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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Perdidos pelo barulho da mente

 
Porque eu tenho uma mente funcionado, porque eu percebo coisas, porque eu tenho sensações, percepções, formações mentais, surge consciência. E essa consciência de ser aqui é que é o engano, ela fundamenta o restante do engano. Enquanto estamos neste estado, estamos completamente perdidos.
Tentar achar-se é sentar. Você senta em Zazen e tenta só ouvir, pode ser o ruído do ar-condicionado, mas só estar aqui. Não lá fora, não nas coisas da vida, não nos conteúdos da nossa mente. Esses conteúdos da nossa mente são a nossa perdição porque não nos permitem ouvir a voz de Buda. (Continua)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A mente que se engana


Pergunta – O senhor falou da mente que se engana, como eu sei que estou enganado?

Monge Genshô -  O que você pensa sobre isso, como você sabe que sua mente está enganada? Como você sabe que está separada das outras pessoas? Você olha para todas essas pessoas e as vê separadas de você. Mas você não vive sem elas. Não vive sem nada que existe, sem sol, sem chuva, árvores, pássaros, na realidade você é tudo isso misturado. Se você pensar sobre o que é esse guardanapo de papel em sua mão, do que ele é formado? Chuva, sol, árvore, carbono, tudo igual a você. Você é tudo isso junto, no entanto você olha para tudo isso e diz: “Eu estou separado”. Isso em si só já é uma grande ilusão. Por acreditar nessa ilusão é que você nasce e morre. Chamamos isso de ignorância. Por sermos ignorantes nascemos e morremos e acreditamos estar separados. 

 Os homens criam muitas histórias para acreditar, todas são ilusórias. As crenças são ilusões, quando você chega no budismo ele não lhe oferece nada em que crer ou algo do tipo, “acredite no que o professor está dizendo”. O budismo é experiencial. Teste e experimente, se funciona para você é bom se não funciona, desista. Se você não gosta do professor porque ele é muito desagradável dizendo coisas desoladoras, pode ir embora. O budismo não faz força para atrair pessoas, mais ainda, costuma dizer coisas para as pessoas irem embora. O Zen Budismo é para despertar, não para acreditar. Uma pergunta que sempre surge é: “Em quê o Budismo acredita?”, a resposta, não sei, isso é problema seu que acha que é preciso alguma crença.

Sempre conto essa historinha ilustrativa, se vem alguém na Sangha dizendo que acredita em homenzinhos verdes de uma galáxia distante, não há problema algum nisso, podem sentar e meditar. Agora, se os homenzinhos falarem com você então o caso é grave e é melhor procurar tratamento. O Zen tem sempre muitas histórias. Conta-se uma história de um monge que sentado em meditação dizia estar vendo os discípulos de Buda em seu redor cantando mantras. O mestre então mandou que os outros monges lhe dessem um banho de água gelada e dessa forma resolveu o problema. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Saia de você!


 (continuação)
Se eu não apenas acreditar, mas escolher e apontar um escaninho como o único que é certo, automaticamente eu também estarei admitindo que todos os outros [caminhos] estão errados. Este é o cerne da divisão, baseado no dualismo da verdade/mentira, certo/errado. É daí que surge o conflito. Se nós fôssemos capazes de abandonar estas classificações, automaticamente o conflito desaparece porque a separação desaparece.

Nós queremos classificar as pessoas em raças, por exemplo. E isso é muito interessante acontecer num país de mestiços como o Brasil, aonde a gente olha nos rostos e vê em cada um várias raças misturadas. De modo que é extremamente difícil classificar os brasileiros como esta ou aquela raça. Contudo, continuamos insistindo tanto nisso que até criamos leis ou mecanismos para “enquadrar” as pessoas em escaninhos. Então, se as pessoas não se classificarem, nós as forçamos a fazer isso. – “Declare! Qual é a sua face? Qual é a sua raça?”. Nós fazemos isso por imposição.

Nós estamos aqui para ajudar os outros seres e esquecer-nos de nós mesmos é a essência do budismo. O sofrimento existe na noção de um “eu” separado. Porque eu me acredito separado, então gero sofrimento. E as vezes as pessoas vem até mim e dizem que têm um grande problema de depressão, de tristeza, de tantas coisas ruins, e normalmente eu recomendo uma coisa: - “Saia de você!”. Pare de olhar para o seu umbigo. Se você sofre de solidão, há crianças nos orfanatos e idosos em casas de repouso que adorariam receber visitas. Há muitas pessoas que estão muito necessitadas que alguém vá até elas. E você permanece em casa pensando em sua solidão? Saia daí e vá visitar os verdadeiramente solitários! E se você for visitar os verdadeiramente solitários, você se livrará de sua solidão. Mas, na verdade, as pessoas dificilmente seguem esta receita.

Todas estas angústias surgem dentro da mente, quando acreditamos na ideia de um “eu” separado. Por causa disso criamos todos os outros conceitos, que levam a separações, a divisões e às lutas entre crenças, entre raças, entre qualquer coisa. Todas elas são oriundas do mesmo engano fundamental, o engano que diz que eu sou um ser separado. Se nós entendermos que originalmente nós não éramos seres separados, nós éramos a própria vida se manifestando, mas alguém nos ensinou que nós temos um nome, que nós somos um alguém. E quando nós acreditamos neste alguém, imediatamente surgem junto os conceitos de “eu”, “meu”, “minha”. Ao dizer “isso é meu!”, a pequenina criança já começa a lutar. – “Não beba a minha água! Este é meu copo!”... imediatamente, então, está criado o conflito.
(continua)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O barco vazio



3) Como diminuir o ego?

Monge Genshô – A Sangha é uma grande oportunidade, a comunidade onde trabalhamos. Nós devemos nos perguntar a cada momento: “Quem é que? Quem é que dentro de mim ficou com raiva? Quem é que dentro de mim se impacientou? Quem é que não aceita? Quem é que não tolera os outros”? A cada momento você pode perguntar – “Quem é que”? E quando você se der conta, meu ego, meu “eu”, ele enfraquecerá. Quem é que dentro de mim, sente ou pensa? Que carrega tal ou qual sentimento? Quem é esse? E você diga a você mesmo - É meu engano. Eu me engano. Eu estou dirigindo na rua e alguém buzina atrás de mim, impaciente. Você deveria pensar, é como a chuva, ou como o vento, nada é comigo. São simplesmente as emoções daquele ser, nada é comigo porque não tem ninguém aqui para se incomodar. Então, se você tiver essa postura, não haverá perturbação nenhuma. Se você não consegue isso, pelo menos não faça nada, não diga nenhuma palavra, não reaja, não comente com os outros e depois não comente com você mesmo, não pense nada, simplesmente aceite que lá também não tem um “eu”.

Você está num barco em um lago e tem um grande nevoeiro. Outro barco vem e bate no seu, você se irrita porque o outro não está prestando suficiente atenção. Tem nevoeiro, tem que prestar mais atenção. Então você olha dentro do outro barco e não tem ninguém. É um barco vazio que o vento empurrou. Imediatamente sua raiva passa. Porque lá não tem um “eu”. Pense – “Não há eu em ninguém, também não há eu em mim, isso é só ilusão”. Esse é o primeiro passo. É uma boa estratégia. Quando conseguirem não se importar com ninguém, então poderemos passar para o segundo passo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Quem é este que não é mais enganado pelo eu?


P: O senhor acredita que tenha essa habilidade de chegar ao Satori?

Monge Genshô – A resposta padrão é negar de plano, pois quem é este que teria deixado de se enganar pelo seu eu? Mas mostrando outro ponto: só meu mestre pode lhe responder a essa pergunta. É uma pergunta injusta. Se eu respondo que sim é uma resposta duvidosa, pois não há como você verificar. Qualquer pessoa poderia mentir e se você não tem a capacidade de verificar poderá acreditar, e a resposta verdadeira da de um impostor é indestinguível. Se você acredita que tenha tido um insight, deve ir até o professor e contar sua experiência e perguntar se é uma experiência legítima ou uma ilusão. Só ele pode lhe responder, pois somente quem teve uma experiência pode verificar a autenticidade de uma experiência alheia.

P: Na história das culturas temos uma série de relatos de utilização de substâncias psicoativas dentro de rituais religiosos, podemos dizer que também sejam métodos para atingir um kenshô?

Monge Genshô - Essa pergunta é bem complexa. Aldous Huxley escreveu um livro chamado “As Portas da Percepção”, onde ele relatava suas experiências com esse tipo de substâncias. Para o Budismo, há dois mil e seiscentos anos, a resposta é que não existe nenhum caminho fácil para o esclarecimento. A única virtude dessas experiências é colocar na mente das pessoas uma dúvida: existem coisas diferentes na mente. O problema é que estas experiências são falsas e não permitem um “Satori”, pois você jamais poderá controlar, será sempre dependente de uma substância para obter uma sensação. A grande virtude foi quebrar a crença de uma mente completamente racional.

A resposta do Budismo é taxativa: nenhuma substância que altere a consciência deverá ser usada por um praticante Budista. Deixando as coisas bem claras: se um aluno desejar fazer experiências deste tipo, por favor, deixe a nossa Sangha, pois não o quero como meu aluno. Ele deseja o caminho mais fácil.

Uma vez um de meus filhos resolveu pintar o cabelo de azul, então eu lhe disse que era um tolo e estava envergonhando a família. “Você está tentando chamar a atenção de uma maneira muito fácil, mas se você quiser meu respeito e chamar minha atenção de uma forma relevante, aprenda a tocar piano”. Para tocar piano bem, são só dez anos de esforço com oito ou dez horas por dia de estudo. Esse sim é um valor real que chama a atenção. As drogas são assim, um caminho fácil para uma experiência psíquica que você não domina, que não tem um valor intrínseco e que só serve para mostrar que é possível distorcer a percepção. Você não é dono da experiência. Eu nunca vi um drogado iluminado, muito pelo contrário, só vejo drogados mergulhados em mundos infernais. Na minha opinião, Buda tinha razão em proibir enfaticamente esse tipo de experiências. Temos uma excelente experiência para mudar a mente - sentar na almofada. Sente na almofada por dez mil horas e poderá ganhar o mesmo domínio que o pianista tem sobre o teclado.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Quem realmente nos engana


(continuação)
Mas nós adultos também nos perdemos, não vemos a vida com clareza porque não percebemos que a morte ilumina a vida. Se nós colocássemos as coisas numa perspectiva de que “vou morrer em uma semana”, o que é relevante agora? O que eu realmente faria, o que seria importante? Aí as coisas ganhariam uma perspectiva diferente. Percebemos que pessoas que passam por experiências mais radicais de vida, como o anuncio de uma doença grave, podem passar a ver a vida com mais clareza depois, porque ela se esvazia das coisas minúsculas, das coisas que não tinham importância.

Quando as pessoas estão no leito de morte, perdoam todo mundo. É frequente estar lá e não ter mais importância a briga que eu tive com meu irmão por causa de um terreno ou de uma herança, aquilo não tem mais importância, porque o que eu quero, morrendo, é me reconciliar com meu irmão. É comum ouvir um médico dizer que ele vê no leito de morte as pessoas se importarem com isso, com as reconciliações e não mais com as coisas, porque eles não levarão as coisas. É claro que haverão aqueles que estão morrendo e pensarão que vão levar e ficam desesperados em como fazer para levar as suas coisas.

Li um conto uma vez de um homem que era muito rico e pediu para ser jogado no mar, então ele mesmo preparou seu caixão. Ninguém sabia o que ele havia feito da sua fortuna. E no conto eles decifram o que ele fez. Pegou todo seu dinheiro e comprou platina, que é mais caro que ouro, e fez seu caixão de platina. Sem que ninguém soubesse do que era feito o caixão, ele foi jogado ao mar com todo seu dinheiro. Isso pode acontecer. Mas isso conduz a um renascimento com o mesmo tipo de angústia, mas sem a platina. Vai ter que acumular e procurar de novo e pode repetir isso mil vidas sem nunca se libertar. Então, o que é o acordar? O que é a iluminação? A iluminação é o despertar de um sonho. Nós estamos mergulhados em um sonho, o sonho de nossa identidade. Eu acho que sou “eu”, estou me importando com as coisas de “eu” aqui e agora. Não estou enxergando a unidade de todas as coisas, a interconexão, o fato de que todas as coisas e eu somos um. Como não enxergo isso, então estou sonhando e esse sonho do “eu” que tanto amamos, da nossa identidade pessoal, é nossa perdição. Por isso que quando Buda se ilumina ele diz para o vulto dele mesmo “tu não me enganas mais”! Porque quem nos engana somos nós mesmos.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sidharta Gautama era um jovem angustiado



Sidharta Gautama era um jovem angustiado. Pensava no futuro, tudo acaba em velhice, doença e morte. Quando ele viu a face de um asceta e percebeu seu rosto tranquilo, resolveu largar tudo, sua família, seus pais e seu palácio. Partiu para a floresta onde ficou seis anos praticando ioga, meditação e fazendo jejuns constantes. Mesmo assim não conseguiu seu objetivo. Após esse período ele sentou-se sob uma árvore e prometeu a si mesmo não levantar-se enquanto não solucionasse os problemas do sofrimento. Após sete dias, no amanhecer do oitavo dia ele vê a primeira estrela da manhã e diz: “Que maravilha! Eu, a grande Terra e todos os seres simultaneamente atingimos a iluminação!” Ele entendeu que seu “eu” era uma construção e diz para si mesmo: “Você não me enganará mais”. Sua descoberta é que o “eu” é uma construção de nossa mente e de sucessões de pensamentos. Porque pensamos sem parar pensamos que somos nós. Esse ser que acredita em si mesmo, nasce e morre. Ele é um fenômeno. Tudo que nasce, envelhece, adoece e morre. Ele descobre que não é isso, que é algo muito mais profundo. Vou tentar explicar com analogias.

O vento não existe por si mesmo, ele é um movimento do ar. As ondas não existem por si mesmas, são movimentos da água. Nós não existimos por nós mesmos, somos movimentos dos pensamentos.
(continua)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

“Você, meu “eu”, não me enganará mais”



(continuação)

Depois de Platão, no ocidente, começamos a acreditar firmemente em almas. E as almas solucionavam o problema. Eu tenho um “eu”, uma identidade própria. Se eu morrer, minha alma não morre. O corpo é só a casca. Até nos desenhos animados, morre Tom e a alma do gato vai saindo e ele a puxa pelo rabo. Mas a alma é ele! O corpo não é nada! Então está solucionado: eu vou viver para sempre, pois eu tenho uma alma eterna. Então, eu preciso de alguma coisa para essa alma, e o que eu dou pra essa alma? Um paraíso ou quem sabe um corpo novo. Aí chamamos essa solução de reencarnação.

Vamos para o Budismo?

2.600 anos atrás, Siddharta Gautama vai pra floresta e torna-se um asceta. Torna-se aluno de dois grandes mestres Iogues e treina duramente. Diz-se que ele jejuou tanto, que a marca do seu sentar parecia a pisada de um camelo. Ele era bem magro. Ele é representado nas estátuas “Buda em Austeridade” com as costelas aparecendo e os ossos do rosto saltados. Eu não sei o que aconteceu no ocidente. Em algum momento, alguém trouxe uma estátua de “Papai Noel da China”, “Po Tai”, bem gordo, dando risada e colocaram nas vitrines das lojas e começaram a vender como Buda. Buda, historicamente, é um asceta. Não este Buda da vitrine. Aquele, que chama-se “Po Tai” em chinês e “Ho Tei” em japonês, nada tem a ver com Buda, algumas vêzes diz-se o buda do futuro, um futuro de abundância e felicidade.

Para explicar melhor essa história imagine que alguém vem de um lugar remoto e não conhece o cristianismo. Chega aqui em Goiânia e assiste as festividades de Natal. Volta e perguntam a ele: “Você foi lá? Fui. Como é a religião deles? Ah é meio estranha, eu assisti à festa principal deles, chama-se Natal. E o Deus deles, como é? Ah é gordo, se veste de vermelho, anda num trenó com renas”. É só o que ele viu, não é verdade? O que é que a gente vê no Natal? As tradições vão sendo modificadas e deturpadas com o tempo.

Mas voltando ao tema.

O problema de Siddharta Gautama é que depois de 6 anos ele desistiu. Não aguentava mais. Aceitou arroz e leite de uma moça chamada “Sujata” e sentou-se embaixo de uma árvore, uma figueira, uma “fícus religiosa”, e disse: eu não me levantarei daqui, enquanto não resolver o que nós chamamos hoje em dia de “angústia existencial”.

7 dias. Ao amanhecer do 8º dia, surgiu a estrela da manhã e aquela luz o atravessou, e repentinamente ele percebeu as ilusões em que estivera metido. E ele disse uma frase extremamente importante para nossa palestra: “Você, meu “eu”, não me enganará mais”.

Ele descobriu simplesmente que esse “eu” que nós tanto acreditamos e que em todos os tempos as pessoas quiseram que sobrevivesse à morte, não passa de uma construção mental, uma ilusão. Que você não é este “eu”. E estou aqui pra dizer pra vocês: o segredo de uma mente equilibrada é compreender, dentro de você mesmo, com o seu sentimento, não com a sua mente, que seu “eu” é uma ilusão completa, você não é o que você pensa que é.
(continua)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Asseidade



(texto)”No contexto zen, a exteriorização do interior começa com a perda da consciência do ego do homem que se coloca diante de um objeto exterior, ao perder a dita consciência do ego sujeito empírico, segundo o budismo, responsável pelos enganos de nosso olhar espiritual, o ser humano se perde no objeto. O ser humano se faz coisa, podemos expressar isso com o princípio Zen “O homem se converte em bambu, o homem se converte em flor”

(comentário) E no nosso exemplo aqui, o homem se transforma em tijoletas, em ladrilhos, na parede, se converte no grupo e apaga-se a si mesmo, porque esse si mesmo, esse ego, é o produtor do véu que nos impede de enxergar. Então a nossa grande ignorância é, não a ignorância de não saber, mas a ignorância de se acreditar um eu separado. Por isso temos todas as coisas que vem do eu, o amor, o desejo, o apego, a aversão, a raiva, todos esses venenos da mente, quando falo amor, não falo no sentido compassivo, mas aquele amor possessivo “Eu quero ser proprietário de alguém”, o amor que produz ciúmes, esses são os véus que nos impedem de partilhar o universo, porque obscurecem a nossa visão e fazem com que nós nos percamos no nosso ego individual.

(texto) “Dogen escreve em uma passagem muito conhecida de sua obra Shobogenzo “A ilusão consiste em colocar em um lugar o ego sujeito e trabalhar através dele sobre os objetos. A iluminação, pelo contrário, consiste em deixar que as coisas atuem sobre vocês e vos iluminem. Contemplando uma determinada coisa, faça com que vosso corpo e mente se integrem no ato. Faça o mesmo escutando um som, de tal modo que vosso ego possa perder-se na coisa vista ou ouvida. Então, e somente então, estareis em condições de captar a realidade com sua asseidade primeira”.

(comentário) Asseidade é um termo criado para significar a qualidade ou caráter do ser que tem em si mesmo a causa e o princípio do próprio ser.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Budismo, reeencarnação e renascimento



Muitas pessoas confundem o budismo com uma doutrina que crê em reencarnação, mas isso não é verdade, porque não existe reencarnação no budismo, não da maneira como se entende reencarnação. Pois não existe nenhuma alma para reencarnar, nenhum espírito, nenhum eu. Há continuidade, mas não de um eu. Somente nosso karma ou nossos impulsos podem permanecer, como movimento que são. E como são movimento, tentarão se manifestar novamente e gerarão um novo ser muito semelhante a nós, com os mesmo desejos e tudo mais, que também olhará para si mesmo e dirá “eu sou”. Este ser até, na infância, pode ter recordações fugazes da existência anterior, mas a perde rapidamente com a idade, chamamos isto, no budismo, de renascimento, em tudo é semelhante ao conceito de reencarnação exceto pelo fato de não haver um eu pessoal que subsiste.

 (Para os que perguntam sobre a tradição dos tulkus no budismo tibetano, o reconhecimento de renascimentos, ela não conflita com este conceito desde que está claro que não se trata de continuidade de um eu, mas sim de continuidade cármica, se houvesse sobrevivência de um eu não se trataria de budismo, pois Buda negou esta possibilidade)

 E porque continua esse ser iludido criando novas identidades vidas após vidas, sem parar, esse ser não passa de um ser cíclico, repetindo sempre os mesmo atos, as mesmas insatisfações, os mesmos desejos e as mesmas tristezas. Como podemos escapar desse ciclo? Somente se mudarmos nossos olhos, os olhos que vêem o mundo. Porque temos olhos de eu, olhamos o mundo como um mundo que age e interage conosco, quando essa interação também é ilusória. Todas as ações e reações das pessoas, todas as coisas que nós temos, todas, são projeções do nosso eu. Nós projetamos nosso eu sobre todas as coisas e as interpretamos de acordo com nosso eu, e este eu é nosso engano.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Qual a diferença entre ilusão e delusão?


Ilusão: Você vê e sabe que é, ex: cinema, é uma ilusão de ótica, você sabe como funciona, 24 quadros por segundo etc... Existe uma realidade subjacente da qual você tem conhecimento, pode escapar dela por mero raciocínio.
Delusão: Você vê mas não consegue perceber uma outra realidade subjacente. A delusão engana a experiência e impede qualquer outro raciocínio. Ex: Uma pessoa "vê" um fantasma, era um fogo de santelmo mas ela corre e se desespera, mesmo que se explique a pessoa não consegue se acalmar. A realidade que vemos é assim, mesmo que expliquemos que são nuvens de átomos, impermanentes, interdependentes, a ilusão nos toma completamente e não conseguimos nos livrar dela, é o caso do EU, você sabe que é construído, mas não adianta, ele está sempre tomando conta de você. Isto é delusão, é muito mais seriamente enganador.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ilusão e delusão


P: Qual a diferença entre ilusão e delusão?

R: São dois conceitos realmente diferentes, veja:

Ilusão: Você vê e sabe que é, ex: cinema é uma ilusão de ótica, você sabe como funciona (24 quadros por segundo etc...). Existe uma realidade subjacente da qual você tem conhecimento, você pode escapar dela por mero raciocínio.

Delusão: Você vê mas não consegue perceber a realidade subjacente. A delusão engana a experiência e impede qualquer outro raciocínio. Ex: Uma pessoa "vê" um fantasma, era um fogo de santelmo mas ela corre e se desespera, mesmo que se explique a pessoa não consegue se acalmar. A realidade que vemos é assim, mesmo que expliquemos que são nuvens de átomos, impermanentes, interdependentes, a ilusão nos toma completamente e não conseguimos nos livrar dela, é o caso do EU, você sabe que é construído, mas não adianta, ele está sempre tomando conta de você. Isto é delusão, é muito mais seriamente enganador.