Não se preocupem com o que acontece depois da morte, sobre isso todos saberão. Por estarem tão preocupadas com o que acontecerá , é que as pessoas não vivem de fato o momento presente. Esse é o significado da frase de Saikawa Roshi, “Os pássaros são verdadeiramente pássaros, os peixes são verdadeiramente peixes, só os homens não são verdadeiramente homens”.
Só os homens vivem angustiados com o fato de que irão morrer. Reconheça, seu “eu” não pode sobreviver à morte, ele não sobrevive a uma doença cerebral, um Alzheimer, como esperar que ele sobreviva à morte? O que não cessa e que deveria ser realmente alvo de preocupação são os pensamentos, atos, palavras, paixões e apegos. O que você é agora vem do seu passado. No futuro, alguém que não é você, mas é você, viverá as consequências de tudo que construiu nessa vida.
Até os quatro anos de idade, normalmente, nos esquecemos de tudo vivido antes. Vamos supor que antes dos quatro anos você fazendo uma arte, perca um dedo. Na sua vida adulta você olha e não vê seu dedo, você não lembra o que aconteceu, é como se não tivesse sido você, mas o dedo está faltando. Você sofre as consequências e não vê sua culpa, pois não era você adulto. As consequências estão ali, mesmo que não fosse você. O que se faz agora terá consequências no futuro, será você, mas não será você.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Vestem mortalhas e vivem como se fossem morrer
O que é sesshin? O ideograma SE tem o sentido de consertar ou reunir e SHIN significa mente. Nossa mente no mundo, com todos os acontecimentos que sucedem, acaba ficando espalhada, então tem que ser reunida, juntada. Também nossa mente está perturbada, somos arrastados como folhas levadas pelo vento, os ventos das paixões e dos acontecimentos nos jogam de um lado para o outro, não temos domínio sobre o que está acontecendo e somos jogados pelos sentimentos, sentimentos mais variados, amores, culpas, remorsos, desejos, aversões, raivas, que nos empurram de um lado para o outro como se fossemos folhas.
Uma outra boa imagem é como se fossemos cavalos sem rédeas correndo pelo campo desembestadamente. Outra bem característica do que vocês sentem no zazen, é de nossa mente como um macaco bêbado pulando de galho em galho, ele agarra um galho, um sentimento, um pensamento e logo vê outro, pula e se agarra, quando você percebe passou o zazen inteiro viajando, perdido, não conseguiu ficar aqui nesse lugar, que é nosso objetivo.
Para que sentamos em zazen? Para consertarmos nossa mente e verdadeiramente viver uma realidade. Essa realidade é aqui. Temos um imenso privilégio, pois esse local é um paraíso distante de todo o mundo. Lá fora hoje o mundo é carnaval. As pessoas se vestem de fantasias. Na Bahia as pessoas tem uma fantasia que chama-se mortalha. Uma fantasia com a qual pode acontecer de tudo, sujar, rasgar, não tem importância, é uma mortalha, e as pessoas vivem como se fossem morrer, como se nada importasse, não tivesse mais sentido qualquer a vida, essa frase é bem interessante, “vestem mortalhas e vivem como se fossem morrer”. Logo os sons são muito altos, a musica é inebriante e todos os desejos vem a tona e podem ser vividos livremente, por que os outros também não estão se importando pois também irão morrer.
Originalmente no carnaval se usavam fantasias que cobriam também os rostos das pessoas e você não sabia com quem se relacionava. Carnaval tem esse nome de origem, carne, pois era a festa que antecedia a quaresma. Durante os quarenta dias antes da Páscoa, os cristãos antigamente não comiam carne, então o carnaval eram os últimos dias em que era permitido comer livremente a carne dos animais, depois disso, pela noção de que Cristo era o cordeiro de Deus, não se podia fazer isso. Ao mesmo tempo, essa festa tem origem nas antigas festas romanas como as saturnais e as bacanais, festas estas, que lembravam deuses como Baco, o Deus do vinho e portanto do inebriar-se, portanto você bebia o vinho e esquecia suas reponsabilidades e as consequências dos seus atos podendo agir livremente. A palavra em português bacanal tem origem nessas festas ao deus Baco.
Nós escolhemos ficar distantes deste tipo de viver. Ele tem a característica do esquecimento da realidade e o mergulho no mundo da ilusão. Usa-se fantasia, a música é para inebriar, a bebida é para entontecer e as consequências não existem. Aqui estamos no mundo do Dharma, nós escolhemos. Temos o céu, as árvores, o som do riacho, mas nossa escolha é nos tornarmos profundamente conscientes desse momento, completamente presentes e trazermos sempre nossa mente de volta para o aqui e o agora, inteiramente.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Não existe efeito sem causa
Pergunta – Se o “eu” de fato não existe e a gente deve buscar eliminar o sofrimento, por que toda essa prática e não, simplesmente, acabar com a vida?
Monge Genshô – Acabar com a vida não resolve nenhum problema. O seu “eu” é provocado pelo carma, uma onda de energia no universo. Você surge porque existe carma atrás de você. Por isso essa manifestação, “você”. Não existiria você se não houvesse carma anterior, se não houvesse movimento anterior no universo. Houve movimento e esse movimento redunda em você, pois não existe efeito sem causa. Se você se mata nesta condição em que está agora, tudo o que vai conseguir é uma nova manifestação, com os mesmos problemas e alguns anexados, porque você cumpre um ato bastante egoísta se matando, pois seus pais, amigos, parentes serão impactados pelo seu ato e sofrerão. Além disso, tal atitude não soluciona nada; você só consegue repetir tudo. Existe a possibilidade do suicídio altruísta, para salvar outros por exemplo em situações limite, mas não é o caso que estamos examinando.
Existe um filme bem interessante, "O feitiço do tempo". O personagem central se vê preso ao mesmo dia, que se repete incessantemente. Todos os dias ele acorda e vive o mesmo dia com os mesmos acontecimentos, porém, só ele sabe disso. Depois de alguns dias, cansado, ele resolve se matar, e todas as vezes que ele se mata acorda novamente no mesmo dia. É um filme bem interessante que reflete a experiência humana. Nós repetimos vidas. A cada vida, há um novo “eu”. O pior de tudo, é que ninguém se lembra de suas vidas passadas. É como alguém que corta um dedo quando criança: apesar de ter feito isso de forma ignorante e inocente, a conseqüência fica com ele. Você não tem o dedo quando adulto porque uma vez, na infância, mesmo que sem querer, mesmo que não se lembre de como aconteceu, você cortou o dedo. O quer que você faça, o carma gerado gravará e manifestará em novas vidas, mesmo que você não lembre o porque de seus méritos ou deméritos.
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
Carma e nascimento
P: E se quando morressemos tudo se extinguisse e nada restasse para uma nova manifestação cármica?
R: Se assim fosse teríamos que admitir a aniquilação completa de tudo que imprimimos no mundo e em nossas consciências, o término completo de tudo, um nihil perfeito de tudo que imprimimos à mente, nossos impulsos etc.. e isso não parece mais absurdo do que admitir que toda ação tem consequência? Que qualquer onda que faças na superfície do mar, atirando uma pedra, modifica a configuração das ondas para toda a eternidade? É só olhar em volta, não há ação sem consequências....e estas são o fruto do carma. E isto é a continuidade que nos faz ser diferentes um do outro. Dizer que nada passa, de uma vida a outra, é nihilismo, dizer que tudo permanece sempre igual é eternalismo, estes os dois extremos que o budismo nega. Nem tudo desaparece sem deixar nenhuma marca nem consequência, nem tudo fica sempre igual, se repetindo sem parar nunca, sempre estável. Nascemos com marcas cármicas, de vidas pregressas, não somos o mesmo eu porque este é construído a cada momento, mas somos essencialmente a mesma criatura de desejos e apegos que nos antecedeu, ou mudamos nossas marcas cármicas ou repetiremos em linhas gerais a vida anterior.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Tudo tem uma causa? Merecemos o que sucede?
(Foto de Michel Cunha, retiro em Florianópolis)
A meditação é uma poderosa maneira de alterar o carma.
R: É simples, “mérito” é resultado cármico, para o bem e para o mal, tudo é consequência, mas também pode ser alterado, embora isto exija esforço, a medida que você cria uma nova mente através da prática o seu carma se altera e você naturalmente procurará coisas melhores. E melhores coisas acontecerão a você.
Se você está procurando o Dharma é porque tem impulso para tanto, de onde vem este impulso? De mérito, de interesse cármico por já haver acumulado tendências deste tipo em existências passadas. Qualquer coisa que você veja é um resultado de uma causa, mesmo as injustiças. Por isto falamos em mérito ( que vem de merecer) merecemos o que nos acontece pois acumulamos carma que leva a isto, inclusive o carma de ser humano e viver neste tipo de mundo e país, e família, etc... Você não lembra mas o mérito está aí. Desta forma você não precisa acreditar em carma, apenas precisa se dar conta que é lógico que tudo, tudo mesmo, tem uma causa, que nada acontece de graça.
Rev. Genshô
quarta-feira, 11 de julho de 2007
Carma e causalidade são a mesma coisa?
Não exatamente, a lei da causalidade aplica-se a tudo que sucede, é expressa na segunda Nobre Verdade, tudo tem causa. Carma é um conceito que se aplica a uma ação que tem intenção, um EU por trás dela.
O carma do qual está livre o homem iluminado é o da geração de um carma próprio, que se aplica a ele mesmo, e seria sem sentido dizer que suas ações não geram carma vipaka , ou seja frutos cármicos no mundo, seria como se ele atirasse uma pedra na água e esta não gerasse mais ondas, o que é absurdo.
Em vários textos zen está expresso que o motivo é que não tendo um eu não há como haver uma geração de um carma próprio. Algo a que este possa aderir. Mas isto não significa que as ações de um iluminado não geram causalidade, consequências.
Vê-se curiosamente que o hábito de usar a palavra carma para todos os sentidos, tais como fruto (vipaka) ação (carma) e mesmo causalidade, vem já de muito tempo e causa confusões.
O carma do qual está livre o homem iluminado é o da geração de um carma próprio, que se aplica a ele mesmo, e seria sem sentido dizer que suas ações não geram carma vipaka , ou seja frutos cármicos no mundo, seria como se ele atirasse uma pedra na água e esta não gerasse mais ondas, o que é absurdo.
Em vários textos zen está expresso que o motivo é que não tendo um eu não há como haver uma geração de um carma próprio. Algo a que este possa aderir. Mas isto não significa que as ações de um iluminado não geram causalidade, consequências.
Vê-se curiosamente que o hábito de usar a palavra carma para todos os sentidos, tais como fruto (vipaka) ação (carma) e mesmo causalidade, vem já de muito tempo e causa confusões.
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