Mostrando postagens com marcador fácil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fácil. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de março de 2015

Não existe caminho fácil para o despertar



Aluno – Tendo como referência a abundância derivada da técnica, aquilo parece satisfazer, mas a busca em muitos campos religiosos  tem uma ilusão ali, as divindades, as trocas e benefícios, através de rituais, e o próprio discurso é uma forma de delusão.

Monge Genshô – Eu concordo. Do ponto de vista material nós nunca tivemos um mundo tão abundante realmente, nunca produzimos tanto, nunca fomos tão capazes de produzir tanto tão barato. Muitos não chegam a perceber a revolução que foi isso. Há 300 anos uma roupa era coisa pra se deixar num testamento de herança, porque roupa custava muito caro, a roupa era tecida a mão.  À medida que inventamos a imprensa, conseguimos fazer livros rapidamente e os preços dos livros caíram gigantescamente. À medida que fizemos os teares mecânicos caíram imensamente os preços das roupas, então as pessoas agora tem roupa para vestir, facilmente e por preço muito baixo. Então o que nós vemos na história é a queda incrivelmente grande do preço das coisas, e isso significou abundância, essa abundância que nós temos hoje. Qualquer pessoa aqui nessa sala vive melhor do que um rei. Basta chegar nos castelos dos reis na Europa para ver que o simples fato de ter um banheiro com um chuveiro dentro de casa é um luxo que um rei não tinha.

 Do ponto de vista espiritual os homens se acostumaram a fazer o seguinte: a transformar os benefícios espirituais num comércio também.  Então, os homens tendem a fazer esse tipo de coisa. A grande decadência que pode acontecer no zen, ou que acontece em certos lugares, é quando o zazen é abandonado, porque o zazen é difícil e trabalhoso. Enquanto mantivermos o zazen como centro da nossa prática, aí a nossa prática tem chance, ainda está viva. Quando ela for abandonada em benefício de cerimônia ou de qualquer coisa fácil, então realmente se instaurou uma decadência final da prática espiritual. E isso é a realidade que ameaça o zen, por exemplo. Qualquer dia vai chegar alguém com uma 'pílula da iluminação', você toma e está iluminado, não precisa mais sentar em zazen, não precisa mais sentar 10 anos em zazen, você toma a pílula. Quando nós tivermos esse tipo de proposta, que pode surgir facilmente (já foi prevista por exemplo por Aldous Huxley), você toma a pílula e obtém o satori.

Então, o homem tende a procurar o que seja muito fácil, mas não existe caminho fácil para o despertar. Todo o caminho fácil que surgir vai ser uma mentira. No zen também se instaurou fortemente uma corrente de que a prática em si é a iluminação. Você senta em zazen e isso já é a própria iluminação. Isso é torcer um ensinamento de Dogen. O que ele tentou dizer é: a prática é a iluminação no sentido de 'não busque, simplesmente pratique', 'não ambicione' a iluminação, o despertar, simplesmente pratique. Era isso o que ele estava tentando dizer. Ele não estava tentando dizer que não existe a iluminação, e que apenas praticar já é a iluminação.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Quem é este que não é mais enganado pelo eu?


P: O senhor acredita que tenha essa habilidade de chegar ao Satori?

Monge Genshô – A resposta padrão é negar de plano, pois quem é este que teria deixado de se enganar pelo seu eu? Mas mostrando outro ponto: só meu mestre pode lhe responder a essa pergunta. É uma pergunta injusta. Se eu respondo que sim é uma resposta duvidosa, pois não há como você verificar. Qualquer pessoa poderia mentir e se você não tem a capacidade de verificar poderá acreditar, e a resposta verdadeira da de um impostor é indestinguível. Se você acredita que tenha tido um insight, deve ir até o professor e contar sua experiência e perguntar se é uma experiência legítima ou uma ilusão. Só ele pode lhe responder, pois somente quem teve uma experiência pode verificar a autenticidade de uma experiência alheia.

P: Na história das culturas temos uma série de relatos de utilização de substâncias psicoativas dentro de rituais religiosos, podemos dizer que também sejam métodos para atingir um kenshô?

Monge Genshô - Essa pergunta é bem complexa. Aldous Huxley escreveu um livro chamado “As Portas da Percepção”, onde ele relatava suas experiências com esse tipo de substâncias. Para o Budismo, há dois mil e seiscentos anos, a resposta é que não existe nenhum caminho fácil para o esclarecimento. A única virtude dessas experiências é colocar na mente das pessoas uma dúvida: existem coisas diferentes na mente. O problema é que estas experiências são falsas e não permitem um “Satori”, pois você jamais poderá controlar, será sempre dependente de uma substância para obter uma sensação. A grande virtude foi quebrar a crença de uma mente completamente racional.

A resposta do Budismo é taxativa: nenhuma substância que altere a consciência deverá ser usada por um praticante Budista. Deixando as coisas bem claras: se um aluno desejar fazer experiências deste tipo, por favor, deixe a nossa Sangha, pois não o quero como meu aluno. Ele deseja o caminho mais fácil.

Uma vez um de meus filhos resolveu pintar o cabelo de azul, então eu lhe disse que era um tolo e estava envergonhando a família. “Você está tentando chamar a atenção de uma maneira muito fácil, mas se você quiser meu respeito e chamar minha atenção de uma forma relevante, aprenda a tocar piano”. Para tocar piano bem, são só dez anos de esforço com oito ou dez horas por dia de estudo. Esse sim é um valor real que chama a atenção. As drogas são assim, um caminho fácil para uma experiência psíquica que você não domina, que não tem um valor intrínseco e que só serve para mostrar que é possível distorcer a percepção. Você não é dono da experiência. Eu nunca vi um drogado iluminado, muito pelo contrário, só vejo drogados mergulhados em mundos infernais. Na minha opinião, Buda tinha razão em proibir enfaticamente esse tipo de experiências. Temos uma excelente experiência para mudar a mente - sentar na almofada. Sente na almofada por dez mil horas e poderá ganhar o mesmo domínio que o pianista tem sobre o teclado.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Não há caminho fácil para o despertar


Pergunta: Eu poderia complementar o que senhor falou sobre os alucinógenos? Eu imaginei que se soubéssemos o que acontece no cérebro no momento que se atinge a iluminação, em tese, poderíamos gerar a iluminação artificialmente. Mas também se é uma questão de consciência, no sentido de estar separado do cérebro, talvez não seja assim...estou tentando complementar a pergunta.

Monge Genshô – Não sei. Pode ser que no futuro tenhamos uma espécie de pílula, aqui está Satori B, não precisa de sesshin. Não tenho a menor idéia a respeito, acredito que agora temos um método; se podem surgir outros métodos, é uma discussão futura. Pode ser que sim, desde que seja possível anular toda a ilusão e partir para uma enorme clareza de consciência, através um estímulo elétrico, mas a grande questão é: você será proprietário dessa experiência? As drogas que existem hoje, como por exemplo o crack, provoca durante alguns segundos, um derrame enorme de dopamina no cérebro gerando uma sensação de felicidade e bem estar inigualáveis. Depois de experimentar essa sensação, a pessoa quer sempre voltar para lá, porque é muito poderoso. Se usarmos uma escala, comer provoca um derrame de dopamina equivalente a cinquenta. Sexo produz noventa. Não é de se admirar que as pessoas gostem de comer e fazer sexo. Mas o crack produz novecentos. Logo, a pessoa não come mais, não faz mais sexo, não trabalha, não faz mais nada, ela só fuma até morrer. Se fossemos capazes de, por meios artificiais provocar a sensação de iluminação, talvez tivéssemos um efeito completamente indesejado.

As histórias dos mestres e suas experiências de iluminação são muitas, como por exemplo, depois da primeira experiência, passar uma semana inteira rindo, sempre pulando de alegria. Ninguém que tenha essa experiência deseja retornar para a ilusão. Mas talvez essa experiência só seja válida através de grande esforço, pois quando ela é gratuita, acontecem os fenômenos que acontecem quando no uso de drogas. Não há como duvidar que os quinze segundos depois de fumar crack são maravilhosos, mas você nunca mais retornará aos primeiros quinze segundos, por que cada repetição da droga é apenas uma tentativa de voltar à primeira experiência, a intensidade da experiência cai à medida que o cérebro não consegue manter a quantidade de dopamina. O resultado é a destruição física. Pode ser que existam meios mais fáceis de se atingir o esclarecimento, o despertar, mas não conhecemos nada seguro. Tenho sérias dúvidas de que a experiência gratuita possa significar sabedoria.

Pergunta: Se não estou enganado, a Gnose tem uma droga que ajuda, ela na verdade não leva ao despertar, serviria mais para diminuir o controle exercido pela mente?

Monge Genshô – Desde as experiências de Aldous Huxley em seu livro “As Portas da Percepção” há quase cinquenta anos, especula-se que as drogas alucinógenas provocariam uma abertura da consciência. Mas tudo que nós vimos de lá para cá foi desastre. Fico então, com a regra de Buda, de dois mil e seiscentos anos atrás: os Monges devem assumir a regra de não usar nenhuma substância que altere a consciência. Buda, através da experiência pessoal, desencorajou inclusive o ascetismo radical, o jejum radical até prestes a morrer ou coisas que provoquem alterações físicas. Ele desencorajou tudo porque ele experimentou e concluiu que não levava ao esclarecimento, por isso sua proposta era de moderação, “madhyamika” - o caminho do meio. Ele não poderia ser mais taxativo ao dizer que de forma alguma, absolutamente nenhum meio artificial faz parte do caminho Budista. Saikawa Roshi me disse uma vez uma frase, “não há caminho fácil para a iluminação”. Ou seja, nem procure. Aqui na nossa Sangha, se alguém desejar um caminho como esse, deve se afastar. Porque não pertence ao caminho budista da nossa comunidade.