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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Nadando contra a corrente


Quando Joshu, aos 116 anos morreu, os discípulos chegaram ao lado dele e disseram: “Mestre nos diga alguma coisa”, e ele - “eu já disse tudo”. Mas um discípulo continuou: “não, mas nos deixe alguma coisa”, e o Mestre disse: “a vida é um sonho”. Cento e dezesseis anos é muito tempo para alguém morrer lúcido, como aconteceu com Joshu, ele é um recordista entre os Mestres Zen. O nosso  superior da ordem que morreu em 2008, Miyazaki Roshi, morreu  com 108, ele trabalhou até 30 dias antes de morrer. 

Esse negócio de ficar sentado de frente para a parede, fazer regime, pensando em termos de vida de Monge Zen, fazendo meditação, acaba não apenas você vivendo mais, como também a vida parece mais comprida, porque é o oposto do que chamam de “se distrair ou se divertir”, que é ouvir música alta, se embriagar, se drogar ou qualquer coisa assim. 

Acaba sendo o contrário, pois para se obter clareza e lucidez, sentamos em meditação. Por isso no Zen dizemos que estamos aqui em busca da clareza e da lucidez, de compreensão, então não usamos nada que altere a consciência. Tudo o que aumente a consciência é o que nós estamos buscando, e acaba sendo distinto do que o mundo procura e chama entretenimento.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O quinto preceito




5. Eu decido manter a minha mente clara, não abusar do álcool ou outros intoxicantes, e nem levar os outros a fazê-lo.

A prática budista ocorre dentro de um contexto de consciência e plena atenção, um estado de mente que não é condicionado por tóxicos de nenhum tipo. Quando a claridade é perdida, é muito fácil violar os demais preceitos. Além disso, nós pretendemos que o Centro Zen seja um ambiente que apoie aqueles que estão tentando viver sem tóxicos. Portanto, álcool e intoxicação por drogas na sangha são inapropriados e constituem causa de preocupação e possível intervenção.
Enquanto discípulo de Buda, devemos ajudar todos os seres a alcançar sabedoria clara e não, ao invés disso, induzir a um pensamento perturbado e turvo.

Fonte: http://monjaisshin.wordpress.com

quinta-feira, 3 de julho de 2014

As regras, o zen, o tempo



 (continuação)
Bom, a prática espiritual é constituída dessas coisas. Aumento da nossa consciência e aumento da percepção dos outros, o que acontece com os outros, como os outros sentem. E quem sou eu realmente como eu sinto, ao invés de fugir do mundo, tentando escapar para o mundo dos deuses ou para o mundo de obscurecimento, porque quando eu bebo, eu não tenho mais clareza. Agora quando eu sento e procuro a lucidez, aí sim a lucidez pode aparecer. Mas ela não pode aparecer com o uso de substâncias que alterem a consciência. Então nós temos cinco regras básicas, para o praticante leigo budista.

Começamos com cinco regras, depois, quem faz votos, tem que fazer 16. Antigamente as regras para monges chegavam à casa das centenas. Mas essas são regras do antigo Vinaya que como eu disse para vocês, para o Zen, hoje, não interessam, porque havia regras como por exemplo a de que um monge não devia falar com mulheres e se falasse não podia mostrar os dentes. Então são regras daquele tempo, regras de ascetismo. Outra é que os monges não podiam comer depois do meio dia, então todos os dias do meio dia em diante, jejum. Aí de noite eles tinham muita fome, na China, nas montanhas, era muito frio, então eles esquentavam pedras e colocavam em cima do estômago, para passar a dor e a fome, até que os mestres abandonaram o Vinaya, nas reformas do Zen e inventaram uma refeição da noite que não existe. Ela não existe porque ela não está nas regras antigas, então a gente não faz cerimônia nenhuma no retiro. Agradece, pega a sopa e come. A essa refeição da noite chama-se “pedra quente”. Evidentemente as mudanças trouxeram problemas novos, como uma independência dos monastérios em relação às comunidades leigas, e o envolvimento dos monges com atividades de trabalho remunerado que os foram tornando algo como os leigos. Assim, do mesmo modo que as tradições antigas congelaram visões primevas as regras novas foram afrouxando os laços, é difícil dizer qual o melhor caminho, então é melhor que estas opções convivam para diferentes tipos de pessoas.

 Quando a gente vê as tradições e as explicações, observamos o que surgiu durante este longo tempo  hoje, há um Mestre Zen vietnamita que está na França, chamado Tich Nhat Hahn, e ele escreveu de novo as regras, inserindo regras para computador, regras para entrar nas redes sociais, etc, como é que um monge tem que agir na sua linhagem. O mundo está constantemente mudando e nós temos que mudar junto com ele.


PERGUNTAS

Pergunta – O Senhor ia falar das 5 regras, quais são elas?

Monge Genshô:

Não matar;
Não roubar;
Não enganar;
Não usar a sexualidade de forma imprópria de forma a causar sofrimento;
Não usar drogas que alterem a consciência.

Todas essas regras têm lados relativos que você tem que olhar. Na verdade se diz “não matar”, mas, nós não vivemos sem matar. Até para cultivar plantas você mata animais na terra. Nós não vivemos sem causar sofrimento, então, tudo que nós podemos é minimizar, diminuir o sofrimento que nossa existência causa. Assim, o sofrimento inútil deve ser evitado. O praticante budista tem que olhar se esse sofrimento é necessário.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Eus e reencarnação


Pergunta – O fato de não nos lembrarmos de nossas vidas passadas tem uma função, não é?

Monge Genshô – Podemos pensar desta forma. Desde o momento que não há um “Eu”, pois este é uma construção, não há ninguém para carregar uma memória. Se houvesse um portador de memória, haveria a continuidade de um “Eu”.

Pergunta – Posso supor depois das suas explicações que existe reencarnação?

Monge Genshô – De quem? Se não existe um “Eu” como pode haver reencarnação? Se memórias não permanecem, reencarnação de quê? O que reencarnaria? Reencarnação é uma palavra que não serve ao Budismo. Reencarnação significa que um “Eu” carrega uma nova vida e ganha uma nova carne. Se dizemos que não há almas ou espíritos e que as memórias desaparecem com a morte, então o que há para reencarnar? Só restam impulsos, que é o que chamamos de carma, o movimento do universo. Esse movimento produz novas identidades, novos seres. É o carma que produz manifestações, não são as manifestações que carregam carmas. Essa definição cabe ao espiritismo onde um espírito carrega carma e vai ganhando novos corpos e é dessa definição que vem também a noção de missões, resgates e um progresso permanente. Prefiro falar em nova manifestação cármica, outros professores em renascimento. 
No Budismo nem mesmo essa noção de progresso permanente existe, pois você pode regredir. É muito fácil destruir sua vida, você pode nascer numa condição muito boa, boa família, bom emprego, bom casamento. Mas basta você se viciar em drogas e poderá acabar perdendo tudo isso. Outro detalhe é que os universos são cíclicos e nada é permanente, nada irá durar para sempre.  Há continuidade mas não de um eu.

Pergunta – Eu penso na questão da fé, que é uma questão cultural e social. Acreditar no que “a priori”, não pode ser comprovado ou investigado...

Monge Genshô – A proposta do Budismo é outra, não se trata de fé e sim de uma grande dúvida. Não tenho nenhuma solução para lhe dar e, portanto, você não tem onde se agarrar. Você está sozinho, sem anjos ou deuses pra lhe ajudar e em suas mãos está o poder de construir seu próprio caminho. O que posso te oferecer no Zen é um método de treinamento.

Pergunta – Mas a doutrina do carma, se é que pode ser chamado assim, não é uma questão de fé?

Monge Genshô – Não. Veja bem, você poderia me apontar um efeito sem causa?

Pergunta – No mundo fenomênico não.

Monge Genshô – Então você sabe que não existe causa sem efeito, essa é a maior declaração de Buda a respeito do carma. Carma significa ação. “Carma Vipaka” é “fruto da ação”. Se você encontra cacos de uma xícara no chão, irá concluir que alguém deixou cair, os cacos são frutos de uma ação. O carma não precisa de fé, ele é auto evidente, ação e consequência. A definição de fé é a firme convicção em algo que não se vê ou ouve, ou seja, acreditar em algo sem qualquer evidência. Para o Budismo isso não faz qualquer sentido. “Teste”, disse Buda, “se funcionar para você, está ótimo”.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Quem é este que não é mais enganado pelo eu?


P: O senhor acredita que tenha essa habilidade de chegar ao Satori?

Monge Genshô – A resposta padrão é negar de plano, pois quem é este que teria deixado de se enganar pelo seu eu? Mas mostrando outro ponto: só meu mestre pode lhe responder a essa pergunta. É uma pergunta injusta. Se eu respondo que sim é uma resposta duvidosa, pois não há como você verificar. Qualquer pessoa poderia mentir e se você não tem a capacidade de verificar poderá acreditar, e a resposta verdadeira da de um impostor é indestinguível. Se você acredita que tenha tido um insight, deve ir até o professor e contar sua experiência e perguntar se é uma experiência legítima ou uma ilusão. Só ele pode lhe responder, pois somente quem teve uma experiência pode verificar a autenticidade de uma experiência alheia.

P: Na história das culturas temos uma série de relatos de utilização de substâncias psicoativas dentro de rituais religiosos, podemos dizer que também sejam métodos para atingir um kenshô?

Monge Genshô - Essa pergunta é bem complexa. Aldous Huxley escreveu um livro chamado “As Portas da Percepção”, onde ele relatava suas experiências com esse tipo de substâncias. Para o Budismo, há dois mil e seiscentos anos, a resposta é que não existe nenhum caminho fácil para o esclarecimento. A única virtude dessas experiências é colocar na mente das pessoas uma dúvida: existem coisas diferentes na mente. O problema é que estas experiências são falsas e não permitem um “Satori”, pois você jamais poderá controlar, será sempre dependente de uma substância para obter uma sensação. A grande virtude foi quebrar a crença de uma mente completamente racional.

A resposta do Budismo é taxativa: nenhuma substância que altere a consciência deverá ser usada por um praticante Budista. Deixando as coisas bem claras: se um aluno desejar fazer experiências deste tipo, por favor, deixe a nossa Sangha, pois não o quero como meu aluno. Ele deseja o caminho mais fácil.

Uma vez um de meus filhos resolveu pintar o cabelo de azul, então eu lhe disse que era um tolo e estava envergonhando a família. “Você está tentando chamar a atenção de uma maneira muito fácil, mas se você quiser meu respeito e chamar minha atenção de uma forma relevante, aprenda a tocar piano”. Para tocar piano bem, são só dez anos de esforço com oito ou dez horas por dia de estudo. Esse sim é um valor real que chama a atenção. As drogas são assim, um caminho fácil para uma experiência psíquica que você não domina, que não tem um valor intrínseco e que só serve para mostrar que é possível distorcer a percepção. Você não é dono da experiência. Eu nunca vi um drogado iluminado, muito pelo contrário, só vejo drogados mergulhados em mundos infernais. Na minha opinião, Buda tinha razão em proibir enfaticamente esse tipo de experiências. Temos uma excelente experiência para mudar a mente - sentar na almofada. Sente na almofada por dez mil horas e poderá ganhar o mesmo domínio que o pianista tem sobre o teclado.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Não há caminho fácil para o despertar


Pergunta: Eu poderia complementar o que senhor falou sobre os alucinógenos? Eu imaginei que se soubéssemos o que acontece no cérebro no momento que se atinge a iluminação, em tese, poderíamos gerar a iluminação artificialmente. Mas também se é uma questão de consciência, no sentido de estar separado do cérebro, talvez não seja assim...estou tentando complementar a pergunta.

Monge Genshô – Não sei. Pode ser que no futuro tenhamos uma espécie de pílula, aqui está Satori B, não precisa de sesshin. Não tenho a menor idéia a respeito, acredito que agora temos um método; se podem surgir outros métodos, é uma discussão futura. Pode ser que sim, desde que seja possível anular toda a ilusão e partir para uma enorme clareza de consciência, através um estímulo elétrico, mas a grande questão é: você será proprietário dessa experiência? As drogas que existem hoje, como por exemplo o crack, provoca durante alguns segundos, um derrame enorme de dopamina no cérebro gerando uma sensação de felicidade e bem estar inigualáveis. Depois de experimentar essa sensação, a pessoa quer sempre voltar para lá, porque é muito poderoso. Se usarmos uma escala, comer provoca um derrame de dopamina equivalente a cinquenta. Sexo produz noventa. Não é de se admirar que as pessoas gostem de comer e fazer sexo. Mas o crack produz novecentos. Logo, a pessoa não come mais, não faz mais sexo, não trabalha, não faz mais nada, ela só fuma até morrer. Se fossemos capazes de, por meios artificiais provocar a sensação de iluminação, talvez tivéssemos um efeito completamente indesejado.

As histórias dos mestres e suas experiências de iluminação são muitas, como por exemplo, depois da primeira experiência, passar uma semana inteira rindo, sempre pulando de alegria. Ninguém que tenha essa experiência deseja retornar para a ilusão. Mas talvez essa experiência só seja válida através de grande esforço, pois quando ela é gratuita, acontecem os fenômenos que acontecem quando no uso de drogas. Não há como duvidar que os quinze segundos depois de fumar crack são maravilhosos, mas você nunca mais retornará aos primeiros quinze segundos, por que cada repetição da droga é apenas uma tentativa de voltar à primeira experiência, a intensidade da experiência cai à medida que o cérebro não consegue manter a quantidade de dopamina. O resultado é a destruição física. Pode ser que existam meios mais fáceis de se atingir o esclarecimento, o despertar, mas não conhecemos nada seguro. Tenho sérias dúvidas de que a experiência gratuita possa significar sabedoria.

Pergunta: Se não estou enganado, a Gnose tem uma droga que ajuda, ela na verdade não leva ao despertar, serviria mais para diminuir o controle exercido pela mente?

Monge Genshô – Desde as experiências de Aldous Huxley em seu livro “As Portas da Percepção” há quase cinquenta anos, especula-se que as drogas alucinógenas provocariam uma abertura da consciência. Mas tudo que nós vimos de lá para cá foi desastre. Fico então, com a regra de Buda, de dois mil e seiscentos anos atrás: os Monges devem assumir a regra de não usar nenhuma substância que altere a consciência. Buda, através da experiência pessoal, desencorajou inclusive o ascetismo radical, o jejum radical até prestes a morrer ou coisas que provoquem alterações físicas. Ele desencorajou tudo porque ele experimentou e concluiu que não levava ao esclarecimento, por isso sua proposta era de moderação, “madhyamika” - o caminho do meio. Ele não poderia ser mais taxativo ao dizer que de forma alguma, absolutamente nenhum meio artificial faz parte do caminho Budista. Saikawa Roshi me disse uma vez uma frase, “não há caminho fácil para a iluminação”. Ou seja, nem procure. Aqui na nossa Sangha, se alguém desejar um caminho como esse, deve se afastar. Porque não pertence ao caminho budista da nossa comunidade.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Presos a repetição







Pergunta – Sobre a necessidade de dissolver o eu para que não retornarmos, mesmo persistindo alguma ignorância, seria possível não voltar?


Monge Gensho – Porque você, ao ter essa noção de um eu e ao manter a coesão de todas as coisas que estão agregadas a um eu (seus desejos e impulsos), por causa disso, por causa de seu apego ao seu eu, você não consegue evitar querer manifestá-lo, e o instrumento de nascer, ter um corpo e viver, é muito atraente. Já que você gosta das coisas da vida - comer, fazer amor, ter filhos, possuir coisas -, naturalmente você se encaminha para um nascimento. Por estar muito apegado a essas coisas, você não consegue evitar tudo isso.

Assim, é muito difícil sair daqui. As pessoas que pensam que podem sair daqui através da morte, por exemplo, aquelas que pensam que a vida é muito difícil e sofrida e se suicidam, tudo o que elas conseguem é repetir outra vida exatamente igual e ainda com um impulso suicida. Não existe nenhuma saída fácil. Uma vez li um livro, (Shantaram) sobre um homem, que metido num grande problema de sofrimento, na Índia, vai para uma casa onde lhe injetam drogas na veia. Ele vive, então, mergulhado num sonho, anestesiado pelas drogas, porém, isso não é solução, pois ele continua nesse mundo e dele não consegue sair. Mesmo que pareça, durante o momento em que está drogado, que ele saiu dos problemas, está sempre retornando. De certa maneira, é como se estivéssemos prisioneiros dessa repetição. Aliás, examinem suas vidas, vejam se não cometeram os mesmos erros, repetidas vezes, também.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Nenhum caminho fácil para o despertar


(continuação)
Pergunta: O kenshô ( experiência mística) pode vir de uma forte emoção?

Monge Gensho: Não, ele normalmente tem que vir de um momento de calma, de esvaziamento, não de uma emoção forte. É diferente de uma paixão, por exemplo. Você se sente muito eufórico, muito feliz, quando está apaixonado. Muda sua química cerebral, mudam hormônios, e aquele momento em que você descobre o amor, é um momento maravilhoso, mas você sabe que ele passa, e é físico, é muito feliz, muito euforizante, mas vai passar. Para quem conhece, sabe que vai passar, que é pura ilusão.

Pergunta: Então o kensho é um pequeno momento sem ego?

Monge Gensho: Uma boa explicação é o termo experiência mística. Realmente não tem ego, existe uma sensação de unidade e quando você pensa “eu”... pronto, perdeu. Na primeira consideração, o primeiro pensamento o kensho se esvanece. No pensamento de contar sua experiência, pronto, já se foi. “Não posso perder essa sensação”, mas ela se foi. É frágil e não muda sua vida. Você continua o mesmo, só tem a memória da experiência. Na realidade é um momento de iluminação. Só que você não é proprietário dele. Assim como veio, foi. Enquanto que no satori (iluminação), você pode recuperar essa sensação a qualquer instante. Você é proprietário.
 As drogas dão sensação que dura um tempo limitado e a pessoa não é proprietária dela e ainda tem inúmeros problemas associados, como o vício. Mas você não pode mais se libertar. É o oposto do que estamos falando. Estamos falando de libertação. Nós podemos até dizer que as pessoas que têm algum tipo de experiência no zen sentem uma espécie de vício no zazen. É tão bom o que você começa a obter que você não pode mais parar de praticar. Se parar, você se sente entristecido. Mas isso dá trabalho, você tem que sentar, não é como tomar uma droga. Então é bem diferente. O budismo é taxativo em suas regras no Vinaya (texto das regras monásticas) "Não tome nada que altera a consciência".

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Um rosto que mudou - o sexto passo



O primeiro e segundo passo, praticamente todos os que praticam já trilharam, é mais fácil de entendê-los. O primeiro é uma inquietação, depois, encontrar as pegadas, e o terceiro, é “vislumbrei, eu vi alguma coisa, eu tive alguma pequena experiência”. Não pensem que é grande coisa essa pequena experiência. Embora ela seja magnífica, é pequena perante os passos seguintes que nós vamos ver.


(continuação)

No sexto passo, que é “Cavalgando o boi de volta pra casa”, a figura mostra um homem sentado sobre o boi sem rédeas e tocando uma flauta. O boi agora é manso e obediente, e mesmo sem as rédeas, ele segue tranqüilo, cavalgando para casa na quietude de um entardecer, tendo o homem montado em si. Vamos descrever o processo de entrada em samadhi: a pele e os músculos estão sempre mudando de tensão e, em grande medida, por meio dessa mudança, se mantém a sensação da existência corporal. Porém na postura imóvel do zazen, não há apenas mudança da tensão muscular e cutânea. Vai-se também desenvolvendo a sensação de saída. A pele reage muito sensivelmente ante essa nova experiência, nota-se como uma sensação de tremor que corre através do corpo, é como uma espécie de vibração musical, delicada e deliciosa, que vem acompanhada de um estado mental apaziguado e de uma formosa corrente de emoção que parece brotar do coração. A sensação de saída vem muitas vezes anunciada por uma espécie de tremor vibrante que aparece primeiro nas partes mais sensíveis do corpo como orelhas, pescoço, braços e que, finalmente, desce ao longo de todo o corpo para desaparecer em poucos minutos. A paz e a quietude começam então a ocupar o corpo inteiro. O samadhi desenvolve-se a partir dessa quietude, mas com larga prática, já não aparece aquela deliciosa sensação corporal. A pessoa senta-se simplesmente e cai em samadhi. Quem tiver dificuldades com os pensamentos, pode sempre retornar para a técnica do iniciante que é contar a respiração. Com essa âncora é mais fácil de escapar de pensamentos invasivos freqüentes. Um samadhi brilhante pode surgir rapidamente com a contagem das respirações.

Outra técnica é a respiração em bambu, há uma tentativa de pensamento, um impulso que vem trazendo um pensamento, isso tem um nome técnico, chama-se NEN. Quando surge o NEN, o impulso desencadeador do pensamento, e que você percebe ele nascendo, você para de respirar, isso cria uma tensão que corta o pensamento e você pode voltar a respirar.O que ocorre, na realidade, dentro do corpo quando se produz um samadhi precedido desses fenômenos? Devem estar ocorrendo certas mudanças químicas, sabemos que o corpo produz constantemente toda classe de compostos químicos. Se acaso o samadhi resulta da produção de certos elementos químicos do corpo, isso não quer dizer que nós podemos, através de químicas, produzir o samadhi, por isso o uso de drogas é inútil. Embora eventualmente uma droga possa provocar uma sensação semelhante ao samadhi, é pelo seu efeito alucinógeno que isso ocorre. Ela entra no seu corpo, produz a sensação, mas você não é dono da sensação. A sensação é boa e a pessoa quer voltar a senti-la, por isso volta a usar a droga, pois com a droga é muito fácil de consegui-la. Só que o uso de drogas causa múltiplos problemas e não leva a uma realização espiritual, leva simplesmente a uma fantasia química.

 Mas não se pode objetar que o treinamento do zazen modifica de algum modo o metabolismo, de maneira que produza certos químicos que facilitam a chegada do samadhi. Tais substâncias são geradas internamente; é uma fonte de energia. Já as drogas ministradas externamente, nos debilitam e nos fazem dependentes. Quaisquer que sejam as bases fisiológicas do samadhi nessa fase de “Cavalgando o boi de volta para casa”, o estudante alcançou a maturidade e goza de liberdade de corpo e mente. A grande mudança é que agora ele não precisa mais fazer tanta força, quando ele senta o samadhi se instala com certa rapidez e a prática começa a se transportar para a vida. Um fenômeno interessante é que a expressão facial muda, a pessoa é a mesma, porém sua expressão mudou. E isso é identificável, é visível. Também nesse estágio os comportamentos, que antes permaneciam inalteráveis, agora se tornam perceptíveis a outras pessoas. Não é mais o mesmo comportamento. Em meio às turbulências, a pessoa permanece impassível, anormalmente calma e tranqüila. Isso ainda não acontece sempre, mas já na maioria das vezes.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Caminhos perigosos



Pergunta - A psicologia budista seria um caminho para a psicologia encontrar um perfil de uma atitude de não-eu?
Monge Gensho - A psicologia tem seu próprio caminho. Ela é relativamente recente. Aquilo que chamamos de psicologia budista é só uma investigação a respeito dos conceitos tradicionalmente existentes no budismo sobre os assuntos dos quais a psicologia trata. Existência de consciente ou inconsciente, ou coisas assim, são abordagens muito diferentes no budismo e na psicologia. 

Embora existam livros de Psicologia Budista, eu não me atreveria a chamar essas abordagens de psicologia em si, mas sim, de um conjunto de idéias e oposições, não necessariamente certas, produtos de diversas visões, porque o budismo é uma construção histórica muito vasta e não necessariamente unificada. Muitos mestres ensinaram e tiveram diferentes abordagens, com diferentes métodos, através dos tempos. Alguns métodos morreram, outros sobreviveram. Houve escolas budistas que morreram, outras sobreviveram. Então, há uma longa depuração de idéias dentro do budismo.

 As ideias foram defendidas durante séculos e abandonadas, assim, como nós poderíamos dizer que “nós temos a verdade, nós estamos certos”? Não podemos dizer isso. Podemos apenas dizer que temos um bom método. E você pode experimentar o que melhor serve para você. Mas ele não é obrigatoriamente o certo, não poderíamos dizer que toda a humanidade deveria segui-lo. Por isso essa grande tolerância do budismo com todas as linhas, religiões ou métodos existentes.

 Só nos opomos quando alguém me pergunta o que acho desse método que preconiza orgias para atingir a iluminação. Eu digo que, se preconiza uma coisa assim, certamente vai obter o que se deseja, mas não a iluminação. Se você quer fazer orgias, por que disfarçar isso de religião? Faça orgias. Durante mil vidas, faça orgias. Volte e faça orgias de novo. Morra por causa das orgias, sofra as conseqüências, os ódios, as brigas que vêm desse tipo de comportamento. Mas não disfarce isso de caminho espiritual.

 Caminhos espirituais não passam por isso, os caminhos espirituais sérios têm outro tipo de conduta, e é fácil ver isso. Em qualquer lugar que você for e houver muito dinheiro, não é um caminho espiritual, se houver orgias, não é um caminho espiritual, se houver drogas, não é um caminho espiritual confiável. Os caminhos espirituais são diferentes. Não parece óbvio isso? Mas, incrivelmente na historia da humanidade, nos últimos anos, são justamente as propostas desse tipo que arrastam multidões. E as que forem severas, ou sérias, têm pouca gente. Isso diz muito sobre a humanidade e o que é o caminho espiritual. Se houver uma multidão, olhe com reserva.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Epidemia de doenças mentais


A epidemia de doença mental
Por que cresce assombrosamente o número de pessoas com transtornos mentais e de pacientes tratados com antidepressivos e outros medicamentos psicoativos

por Marcia Angell (Revista Piauí 59)
(Extratos)

Parece que os americanos estão em meio a uma violenta epidemia de doenças mentais. A quantidade de pessoas incapacitadas por transtornos mentais, e com direito a receber a renda de seguridade suplementar ou o seguro por incapacidade, aumentou quase duas vezes e meia entre 1987 e 2007 – de 1 em cada 184 americanos passou para 1 em 76.

No que se refere às crianças, o número é ainda mais espantoso: um aumento de 35 vezes nas mesmas duas décadas. A doença mental é hoje a principal causa de incapacitação de crianças, bem à frente de deficiências físicas como a paralisia cerebral ou a síndrome de Down.

Um grande estudo de adultos (selecionados aleatoriamente), patrocinado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, realizado entre 2001 e 2003, descobriu que um percentual assombroso de 46% se encaixava nos critérios estabelecidos pela Associação Americana de Psiquiatria, por ter tido em algum momento de suas vidas pelo menos uma doença mental, entre quatro categorias.

As categorias seriam “transtornos de ansiedade”, que incluem fobias e estresse pós-traumático; “transtornos de humor”, como depressão e transtorno bipolar; “transtornos de controle dos impulsos”, que abrangem problemas de comportamento e de déficit de atenção/hiperatividade; e “transtornos causados pelo uso de substâncias”, como o abuso de álcool e drogas. A maioria dos pesquisados se encaixava em mais de um diagnóstico.

O tratamento médico desses transtornos quase sempre implica o uso de drogas psicoativas, os medicamentos que afetam o estado mental.Na verdade, a maioria dos psiquiatras usa apenas remédios no tratamento e encaminha os pacientes para psicólogos ou terapeutas se acha que uma psicoterapia é igualmente necessária.

A substituição da “terapia de conversa” pela das drogas como tratamento majoritário coincide com o surgimento, nas últimas quatro décadas, da teoria de que as doenças mentais são causadas por desequilíbrios químicos no cérebro, que podem ser corrigidos pelo uso de medicamentos. Essa teoria passou a ser amplamente aceita pela mídia e pelo público, bem como pelos médicos, depois que o Prozac chegou ao mercado, em 1987, e foi intensamente divulgado como um corretivo para a deficiência de serotonina no cérebro.

O número de pessoas depressivas tratadas triplicou nos dez anos seguintes e, hoje, cerca de 10% dos americanos com mais de 6 anos de idade tomam antidepressivos. O aumento do uso de drogas para tratar a psicose é ainda mais impressionante. A nova geração de antipsicóticos, como o Risperdal, o Zyprexa e o Seroquel, ultrapassou os redutores do colesterol no topo da lista de remédios mais vendidos nos Estados Unidos.


O que está acontecendo? A preponderância das doenças mentais sobre as físicas é de fato tão alta, e continua a crescer? Se os transtornos mentais são biologicamente determinados e não um produto de influências ambientais, é plausível supor que o seu crescimento seja real? Ou será que estamos aprendendo a diagnosticar transtornos mentais que sempre existiram? Ou, por outro lado, será que simplesmente ampliamos os critérios para definir as doenças mentais, de modo que quase todo mundo agora sofre de uma delas? E o que dizer dos medicamentos que viraram a base dos tratamentos? Eles funcionam? E, se funcionam, não deveríamos esperar que o número de doentes mentais estivesse em declínio e não em ascensão?

Essas são as questões que preocupam os autores de três livros provocativos, aqui analisados. Eles vêm de diferentes formações: Irving Kirsch é psicólogo da Universidade de Hull, no Reino Unido; Robert Whitaker é jornalista; e Daniel Carlat é um psiquiatra que clinica num subúrbio de Boston.

Os autores enfatizam diferentes aspectos da epidemia de doença mental. Kirsch está preocupado em saber se os antidepressivos funcionam. Whitaker pergunta se as drogas psicoativas não criam problemas piores do que aqueles que resolvem. Carlat examina como a sua profissão se aliou à indústria farmacêutica e é manipulada por ela. Mas, apesar de suas diferenças, os três estão de acordo sobre algumas questões importantes.

Em primeiro lugar, concordam que é preocupante a extensão com a qual as empresas que vendem drogas psicoativas – por meio de várias formas de marketing, tanto legal como ilegal, e usando o que muita gente chamaria de suborno – passaram a determinar o que constitui uma doença mental e como os distúrbios devem ser diagnosticados e tratados.

Em segundo lugar, nenhum dos três aceita a teoria de que a doença mental é provocada por um desequilíbrio químico no cérebro. Whitaker conta que essa teoria surgiu pouco depois que os remédios psicotrópicos foram introduzidos no mercado, na década de 50. O primeiro foi o Amplictil (clorpromazina), lançado em 1954, que rapidamente passou a ser muito usado em hospitais psiquiátricos, para acalmar pacientes psicóticos, sobretudo os com esquizofrenia. No ano seguinte, chegou o Miltown (meprobamato), vendido para tratar a ansiedade em pacientes ambulatoriais. Em 1957, o Marsilid (iproniazid) entrou no mercado como um “energizador psíquico” para tratar a depressão.

Desse modo, no curto espaço de três anos, tornaram-se disponíveis medicamentos para tratar aquelas que, na época, eram consideradas as três principais categorias de doença mental – ansiedade, psicose e depressão – e a psiquiatria transformou-se totalmente. Essas drogas, no entanto, não haviam sido desenvolvidas para tratar doenças mentais. Elas foram derivadas de remédios destinados ao combate de infecções, e se descobriu por acaso que alteravam o estado mental.

No início, ninguém tinha ideia de como funcionavam. Elas simplesmente embotavam sintomas mentais perturbadores. Durante a década seguinte, pesquisadores descobriram que essas drogas afetavam os níveis de certas substâncias químicas no cérebro.

...................

Quando se descobriu que as drogas psicoativas afetam os níveis de neurotransmissores, surgiu a teoria de que a causa da doença mental é uma anormalidade na concentração cerebral desses elementos químicos, a qual é combatida pelo medicamento apropriado.

Por exemplo: como o Thorazine diminui os níveis de dopamina no cérebro, postulou-se que psicoses como a esquizofrenia são causadas ​​por excesso de dopamina. Ou então: tendo em vista que alguns antidepressivos aumentam os níveis do neurotransmissor chamado serotonina, defendeu-se que a depressão é causada pela escassez de serotonina. Antidepressivos como o Prozac ou o Celexa impedem a reabsorção de serotonina pelos neurônios que a liberam, e assim ela permanece mais nas sinapses e ativa outros neurônios. Desse modo, em vez de desenvolver um medicamento para tratar uma anormalidade, uma anormalidade foi postulada para se adequar a um medicamento.

Trata-se de uma grande pirueta lógica, como apontam os três autores. Era perfeitamente possível que as drogas que afetam os níveis dos neurotransmissores pudessem aliviar os sintomas, mesmo que os neurotransmissores não tivessem nada a ver com a doença. Como escreve Carlat: “Por essa mesma lógica, se poderia argumentar que a causa de todos os estados de dor é uma deficiência de opiáceos, uma vez que analgésicos narcóticos ativam os receptores de opiáceos do cérebro.” Ou, do mesmo modo, se poderia dizer que as febres são causadas pela escassez de aspirina.

Mas o principal problema com essa teoria é que, após décadas tentando prová-la, os pesquisadores ainda estão de mãos vazias. Os três autores documentam o fracasso dos cientistas para encontrar boas provas a seu favor. Antes do tratamento, a função dos neurotransmissores parece ser normal nas pessoas com doença mental. Nas palavras de Whitaker:

Antes do tratamento, os pacientes diagnosticados com depressão, esquizofrenia e outros transtornos psiquiátricos não sofrem nenhum “desequilíbrio químico”. No entanto, depois que uma pessoa passa a tomar medicação psiquiátrica, que perturba a mecânica normal de uma via neuronal, seu cérebro começa a funcionar... anormalmente.

Carlat refere-se à teoria do desequilíbrio químico como um “mito” (que ele chama de “conveniente” porque reduziria o estigma da doença mental). E Kirsch,cujo livro centra-se na depressão, resume a questão assim: “Parece fora de dúvida que o conceito tradicional de considerar a depressão como um desequilíbrio químico no cérebro está simplesmente errado.” (O motivo da persistência dessa teoria, apesar da falta de provas, é um tema que tratarei adiante.)

Os remédios funcionam? Afinal de contas, independentemente da teoria, essa é a questão prática. Em seu livro seco e extremamente cativante, The Emperor’s New Drugs [As Novas Drogas do Imperador], Kirsch descreve os seus quinze anos de pesquisa científica para responder a essa pergunta, no que diz respeito aos antidepressivos.

Quando começou o trabalho em 1995, seu principal interesse eram os efeitos de placebos. Para estudá-los, ele e um colega revisaram 38 ensaios clínicos que comparavam vários tratamentos da depressão com placebos, ou comparavam a psicoterapia com nenhum tratamento. A maioria dessas experiências durava de seis a oito semanas, e durante esse período os pacientes tendiam a melhorar um pouco, mesmo se não tivessem nenhum tratamento.

Mas Kirsch descobriu que os placebos eram três vezes mais eficazes do que a ausência de tratamento. Isso não o surpreendeu. O que o surpreendeu mesmo foi que os antidepressivos foram apenas marginalmente mais úteis do que os placebos: 75% dos placebos foram tão eficazes quanto os antidepressivos. Kirsch resolveu então repetir o estudo, dessa vez com a análise de um conjunto de dados mais completo e padronizado.

Os dados que ele usou foram obtidos da Food and Drug Administration, a FDA [o órgão público americano encarregado do licenciamento e controle de medicamentos]. Quando buscam a aprovação da FDA para comercializar um novo remédio, os laboratórios farmacêuticos devem apresentar à agência todos os testes clínicos que patrocinaram. Os testes são geralmente duplo-cego e controlados com placebo. Ou seja: os pacientes participantes recebem aleatoriamente a droga ou o placebo, e nem eles nem os seus médicos sabem o que receberam.

Os pacientes são informados de que receberão ou um medicamento ativo ou um placebo. E também são avisados dos efeitos colaterais que podem ocorrer. Se dois testes comprovam que o medicamento é mais eficaz do que o placebo, ele é geralmente aprovado. Mas os laboratórios podem patrocinar quantos testes quiserem, e a maioria deles pode dar negativo – isto é, não mostrar a eficácia do remédio. Tudo o que eles precisam é de dois testes com resultados positivos. (Os resultados dos testes de um mesmo medicamento podem variar por muitas razões, entre elas a forma como o ensaio foi concebido e realizado, seu tamanho e os tipos de pacientes pesquisados.)

Por razões óbvias, as indústrias farmacêuticas fazem questão de que seus testes positivos sejam publicados em revistas médicas, e os médicos fiquem sabendo deles. Já os testes negativos ficam nas gavetas da FDA, que os considera propriedade privada e, portanto, confidenciais. Essa prática distorce a literatura médica, o ensino da medicina e as decisões de tratamento.


Kirsch e seus colegas usaram a Lei de Liberdade de Informação para obter as revisões da FDA de todos os testes clínicos controlados por placebo, positivos ou negativos, submetidos para a aprovação dos seis antidepressivos mais utilizados, aprovados entre 1987 e 1999: Prozac, Paxil, Zoloft, Celexa, Serzone e Effexor.

Ao todo, havia 42 testes das seis drogas. A maioria deles era negativo. No total, os placebos eram 82% tão eficazes quanto os medicamentos, tal como medido pela Escala de Depressão de Hamilton, uma classificação dos sintomas de depressão amplamente utilizada. A diferença média entre remédio e placebo era de apenas 1,8 ponto na Escala, uma diferença que, embora estatisticamente significativa, era insignificante do ponto de vista clínico. Os resultados foram quase os mesmos para as seis drogas: todos igualmente inexpressivos. No entanto, como os estudos positivos foram amplamente divulgados, enquanto os negativos eram escondidos, o público e os médicos passaram a acreditar que esses medicamentos antidepressivos eram altamente eficazes.

Kirsch ficou impressionado com outro achado inesperado. Em seu estudo anterior, e em trabalhos de outros, observara que até mesmo tratamentos com substâncias que não eram consideradas antidepressivas – como hormônio sintético da tireoide, opiáceos, sedativos, estimulantes e algumas ervas medicinais – eram tão eficazes quanto os antidepressivos para aliviar os sintomas da depressão. Kirsch escreve: “Quando administrados como antidepressivos, remédios que aumentam, diminuem ou não têm nenhuma influência sobre a serotonina aliviam a depressão mais ou menos no mesmo grau.”



O que todos esses medicamentos “eficazes” tinham em comum era que produziam efeitos colaterais, sobre os quais os pacientes participantes haviam sido informados de que poderiam ocorrer.

Diante da descoberta de que quase qualquer comprimido com efeitos colaterais era ligeiramente mais eficaz no tratamento da depressão do que um placebo, Kirsch especulou que a presença de efeitos colaterais em indivíduos que recebem medicamentos lhes permitia adivinhar que recebiam tratamento ativo – e isso foi corroborado por entrevistas com pacientes e médicos –, o que os tornava mais propensos a relatar uma melhora. Ele sugere que a razão pela qual os antidepressivos parecem funcionar melhor no alívio de depressão grave do que em casos menos graves é que os pacientes com sintomas graves provavelmente tomam doses mais elevadas e, portanto, sofrem mais efeitos colaterais.



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Kirsch registrou outras descobertas estranhas em testes clínicos de antidepressivos, entre elas o fato de que não há nenhuma curva de dose-resposta, ou seja, altas doses não funcionavam melhor do que as baixas, o que é extremamente improvável para medicamentos eficazes.

“Ao se juntar tudo isso”, escreve Kirsch,“chega-se à conclusão de que a diferença relativamente pequena entre medicamentos e placebos pode não ser um efeito verdadeiro do remédio. Em vez disso, pode ser um efeito placebo acentuado, produzido pelo fato de que alguns pacientes passaram a perceber que recebiam medicamentos ou placebos. Se este for o caso, então não há nenhum efeito antidepressivo dos medicamentos. Em vez de compararmos placebo com remédio, estávamos comparando placebos ‘normais’ com placebos ‘extrafortes’.”

Trata-se de uma conclusão surpreendente, que desafia a opinião médica, mas Kirsch chega a ela de uma forma cuidadosa e lógica. Psiquiatras que usam antidepressivos – e isso significa a maioria deles – e pacientes que os tomam talvez insistam que sabem por experiência clínica que os medicamentos funcionam.

Mas casos individuais são uma forma traiçoeira de avaliar tratamentos médicos, pois estão sujeitos a distorções. Eles podem sugerir hipóteses a serem estudadas, mas não podem prová-las. É por isso que o desenvolvimento do teste clínico duplo-cego, aleatório e controlado com placebo, foi um avanço tão importante na ciência médica, em meados do século passado. Histórias sobre sanguessugas, megadoses de vitamina cou vários outros tratamentos populares não suportariam o escrutínio de testes bem planejados. Kirsch é um defensor devotado do método científico e sua voz, portanto, traz objetividade a um tema muitas vezes influenciado por subjetividade, emoções ou, como veremos, interesse pessoal.



O livro de Whitaker, Anatomy of an Epidemic [Anatomia de uma Epidemia], é mais amplo e polêmico. Ele leva em conta todas as doenças mentais, não apenas a depressão. Enquanto Kirsch conclui que os antidepressivos não são provavelmente mais eficazes do que placebos, Whitaker conclui que eles e a maioria das drogas psicoativas não são apenas ineficazes, mas prejudiciais. Whitaker começa por observar que, se o tratamento de doenças mentais por meio de medicamentos disparou, o mesmo aconteceu com as patologias tratadas:

O número de doentes mentais incapacitados aumentou imensamente desde 1955 e durante as duas últimas décadas, período em que a prescrição de medicamentos psiquiátricos explodiu e o número de adultos e crianças incapacitados por doença mental aumentou numa taxa alucinante. Assim, chegamos a uma pergunta óbvia, embora herética: o paradigma de tratamento baseado em drogas poderia estar alimentando, de alguma maneira imprevista, essa praga dos tempos modernos?

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Se as drogas psicoativas causam danos, como afirma Whitaker, qual é o seu mecanismo? A resposta, ele acredita, encontra-se em seus efeitos sobre os neurotransmissores. É bem sabido que as drogas psicoativas perturbam os neurotransmissores, mesmo que essa não seja a causa primeira da doença.

Whitaker descreve uma cadeia de efeitos. Quando, por exemplo, um antidepressivo como o Celexa aumenta os níveis de serotonina nas sinapses, ele estimula mudanças compensatórias por meio de um processo chamado feedback negativo. Em reação aos altos níveis de serotonina, os neurônios que a secretam liberam menos dela, e os neurônios pós-sinápticos tornam-se insensíveis a ela. Na verdade, o cérebro está tentando anular os efeitos da droga. O mesmo vale para os medicamentos que bloqueiam neurotransmissores, exceto no sentido inverso.

A maioria dos antipsicóticos, por exemplo, bloqueia a dopamina, mas os neurônios pré-sinápticos compensam isso liberando mais dopamina, e os neurônios pós-sinápticos a aceitam com mais avidez.

As consequências do uso prolongado de drogas psicoativas, nas palavras de Steve Hyman, até recentemente reitor da Universidade de Harvard, são “alterações substanciais e de longa duração na função neural”.

Depois de várias semanas de drogas psicoativas, os esforços de compensação do cérebro começam a falhar e surgem efeitos colaterais que refletem o mecanismo de ação dos medicamentos. Antipsicóticos causam efeitos secundários que se assemelham ao mal de Parkinson, por causa do esgotamento de dopamina (que também se esgota no Parkinson). À medida que surgem efeitos colaterais, eles são tratados por outros medicamentos, e muitos pacientes acabam tomando um coquetel de drogas psicoativas, prescrito para um coquetel de diagnósticos. Os episódios de mania causada por antidepressivos podem levar a um novo diagnóstico de “transtorno bipolar” e ao tratamento com um “estabilizador de humor”, como Depokote (anticonvulsivo), acompanhado de uma das novas drogas antipsicóticas. E assim por diante.

A respeitada pesquisadora Nancy Andreasen e seus colegas publicaram indícios de que o uso de antipsicóticos está associado ao encolhimento do cérebro, e que o efeito está diretamente relacionado à dose e à duração do tratamento. Como Andreasen explicou ao New York Times: “O córtex pré-frontal não obtém o que precisa e vai sendo fechado pelos medicamentos. Isso reduz os sintomas psicóticos. E faz também com que o córtex pré-frontal se atrofie lentamente.”

Largar os remédios é extremamente difícil, segundo Whitaker, porque quando eles são retirados, os mecanismos compensatórios ficam sem oposição. Quando se retira o Celexa, os níveis de serotonina caem bruscamente porque os neurônios pré-sinápticos não estão liberando quantidades normais. Da mesma forma, quando se suspende um antipsicótico, os níveis de dopamina podem disparar.Os sintomas produzidos pela retirada de drogas psicoativas são confundidos com recaídas da doença original, o que pode levar psiquiatras a retomar o tratamento com remédios, talvez em doses mais elevadas.

Whitaker está indignado com o que considera uma epidemia iatrogênica (isto é, introduzida inadvertidamente pelos médicos) de disfunção cerebral, especialmente a causada pelo uso generalizado dos novos antipsicóticos, como o Zyprexa, que provoca graves efeitos colaterais. Eis o que ele chama de “experimento de pensamento rápido”:

Imagine que aparece de repente um vírus que faz com que as pessoas durmam doze, catorze horas por dia. As pessoas infectadas se movimentam devagar e parecem emocionalmente desligadas. Muitas ganham quantidades imensas de peso – 10, 20 e até 50 quilos. Os seus níveis de açúcar no sangue disparam, assim como os de colesterol.

Vários dos atingidos pela doença misteriosa – entre eles, crianças e adolescentes – se tornam diabéticos. O governo federal dá centenas de milhões de dólares aos cientistas para decifrar o funcionamento do vírus, e eles relatam que ele bloqueia uma multidão de receptores no cérebro. Enquanto isso, exames de ressonância magnética descobrem que, ao longo de vários anos, o vírus encolhe o córtex cerebral, e esta diminuição está ligada ao declínio cognitivo. O público aterrorizado clama por uma cura.

Ora, essa doença está, de fato, atingindo milhões de crianças e adultos. Acabamos de descrever os efeitos do antipsicótico Zyprexa, um dos mais vendidos do laboratório Eli Lilly.



Leon Eisenberg, professor da Universidade Johns Hopkins e da Escola de Medicina de Harvard, escreveu que a psiquiatria americana passou,no final do século XX, de uma fase “descerebrada” para uma “desmentalizada”. Ele quis dizer que, antes das drogas psicoativas, os psiquiatras tinham pouco interesse por neurotransmissores ou outros aspectos físicos do cérebro. Em vez disso, aceitavam a visão freudiana de que a doença mental tinha suas raízes em conflitos inconscientes, geralmente com origem na infância, que afetavam a mente como se ela fosse separada do cérebro.



Com a entrada em cena dessas drogas, na década de 50 – processo que se acelerou na década de 80 –, o foco mudou para o cérebro. Os psiquiatras começaram a se referir a si mesmos como psicofarmacologistas, e se interessaram cada vez menos pelas histórias de vida dos pacientes.

A preocupação deles era eliminar ou reduzir os sintomas, tratando os pacientes com medicamentos que alterariam a função cerebral. Tendo sido um dos primeiros defensores do modelo biológico de doença mental, Eisenberg veio a se tornar um crítico do uso indiscriminado de drogas psicoativas, impulsionado pelas maquinações da indústria farmacêutica.

Quando as drogas psicoativas surgiram, houve um período de otimismo na profissão psiquiátrica, mas na década de 70 o otimismo deu lugar a uma sensação de ameaça. Ficaram claros os graves efeitos colaterais dos medicamentos e um movimento de antipsiquiatria lançou raízes, como exemplificam os escritos de Thomas Szasz e o filme Um Estranho no Ninho.

Havia também a concorrência crescente de psicólogos e terapeutas. Além disso, os psiquiatras sofreram divisões internas: alguns abraçaram o modelo biológico, outros se agarraram ao modelo freudiano, e uns poucos viam a doença mental como uma resposta sadia a um mundo insano. Ademais, dentro da medicina, os psiquiatras eram considerados uma espécie de parentes pobres: mesmo com suas novas drogas, eram vistos como menos científicos do que os outros especialistas, e sua renda era geralmente mais baixa.

No final da década de 70, os psiquiatras contra-atacaram, e com força. Como conta Robert Whitaker em Anatomy of an Epidemic, o diretor médico da Associação Americana de Psiquiatria, Melvin Sabshin, declarou, em 1977: “Devemos apoiar fortemente um esforço vigoroso para remedicalizar a psiquiatria.” E lançou uma campanha maciça de relações públicas para fazer exatamente isso.

A psiquiatria detinha uma arma poderosa, que seus concorrentes não podiam ter. Como cursaram medicina, os psiquiatras têm autoridade legal para escrever receitas. Ao abraçar o modelo biológico de doença mental, e o uso de drogas psicoativas para tratá-la, a psiquiatria conseguiu relegar os outros prestadores de serviços de saúde mental para cargos secundários. E se apresentou também como uma disciplina científica. E, o que é mais importante, ao enfatizar o tratamento medicamentoso, a psiquiatria tornou-se a queridinha da indústria farmacêutica, que logo tornou tangível sua gratidão.



Associação Americana de Psiquiatria, a APA, estava preparando então a terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, que estabelece os critérios de diagnóstico para todos os transtornos mentais. O presidente da Associação havia indicado Robert Spitzer, eminente professor de psiquiatria da Universidade de Columbia, para chefiar a força-tarefa que supervisionaria o Manual.

As duas primeiras edições, publicadas em 1952 e 1968, refletiam a visão freudiana da doença mental, e eram pouco conhecidas fora da profissão. Spitzer decidiu fazer da terceira edição, o DSM-III, algo bem diferente. Ele prometeu que o Manual seria “uma defesa do modelo médico aplicado a problemas psiquiátricos”, e o presidente da Associação, Jack Weinberg, disse que ele “deixaria claro para quem tivesse dúvidas que consideramos a psiquiatria uma especialidade da medicina”.

Quando foi publicado, em 1980, o DSM-III continha 265 diagnósticos (acima dos 182 da edição anterior) e logo teve um uso quase universal: não apenas por parte de psiquiatras, mas também por companhias de seguros, hospitais, tribunais, prisões, escolas, pesquisadores, agências governamentais e médicos de todas as especialidades. Seu principal objetivo era trazer coerência (normalmente chamada de “confiabilidade”) ao diagnóstico psiquiátrico. Ou seja, garantir que os psiquiatras que viam o mesmo paciente concordassem com o diagnóstico. Para isso, cada diagnóstico era definido por uma lista de sintomas, com limites numéricos. Por exemplo, ter pelo menos cinco de nove sintomas determinados garantia ao paciente um diagnóstico definitivo de episódio depressivo dentro da ampla categoria de “transtornos do humor”.

Mas havia outro objetivo: justificar o uso de drogas psicoativas. Com efeito, Carol Bernstein, a presidente da apa, reconheceu isso ao escrever: “Na década de 70, foi preciso facilitar um acordo sobre diagnósticos entre clínicos, cientistas e autoridades reguladoras, dada a necessidade de ligar os pacientes aos novos tratamentos farmacológicos.”

A terceira edição do Manual era talvez mais “confiável” do que as versões anteriores, mas confiabilidade não é a mesma coisa que validade. O termo confiabilidade é usado como sinônimo de “coerência”; validade refere-se à correção ou solidez. Se todos os médicos concordassem que as sardas são um sinal de câncer, o diagnóstico seria “confiável”, mas não válido.

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DSM se tornou a bíblia da psiquiatria e, tal como a Bíblia cristã, dependia muito de algo parecido com a fé: não há nele citações de estudos científicos para sustentar suas decisões. É uma omissão espantosa, porque em todas as publicações médicas, sejam revistas ou livros didáticos, as declarações de fatos devem estar apoiadas em referências comprováveis. (Há quatro “livros de consulta” separados para a edição atual do DSM, que apresentam a razão para algumas decisões, junto com referências, mas isso não é a mesma coisa que referências específicas.)

Pode ser de muito interesse para um grupo de especialistas se reunir e dar suas opiniões, mas a menos que essas opiniões possam ser sustentadas por provas, elas não autorizam a deferência extraordinária dedicada ao DSM. “A cada edição subsequente”, escreve Daniel Carlat, “o número de categorias de diagnósticos se multiplicava, e os livros se tornaram maiores e mais caros. Cada um deles se tornou um best-seller, e o DSM é hoje uma das principais fontes de renda da Associação Americana de Psiquiatria.” O Manual atual, o DSM-IV, vendeu mais de 1 milhão de exemplares.

Os laboratórios farmacêuticos passaram a dar toda a atenção e generosidade aos psiquiatras, tanto individual como coletivamente, direta e indiretamente. Choveram presentes e amostras grátis, contratos de consultores e palestrantes, refeições, ajuda para participar de conferências. Quando os estados de Minnesota e Vermont implantaram “leis de transparência”, que exigem que os laboratórios informem todos os pagamentos a médicos, descobriu-se que os psiquiatras recebiam mais dinheiro do que os médicos de qualquer outra especialidade. A indústria farmacêutica também subsidia as reuniões da APA e outras conferências psiquiátricas. Cerca de um quinto do financiamento da APA vem agora da indústria farmacêutica.

Os laboratórios buscam conquistar psiquiatras de centros médicos universitários de prestígio. Chamados pela indústria de “líderes-chave de opinião”, eles são os profissionais que, por meio do que escrevem e ensinam, influenciam o tratamento das doenças mentais. Eles também publicam grande parte da pesquisa clínica sobre medicamentos e, o que é fundamental, determinam o conteúdo do DSM. Em certo sentido, eles são a melhor equipe de vendas que a indústria poderia ter e valem cada centavo gasto com eles. Dos 170 colaboradores da versão atual do DSM, dos quais quase todos poderiam ser descritos como líderes-chave, 95 tinham vínculos financeiros com laboratórios farmacêuticos, inclusive todos os colaboradores das seções sobre transtornos de humor e esquizofrenia.

Carlat pergunta: “Por que os psiquiatras estão na frente de todos os outros especialistas quando se trata de tomar dinheiro de laboratórios?” Sua resposta: “Nossos diagnósticos são subjetivos e expansíveis, e temos poucas razões racionais para a escolha de um tratamento em relação a outro.” Ao contrário das enfermidades tratadas pela maioria dos outros ramos da medicina, não há sinais ou exames objetivos para as doenças mentais – nenhum dado de laboratório ou descoberta por ressonância magnética – e as fronteiras entre o normal e o anormal são muitas vezes pouco claras. Isso torna possível expandir as fronteiras do diagnóstico ou até mesmo criar novas diagnoses, de uma forma que seria impossível, por exemplo, em um campo como a cardiologia. E as empresas farmacêuticas têm todo o interesse em induzir os psiquiatras a fazer exatamente isso.

Além do dinheiro gasto com os psiquiatras, os laboratórios apoiam muitos grupos de defesa de pacientes e organizações educacionais. Whitaker informa que, somente no primeiro trimestre de 2009, o “Eli Lilly deu 551 mil dólares à Aliança Nacional para Doenças Mentais, 465 mil dólares para a Associação Nacional de Saúde Mental, 130 mil dólares para um grupo de defesa dos pacientes de déficit de atenção/hiperatividade, e 69 250 dólares para a Fundação Americana de Prevenção ao Suicídio”.

E isso foi o que apenas um laboratório gastou em três meses; pode-se imaginar qual deve ser o total anual de todas as empresas que produzem drogas psicoativas. Esses grupos aparentemente existem para conscientizar a opinião pública sobre transtornos psiquiátricos, mas também têm o efeito de promover o uso de drogas psicoativas e influenciar os planos de saúde para cobri-los.



Como a maioria dos psiquiatras, Carlat trata seus pacientes apenas com medicamentos, sem terapia de conversa, e é sincero a respeito das vantagens de fazer isso. Ele calcula que, se atender três pacientes por hora com psicofarmacologia, ganha cerca de 180 dólares por hora dos planos de saúde. Em contrapartida, poderia atender apenas um paciente por hora com terapia de conversa, pela qual os planos lhe pagariam menos de 100 dólares. Carlat não acredita que a psicofarmacologia seja particularmente complicada, muito menos precisa, embora o público seja levado a acreditar que é.

Seu trabalho consiste em fazer aos pacientes uma série de perguntas sobre seus sintomas, para ver se eles combinam com algum dos transtornos catalogados no DSM. Esse exercício de correspondência, diz ele, propicia “a ilusão de que compreendemos os nossos pacientes, quando tudo o que estamos fazendo é atribuir-lhes rótulos”. Muitas vezes os pacientes preenchem critérios para mais de um diagnóstico, porque há sobreposição de sintomas.

Um dos pacientes de Carlat acabou com sete diagnósticos distintos. “Nós miramos sintomas distintos com os tratamentos, e outros medicamentos são adicionados para tratar os efeitos colaterais.” Um paciente típico, diz ele, pode estar tomando Celexa para depressão, Ativan para ansiedade, Ambien para insônia, Provigil para fadiga (um efeito colateral do Celexa) e Viagra para impotência (outro efeito colateral do Celexa).

Quanto aos próprios medicamentos, Carlat escreve que “há apenas um punhado de categorias guarda-chuva de drogas psicotrópicas”, sob as quais os medicamentos não são muito diferentes uns dos outros. Ele não acredita que exista muita base para escolher entre eles. E resume:

Assim é a moderna psicofarmacologia. Guiados apenas por sintomas, tentamos diferentes medicamentos, sem nenhuma concepção verdadeira do que estamos tentando corrigir, ou de como as drogas estão funcionando. Espanto-me que sejamos tão eficazes para tantos pacientes.

Carlat passa então a especular, como Kirsch em The Emperor’s New Drugs, que os pacientes talvez estejam respondendo a um efeito placebo ativado. Se as drogas psicoativas não são tudo o que é alardeado – e os indícios indicam que não são –, o que acontece com os próprios diagnósticos? Como eles se multiplicam a cada edição do DSM?



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A indústria farmacêutica influencia psiquiatras a receitar drogas psicoativas até mesmo a pacientes para os quais os medicamentos não foram considerados seguros e eficazes. O que deveria preocupar enormemente é o aumento espantoso do diagnóstico e tratamento de doenças mentais em crianças, algumas com apenas 2 anos de idade. Essas crianças são tratadas muitas vezes com medicamentos que nunca foram aprovados pela FDA para uso nessa faixa etária, e têm efeitos colaterais graves. A prevalência de “transtorno bipolar juvenil” aumentou quarenta vezes entre 1993 e 2004, e a de “autismo” aumentou de 1 em 500 crianças para 1 em 90 ao longo da mesma década. Dez por cento dos meninos de 10 anos de idade tomam agora estimulantes diários para o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.

Seria muito difícil achar uma criança de 2 anos que não seja às vezes irritante, um menino de 5ª série que não seja ocasionalmente desatento, ou uma menina no ensino médio que não seja ansiosa. Rotular essas crianças como tendo um transtorno mental e tratá-las com medicamentos depende muito de quem elas são e das pressões que seus pais enfrentam.

Como as famílias de baixa renda estão passando por dificuldades econômicas crescentes, muitas descobriram que o pedido de renda de seguridade suplementar com base na invalidez mental é a única maneira de sobreviver. Segundo um estudo da Universidade Rutgers, descobriu-se que crianças de famílias de baixa renda têm quatro vezes mais probabilidade de receber medicamentos antipsicóticos do que crianças com plano de saúde privado.

Os livros de Irving Kirsch, Robert Whitaker e Daniel Carlat são acusações enérgicas ao modo como a psiquiatria é praticada hoje em dia. Eles documentam o “frenesi” do diagnóstico, o uso excessivo de medicamentos com efeitos colaterais devastadores e os conflitos de interesse generalizados. Os críticos podem argumentar, como Nancy Andreasen o faz em seu artigo sobre a perda de tecido cerebral no tratamento antipsicótico de longo prazo, que os efeitos colaterais são o preço que se deve pagar para aliviar o sofrimento causado pela doença mental. Se soubéssemos que os benefícios das drogas psicoativas superam seus danos, isso seria um argumento forte, uma vez que não há dúvida de que muitas pessoas sofrem gravemente com doenças mentais. Mas como Kirsch, Whitaker e Carlat argumentam, essa expectativa pode estar errada.


No mínimo, precisamos parar de pensar que as drogas psicoativas são o melhor e, muitas vezes, o único tratamento para as doenças mentais. Tanto a psicoterapia como os exercícios físicos têm se mostrado tão eficazes quanto os medicamentos para a depressão, e seus efeitos são mais duradouros. Mas, infelizmente, não existe indústria que promova essas alternativas. Mais pesquisas são necessárias para estudar alternativas às drogas psicoativas.

Em particular, precisamos repensar o tratamento de crianças. Nesse ponto, o problema é muitas vezes uma família perturbada em circunstâncias conturbadas. Tratamentos voltados para essas condições ambientais – como auxílio individual para pais ou centros pós-escola para as crianças – devem ser estudados e comparados com o tratamento farmacológico.

No longo prazo, essas alternativas seriam provavelmente mais baratas. Nossa confiança nas drogas psicoativas, receitadas para todos os descontentes com a vida, tende a excluir as outras opções. Em vista dos riscos, e da eficácia questionável dos medicamentos em longo prazo, precisamos fazer melhor do que isso. Acima de tudo, devemos lembrar o consagrado ditado médico: em primeiro lugar, não causar dano (primum non nocere).

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Kenshô



Pergunta: Então o kensho é um pequeno momento sem ego?
Resposta: Uma boa explicação é o termo experiência mística. Realmente não tem ego, existe uma sensação de unidade e quando você pensa “eu”... pronto, perdeu. Na primeira consideração, o primeiro pensamento o kensho se esvanece. No pensamento de contar sua experiência, pronto, já se foi. “Não posso perder essa sensação”, mas ela se foi. É frágil e não muda sua vida. Você continua o mesmo, só tem a memória da
experiência. Na realidade é um momento de iluminação. Só que você não é proprietário dele. Assim como veio, foi. Enquanto que no satori, você pode recuperar essa sensação a qualquer instante. Você é proprietário. As drogas dão sensações que duram um tempo limitado e a pessoa não é proprietária delas e ainda tem inúmeros problemas associados, como o vício e a própria destruição. Você não pode mais se libertar. É o oposto do que estamos falando. Estamos falando de libertação. Nós podemos até dizer que as pessoas que têm algum tipo de experiência no zen sentem uma espécie de vício no zazen. É tão bom o que você começa a obter que você não pode mais parar de praticar. Se parar, você se sente entristecido. Mas isso dá trabalho, você tem que sentar, não é como tomar uma droga. Então, é bem diferente.



O texto integral da palestra "Os dez passos em busca do boi" está publicado no site Daissen em duas partes.



terça-feira, 23 de junho de 2009

Hipnose


P: A hipnose pode facilitar a entrada em um estado meditativo?

R: Creio que isso pode funcionar, no entanto é algo falso e dependente de terceiros, mal comparando, as drogas eventualmente podem produzir estados alterados de consciência, mas não somos proprietários deles e sim dependentes de uma coisa química, com o agravante de múltiplos efeitos colaterais e ainda a impossibilidade de gerarem uma transformação genuína, na verdade apenas a memória de uma alucinação permanece.
Adicionalmente, depender de terceiros pode ser muito perigoso e desaconselharia fortemente que se procure estados meditativos induzidos por sugestão, seria o contrário da liberdade que o budismo busca.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Qual é o quinto preceito?




Na tradução de Robert Aitken Roshi, este anexou comentários a este preceito, um dos dez preceitos maiores, ou mais importantes no zen, que fala sobre não tomar ou dar drogas, (entendidas como substâncias que tiram a clareza mental e distorcem a percepção).
Comentários atribuídos à Bodhidharma e Dogen Zenji, respectivamente o primeiro Patriarca do Zen na China e o Primeiro no Japão:

5. Not Giving or Taking Drugs.
Bodhidharma: Self-nature is subtle and mysterious. In the realm of the intrinsically pure Dharma, not giving rise to delusions is called the Precept of Not Giving or Taking Drugs.
Dogen Zenji: Drugs are not brought in yet. Don't let them invade. That is the great light.

5. Não dar ou consumir drogas.
Bodhidharma: A auto-natureza é sutil e misteriosa. Na esfera do intrinsecamente puro Dharma, não dar origem a delusões é o preceito de não dar ou tomar drogas.
Dogen Zenji: Drogas não devem ser levadas. Não deixe que elas invadam. Essa é a grande luz.