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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Todo o passado está registrado



(Continuação) Algumas pessoas dizem: mas eu amo meus filhos, minha família, e outras pessoas. Se eu morrer isso desaparece? E a resposta é: nada está perdido. Esse conceito foi construído no budismo há muito tempo e tem um nome chama-se alaya vijnana, o depósito de consciência universal. Alaya é o mesmo da palavra Himalaya, hima é neve, então Himalaya significa depósito de neve. Vijnana é consciência. Então alaya vijnana é o depósito de consciência universal e tem tudo o que aconteceu conosco em todas as nossas vidas. Quando alguém pergunta: como Buda pôde lembrar de 500 vidas quando se iluminou? Não é que ele lembrou 500 vidas, é que ele acessou alaya vijnana. Quando você acessa o depósito de consciência universal pode ver para o passado. Não é “eu lembrei”, mas “tudo já está em alaya vijnana”, o passado todo está registrado. (Continua)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sementes Cármicas




Aluno – A construção do ego está relacionada aos agregados, mas também ao carma que recebeu das vidas anteriores. Os elemento, raiva, orgulho, esses elementos contribuem na formação do ego?

Monge Genshô – O ego, se você só acredita nele,  é uma ilusão. Na sua mente, você vai alimentando sementes cármicas. Se você tem raiva, fica uma semente dentro de você. Você tem raiva de alguém e quando esse alguém aparece você não consegue olhar para ele direito, e se você abrir a boca você vai acabar dizendo alguma coisa venenosa. Então, a semente terá tido terreno e água para germinar. As sementes do carma amadurecem, podem não amadurecer nessa vida, pode ser na próxima, pode não dar tempo, mas o universo não esquece nada, tudo está sempre guardado. É como a energia. A lei da conservação da energia, nenhuma energia se perde, ela vai se dissipando, mas a quantidade de energia no universo é estável, ela pode mudar de forma, a energia pode ser matéria, pode ser outra coisa, mas ela é estável, e tudo o que aconteceu no passado deixa marcas, e nós podemos olhar e ver o passado através das marcas que eles deixaram, nós podemos ver a radiação de fundo do universo, que é o eco do big bang de 14 bilhões de anos atrás, está lá, tudo que nós fazemos deixa marcas, o universo não esquece nada.

Nós não podemos pensar que algo será esquecido, nada será esquecido. Nós deixamos marcas em nós mesmos, e essas marcas continuam. Por isso aquela frase “o tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde”. Nós temos a oportunidade da vida agora, não podemos desperdiçar. No caso do casamento, cada momento não será esquecido, será lembrado, então temos que tomar cuidado a cada momento, de cada palavra que a gente diz, de cada pensamento que a gente tem, porque todos eles são sementes cármicas que vão frutificar. Aquilo que nós pensamos, um dia vai sair da nossa boca. As pessoas só dão aquilo que está transbordando. As pessoas só podem dar aquilo que lhes transborda. Isto não deve ser confundido com evitar se mostrar indignação com atos errados para que as pessoas tenham chance de um dia se corrigir, a simples admissão aí sim seria um erro sério, este tema é relevante na política e nas relações pessoais, na educação dos filhos etc... Por isto as referências ao "ensinamento irado" nos textos budistas, onde a severidade dos mestres é constantemente lembrada.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A Interdependência



Aluno: Os conceitos de vazio e o conceito de interdependência eles têm relação (são a mesma coisa)?

Monge Genshô: Não. (Não são a mesma coisa) O conceito de vazio está muito ligado a “anatta”, a negação de um eu. O conceito de interdependência, interconexão, está ligado exatamente ao fato de que nenhuma coisa é independente, todas são ligadas, dependentes. Nada existe isolado. Essa coisa existe porque aquela existe, porque aquela existe. Nós somos seres constituídos de átomos muito antigos, átomos de ferro que andam no nosso sangue, que enferrujam no pulmão, e levam oxigênio para as células e trazem dióxido de carbono, etc e tal. Esses átomos são velhíssimos, muito, muito velhos. Eles são anteriores à existência da Terra.

Nós somos dependentes desse universo. Completamente. Nosso funcionamento, como vida na Terra, é dependente das plantas, dos outros animais, uma coisa está amarrada na outra, e se não fosse uma, a outra não sobreviveria. A Terra parece, na verdade, um acidentalismo cósmico raríssimo. Ela parece isso, parece uma coisa muito rara, nós olhamos em volta e não vemos nenhum lugar onde a vida possa se tornar complexa. Embora nós tenhamos a esperança de encontrar vidas em outros planetas, provavelmente será vida primitiva. Vida sofisticada parece tão rara no universo e tão afastada de nós, que é difícil de encontrar.

Isto o budismo sempre disse, que a oportunidade de nascer como ser humano é raríssima. Se nós olharmos a quantidade de espécies que já surgiram na Terra, há uma estimativa de mais ou menos 30 bilhões de espécies diferentes. Algumas são muito mais abundantes que a nossa, pra cada um de nós, tem um milhão e meio de formigas por exemplo. Mas desses 30 bilhões de espécies diferentes, cada espécie de formiga é uma espécie, e os homens só têm uma espécie que sobreviveu, então, de 30 bilhões só há uma que chegou a esse ponto de se reunir, sentar e perguntar: “Quem eu sou? Sou eterno ou não? Como é que é o fim das coisas?”. Só essa espécie desenvolveu essa angústia existencial, só essa conseguiu olhar para si e dizer isso.

Seria muito interessante encontrar outros. Mesmo sendo a Terra pequena, em geral, as pessoas não sabem nada do budismo. O budismo parece uma coisa muito estranha e completamente fora da vertente das religiões, porque ele diz o contrário, ao invés dele dar apoio, porque as pessoas vêm procurar apoio nas religiões, o que o budismo, especialmente o Zen faz? Tira, tira o apoio. “Ai eu queria tanto continuar, queria tanto que você me dissesse que eu vou continuar”. E ai você vêm e diz: “Mas por que você acha que vai continuar se você não sobrevive nem mesmo a uma doença?”. Só pode continuar alguma outra coisa, seus impulsos e seus atos,  mas SE continuarmos, você vai se manifestar de novo como criança e vai dizer assim: “Quem eu sou?”, e sua mãe vai dizer: “Você é Sofia”, e você: “Ah, sou Sofia, meu nome é Sofia”. Qual é seu nome? “Sofia”. Agora você vai ser Sofia, mas antes disso estava completamente esquecida.

Você se lembra da sua vida anterior? Há algumas especulações sobre o fato de que crianças pequenas (tem um livro especulativo, embora seja ligado a pessoas da medicina) têm memórias. Então listam 60 casos de crianças narrando histórias: “na minha vida pregressa eu estava em tal lugar, era assim”. Vão a tais lugares e elas descrevem esses lugares, ou até localizam pessoas que conheceram, etc. Mas, mesmo com esse tipo de relato nós não temos uma evidência concreta para verificar. Eu “tendo” a achar que faz sentido. Pelo menos dentro do budismo faz sentido. Mas com certeza, aos quatro anos, o cérebro sofre uma espécie de reprogramação, onde a memória dos quatro primeiros anos é apagada e começa de novo. Parece que todos passam por isso. Em todo caso, eu não conheço pessoas adultas que relatam sua vida anterior com alguns laivos de verossimilhança. Normalmente encontramos pessoas que dizem que fizeram regressão ou hipnose e era “Cleópatra”. Já devo ter conhecido umas quatro ou cinco. Eu contei para vocês, esses dias um rapaz escreveu dizendo que ele era o “Rei Ricardo, Coração de Leão”. É bastante interessante, eu estou aguardando um que vai me escrever dizendo que era uma criminoso sem vergonha, fui executado, torturado. Sempre eram reis ou rainhas.

Por outro lado, apesar de conceitos separados, interdependência e vacuidade tem entre si o fato de que os fenômenos não existem por si mesmos, dependem um do outro, não são isolados como disse há pouco, desta forma podemos dizer que é condição da vacuidade de um eu o fato de que todas as coisas são ligadas entre si, respondo "não" para que não se pense que estes conceitos são uma mesma é única coisa.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Retornando e repetindo




 (perguntas e respostas gravadas da palestra de Brasília, gravada e decupada por Sodô San, Pierre San e Rachel San)
Aluno: Quando saio da roda do samsara, o que acontece?

Monge Genshô: Se você se transformar em Buda, qual é a característica de um Buda? Buda esgotou seu carma a um ponto tal que não existe energia para se manifestar de novo. Isso que é Buda. Buda esgotou sua energia, não está aprisionado a repetir sua vida. Ele (aluno) está aprisionado a repetir. Já está repetindo a vida passada, talvez repita o mesmo na vida futura, a menos que elimine todo o seu carma e torne-se um Buda. É uma condenação voltar para cá sempre. Do ponto de vista budista estar aqui é um aprisionamento e não uma felicidade.

Aluno: E recomeça como um papel branco? Sem nada?

Monge Genshô: Não. Ninguém começa do nada. O que existe é carma. Carma manifesta identidades. Porque existe carma, você manifesta uma consciência que se manifesta. Por isso você está aqui, pois existe carma pregresso para que exista. Existe continuidade pois existe carma. Essa onda manifesta uma identidade. Você é uma onda na superfície do universo agora, um fenômeno. Se continuar com o carma que você tem, irá manifestar uma onda idêntica porque ela simplesmente continua. Libertar-se é não ser obrigado a se manifestar.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sim, há hierarquia de valor entre os seres



Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior,  para a pessoa mais esclarecida?

Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências.

Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um assaltante. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe uma relação de grandes crimes que causam grande marca cármica, matar o pai, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sabedoria é melhor que crença.


Pergunta – Quando estamos sentados meditando e acontece, como o senhor falou, um sonho, isso seria um estado de transe?

Monge Genshô – Não, é dormir mesmo.

Pergunta – Mas pode?


Monge Genshô – Não, não é para dormir quando se medita. Mas naquela ocasião estávamos vinte e quatro horas sem dormir, sentando em zazen e levantando para meditação andando e isto ocorre naturalmente.

Pergunta – O Budismo acredita em espíritos?

Monge Genshô – O Zen Budismo não é a religião do acreditar.

Pergunta – Mas acredita em vidas passadas.

Monge Genshô – Mas não do mesmo eu. O Zen Budismo não é a religião do acreditar. É a religião do despertar das ilusões. Você não é obrigado a acreditar em nada, nem no que eu digo. Você pode, através do treinamento da meditação, testar se o que eu digo serve ou não para você. Através deste treinamento você pode adquirir sabedoria e isso é muito melhor que qualquer tipo de fé.  O que desejamos no Zen é saber.

Pergunta – Minha pergunta é em razão do carma...

Monge Genshô – Carma é ação e consequência, tudo que você faz tem uma consequência. Isso afeta não somente essa como quaisquer vidas que venham depois. Essas vidas que vêm depois não serão você, pois não existem almas ou espíritos. Muito menos “eus” permanentes, aliás, nada existe de permanente.  ( Final das perguntas em palestra em 2013, Florianópolis, decupada por Chudô San)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O que você acredita não tem importância



Pergunta: O que fez com que o Buda visse as 500 vidas anteriores dele? O que determina isso? Há um princípio para isso?

Monge Genshô – Este assunto não interessa. O budismo não discute coisas não verificáveis. Você pode perguntar “como começou o mundo?”. Ah, não interessa. Têm várias teorias científicas para isso. Como começou o primeiro carma? Não sei. Eu sei que há carma aqui e agora, porque todas as ações tem efeitos e consequências. E é sobre isso que o budismo fala. Ele não faz especulações filosóficas que não temos capacidade de responder. Desta forma o budismo vem evitando todos os conflitos com a ciência que todas as outras religiões já tiveram. Porque o budismo não é religião de explicação, isso aí é para a ciência. O budismo é a religião do despertar, cujo interesse é saber como funciona o processo de ilusões na mente, como elas são construídas. Ah, se existe um impulso, uma consciência que resiste à morte e renasce em outro corpo. Sim, me parece bastante plausível. Mas está claro que ela não carrega um “eu”, não carrega uma personalidade. Se carregasse um “eu”, eu me lembraria de uma vida passada, e o meu eu seria o agregado das memórias da vida passada também. Mas eu não tenho memória de uma vida passada, só tenho desta. Portanto, todos os “eus” surgem agora e cessam agora. Se há continuidade, me parece evidente por uma questão de justiça. Se existe continuidade do carma, então existe continuidade de tudo o que você fez. E se eu tivesse um acesso de sabedoria superior, eu poderia rememorar vidas passadas. Mas isso é inútil aqui e agora! Completamente inútil para você. Primeiro você precisa despertar, e talvez aí isso seja útil.
Então, o budismo considera a continuidade desde impulso que irá se manifestar em novas existências, mas não ficamos discutindo isso. Até para vir se sentar e fazer meditação, isso não importa. O que você acredita não tem muita importância.

(Final das perguntas e respostas na palestra no centro de yoga em Palmas, Tocantins, decupada da gravação por Sonielson San)

terça-feira, 3 de junho de 2014

Repetições sem fim



 (continuação da palestra)
Nós temos que substituir as crenças por experiências. Então o budismo é experiencial. Por isso o Zen faz o que nós vamos fazer amanhã, primeiro você senta nesta almofada de frente para a parede e descobre QUEM é você. Descubra o fundamento da sua existência. Onde você estava antes dos seus pais terem nascido? Quem eu sou realmente, além desse nome e forma? Quem eu sou além de Joana, Pedro, Jairo? Quem eu sou? Se eu puder saber quem eu sou, então posso engolir o universo. Mas enquanto eu estiver acreditando na minha individualidade, no meu “eu” como uma coisa sólida, eu estou muito perdido, porque eu tenho mais uma construção, mais uma ilusão, criada pelo funcionamento da minha mente. Eu “sou” aquilo que eu acredito, aquilo que meu pai me disse. Minha mãe me deu o nome de José, então sou José. Quem é você? José. Não, José é um rótulo. Eu quero saber quem é você, além desse nome. Eu sou isso que você está vendo, é verdade? E se eu retirar esse braço, será menos você, ou você continua aí? Não, eu continuo aí. Então você não é seu corpo, porque eu tirei o braço e você continua. Você nem diminuiu...quem é você fora do seu corpo, fora do seu nome, fora de tudo o que as pessoas acreditam que são? Eu sou advogado, doutor, operário, consultor, qualquer coisa, quem é você além dos atributos? Quem é você de verdade? Essa é a pergunta que tem que ser respondida.

À medida que nós vamos andando na vida nós vamos criando carma. Nós já somos produtos de carma, porque nós não estaríamos aqui se não houvesse um efeito anterior. Existe algum efeito sem causa? Não. Qualquer efeito que exista, tem uma causa. Se vocês estão sentados aqui, existe uma causa pregressa. Então, de onde veio essa personalidade, esse apego, esse desejo, essa tendência, essas coisas que vocês sentem desde a infância? Foram criadas aleatoriamente, ou por acaso são efeitos do passado? A lógica diz: são efeitos do passado. Então há continuidade nas existências. A essa continuidade na existência, vamos chamar CARMA.

A onda cármica, ela não carrega nome, identidade, não tem passaporte, não tem sobrenome, não sabe quem é, no entanto se manifesta aqui e nasce, e aí mamãe dá um nome, e você vai descobrindo aos poucos, olhando pra dentro de você, “eu sou assim, eu tenho tendência pra isso, eu tenho tendência para aquilo. Você é uma grande cozinheira, não é? Mas de onde veio este talento? Não foi sempre assim, desde pequena? De onde veio? Surgiu assim? E quando você senta uma criança talentosa num instrumento musical,  você olha o prodígio e diz: “Como pode? Como é possível isso?” Você acha que aconteceu ali como um milagre, ou que tem uma causa pregressa? Como Mozart podia compor musicas aos 5 anos de idade? Como? Então é evidente para nós que existe continuidade de manifestação cármica, e vocês são continuidade de carma muito velho, senão não seriam seres humanos, seriam seres mais primitivos.

Agora, vocês vão continuar repetindo sempre as mesmas experiências? Porque é isso que nós fazemos na vida. Nós repetimos experiências sem fim. As pessoas fazem uma coisa, depois repetem o mesmo erro de novo, depois de novo. É ou não é? Nós não somos assim, seres apaixonados? Nos apaixonamos  uma vez, aí acaba aquele amor e a gente sofre. Aí o que fazemos? Nos apaixonamos de novo.  O monge ouve muito essas coisas, porque senta alguém na frente e diz: “Estou sofrendo muito”... Às vezes o sofrimento é tão grande que eu choro junto. Porque eu sinto que dói, porque também já aconteceu comigo. Mas eu sei uma coisa com certeza: é só a gente esperar 2 anos. E a mesma pessoa vem e eu digo: “E aí, e aquele relacionamento?” E ela responde: “Ah, ainda bem que eu me livrei daquela coisa horrorosa, só foi problema aquilo para mim, mas agora estou com uma pessoa...” Até o próximo desastre. Porque nós somos assim, nós somos repetidores de experiências, porquê? Porque não mudamos o nosso carma, aí repetimos.
(continua)

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dor física



2) E com relação a dor física, doenças, onde se enquadraria dor física? No sofrimento talvez?

Monge Genshô – Não, esse não é um sofrimento mental. Esse é um sofrimento que surge da condição humana, da causalidade. Mas não necessariamente você tem uma culpa para surgir um sofrimento físico, o simples fato de sermos seres humanos fará com que tenhamos doenças, dor e desconforto. Isso faz parte do nosso carma de termos nascidos seres humanos. Algumas pessoas são mais felizes nesse aspecto, mesmo crianças que têm doenças dolorosas, quando olhamos não conseguimos ver nenhuma justificativa para isso. As pessoas que crêem em Deus se revoltam com Deus, questionando -“Mas por quê Deus faz isso?”. Se você imaginar que a criança surgiu agora e que não existe nenhum passado, você não encontrará explicações. Mas se olharmos todas as vidas como longas continuidades, todos teremos carma para muito sofrimento, pois atrás de nós há muitas vidas e com certeza muitas coisas erradas foram feitas.

Mas com relação à dor física, se você desenvolver uma mente altamente disciplinada, é possível diminuí-la consideravelmente. Ignorá-la a ponto de não sentí-la. Tornar-se um com a dor é um treinamento que pode ser feito no próprio zazen. Todos sentimos dor no zazen, é o momento de pensar: a dor existe, mas não é minha, é só uma dor. Já viram aquelas imagens de monges se auto imolando em posição de zazen? Na época da guerra do Vietnã, muitos monges atearam fogo em seus corpos para derrubar o governo que estava perseguindo o budismo. Algumas pessoas perguntam, em razão desses atos, se o budismo apóia o suicídio. Nesse caso não se trata de suicídio. Trata-se de um ato de sacrifício em nome de milhares de pessoas. É diferente. Quando estiverem fazendo zazen e sentirem dores, podem imaginar que é possível queimar seu corpo em zazen sem se mexer.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pensamento, palavra, ato


Pergunta – Isso significa que existe carma sem forma.

Monge Genshô – Existe o carma. Não importa se tem forma física ou não. Mesmo em seu mundo mental você cria carma quando pensa. Quando você alimenta um desejo, cria carma. Você não sofre com um desejo não realizado?

Pergunta – Mas aí tem forma, não é?

Monge Genshô – Sim, mas todo esse desejo está dentro de sua mente e não tem forma.

Pergunta – Não tem forma física.

Monge Genshô – Exato, não tem forma física, pois está dentro de sua mente, mas não cria sofrimento por não ser realizado? Quando você me diz que desejou uma coisa e não conseguiu e depois ficou pensando, isso é um desejo realizado que ocorre somente dentro de sua mente. Sua mente também produz carma e sofre as consequências. Não é tão agudo e concreto como quando falamos ou realizamos algo. Um ato realizado com o corpo é mais forte e pode ter consequências muito maiores. Uma coisa é você pensar em roubar algo, está somente dentro de sua mente, outra é dizer algo que pode desencadear uma sequência de acontecimentos, por exemplo, na passeata você grita: “Vamos quebrar!”, isso pode gerar grandes acontecimentos, porém, se você for o agente do ato, isso terá uma consequência física, mas todas são consequências cármicas em três níveis distintos.  Pensamento, palavra e ato. Não agir já é um grande feito, não falar melhor ainda, agora não pensar e não sentir, isso seria a perfeição.

Pergunta – Se não houver pensamento, em consequência não haverá carma ?

Monge Genshô – Sim, quando você morre leva consigo carma que é a forma de sua consciência mental. Esse quantum de energia que confundimos conosco mesmo e que se manifesta novamente em um novo corpo, não é você no sentido de um “eu”, mas é você em outro sentido. É e não é você mesmo. Não é o mesmo “eu”, mas é você no sentido de ter suas características.

Pergunta – Nesse caso seria sem forma?

Monge Genshô – Naquele momento é sem forma, mas tem tanta energia que se manifesta como forma. Quando nasce uma criança a consciência adquire forma e começa a operar no mundo. Todos somos assim, já nascemos com determinado caráter, personalidade, desejos, todas essas inclinações trazemos das vidas passadas. 

Pergunta – A família em que nascemos também?

Monge Genshô – Tudo. Você nasceu nesse lugar e nessa família porque tinha carma para isso, sentiu-se atraído para se manifestar nesse lugar, não poderia ser em outro lugar.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Inocentes e carma


Pergunta – Mas, por exemplo, ela passa fome porque produziu karma para isso, é assim?

Monge Genshô – Sim. Tem karma para nascer num mundo onde há fome. Assim como você tem karma para nascer como ser humano e inevitavelmente morrer em no máximo noventa anos. Esse é seu karma. Não existem vitimas inocentes. Existiriam vítimas se houvesse um Deus criando um ser de cada vez, porque ele teria o poder de não deixar acontecer determinada situação. Mas como para o budismo tudo é continuidade, não existe nenhuma inocência. Mesmo que você esteja vendo uma criança que sofre, ela não é inocente se você olhar um milhão de vidas.

Pergunta – Como desenvolver a compaixão nessa situação?

Monge Genshô – Seres são inumeráveis, faço voto de liberta-los, todos. Todos os seres, mesmo não inocentes, sofrem e tem dor, você também não é inocente, nem eu. Desta forma eu posso saber como é a dor do outro e me compadecer porque sei que a dor dele é como a minha. É como o exemplo do pesadelo, uma pessoa que sofra com um pesadelo, realmente sofre. O que você faz quando vê alguém sofrendo com um pesadelo? O acorda. É exatamente isso que Buda tenta fazer com os homens, coloca sua mão no ombro de quem está tendo seu pesadelo de vida e diz, “acorde”. Ao despertar todo pesadelo desaparece, essa é a maneira de se livrar do sofrimento. Todos que sofrem são vitimas inocentes se você olhar apenas suas vidas agora, mas todos estão vivendo sonhos. Assim como não existe a vitima inocente, não existe algo chamado culpa. É algo muito extenso para que você diga “É culpado”, por isso não vale a pena cultivarmos culpas. Temos que tentar despertar e assim vermos a realidade como é. Todas as vidas tem envelhecimento, doença e morte desde a infância. Quando eu nasci já havia penicilina, foi minha sorte, pois tive difteria, se tivesse nascido dez anos antes teria morrido.   Se eu tivesse nascido dez anos antes você diria que eu era um vitima inocente da difteria? Não, eu teria karma para nascer numa época em que não havia cura. Apenas isso.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Conexões infinitas


Pergunta – Existe na visão do Zen uma conexão entre as pessoas, ou seja, em minha próxima vida estarei conectado com as mesmas pessoas?

Monge Genshô – Sim. No Budismo Tibetano há uma história interessante que diz que quando você bate de ombro com uma pessoa é porque você já a encontrou em quinhentas vidas. Cada coisa que acontece tem conexão, estamos aqui juntos e entre nós existe muita conexão e se você imaginar muitas vidas essas conexões podem ter sido repetidas muitas vezes. Às vezes não nos damos conta de nosso parentesco, por exemplo, todos temos dois pais, quatro avós e oito bisavós. Se chegarmos a dez gerações são mil e vinte quatro pessoas. Em mil e vinte quatro pessoas, comparando com outros mil e vinte e quatro dos teus antepassados, a probabilidade de encontrar parentes em comum é muito grande e quanto mais recuarmos, por exemplo, mil anos, veremos que nessa sala somos todos parentes.

Pergunta – Já que o senhor falou no Budismo Tibetano, os Lamas são reencarnações de antepassados, certo?

Monge Genshô – Não. São manifestações cármicas tomadas como continuidade de alguém.  A palavra reencarnação é mal usada, embora você até possa encontrá-la em livros budistas, mas ela significa que uma mesma partícula tomou um mesmo corpo. O Dalai Lama atual, o décimo quarto, é tomado como uma continuação do anterior, porém temos que entender como é o entendimento oriental a esse respeito. Se formos nos basear nesse exemplo cada papa seria a continuação de Pedro, embora pessoas completamente diferentes. O Dalai Lama atual tem uma personalidade totalmente diferente de alguns antecessores,  um anterior foi deposto porque era depravado. Desses quatorze, cinco foram assassinados, é uma história muito complexa  e você reconhecer a continuidade dos Dalai Lamas é um procedimento altamente esotérico e místico e tem sentido dentro das escolas tibetanas, coisa que não existe no Zen, por esta razão não podemos mais do que aceitar esta tradição maravilhosa.
Não é possível comparar uma situação com a outra, mas de qualquer forma Buda, que está na raiz do ensinamento do budismo, negou a existência de almas ou espíritos que vão mudando de corpo. Não usamos a palavra reencarnação, embora ela seja prática. É mais fácil explicar para uma pessoa que não seja budista que ela deve praticar bons atos para ela mesma ter uma vida melhor após a morte. Dar essa explicação de memória, de como o “eu” surge é muito complexo, embora faça mais sentido para nós. Buda negou a existência de deuses, espíritos e almas. As vezes as pessoas me escrevem pedindo orações para os filhos doentes com câncer, por exemplo. A resposta que eu gostaria de dar à elas é que quando os deuses trabalhavam sozinhos e as pessoas oravam para eles, morriam 100% das crianças com leucemia. Agora com quimioterapia salvam-se 85%, então se seu filho ou neto estiver com leucemia leve-o para o hospital. 

Pergunta – Mas então o que determinaria se uma criança morre ou não de câncer é muito mais uma questão do karma do que um progresso tecnológico?
Monge Genshô – Se você nasce um mundo onde exista progresso tecnológico é porque tem karma pra isso. Se você tivesse karma para nascer numa tribo da África e tivesse leucemia com certeza morreria. Você é nasceu num mundo civilizado, mas existem mais de um bilhão de pessoas que não saber ler e escrever. Ainda acontecem muitas coisas no mundo que são produto da ignorância e isso depende de karma. Em que família você irá nascer? Depende de seu karma. Para que mundo você se sentirá atraído? Depende de seu karma.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ainda não acabou?


Pergunta – Quando não observamos mais o início e o fim do ciclo, significa que não estamos mais gerando carma?

Monge Genshô – Não. Enquanto você estiver agindo no mundo vai gerar carma. Suas ações intencionais irão gerar carma.

Pergunta – Nesse caso ainda existe um “eu’.

Monge Genshô – Enquanto você vive no mundo precisa de um “eu”. Eu preciso do “eu” para conversar com vocês e operar no mundo. Porém ele tem a solidez de uma máscara, que usamos pra agir no mundo. O problema é a pessoa identificar-se com a máscara. Quando perguntado sobre quem nós somos, damos as respostas que correspondem com as nossas características e que correspondem na verdade com características da máscara. Nos confundimos com o rosto no espelho, com as roupas, hábitos e identidades sociais de médico, engenheiros etc. Conforme a pessoa vai pendurando coisas no cabide da máscara, vai acreditando ser realmente aquele ser. Mas não é, isso que ela pensa ser é tão sólido quanto uma máscara.

A pessoa que tem alzheimer, por exemplo, com o tempo se olha no espelho e não mais se identifica. Mas onde está o “eu” então? O “eu” vai se dissolvendo quando as características e memórias que você identifica como sendo o “eu” começam a ficar enfraquecidas quando não lembradas. O monge deve ter sempre a morte frente à seus olhos e isso acontece também no catolicismo. Estive uma vez num mosteiro beneditino e na capela andávamos em um corredor sobre as lápides dos monges que já haviam morrido. Temos que nos olhar no espelho e apreciar o trabalho da morte em nossa face, o envelhecimento. Isso dá muito sentido à vida, embora algumas pessoas possam pensar que isso seja horrível.

Se é assim, cada dia é precioso e como você irá viver esse dia de hoje? Se por acaso você descobrisse que teria apenas noventa dias de vida, como viveria o dia de hoje? Isso daria sentido à sua vida. O que é importante? Alguém chega até você querendo discutir sobre cinquenta centímetros de terreno que ele julga ser dele, o que você faz? Pode ficar, você pensa, estou morrendo em noventa dias. É comum em algumas iniciações a pessoa escrever seu testamento. Agora, neste momento, o que você vai deixar? Isso é muito importante, saber como viver tem a ver com olhar a finitude. Você poderá rir, pois as coisas que parecem importantes para os outros, para você não é mais. Tive um amigo que foi um dos meus primeiros professores budistas que teve um infarto e sabia que em breve morreria. O que ele fez? Começou a escrever poemas e dava para as pessoas que encontrava na rua. Ele estava se despedindo.

Certo dia estávamos conversando sobre logo depois do infarto e ele disse que quando acordou no hospital pensou: “Ué, ainda não acabou?!”, perguntei então sobre como ele se sentia e ele disse: “Sem nenhuma ilusão”. Isso é maravilhoso. Os mestres sempre dizem, “aproveitem suas vidas”.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Anatman


Pergunta – O mundo sem forma é uma manifestação de pura consciência. Mas o Budismo sendo anatman, qual seria a diferença entre atman e a consciência?

Monge Genshô – A diferença é a noção de um “eu”. Para o Budismo a vida é uma sucessão de momentos de consciência. Não existe um ser que carrega uma consciência continua, é como num filme, você tem um quadro que é um momento, outro quadro que é outro momento e assim sucessivamente num total de vinte e quatro quadros por segundo no cinema e vinte e cinco na televisão. Essa sucessão de quadros, um após o outro, faz com que tenhamos a sensação de continuidade, não parece que temos um quadro após o outro e sim que há movimento ou continuidade.

Isso que tomamos como nossa consciência não passa de uma sucessão de consciências uma após a outra, mas não percebemos a descontinuidade disso. Estamos presos na ilusão de sucessões de momentos de consciência. A memória é que nos informa sobre os momentos de consciência e estrutura nosso “eu” e então pensamos “eu sou”.

Evidentemente se o carma prossegue e se manifesta numa outra vida, existe uma coesão que une um carma e a isso às vezes chamamos “consciência” no Budismo, mas não é a consciência de um “eu”.

Existe um quantum que irá se manifestar, uma coesão, mas você não pode dizer “sou eu”. É você, mas não é você. O “eu” não está ali e, apesar de existir algo que continua, esse não é um “eu”, pois um “eu” não pode continuar. Isso é o que significa “anatman”, não há uma partícula eterna que carrega outras coisas. É o próprio movimento que faz os acontecimentos, é o carma se movimentando que gera uma manifestação que diz “eu sou”, isso é “anatman”, não eu.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Era você mas não era você



Pergunta – O que seria esse tempo perdido, o que significa?

Monge Genshô – Significa que você tem uma vida curta para toda sabedoria que deveria tentar alcançar. Não é como fazer um curso e receber um diploma. Você irá precisar de muitas vidas e tem o agravante de que a cada vida você esquece a passada, inicia do zero, só carrega seus impulsos, tendências, paixões e apegos. Você é responsável pelas coisas pelas quais se sente atraído, pois construiu uma mente assim. Todos aqui já fizeram grandes coisas em vidas passadas, senão não se sentiriam atraídos para sentarem-se para meditar e para ouvir palestra do Dharma, criaram mérito para isso.

Pergunta – Quando o senhor fala em carma isso significa que é de outras vidas ou pode haver um carma desta mesma vida?

Monge Genshô – Sim, de outras vidas, mas não era você. Porém nesta vida você também está gerando carma continuamente.

Pergunta – Eram meus avós, meus ancestrais?

Monge Genshô – Não. Era uma vida passada sua, mas não era você. Esse seu “eu” é construção do agora, desta vida. Você é como falei antes, uma herdeira de carma, mas não de seus ancestrais e sim de você mesma, só que não era você mesma. Confuso? O “eu” é que é uma ilusão, não o carma.