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sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Um ser iluminado pela música
Imperdível este curta premiado no Oscar de 2014, uma pessoa com uma visão iluminada da vida apesar das tragédias que viveu.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Pra quê o budismo foi criado? (Bodhidharma Parte II)
(continuação)
E depois que Bodhidharma foi para a caverna, muitos apareceram por lá querendo aprender
com aquele grande e famoso mestre que tinha respondido para o Imperador,
deixado-o confuso. E Bodhidharma não dá atenção a nenhum deles, e
eles quando vêem aquilo, vão embora. Até que Taiso Eka vai até lá e fica na
frente da caverna sem desistir durante 3 dias. No terceiro dia nevava muito, a neve
cobriu os pés de Eka, que fica desesperado, já com fome, sede, e agora frio
excruciante, e então ele corta o braço pra mostrar sua sinceridade, para jurar pelo seu
sangue.
Vendo seu sangue cair na neve, Bodhidharma vai até ele e pergunta:
- Muito
bem, o que é que você quer?
E Eka responde:
- A minha alma não tem paz, por favor,
pacifica a minha alma!
E Bodhidharma responde:
- Me mostre tua alma e eu a
pacificarei.
E Taiso Eka não consegue resposta nenhuma, não consegue encontrar sua
alma. E Bodhidharma diz:
- Pronto, já pacifiquei a tua alma.
Tendo passado por
toda aquela angústia, desespero, de ter chegado até lá, disposto a aprender com um
mestre, depois de tudo aquilo que Eka tinha passado, quando Bodhidharma dá essa
resposta, ele desperta das ilusões, descobre que ele não tem uma alma,
sente-se uno com todas as coisas, compreende internamente o que Bodhidharma estava querendo dizer.
E assim Eka fica como discípulo de Bodhidharma e ele é o 27º patriarca da
nossa linhagem. Bodhidharma é o 26º e Taiso Eka Daioshô, grande mestre, o 27º. E
nós descendemos dessa linhagem de ensinamento.
Então, o quero dizer a vocês é que o budismo foi criado para atender este tipo de desespero, o desespero
de Taiso Eka, "minha alma não tem paz". Isso sim, para isso o budismo voltou sua
atenção. Para isso Buda voltou a atenção porque ele tinha uma angústia, uma angústia existencial muito grande.
Se toda
vida termina em velhice, doença e morte, o que eu estou fazendo aqui? Como é
que eu saio disso? Como é que eu encontro solução para a angústia de enfrentar
essa finitude da vida humana? Essa angústia existencial é que é a angústia de
Buda, e o budismo se voltou para isso, não para o conforto das coisas pequenas da
vida.
Então o budismo e em especial o Zen só tem sentido se nós estamos
procurando a iluminação. Só aí tem sentido você sentar e realmente se esforçar
como a gente demanda num Centro Zen, caso contrário, não é o lugar para
nós. Se é só consolo, há outros lugares.
Se é para se sentir abençoado para ganhar
dinheiro, também tem outros lugares. Se quer qualquer solução mágica também há
outros lugares. Mas no budismo não existe nada assim.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Girando a Roda do Dharma
Pergunta – Como ter uma
compreensão clara de coisas boas, por exemplo, de compaixão e generosidade? O
Senhor estava falando que não existe um “eu” para sentir raiva, mas então quem
é o “eu”’ que realiza atos de compaixão e generosidade?
Monge Genshô – O Bodhisattva tem
compaixão, mas para ser totalmente iluminado não pode enxergar os outros seres.
Não pode haver eu aqui e você aí, de quem eu me compadeço. A visão de um “eu”
separado está dentro da segunda Roda do Dharma.
A primeira Roda é a da Virtude,
onde existem regras, não faça o mal, pratique o bem etc.
A segunda é a Roda da “Mente de Bodhichita” onde o ser tem compaixão, mas ainda
vê o outro.
Na terceira Roda existe a não dualidade, ou seja, entre mim e você não existe
diferença, a compaixão já não se aplica.
Sob o ponto de vista teórico, sua
pergunta faz muito sentido e deveria ser respondida no âmbito da não dualidade,
mas não conheço algum praticante budista que pratique perfeitamente a
compaixão, conheço muitos que tentam praticar a virtude, a palavra correta, a
mente correta e os pensamentos corretos. Pessoas que mesmo tentando se
comportar melhor, ainda têm uma profunda noção de si mesmos e têm pena dos
outros, o que é diferente de compaixão.
Compaixão é não dualidade, é você
realmente se colocar no lugar do outro, sentir a dor do outro, ser o outro, não
existem "os outros seres", você e o outro são a mesma coisa a ponto de você nem
sentir compaixão, pois não existem outros por quem se compadecer. É paradoxal
para uma mente não dual matar outros seres para comer seus pedaços, por
exemplo. Conheço apenas praticantes no estágio da virtude. Inclusive eu.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Bodhisattvas e a outra margem
Pergunta – Um monge é um bodhisattva?
Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge. O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e quarenta anos, os monges zen passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.
Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, uma pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o conhecimento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é quem faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.
Pergunta – E o bodhisattva, é?
Monge Genshô – O bodhisatva em uma tradução literal significa “ser iluminado (que gerou uma mente de compaixão)”. Satva significa ser, e bodhi iluminação ( decorrentemente compassivo). Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.
Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?
Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto houver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.
Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?
Monge Genshô – Um bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Você pensa por isso pensa que existe
Pergunta – O senhor pode falar mais um pouco sobre forma e vazio?
Monge Genshô – Forma é vazio e vazio é forma. Todas as coisas são vazias de um “eu”, não no sentido de não terem nada dentro, mas sim que não possuem um “eu” inerente. Todos somos vazios de um ”eu” inerente, mas nos manifestamos como pessoas. Toda a forma é vazia, mas se tirarmos a forma não sobra nenhum vazio, não existe algo que resta, pois a forma é vazio e vazio é forma.
Pergunta – Sobre o momento de estar presente. O pensamento sempre vem e nos leva junto. Depois de algum tempo é possível ficar presente sem ser levado pelos pensamentos? É possível segurar os pensamentos e não deixar que eles nos arrastem?
Monge Genshô – Porque você acha que é diferente de seu pensamento? Você e seu pensamento são uma única manifestação. Você só pensa que é você porque pensa. Você pensa por isso pensa que existe, Descartes estava enganado.
Pergunta – Então um peixe não sabe que existe?
Monge Genshô – Exatamente por isso, porque não sabe, é que ele está presente. Aquele que pensa que sabe não está presente, pois está pensando. “Os peixes são verdadeiramente peixes, pássaros são verdadeiramente pássaros, somente os homens não são verdadeiramente homens”.
Pergunta – É verdadeiro dizer que o Zen tem uma espécie de aversão à razão?
Monge Genshô – Pode, mas não significa que você esteja certo.
Pergunta – Uma vez que já somos e apenas não percebemos que somos, o despertar não é algo que tenha que ser atingido, mas sim realizado. Se já somos e já estamos onde deveríamos estar, não há nada a ser feito que demande tempo, pois o tempo e o espaço também são uma ilusão. Certo?
Monge Genshô – Já estamos, de certa maneira, despertos. Todos temos a condição de despertar. Podemos dizer que todos somos Budas e, apenas ainda não o somos completamente, porque ainda estamos vivendo num mundo de sonhos, um sonho muito nítido que nos ilude. A vida é um sonho nítido.
Pergunta – Se um peixe não sabe que existe e por isso é um desperto, ele se compara a um Buda? Existe uma semelhança?
Monge Genshô – Embora o peixe não esteja perdido, tem a obscuridade de um animal, lhe faltam sabedoria e clareza. O homem ganha o pensamento e o raciocínio e neles se perde. Perde a vida, o momento presente e tem medo da morte. Por isso não é um iluminado, mas quando um homem desperta, sua clareza ilumina o universo inteiro. Todo o universo que ele olha se ilumina junto.
Pergunta – Quando um animal se vê ameaçado, rapidamente foge. De certa maneira tem um medo instintivo que o alerta. Também possuímos esse medo, com a diferença que vivemos agarrados a ele. Um animal através desse sentimento, pode também ter um sentimento egóico, ou temos o mesmo sentimento deles, pois também possuímos um mundo animal dentro de nós?
Monge Genshô – Nós somos animais também, apenas gostamos de pensar que somos especiais. Não somos nada além de um primata que evoluiu um pouco mais e tem um cérebro melhor. Mas também porque pensamos, temos uma angústia existencial, pois descobrimos que vamos morrer. Essa é a essência da angústia humana. Foi esse questionamento que levou Buda a abandonar o palácio onde vivia e se perguntar - “Por que existe velhice, doença e morte”? Qual é o sentido da vida? Somos diferentes dos animais porque temos essa percepção do futuro que nos aguarda - velhice, doença e morte - e exatamente por isso sofremos. Por isso os homens criaram as religiões, pois querem escapar desta angústia, por isso procuram crenças. O Zen é a oportunidade de destruir as crenças, não existe no Zen qualquer tipo de dogma, é como disse Buda: “Não acreditem em mim, testem”.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Satori
(continuação)
E o que é satori? Satori é a possibilidade de andar assim quase todo o tempo, andar na iluminação por escolha. Se a situação está muito complicada, então eu posso simplesmente mudar meu modo de funcionamento para o “modo iluminado”. Se eu posso mudar para o modo iluminado, eu posso até morrer, sem problemas, não é? Porque a própria morte está sendo vista sob uma outra perspectiva, que é o que acontece com o monge que queima numa fogueira sem manifestar nada. Não é que a dor não exista, o sofrimento não exista, não é que a morte não exista. Existe, mas a morte não é o que é para todos os “eus”, porque ele sente que morte e nascimento são apenas eventos de uma onda cármica pois, na realidade, você é eterno por natureza, não é este evento de agora. Este evento de agora é o evento do seu “eu”, e este evento do seu eu, deste momento, é importante para quem vive no sonho, para quem sai do sonho, não é, porque o sonho é todo construído. Essa é a essência do que nós estamos fazendo.
E eu acho importante nós desmistificarmos o que é iluminação, porque a iluminação está disponível agora. Se não estivesse disponível, fazer sesshin seria um sacrifício inútil. Ela está disponível. Você, em algum momento, percebe que as circunstâncias daquele instante são tão maravilhosas, tão tranquilas, tão calmamente felizes que você gostaria que aquele momento durasse para sempre. Você poderia viver sempre assim, você não queria que acabasse. Essa é uma experiência iluminada. Você só precisa trazer isso para sua vida, de verdade. Aí tudo está certo. É para isso que nós praticamos, não é para mais nada, pois então praticamente todas as perguntas estarão respondidas, se você tem esse tipo de experiência.
segunda-feira, 17 de março de 2014
A escolha de uma vida
(continuação)Às vezes alguém vem e me diz que sua vida mudou, o sofrimento diminuiu, está enxergando a vida com mais clareza, e essa pessoa me agradece. Nesse momento eu sinto que minha vida tem significado. Acredito que foi isso que Buda sentiu, sua vida teve significado, mudou a história de países inteiros durante milhares de anos, mudou muitas e muitas vidas. Nós podemos escolher ter vidas medíocres, podemos escolher ter vidas simples, fazer pouco e não se comprometer muito. Quando fazemos votos em uma instituição e costuramos nosso Rakusu, nós criamos a instituição, pois ela não é sagrada, as roupas não são sagradas, os votos não são sagrados, somos nós que os transformamos em sagrados.
A estátua de Buda é de gesso, nós que colocamos flores, oferecemos incenso, acendemos velas, fazemos reverências e transformamos essas idéias em algo maravilhoso, caso contrário, isso não representaria nada. Um manto só é um manto porque o colocamos em lugares elevados, o tratamos com cuidado e olhamos para ele com reverência. Isso é um método, tudo que estamos falando, os ensinamentos, os compromissos, os votos, fazemos para nós mesmos, para mudar a nós mesmos e talvez mudarmos o mundo. Por isso fazemos. Com nossas reverências, transformamos Buda em Buda, somos nós que fazemos esse mundo diferente.
Qual o sentido das cerimônias, das prostrações e dos rituais que fazemos? É um método para criar entre nós uma energia que muda tudo. Acredito que ninguém passa por um sesshin sem ter algum efeito, primeiro porque ele vem procurando algo, segundo porque o sesshin está cheio de regras e rituais detalhadamente elaborados para criar atenção, para limpar a mente, nos mostrar a fotografia de quem realmente somos e talvez nos mostrar nossa covardia. Por que se Buda tivesse dito - “Não, é muito trabalho”, e tivesse ficado em qualquer lugar, talvez perto de seu palácio, perto de sua família, reivindicasse sua herança, afinal de contas seu pai era muito rico, se tivesse feito isso, teria tido uma vida confortável, não teria enfrentado problemas e até rebeliões dentro de sua Sangha e até mesmo tentativas de assassinato, teria sido somente mais um covarde medíocre na história da Índia.
Estamos aqui porque ele não fez isso. Cada um de nós pode fazer uma escolha. “Que tipo de vida eu posso ter? Sigo o fluxo normal, ou tento me mudar e mudar outras vidas, para que o mundo seja mais parecido com aquilo com que idealizo”? Essa foi a lição de Buda, ele foi um Bodhisattva, porque ele se levantou e foi ensinar. Caso contrário, ele seria só um iluminado. Ao se levantar ele manifestou sua compaixão. Por isso quando costuramos nosso Rakusu fazemos os Votos do Bodhisatva.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Escute aqui seu idiota!
Monge Genshô – Sim, é verdade, estão dentro uma da outra. E aproveite sua vida já que você tem uma vida. Quando tiver sofrimento, sofra. Morre sua mãe, o que você faz? Chora, não há mais nada para ser feito.
Aluno - Mas se compreender, não chora. Compreende e não chora. Porque teremos a compreensão de que a vida é assim, cresce, adoece e morre. É da natureza.
Monge Genshô - Não é assim, compreende e chora assim mesmo. Nós poderíamos dizer – “Ah, meu filho morreu, é como uma folha que caiu” – mas isso não é realista. Na verdade você sofre e sofre mesmo, entregue-se ao sofrimento e sofra de verdade, porque faz parte da vida.
Aluno - Me veio à mente a imagem do filme de Dogen, que quando ele morre todos os monges caem em pranto. Naquele momento eles choram compulsivamente, sofrem e muitos já estariam até iluminados, já teriam uma compreensão, já sabiam que ele iria morrer e mesmo assim sofreram.
Monge Genshô - A melhor história para isso, talvez, seja a do mestre que recebe uma carta com o comunicado de uma morte na família. Ele senta-se numa pedra e começa a chorar. Um discípulo vai até ele e faz esse discurso – “Mas como o Senhor nos ensinou sobre apego e agora o recebe uma carta sobre a morte de alguém da família e está aí chorando”? - o Mestre dobra a carta olha para ele diz – “Escute aqui seu idiota! Estou chorando porque quero” – vira-se para o outro lado e volta a chorar. Esse é o Zen.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Se estiver triste, chore, se feliz, sorria
Bia Gonzaga perde os cabelos e torna-se a noviça Jikihô San.
Monge Genshô – Isso é uma ilusão sobre a iluminação e sobre o próprio Zen. O que é a vida senão alegrias e tristezas? Com certeza não é somente serenidade e tranquilidade. Então se você morresse nós deveríamos dar de ombros e continuar com nosso encontro sob a alegação de que vida e morte são perfeitamente naturais? Você chega com a notícia de que sua namorada que você tanto amava acabou de morrer, então deveríamos dizer que tudo bem, afinal de contas sob o ponto de vista absoluto vida e morte não existem? É essa a atitude que você esperaria de nós ou você desejaria ser tratado de outra forma? Eu diria a você que sei o que é perder alguém que se ama, então você choraria e eu choraria junto com você.
Aluno – Ainda não compreendi muito bem, o ser que se iluminou por completo, como Buda, sente exatamente igual a nós?
Monge Genshô – Ele despertou, ele sabe. Sabe o que é fantasia, mesmo assim ele está vivo, fica doente, sofre, se entristece porque morreu Shariputra seu grande aluno.
Aluno – A diferença é que ele consegue ver o outro lado da moeda?
Monge Genshô – Ele consegue ver os dois lados da moeda. Se não visse um dos lados seria como se estivesse morto. Se você está vivo os dois lados existem.
Aluno – Apesar de estar triste ou feliz ele consegue olhar também o outro lado. Estava conversando com meu marido e achei reconfortante o que o Roshi disse - “Se estiver triste, chore, se estiver feliz sorria”. Nós somos humanos e estamos nesse mundo cheio de emoções, então foi um alívio escutar isso, pois não preciso abrir mão dos meus sentimentos.
Monge Genshô – Aquele que não sente é como se estivesse morto. Quando você conhece o Roshi percebe o quão emotivo ele é. Em minha experiência percebo que com o tempo de prática no Zen, as pessoas não vão ficando desligadas do mundo e sim muito mais emotivas.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Quem é este que não é mais enganado pelo eu?
P: O senhor acredita que tenha essa habilidade de chegar ao Satori?
Monge Genshô – A resposta padrão é negar de plano, pois quem é este que teria deixado de se enganar pelo seu eu? Mas mostrando outro ponto: só meu mestre pode lhe responder a essa pergunta. É uma pergunta injusta. Se eu respondo que sim é uma resposta duvidosa, pois não há como você verificar. Qualquer pessoa poderia mentir e se você não tem a capacidade de verificar poderá acreditar, e a resposta verdadeira da de um impostor é indestinguível. Se você acredita que tenha tido um insight, deve ir até o professor e contar sua experiência e perguntar se é uma experiência legítima ou uma ilusão. Só ele pode lhe responder, pois somente quem teve uma experiência pode verificar a autenticidade de uma experiência alheia.
P: Na história das culturas temos uma série de relatos de utilização de substâncias psicoativas dentro de rituais religiosos, podemos dizer que também sejam métodos para atingir um kenshô?
Monge Genshô - Essa pergunta é bem complexa. Aldous Huxley escreveu um livro chamado “As Portas da Percepção”, onde ele relatava suas experiências com esse tipo de substâncias. Para o Budismo, há dois mil e seiscentos anos, a resposta é que não existe nenhum caminho fácil para o esclarecimento. A única virtude dessas experiências é colocar na mente das pessoas uma dúvida: existem coisas diferentes na mente. O problema é que estas experiências são falsas e não permitem um “Satori”, pois você jamais poderá controlar, será sempre dependente de uma substância para obter uma sensação. A grande virtude foi quebrar a crença de uma mente completamente racional.
A resposta do Budismo é taxativa: nenhuma substância que altere a consciência deverá ser usada por um praticante Budista. Deixando as coisas bem claras: se um aluno desejar fazer experiências deste tipo, por favor, deixe a nossa Sangha, pois não o quero como meu aluno. Ele deseja o caminho mais fácil.
Uma vez um de meus filhos resolveu pintar o cabelo de azul, então eu lhe disse que era um tolo e estava envergonhando a família. “Você está tentando chamar a atenção de uma maneira muito fácil, mas se você quiser meu respeito e chamar minha atenção de uma forma relevante, aprenda a tocar piano”. Para tocar piano bem, são só dez anos de esforço com oito ou dez horas por dia de estudo. Esse sim é um valor real que chama a atenção. As drogas são assim, um caminho fácil para uma experiência psíquica que você não domina, que não tem um valor intrínseco e que só serve para mostrar que é possível distorcer a percepção. Você não é dono da experiência. Eu nunca vi um drogado iluminado, muito pelo contrário, só vejo drogados mergulhados em mundos infernais. Na minha opinião, Buda tinha razão em proibir enfaticamente esse tipo de experiências. Temos uma excelente experiência para mudar a mente - sentar na almofada. Sente na almofada por dez mil horas e poderá ganhar o mesmo domínio que o pianista tem sobre o teclado.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
O iluminado não está iludido com causa e efeito
Pergunta: - Eu achei isso tudo muito complicado. Na compreensão do objeto há um momento em que o senhor diz que todos os fenômenos são iguais.
Venerável Dhammadipa – Nem todos os fenômenos são iguais. Há um extremo em “todos os fenômenos são iguais” e outro extremo em “todos os fenômenos são diferentes”. Buda, embaixo da arvore Bodhi, realizou a originação dependente, se você compreender o que ele realizou, você entenderá que “ser” é um extremo e “não ser” é outro extremo. Buda explicou a originação dependente indo além desses extremos. “Tudo é igual” é um extremo, “tudo é diferente” é outro extremo. A fim de transcender os dois extremos, que é a causa de tantos conflitos, você deve estudar a originação dependente e isso não é fácil de compreender.
Há uma história muito famosa na tradição Zen que com certeza Genshô Sensei já lhes contou. É a história de Pai-Chang, em Japonês - Hyakujo, um grande mestre responsável pela “chineificação” do Budismo, responsável por novas e importantes regras de condutas dos monges na China. A regra de conduta era como se fosse uma bíblia ensinada por Buda. Existe uma montanha na China com seu nome dado sua importância e nessa montanha ele ergueu seu monastério. Foi dele a regra de um dia sem trabalho, um dia sem comida e também a idéia de que todo dia é um bom dia. Ele influenciou muito a Escola Soto, que é a que vocês praticam. Em todas as noites que o Mestre Pai-Chang realizava suas palestras, aparecia um senhor muito idoso e prestava muita atenção às suas palavras. Ninguém sabia nada de sua vida, pois logo após o término das palestras, ele se retirava. Um dia ele perguntou ao Mestre Pai-Chang: “O iluminado está acima de causa e efeito”? “O iluminado não está iludido com causa e efeito” - foi a resposta do Mestre Pai-Chang. Então o homem começou a chorar e disse que há muitas vidas atrás uma pessoa lhe fez essa mesma pergunta e ele respondeu que o iluminado estava acima de causa e efeito. Em razão dessa resposta, desde então ele renasceu muitas e muitas vezes como uma raposa. “Agora eu compreendo e sou muito grato por sua resposta” disse o idoso. Após essa passagem, o homem desapareceu. No outro dia, Mestre Pai-Chang pediu que seus discípulos fossem até a montanha e procurassem pelo corpo de uma raposa branca. Depois de encontrado o corpo, Mestre Pai-Chang ordenou que fosse cremado. Até hoje na montanha Pai-Chang existe a rocha da raposa branca.
Por favor, tenham muito cuidado ao responder uma pergunta de forma definitiva. A originação dependente tem o objetivo de resolver todos esses conflitos e quando você a compreende, os conflitos cessam e seus problemas estarão resolvidos.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
De que tudo está vazio?
Mesmo assim essa unidade não diz, eu sou a unidade. A unidade é vazia completamente de um eu, por isso o conceito de vazio torna-se tão importante no budismo. Porque, de que as coisas estão vazias? As coisas, todos os fenômenos, nós, somos vazios de um eu. Porque não existe eu algum, então, o vazio são esses próprios fenômenos. Se o vazio são os fenômenos, então os fenômenos são o próprio vazio. Por isso vocês todos são a vacuidade e a vacuidade somos todos nós e a miríade de todas as coisas. Por isso é necessário esquecer-se de si mesmo para ser iluminado pela miríade de todas as coisas. Essa é a essência do ensinamento budista.
Pergunta – Digamos que a mente passou pelo estágio da virtude e chegou ao estágio da compaixão. Ainda há o terceiro estágio que seria o da vacuidade. O que é necessário para passar do estágio da virtude para o estágio da compaixão?
Monge Gensho – A virtude são simples regras, como se alguém dissesse a você, “Não faça isso, pois isso causa sofrimento”, isso é o preceito, a virtude. Para passar para a compaixão é necessário um eu menor e sentir o que os outros sentem. A compaixão é perceber o que acontece com os outros seres no universo. Isso é compadecer-se. Trata-se de uma ampliação da consciência. Já o terceiro estágio da não dualidade é muito difícil, nada fácil de ser ensinado ou percebido, o estágio da não dualidade implica numa realização espiritual muito mais profunda, por isso que o sutra do coração é difícil de ser entendido. Porque ele trata essencialmente da não dualidade. Lembrem-se, o sutra do coração diz, “O vazio é forma e forma é vazio”, isso é a essência do que eu disse por ultimo.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Estudar a si mesmo
Akiba Roshi, em Yokoji, 2010.
“Estudar o Caminho é estudar a si próprio. Estudar a si próprio é esquecer-se de si próprio. Esquecer-se de si próprio é tornar-se iluminado por todas as coisas do universo. Ser iluminado por todas as coisas do universo é livrar-se do corpo e da mente, de si próprio e dos outros, neste momento, até mesmo os traços de iluminação são eliminados, vida com iluminação sem traços continua para sempre.”
Dogen Zenji
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Buddha sai do palácio

Rahula, filho de Buddha e um de seus mais destacados discípulos.
P: Buddha abandonou esposa e filho. Um pequeno ou grande sacrifício por parte dele? Quão grande deve ter sido o efeito desse abandono na vida da mulher e do filho e da mãe e do pai? Qual teria sido o efeito cármico de um ato deste para Gautama?
R: Grande, sem dúvida. Veja que ele não era um iluminado quando deixou seu palácio. Nem temos porque tentar defender os atos de Buddha antes da iluminação; ele não era diferente de mim ou de você. Era um homem perturbado, cheio de dúvidas sobre o sofrimento, angustiado pela existência da morte.
Que foi difícil sua decisão, é de imaginar: cortar seus laços e tentar encontrar as respostas... Você pode avaliar pela sua própria luta para cortar com o passado e encontrar seu próprio caminho. Difícil, dolorido, coisa que precisa de coragem e determinação.
Do ponto de vista ético, podemos citar S. Thomas de Aquino, nas dúvidas morais optar pelo maior bem para o maior numero de pessoas, Não há dúvida de que este objetivo foi atingido no caso de Buddha.
Por outro lado Rahula, seu filho, foi mais tarde um dos grandes discípulos de Buda, um de seus mais próximos seguidores, sua mãe adotiva foi a iniciadora da ordem feminina e também grande discípula. A esposa faleceu antes dessa oportunidade.
Ao que parece, a família o seguiu. Assim podemos dizer que o mau carma de abandono de Sidharta parece ter sido resgatado pela sua atuação depois de se tornar o Buddha.
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