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segunda-feira, 18 de julho de 2016

A arte de descartar os impulsos

O redemoinho também procura satisfazer o seu impulso, ele vai onde há diferenças de temperatura que o alimentem. E nós fazemos isso. Nós andamos pela vida procurando satisfazer os nossos impulsos. Paixões surgem e se esgotam, surgem e se esgotam, surgem e se esgotam.... e você não para de procurar. Isso é o Sansara, o mundo de perambulação. Eu ando para lá e para cá tentando satisfazer o meu impulso, que nem o redemoinho. Quando cessam as diferenças de temperatura o redemoinho morre, não é mais alimentado, desaparece.
O processo é assim, primeiro você compreende intelectualmente. Aí faz zazen, e surge um impulso e você descarta, surge outro impulso e você descarta... surge um pensamento prazeroso, e você mergulha naquele prazer, e fica lá no zazen se comprazendo com aquela história prazerosa, e não sai. Ou mergulha num mundo de torpor e sonolência, e essa sonolência também não permite clareza, você não sai. Ou uma chama qualquer, como uma raiva, excita, e você não sai, porque você continua alimentando o redemoinho.
Então cada vez que o impulso vem, você descarta e volta para o momento presente, que é calma, não está acontecendo nada, a parede está parada na sua frente, o incenso está queimando bem devagar, os colegas estão imóveis, ninguém empurra você, ninguém diz nada, ninguém elogia, ninguém critica, nada, então calma, calma, calma. (continua)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A verdadeira vida boa



(Continuação da palestra)
Então, vai aparecer lá, o insight, se você tiver preparado o terreno, no samadhi. E aí podem acontecer as oportunidades de kensho. “Ken” é ver, e “sho”, sua verdadeira natureza. Kensho é a experiência iluminada. Você nunca vê sua verdadeira natureza porque está perdido nesse mundo de ilusões. Nós estamos muito perdidos num mundo de ilusão própria, esse mundo não é bom, não é agradável, e por isso nós procuramos nos divertir e entreter, por isso procuramos outras vidas que são vidas falsas, não é? No cinema, na novela, em qualquer lugar. É aquela vida falsa substituta da sua vida, que é uma vida insatisfatória. Por isso procuramos nos divertir. Se uma pessoa tivesse uma vida absolutamente perfeita, maravilhosa, ele não iria querer se divertir, ele ia querer ficar “naquela” vida, aproveitando aquela vida, naquele momento. Para quê outro momento? Eu estou aqui apaixonado e feliz vivendo um amor maravilhoso, de mãos dadas com o meu amor, e alguém diz assim: “sai daí, vem aqui assistir uma novela”! Não, não vou, estou bem aqui, não quero ver novela. Isso seria vida realmente boa. Dá para entender? Isto não quer dizer abdicar das experiências prazeirosas e jogos se em cada um deles você estiver realmente presente, vivendo a vida plenamente.

Então a proposta no Zen é: vamos procurar a verdadeira vida boa? Mas a vida verdadeiramente boa, não está no resto, no mundo lá fora, está numa coisa interna minha. Se eu, dentro de mim, tiver olhos para ver, então eu posso achar o nirvana, pois ele está no mesmo lugar que o samsara. Os olhos de quem está olhando é que são diferentes. É por isso o nome do meu livro, “O pico da montanha é onde estão os meus pés”, porque a vida maravilhosa tem que ser aquela que você está vivendo naquele momento. Aqui e agora é o pico da montanha. Eu me preparei décadas para estar aqui sentado junto com vocês, estar vestindo essa roupa, e falando com vocês. Isso é o máximo, é um momento muito feliz, maravilhoso. Amanhã, é o pico da montanha de novo, e depois de amanhã, de novo. Isso é vida feliz. Assim é ser feliz, não é a euforia, é a sensação de justeza, eu estou fazendo o que eu queria, exatamente como eu queria. ( continua)

quarta-feira, 12 de março de 2014

A nossa chance é o caminho


Por favor, sentem-se em zazen, não se levem muito a sério, tentem se livrar de vocês mesmos, essa é a nossa chance. Sesshin é uma grande oportunidade de ter uma experiência mais profunda. Por isso fazemos um zazen atrás do outro. Não desperdicem o zazen. Essa aventura de despertar é a aventura principal. Só ela pode nos livrar dessa prisão de eternos retornos, de manifestações humanas sempre começando. Não estou preparado para ser um Buda e não estarei provavelmente, de forma que sei que vou voltar. Tento ser um bom pai para meu filho  e digo assim: “quando eu for renascer quero renascer como teu filho, então preste atenção, me trate bem”, porque fico imaginando, a gente vive e morre e depois sem memória nenhuma do que aconteceu no passado, só guardando nossos impulsos, e meus impulsos não são lá essas coisas, tenho maus impulsos, então, de repente, só carregando isso, me ver de novo como um bebê, tomando mamadeira sem nenhum guia, só meus impulsos. Então temos que trabalhar nossos impulsos, nossa maneira de ser, nosso caráter, porque nós só conservamos isso. O carma só leva impulsos, não leva o “eu”.

De forma que, pela tradição, nos manifestamos de novo carregando impulsos, por isso cada pessoa que nasce é diferente, pois carrega suas marcas cármicas, só temos elas e mais nada. Não dá para dizer, “eu sei que isso não dá certo e vou tentar evitar”. A gente tem os mesmos impulsos. E aqueles que têm egos, apegos e desejos, por causa disso, sofrem. Nós sofremos, nós desejamos coisas. Desejamos segurança, filhos, amores, uma boa família e quando as coisas não funcionam como desejaríamos, nós sofremos. Essa é a raiz do sofrimento, aquilo que desejamos e esperamos. Se não tivéssemos nenhum desejo ou esperança não existiria nenhuma expectativa para ser frustrada.  Nós sofremos por expectativas frustradas.

4) E quem gosta de sofrer? Entendo que a gente goste de sofrer por isso estamos aqui, pelos impulsos de sofrimento e de coisas boas, não só coisas ruins, existem as coisas boas também...

Monge Genshô -  Eu penso que a resposta esteja dentro da pergunta - nós gostamos de sofrer - por isso estamos aqui. Vêm coisas boas e ruins juntas, nós queremos amores, mas nos metemos neles e sabemos que eles terminam. Junto com a aquisição do amor vem o sofrimento da perda. Qualquer coisa que nós guardemos. Eu sempre gostei muito de livros, mas os livros velhos que tenho estão se desfazendo. As folhas vão ficando amarelas, existe uma acidez no papel que o vai destruindo. Para conservar seria necessário um ambiente climatizado, uma bibliotecária cuidando. Esses dias vi um livro com uma dedicatória escrita por meu pai, há cinqüenta e tantos anos, quando eu tinha dez anos, se desfazendo e a escrita vai se desfazendo junto com o papel, e me vem a sensação de que as coisas que a gente dá valor se desfazem. Junto com o presente, vem a deterioração do presente.

Então, junto com todo o prazer, junto com todas as coisas boas, vem as perdas e o sofrimento. Estão inextricavelmente ligados. A vida não é só sofrimento. A vida é alegria, prazer e sofrimento. Uma bela garrafa de bebida e amigos dando risada, no outro dia, ressaca, dor de cabeça, vem tudo junto, não tem como escapar. A gente não consegue separar uma coisa da outra. Um filho nasce, você o ama, um dia ele vai embora e você fica sozinho. Um dia ele casa com uma nora que você não gosta e a nora não quer que ele venha na sua casa. Com o filho vem junto a nora. Está tudo conectado. Junto com a saúde vem a doença. Tem um corpo forte, um atleta. Noutro dia velhice, juntas que não funcionam, artrite, decadência física.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Aproveite sua vida com alegria


Mas nós que viemos ao sesshin e nos sentamos para fazer zazen, viemos com um propósito - sentarmos em zazen para que nossa mente seja limpa. “Sesshin” quer dizer “consertar a mente ou reunir a mente que está dispersa”. Nós viemos para praticar de uma forma dura o suficiente para criar alguma experiência dentro de nós. Então essa prática está cheia de silêncio para que nós não sejamos arrastados por ventos, por isso é tão importante não falar, não conversar, porque tudo vai nos mobilizar. Nós podemos gostar de uma palavra que alguém diz e podemos não gostar de uma palavra, uma atitude, de qualquer coisa, e isso vai atrapalhar nosso sesshin. Então o sesshin deve ser profundamente solitário e silencioso. Fazemos toda a prática, sentamos e, cada vez que sentamos no zendo, tentamos nos livrar de todo passado e futuro, tentamos ficar ali, só tem uma coisa que realmente existe, esse vento movendo as árvores, o ruído do regato, ou pássaros que cantam, mas assim que isso acontece, deixa de acontecer e vamos avante, são sons com muito poucas marcas que nos mobilizam, diferente das palavras e das expressões dos outros que podem nos mobilizar.

A iluminação ou o despertar não significa nos desligarmos da vida, em absoluto. Significa mergulharmos mais profundamente na vida, na realidade da vida, não significa nos abandonarmos, ou tudo que fazemos. Ontem alguém me disse que se abandonássemos nosso “eu” não realizaríamos coisas. Eu apontei o fato de que os mestres e monges trabalham e tentam fazer coisas no mundo, modificando-o, portanto estão muito empenhados, estão inseridos no mundo.

A frase preferida de Saikawa Roshi é “enjoy your life” - aproveite sua vida. Usufrua de sua vida, goste de sua vida. “Joy” em inglês tem alegria dentro, usufrua de sua vida com alegria. O amor que você tem, os filhos, as pessoas a quem você ama. Quando sentar para comer coma com alegria e aproveite cada bocado completamente. Durma com prazer, sente no zazen com prazer. Aproveite cada pequeno som que você ouve. Essa vida é preciosa, insubstituível, é para ser aproveitada com intensidade. Na realidade o que o Zen diz é que quando nós estamos sonhando, pensando, viajando, não conseguimos aproveitar a vida como ela é. Sentamos para comer e não conseguimos sentir o gosto da comida porque estamos pensando em outra coisa. Deveríamos fazer as coisas completa e dedicadamente, muito envolvidos naquilo que estamos fazendo. A vida é preciosa e maravilhosa, devemos saber vivê-la completamente.


(retornaremos após o retiro de carnaval)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Choro porque quero


Pergunta – E quem gosta de sofrer? Existem as coisas boas também...

Monge Genshô - Eu penso que a resposta esteja dentro da pergunta, nós gostamos de sofrer, por isso estamos aqui. Vem coisas boas e ruins juntas, nós queremos amores, mas sabemos que os amores terminam, nos metemos nos amores e sabemos que eles terminam. Junto com a aquisição do amor vem o sofrimento da perda. Qualquer coisa que nós guardemos. Eu sempre gostei muito de livros, mas os livros velhos que tenho estão se desfazendo. As folhas vão ficando amarelas, existe uma acidez no papel que o vai destruindo. Para conservar seria necessário um ambiente climatizado, uma bibliotecária cuidando. Esses dias vi um livro com uma dedicatória escrita por meu pai, há cinqüenta e tantos anos, quando eu tinha dez anos, se desfazendo e a escrita vai se desfazendo junto com o papel, e me vem a sensação de que as coisas que a gente dá valor se desfazem. Junto com o presente vem a deterioração do presente. Então junto com todo o prazer, junto com todas as coisas boas, vem as perdas e o sofrimento. Estão inextrincavelmente ligados. A vida não é só sofrimento. A vida é alegria, prazer e sofrimento. Uma bela garrafa de bebida e amigos dando risada, no outro dia, ressaca, dor de cabeça, vem tudo junto, não tem como escapar. A gente não consegue separar uma coisa da outra. Um filho nasce, você o ama, um dia ele vai embora e você fica sozinho. Um dia ele casa com uma nora que você não gosta e a nora não quer que ele venha na sua casa. Com o filho vem junto a nora. Está tudo conectado. Junto com a saúde vem a doença. Tem um corpo forte um atleta, um dia, a velhice, juntas que não funcionam, artrite, decadência física.

Pergunta - O senhor começou sua palestra falando sobre aproveitar sua vida, seja feliz pelo momento e fiquei pensando, não tem como não sofrer, até o mestre iluminado se a mãe dele morrer ele irá chorar. Então seria assim, eu aproveito minha vida, não significa deixar de viver para não sofrer, então vou aproveitar ao máximo minha vida, vou amar, mas eu sei que o sofrimento vem junto. Na verdade amar e sofrer seriam duas coisas iguais?

Monge Genshô – Sim, é verdade, estão dentro uma da outra. E aproveite sua vida já que você tem uma vida. Quando tiver sofrimento, sofra. Morre sua mãe, o que você faz? Chora, não há mais nada para ser feito.

Pergunta – Mas se compreender, não chora. Porque a compreensão de a vida é assim, cresce, adoece e morre. É da natureza.

Monge Genshô - Seria assim, nós poderíamos dizer assim – Ah, meu filho morreu, é como uma folha que caiu – mas isso não é realista. Na verdade você sofre e sofre mesmo, entregue-se ao sofrimento e sofra de verdade, porque faz parte da vida.

Observação - Me veio à mente a imagem do filme de Dogen, que quando ele morre todos os monges caem em pranto. Naquele momento eles choram compulsivamente e sofreram e muitos já estariam até iluminados. Já teriam uma compreensão, já sabiam que iria morrer e mesmo assim sofreram.

Monge Genshô - A resposta é sempre essa, no momento de sofrer, sofra sinceramente.

Pergunta - Mas Buda falou em não sofrer, que foi essa a solução que ele foi buscar. Nós sofremos porque temos apego excessivo mas se você não tiver apego, você chora sem sofrer?

Monge Genshô - A melhor história para isso, talvez, seja a do mestre que recebe uma carta com o comunicado de uma morte na família. Ele senta-se numa pedra e começa a chorar. Um discípulo vai até ele e faz esse discurso - Mas como, o senhor nos ensinou sobre apego e agora o senhor recebe uma carta sobre a morte de alguém da família e agora o senhor esta aí chorando - o mestre dobra a carta olha para ele diz – Escuta aqui seu idiota, estou chorando porque quero – vira-se para o outro lado e volta a chorar. Esse é o zen.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Não há caminho fácil para o despertar


Pergunta: Eu poderia complementar o que senhor falou sobre os alucinógenos? Eu imaginei que se soubéssemos o que acontece no cérebro no momento que se atinge a iluminação, em tese, poderíamos gerar a iluminação artificialmente. Mas também se é uma questão de consciência, no sentido de estar separado do cérebro, talvez não seja assim...estou tentando complementar a pergunta.

Monge Genshô – Não sei. Pode ser que no futuro tenhamos uma espécie de pílula, aqui está Satori B, não precisa de sesshin. Não tenho a menor idéia a respeito, acredito que agora temos um método; se podem surgir outros métodos, é uma discussão futura. Pode ser que sim, desde que seja possível anular toda a ilusão e partir para uma enorme clareza de consciência, através um estímulo elétrico, mas a grande questão é: você será proprietário dessa experiência? As drogas que existem hoje, como por exemplo o crack, provoca durante alguns segundos, um derrame enorme de dopamina no cérebro gerando uma sensação de felicidade e bem estar inigualáveis. Depois de experimentar essa sensação, a pessoa quer sempre voltar para lá, porque é muito poderoso. Se usarmos uma escala, comer provoca um derrame de dopamina equivalente a cinquenta. Sexo produz noventa. Não é de se admirar que as pessoas gostem de comer e fazer sexo. Mas o crack produz novecentos. Logo, a pessoa não come mais, não faz mais sexo, não trabalha, não faz mais nada, ela só fuma até morrer. Se fossemos capazes de, por meios artificiais provocar a sensação de iluminação, talvez tivéssemos um efeito completamente indesejado.

As histórias dos mestres e suas experiências de iluminação são muitas, como por exemplo, depois da primeira experiência, passar uma semana inteira rindo, sempre pulando de alegria. Ninguém que tenha essa experiência deseja retornar para a ilusão. Mas talvez essa experiência só seja válida através de grande esforço, pois quando ela é gratuita, acontecem os fenômenos que acontecem quando no uso de drogas. Não há como duvidar que os quinze segundos depois de fumar crack são maravilhosos, mas você nunca mais retornará aos primeiros quinze segundos, por que cada repetição da droga é apenas uma tentativa de voltar à primeira experiência, a intensidade da experiência cai à medida que o cérebro não consegue manter a quantidade de dopamina. O resultado é a destruição física. Pode ser que existam meios mais fáceis de se atingir o esclarecimento, o despertar, mas não conhecemos nada seguro. Tenho sérias dúvidas de que a experiência gratuita possa significar sabedoria.

Pergunta: Se não estou enganado, a Gnose tem uma droga que ajuda, ela na verdade não leva ao despertar, serviria mais para diminuir o controle exercido pela mente?

Monge Genshô – Desde as experiências de Aldous Huxley em seu livro “As Portas da Percepção” há quase cinquenta anos, especula-se que as drogas alucinógenas provocariam uma abertura da consciência. Mas tudo que nós vimos de lá para cá foi desastre. Fico então, com a regra de Buda, de dois mil e seiscentos anos atrás: os Monges devem assumir a regra de não usar nenhuma substância que altere a consciência. Buda, através da experiência pessoal, desencorajou inclusive o ascetismo radical, o jejum radical até prestes a morrer ou coisas que provoquem alterações físicas. Ele desencorajou tudo porque ele experimentou e concluiu que não levava ao esclarecimento, por isso sua proposta era de moderação, “madhyamika” - o caminho do meio. Ele não poderia ser mais taxativo ao dizer que de forma alguma, absolutamente nenhum meio artificial faz parte do caminho Budista. Saikawa Roshi me disse uma vez uma frase, “não há caminho fácil para a iluminação”. Ou seja, nem procure. Aqui na nossa Sangha, se alguém desejar um caminho como esse, deve se afastar. Porque não pertence ao caminho budista da nossa comunidade.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Entreter e divertir, os verbos da ilusão



Esse contraste com que estamos fazendo é imenso, estamos no sesshin (retiro) o som do mar já é forte, os pássaros cantam muito alto, já ouvimos com nitidez, não é um som abafado que está presente em nós. Estamos procurando clareza e presença, nosso corpo dói. Não se enganem em pensar que os monges não sofrem, ficar parado, imóvel, provoca dores no corpo, muito desconforto, mas esse desconforto nos traz uma extrema consciência de que eu tenho um corpo, estou vivo, quero um momento qualquer que seja mais confortável que isso, um samu (trabalho comunitário), a caminhada, uma palestra.

Então, nós estamos a procura da clareza em contraste com a loucura do mundo, esse embrutecimento, o não ver com clareza nossa verdadeira natureza e mergulhar mais fundo na ilusão. Na verdade nós estamos dentro do sesshin mergulhados na ilusão. Na ilusão de nossa própria manifestação pessoal. Somos ondas de irregularidade na superfície do universo, nós pensamos que somos, esse pensamento de que somos um eu, é nosso sonho, nossa ilusão. Despertar dele é muito difícil, mais ainda quando sentimos dor, nesse momento nos sentimos ainda mais presentes, sentimos “eu estou aqui”.

Mas você sente a sua ilusão com clareza, quem vai para a festa tenta esquecer tudo, é como se jogasse fora a oportunidade da vida, como se não estivessem se abrindo e vendo as coisas como realmente são e mergulhados no inebriar-se para esquecer, por isso as palavras são entreter, divertir. Essas palavras significam, sair do seu centro e ir para fora, algo diverso, diferente. Dessa forma, com esse jogar-se na embriaguez do movimento, do som e do prazer, perde-se a nitidez e nossa própria percepção.
(continua)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O reino dos deuses


P. Como situar quando está num nível mais animal? O monge falou que há até uma certa inocência, a princípio dá para considerar que na maioria os seres vem de uma origem mais animalesca e o próprio karma é uma força que impulsiona todos estes seres no caminho até todos chegarem a uma evolução e a um processo de iluminação?
R. No sentido espiritual, tanto pode acontecer uma coisa assim como pode não acontecer e tanto você pode melhorar no seu caminho como você pode regredir, alguém tem um karma que se manifestou como ser humano, mas age terrivelmente e pode se manifestar no reino animal, se ele tem um karma assim é esta consequência, agora se ele pratica muito maravilhosamente mas não se ilumina e se manifesta num reino maravilhoso, não num mundo como o nosso, mas no reino dos deuses, grandes prazeres, sabedoria, sem maldade,  num lugar aonde ninguém ofende ninguém, onde todos ajudam os outros, onde todos servem os outros e agradecem quando são servidos, onde todos ficam juntos e se apóiam, onde é assim? Este é o reino dos deuses, qual é o perigo do reino dos deuses? É que se não houver sofrimento você fica lá até que o seu karma de deus se esgote e você caia para um lugar onde haja sofrimento e aí você possa procurar o Dharma, porque os Buddhas tem muita dificuldade para ensinar os deuses , os deuses não estão interessados, já está tudo muito bem, não há sofrimento. Trazendo esta imagem para o nosso mundo nós temos pessoas que vivem por mérito, tem vidas maravilhosas nasceram muito lindas e daí recebem muito dinheiro ou tem grandes talentos e daí conseguem ganhar facilmente bens materiais com grande abundância e aí vivem sem nenhuma dificuldade, tudo é fácil, basta estalar os dedos e pronto, tudo está resolvido, não tem dificuldade nenhuma. Este é o mundo dos deuses, para estas pessoas praticar espiritualmente é muito difícil, é preciso surgir um sofrimento para que este interesse surja,  com um mundo perfeito não surge à prática espiritual, não surge à necessidade de libertação porque parece que tudo está muito bom e a gente finge que não vai envelhecer, que não vai morrer, que esta vida não vai acabar, que isto tudo é permanente, alguns então metidos nesta loucura, mandam congelar os seus corpos para que um dia quem sabe a ciência descubra um jeito de fazê-lo ressuscitar e nascer perfeitos de novo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Conduta sexual - Preceito budista


P: O que pode ser caracterizado como conduta sexual inadequada?
Vivemos num tempo de muita liberdade de comportamento sexual.
Para mim seria a sexualidade desvinculada do afeto, objetivando só o instinto e o prazer.
Pediria, por gentileza, esclarecimentos.

R: Use o critério do sofrimento. Se causa sofrimento a alguém é conduta inadequada. Se envolve enganar é inadequado, se não produz conforto e bons sentimentos é inadequado e assim por diante.

sábado, 30 de maio de 2009

Daissen, Portal do Zen


O Daissen, Portal do zen, tem um blog em sua primeira página, nele voluntários colocam textos de mestres que acham relevantes, vejam este:

Zagche
A palavra tibetana para emoção é zagche que significa “contaminado” no sentido de ser permeado por confusão e dualidade

NÓS naturalmente vemos certas emoções, como agressão ou inveja, como dolorosas. Mas e o amor, afeto, bondade e devoção, estas emoções bonitas, leves e amáveis? Nós não pensamos nelas como dolorosas; contudo, elas implicam dualidade, e isto significa que,no final, elas são uma fonte de dor.

A MENTE dualista inclui praticamente todos os pensamentos que temos. Por que isto é doloroso? Toda mente dualista é uma mente enganada, uma mente que não entende a natureza das coisas. Como podemos entender a dualidade? Ela é sujeito e objeto: nós de um lado, e a nossa experiência do outro. Este modo de percepção está enganado porque, no caso de diferentes pessoas. percebemos o mesmo objeto de diferentes maneiras. Um homem pode achar que uma certa mulher é bonita, e isto é a sua verdade. Se isto fosse uma espécie de verdade absoluta e independente, todo mundo também a veria como bonita. Com certeza esta não é uma verdade que independe de todo o resto. Ela depende da sua mente; é a sua própria projeção(as emoções não têm uma existência real inerente).

SEMPRE que há uma mente dualista, há esperança e medo. A esperança é dor perfeita e sistematizada. Tendemos a pensar que a esperança não é dolorosa, mas, na verdade, é uma grande dor. Quanto à dor do medo, isto é algo que não precisa de explicação. Muitos de nós confundimos a dor com o prazer – o prazer que temos agora é, de fato, a causa da dor que vamos ter, mais cedo ou mais tarde. Uma outra maneira de ver isto é quando uma dor grande diminui, nós a chamamos de prazer. Isto é o que chamamos de felicidade.

ESTE é o motivo pelo qual, por exemplo, se faz meditação comtemplativa(sem foco) – isto ajuda a afrouxar o nó que as nossas emoções fizeram, e as obsessões que temos por causa delas.
("Buddhismo em poucas palavras" de Dzongsar Khyentse Rinpoche - tradução:Lucas Seigaku)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Quando tudo se desfaz


Quando tudo se desfaz e nos encontramos à beira sabe-se lá de que, o desafio que se apresenta a cada um de nós é o de permanecer nesse limiar, sem buscar alguma ação concreta. O caminho espiritual não tem nada a ver com o paraíso, com chegar finalmente ao céu. Na verdade, esse modo de encarar a vida é que nos mantém infelizes. Pensar que podemos encontrar algum prazer duradouro e evitar a dor é o que o budismo chama de samsara, o ciclo inútil que gira e gira, infinitamente, e nos causa tanto sofrimento. A primeira nobre verdade que o Buda nos apresenta chama nossa atenção para o fato de o sofrimento ser inevitável para nós, seres humanos, enquanto acreditarmos que as coisas permanecem, que não se desintegram e que podemos contar com elas para satisfazer nossa ânsia de segurança. Sob esse ponto de vista, o único momento em que realmente sabemos o que está acontecendo é quando nos puxam o tapete e não encontramos nenhum apoio. Podemos utilizar situações desse tipo para despertar ou escolher dormir. Exatamente ali, precisamente no momento em que ocorre a experiência de faltar o chão, encontram-se as sementes que nos levarão a cuidar daqueles que precisam de nós e a descobrir nossa própria bondade.

...

A vida é uma boa professora e amiga. Se pudéssemos perceber, veríamos que tudo está sempre em transição. No fim, nada é como sonhamos. Esse estado descentralizado e indefinido representa a situação ideal. Nesse ponto, não estamos presos a nada e podemos abrir nosso coração e mente além de qualquer limite. Essa é uma situação sem agressividade, muito frágil e aberta.

Ficar nesse desequilíbrio, com o coração partido, o estômago apertado, o sentimento de desesperança e o desejo de vingança, é o caminho do verdadeiro despertar. Ficar na incerteza, pegar o jeito de relaxar no meio do caos, aprender a não entrar em pânico, esse é o caminho espiritual. Desenvolver a habilidade de perceber-se, de perceber-se com suavidade e compaixão, esse é o caminho do guerreiro. Gostando ou não, temos de nos flagrar um milhão de vezes e mais uma, quando congelamos em ressentimento, amargura e justificada indignação, quando congelamos de qualquer modo, até mesmo em sentimentos de alívio e inspiração.



PEMA CHÖDRÖN. Quando tudo se desfaz. Editora Gryphus - Traduzido por Helenice Gouvêa