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quarta-feira, 11 de junho de 2014

As respostas estáticas aos problemas humanos


 (continuação)
Pergunta – Existe incompatibilidade entre a ciência e o budismo?

Monge Genshô - Não posso enxergar, porque, se houver uma coisa que você comprove verdadeiramente, o budismo pode mudar de idéia a qualquer momento, porque ele não é dogmático. O budismo vem mudando através do tempo. Nós começamos com um determinado budismo e ele foi sendo adaptado.  Pai Tchang (Baizhang Huaihai; Japanese: Hyakujō Ekai (720–814 AC)) na China, mudou as regras para os monges zen, há 1 400 anos o monasticismo zen budista não segue o chamado Vinaya indiano,  em 1872, na nossa ordem e em todo o Japão, mudamos as regras, os monges podem casar. Mês passado eu fiz um casamento de um casal de rapazes. Para o zen budismo, nós temos que ser como a água, mudar como o mundo muda. Eu cheguei em um mosteiro, olhei um monge e não conseguia decidir se ele era homem ou mulher, aí perguntei para outro: “ele é monge ou monja”? e ele disse: é um transexual, mas ele quer ser mulher, então nós demos um papel para ele de que ele é mulher e pronto, ele então é monja. Ok. Isso dentro de um monastério zen budista. É claro que podemos achar virtudes na conservação estrita de regras antigas assim como na adaptabilidade e também problemas advindos de ambas as atitudes.

Mas o zen budismo está em mudança constante, não está congelado no tempo. Esta é uma virtude da ciência, a ciência pode sempre alterar o que ela pensa. Ela diz uma coisa, amanhã aquela tese está vencida e vem outra. Essa é uma coisa que a ciência pode fazer. Mas a ciência também tem um sistema de crenças. Também tem axiomas, e também tem muitos problemas, e há problemas indecidíveis na ciência, inclusive na matemática. Se vocês duvidam é só verificar o que Godel escreveu sobre os teoremas indecidíveis. É impossível decidir isso pelo uso da matemática, pronto, acabou. A matemática tem limites, assim como a linguagem tem limites.

Há uma declaração budista antiquérrima que diz que a linguagem serve para tentar explicar algo para vocês aqui, mas vocês não estão entendendo realmente o que eu estou dizendo, estão entendendo uma boa parte. Mas uma parte não podem entender, porque o único jeito de entender é experimentando. Não adianta explicar o gosto da lichia para quem nunca experimentou lichia. “Você já comeu lichia”? Não. Se eu te explicar que o gosto da lichia parece uma mistura de morango com abacaxi e uva, deu para entender? Não. Não tem como explicar ela tem que experimentar e colocar na boca. Sem palavras para traduzi-lo. As palavras são um mau instrumento que nós temos para comunicar a realidade. É aquilo com que nós podemos comunicar a realidade na medida do que o cérebro pode entender. O que não é muita coisa.

Pergunta – É lógico que para mudar um efeito, eu tenho que mudar a causa, mas a dificuldade é saber o quê fazer, como fazer, quando fazer, para mudar uma causa que está nos trazendo sofrimento.

Monge Genshô - Às vezes eu posso ajudar, outras vezes não posso, e é você mesmo que tem que resolver. Às vezes as pessoas me perguntam: eu tenho tal e tal problema. Me separo ou não me separo? Eu não sei, quer que eu assuma a responsabilidade por isso? Não sei. Você tem que considerar múltiplas coisas.. Normalmente as pessoas estão acostumadas com livros, onde há uma “solução”. Me separo ou não me separo? Não se separa, ponto, não pode.

Agora, no budismo: Monge, me separo ou não me separo? Não sei. Problema seu. E a regra? Não tem regra. Essa história de união foram os homens que inventaram. Separação, foram os homens também que inventaram. O que você pode fazer é pensar: quais as consequências realmente? É isso. Então, o budismo é um pouco decepcionante, porque queremos respostas simples, e o budismo não dá as respostas fechadas, quadradinhas, que “solucionam” tudo e nos tiram a culpa. Não, o carma é seu.
(continua)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Manter uma mente correta até o fim


Pergunta – Nossa sociedade nunca foi tão próspera e ao mesmo tempo nunca houve tantas pessoas tristes e deprimidas ou com problemas psicológicos. Essa parece ser a tônica do mundo moderno, construir pessoas estressadas e infelizes. É claro que cada pessoa tem seu próprio conceito de felicidade e sei também que dentro do Dharma não há uma regra, mas quais seriam as atitudes corretas para buscar a felicidade?

Monge Genshô – Primeiro temos que considerar que não existem respostas fechadas no budismo. Se formos considerar uma cidadezinha do interior do Pará onde não existe atendimento médico, a isolarmos e fizermos uma pesquisa na qual iremos verificar quantas pessoas existem nesta comunidade com problemas de estresse ou com problemas como depressão, a resposta será próxima a zero.  Mas se colocarmos uma equipe médica para analisar isso, começam a surgir grande quantidade de casos. Um dos efeitos do aumento de atendimento médico é o aumento da notificação de doenças. Esse exame das coisas muitas vezes distorce o que julgamos na sociedade.

Existe o que é chamado de “O Sinal e o Ruído”, de Nate Silver, que fala sobre isso. O conceito é que o que ouvimos de informação vem carregado de ruídos, que não é o sinal ou a verdade que está por trás dos fatos, mas sim um ruído que deturpa e distorce a informação. Neste livro ele dá um exemplo sobre notificação de gripe no México e nos EUA, que são completamente diferentes. Por exemplo, nos EUA é maior a notificação e a mortalidade menor, enquanto que no México é o contrario, porquê? Porque a notificação no México é baixa e o que é notificado é aquele que realmente morreu. Através dos dados disponíveis não é possível detectar a verdade.

Mas o que Buda disse a respeito da felicidade? Que a vida é cíclica e, portanto, parece instável e sofrida, principalmente porque esperamos da vida estabilidade e segurança que ela não nos dá, porque todas as coisas que desejamos que durem, não duram. Não há nada que dure para sempre, por isso a vida naturalmente já tem esse aspecto de instabilidade. Buda disse que há uma causa para nosso sofrimento e que essa causa é o nosso desejo pela estabilidade das coisas e dos desejos. A maneira de resolver isso, diz ele, é através do Nobre Caminho Óctuplo. O primeiro passo é a compreensão destes fatos, ou seja, se eu compreendo e aceito que a vida é insatisfatória e instável, poderei até rir das coisas. Se temos certeza que vamos morrer, porque todos vão, deveríamos pensar o que de fato é irrelevante na vida?

Estava conversando com um amigo e ele reclamava de uma situação no trabalho, então eu lhe disse que não se preocupasse, pois isso tudo seria esquecido. Ele continuou argumentando sobre os créditos no trabalho que sairiam para outra pessoa, mas e daí? Isso também será esquecido. Damos importância demais para coisas muito pequenas. Se pensássemos na morte constantemente, teríamos uma vida iluminada. Para pensarmos melhor sobre a vida deveríamos colocá-la sob a perspectiva de que vamos morrer em trinta dias, o que é importante nesse período que lhe resta?

Alguém lhe diz que seu nome está no SPC, se você vai morrer mês que vem com certeza vai rir disso. Com que mente vamos morrer é determinante sob o ponto de vista budista. Os impulsos mais importantes são os últimos, são eles que determinarão a próxima manifestação. Como não sabemos quando iremos morrer, o tipo de mente que cultivamos é extremamente importante. Como não sabemos a hora da morte, devemos nos manter prontos, com a mente correta. Sentamos para meditar e treinar nossa mente. Fazemos cerimônia para treinar nossa mente. Não importa a forma com que você busque, mas o importante é seguir o ensinamento de Buda, a compreensão correta, o vazio de um eu inerente em todas as coisas, a insatisfação com a vida e também o fato da vida ser cíclica.