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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Tristeza X Depressão



Pergunta: Qual a relação que se faz entre a depressão e os venenos da mente?

Monge Genshô: Os venenos da mente são coisas como a raiva, por exemplo. Mas essa maneira de ensinar não tem a ver com o fenômeno da depressão, porque a depressão tem múltiplas causas, inclusive causas clínicas, biológicas, que podem ser resolvidas através de medicação. É errado alguém que precisa de medicação deixar de tomar. Mas estamos falando num nível puramente cerebral. É claro que existem fatores que se misturam, porque o cérebro é plástico e você pode alterar o comportamento do seu cérebro e as produções de hormônios através da prática espiritual. Mas não é porque você está fazendo prática espiritual que você deve abandonar sua medicação, primeiro você tem que ficar bem realmente e realmente ser capaz de mudar seu cérebro e isso não é fácil.

Em geral as perguntas sobre depressão vêm com esses enganos misturados de modo que a resposta padrão deve ser: cada pessoa tem que ter uma abordagem diferente e essa abordagem deve incluir um tratamento médico, se estivermos falando de depressão verdadeiramente, porque algumas vezes uma pessoa está triste por um acontecimento real, sólido, ele acontece e você tem que enfrentar, se você teve uma perda importante e isso lhe deixa entristecido você pode sair disso sozinho. Esse é o comportamento de uma mente saudável.



Não é porque você é um Mestre budista que não vai chorar na morte de seu filho, claro que vai se sentir triste, vai chorar ou ficar mal, porque nós seres humanos somos frágeis, mas você não está doente e pode sair disso. Uma pessoa que sofre de depressão pode sofrer sem motivo algum, não existe nada na vida dela que ocasione aquele desestímulo, aquela falta de vontade de se levantar e isso é bioquímico e deve ser tratado.

[Trecho de palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

quinta-feira, 19 de março de 2015

Um mundo abundante mas perdido



Aluno – Estou lendo um filósofo que fala sobre a secularização. Nos dias de hoje, numa sociedade tão secularizada, distante, profana, ele propõe uma sociedade pós-secular, onde os dois mundos poderiam e deveriam conversar, e eu percebo o zen no ocidente com uma apresentação um tanto quanto secular no discurso. O que o senhor acha disso?

Monge Genshô – Eu acho que a ideia é interessante, acho que o budismo tem essa enorme capacidade de adaptação. Essa imagem da água, que a gente diz no zen 'seja como a água' ela está muito certa. Quando olho a minha atuação no mundo como profissional e como monge simultaneamente, ela expressa isso, que é o meu problema.

 Então, você tem que saber transitar nos dois mundos e acho que há uma grande perda dessa secularização no mundo ocidental e no mundo oriental. Nós não devemos idealizar o mundo oriental, pois o mundo oriental se rendeu ao ocidente culturalmente e daí adota técnicas, formas, costumes, e a prática espiritual está sendo esquecida, jogada fora. Isso aconteceu fortemente no ocidente com algumas igrejas que resolveram se secularizar, começaram a jogar fora seus rituais, a maneira como os religiosos deviam se vestir... No início se pensava que isso ia aproximar e trazer o povo para dentro da instituição religiosa, mas não foi o que aconteceu.

E essa tentativa de secularização do caminho espiritual trouxe um enfraquecimento. Então nós não podemos ceder à secularização do caminho espiritual. Na hora de ser monges nós temos que ser monges verdadeiramente, temos que praticar verdadeiramente, temos que ir a fundo verdadeiramente, e não começar a ceder. Isso o ocidente também tem visto no zen. Você vai na Europa hoje e as monjas não querem raspar o cabelo, querem se maquiar, os monges querem mudar as roupas, ou querem se desligar da instituição... No discurso de serem livres começa a se perder a própria essência do zen. É como se o zen fosse diluído, como se fosse  enfraquecendo,  de repente você não tem mais aquilo que era o original.

A mesma coisa vem acontecendo no oriente, a mesma tendência de transformar a religião num mero negócio ou na venda de rituais, e isso não é uma coisa que tem acontecido só com o cristianismo ou com o budismo. Tem acontecido com tudo. Não existe caminho espiritual fácil ou diluído. Essa diluição é uma coisa que me dá uma sensação de pena, porque vamos perdendo a essência. Em todos os lugares isso tem acontecido. É uma tendência mundial em todas as religiões, em todos os caminhos espirituais, e a força, a mágica da ciência e da técnica vai fazendo parecer que o caminho espiritual é algo descartável.

 Nós vemos um mundo que parece perdido, infeliz, e daí começa a procurar a solução da felicidade na própria técnica, na própria química    , por isso nós temos as pílulas da felicidade, as pílulas contra depressão, etc... Então eu vejo um mundo que se perde. Para nós é um grande desafio aprendermos um caminho espiritual sério e trazê-lo para o mundo como ele é,  sem abdicar de nada, da abundância que a tecnologia trouxe, sem abdicar também da seriedade para conseguirmos manter viva a chama do caminho espiritual.

O que aconteceu desde a invenção e utilização das máquinas, na metade do século XIX, é que nós começamos a viver numa sociedade incrivelmente mais abundante, nós não tínhamos essa abundância antes, era frequente as pessoas passarem fome, não havia como transportar coisas de um lugar para o outro com facilidade, nós tivemos fome na China e na Irlanda, com grande mortalidade, porque não havia comida. Esse tipo de coisa só tem acontecido, no mundo moderno, em países bem longe da tecnologia, ou com regimes muito fechados ao comércio internacional. Mas no mundo integrado pelos transportes e pelo comércio exterior nunca mais houve isso. É difícil encontrar um agrupamento grande, hoje, no mundo ocidental, a quem faltem coisas essenciais. Isso fica restrito a faixas menos favorecidas, mas as nações em si tem, e o mundo tem recursos suficientes para alimentar o mundo todo, ele desperdiça ou joga fora, ou uns consomem muito mais do que precisariam, e outros menos. Então existe a injustiça da distribuição, mas na realidade existe uma abundância que a Terra nunca viu antes. No passado 90% da população tinha que trabalhar no campo para produzir alimento. Quando eu nasci 70% da população do Brasil trabalhava no campo. Hoje é o contrário, 30% da população trabalha no campo. Nos EUA, menos de 2% da população hoje produz todos os alimentos. Então nós vivemos em uma sociedade muito mais abundante, nós temos luz elétrica a menos de 100 anos, nós temos água encanada, coisa que não era disponível antes. Então nós vivemos numa sociedade mais rica mas essa sociedade abundante se perdeu.

Nós não sabemos ser felizes com tudo o que nós temos. Essa é uma longa conversa, para examinarmos os múltiplos aspectos de tudo isso. Eu conheço pessoas com abundância, que tem casa e todas as facilidades, e dizem 'eu estou deprimido, a vida não tem sentido'. Se estivesse ainda trabalhando, buscando comida no campo e plantando, e tendo que se esforçar, talvez não se sentisse assim, a vida teria um sentido de busca, mas ele não tem mais, então ele não sabe como viver, como ser feliz, tendo chegado ao paraíso da abundância, aquilo que os antigos achavam que seria o mundo perfeito, sempre alimento disponível, sempre conforto... Então essa é a grande perda.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Depressão, pânico, ansiedade


Pergunta: Minha esposa está passando há um tempo por crise de depressão, pânico, ansiedade.  A pergunta é se a meditação silenciosa tem algum tipo de contraindicação para esse tipo de problema.

Monge Genshô: Sabemos que a meditação em si muda o cérebro. O cérebro tem certas qualidades plásticas que podem ser alteradas. E o cérebro do praticante de meditação se altera, muda. Agora, as pessoas doentes muitas vezes precisam de ajuda clínica. Hoje temos medicamentos que podem ajudar. As duas coisas se interpenetram, corpo e mente estão ligados. Se você conseguir interferir no corpo e conseguir mudar um pouco as condições cerebrais, que bom, pode ajudar. Conheço uma praticante que sofre de esquizofrenia. Na realidade, ela é perturbada mentalmente de forma muito grave. Se ela ficar sem medicamento, ela tem alucinação. O cérebro dela tem um defeito de funcionamento.

Se você tem um medicamento que consegue interferir nesse defeito, criou-se uma outra condição. E não é porque tem um problema cerebral que a pessoa é diferente de todos nós que temos algum problema físico. Por exemplo, toda a minha família tem pressão alta, meu pai tinha pressão alta, morreu por causa disso; minha mãe tinha pressão alta, não morreu por causa disso pois tomou medicação, viveu até os 97 anos. Então, eu tomo medicação para pressão alta. Se alguém vem e me diz, "eu não queria tomar medicação para o meu cérebro", eu direi: mas se você tem um defeito funcional em seu cérebro, tem que tomar medicação. Isso vai ajudar e acrescentar à prática. Vamos ser realistas a respeito disso. "Ah, mas eu queria ter um cérebro perfeito, queria que a meditação resolvesse isso". Mas pode ser que a meditação seja insuficiente para você. Você precisaria atingir um nível muito alto para conseguir superar todo esse problema. Em geral, depressão ainda consegue ser controlada. Mas outras coisas mais graves não. E existem casos de depressão muito graves, bipolaridade, etc., que precisam ser controlados com estabilizantes do humor.

Conheço monges que precisam tomar medicação. E por quê não? A vaidade de dizer "eu tenho um corpo perfeito, um cérebro perfeito", é só mais uma forma de vaidade. Você pode admitir que tem problemas em seu corpo. Eles têm origem cármica? Não interessa. O que interessa é que nós temos meios para ajudar. Então vamos ajudar. Agora, uma outra consideração, o zazen já é complicado para as pessoas normais. A gente senta a pessoa normal, ela faz zazen, às vezes fica angustiada, às vezes bate em porta sem saída. Vê problemas que antes não via, descobre e sofre com tensões, medos. Então é uma prática em que a pessoa já deve estar bem, porque você vai interferir e pode desequilibrar. Então uma pessoa que esteja doente, tem que ser bem acompanhada. Já tive a  experiência de acompanhar uma pessoa como monge, junto com o psiquiatra e conversando com o psiquiatra. "Como ela está?" "está assim. Precisamos fazer isso". "agora fazemos mais isso e menos daquilo", junto com o psiquiatra.

Semana passada, fiz uma palestra na Universidade Federal de Santa Catarina com um amigo meu que é um Ph.D. em psicanálise. Foi uma palestra muito interessante. Nós trocamos muitas informações, somos amigos, gostamos muito de conversar um com o outro, ele fez um Ph.D. na Inglaterra, trabalhou quatro anos lá, como psicanalista. Então, essa conversa é muito interessante porque tem abordagens dele com as quais eu entendo mais e posso ajudar melhor as pessoas com elas. "Essa pessoa tem esse problema, mas a origem é assim, assim e tem tal forma de raciocínio. "Ah, entendi". Isso é muito bom. Para quem trabalha com pessoas, não tem limite naquilo que você precisa aprender para poder ajudar.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papéis sofredores


Pergunta: E quando não tem mais jeito de ajudar uma pessoa? Quando o nível de depressão dela é tão grande, que faz até medo ela se suicidar... Os amigos trabalham o tempo inteiro  mas a pessoa não reage...

Monge Genshô – Esta é uma questão muito comum, que sempre é levantada. Por exemplo, uma pessoa perdeu um filho único, e daí toda a família quer ajudar, e fica todo mundo em volta. Então, quem ela é? Ela é a mãe sofredora que perdeu o filho. E se ela abandonar isto, cadê a identidade dela? Ela não sabe, mas precisa ser a mãe sofredora que perdeu um filho para ser importante. Em algum momento alguém precisa chegar e dizer: -“ Chega!”. A vida, o tempo inteiro, se apresenta na frente. Há uma vida e mais outras vidas para viver, você não precisa acabar-se porque perdeu um filho. Minha avó materna perdeu 20 filhos. Ela teve 23 filhos, sobraram três e ela continuou vivendo. Ela era uma avó muito interessante para mim, muito amorosa com o neto. A minha mãe perdeu quatro filhos. E no fim da vida ela dizia “como eu sou feliz, como eu sou feliz”. Sim, muito feliz. Não é necessariamente porque aconteceu algo em sua vida que você está acabado, porque ainda há muita coisa, ainda há muitas vidas para se viver. Agora se você ficar agarrado na fantasia, no papel de sofredor e de vítima, pode ser que este papel seja tudo que sobrou para você, e a atenção dos seus amigos seja preciosa. Imagine, e se abandonar este papel? Será que os amigos vão correr atrás, vão tentar consolar?  Quem sabe vocês estão ajudando tanto esta pessoa, que ela não pode mais escapar deste papel?

Pergunta: Voltando à questão das identidades, como tratar disso com as crianças pequenas?

Monge Genshô – Então, como eu já falei nós precisamos de identidades para transitar no mundo. Então dê a elas identidade. Iluminação é outra coisa que vem depois, mas como ser humano você não vai poder viver sem identidade.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Manter uma mente correta até o fim


Pergunta – Nossa sociedade nunca foi tão próspera e ao mesmo tempo nunca houve tantas pessoas tristes e deprimidas ou com problemas psicológicos. Essa parece ser a tônica do mundo moderno, construir pessoas estressadas e infelizes. É claro que cada pessoa tem seu próprio conceito de felicidade e sei também que dentro do Dharma não há uma regra, mas quais seriam as atitudes corretas para buscar a felicidade?

Monge Genshô – Primeiro temos que considerar que não existem respostas fechadas no budismo. Se formos considerar uma cidadezinha do interior do Pará onde não existe atendimento médico, a isolarmos e fizermos uma pesquisa na qual iremos verificar quantas pessoas existem nesta comunidade com problemas de estresse ou com problemas como depressão, a resposta será próxima a zero.  Mas se colocarmos uma equipe médica para analisar isso, começam a surgir grande quantidade de casos. Um dos efeitos do aumento de atendimento médico é o aumento da notificação de doenças. Esse exame das coisas muitas vezes distorce o que julgamos na sociedade.

Existe o que é chamado de “O Sinal e o Ruído”, de Nate Silver, que fala sobre isso. O conceito é que o que ouvimos de informação vem carregado de ruídos, que não é o sinal ou a verdade que está por trás dos fatos, mas sim um ruído que deturpa e distorce a informação. Neste livro ele dá um exemplo sobre notificação de gripe no México e nos EUA, que são completamente diferentes. Por exemplo, nos EUA é maior a notificação e a mortalidade menor, enquanto que no México é o contrario, porquê? Porque a notificação no México é baixa e o que é notificado é aquele que realmente morreu. Através dos dados disponíveis não é possível detectar a verdade.

Mas o que Buda disse a respeito da felicidade? Que a vida é cíclica e, portanto, parece instável e sofrida, principalmente porque esperamos da vida estabilidade e segurança que ela não nos dá, porque todas as coisas que desejamos que durem, não duram. Não há nada que dure para sempre, por isso a vida naturalmente já tem esse aspecto de instabilidade. Buda disse que há uma causa para nosso sofrimento e que essa causa é o nosso desejo pela estabilidade das coisas e dos desejos. A maneira de resolver isso, diz ele, é através do Nobre Caminho Óctuplo. O primeiro passo é a compreensão destes fatos, ou seja, se eu compreendo e aceito que a vida é insatisfatória e instável, poderei até rir das coisas. Se temos certeza que vamos morrer, porque todos vão, deveríamos pensar o que de fato é irrelevante na vida?

Estava conversando com um amigo e ele reclamava de uma situação no trabalho, então eu lhe disse que não se preocupasse, pois isso tudo seria esquecido. Ele continuou argumentando sobre os créditos no trabalho que sairiam para outra pessoa, mas e daí? Isso também será esquecido. Damos importância demais para coisas muito pequenas. Se pensássemos na morte constantemente, teríamos uma vida iluminada. Para pensarmos melhor sobre a vida deveríamos colocá-la sob a perspectiva de que vamos morrer em trinta dias, o que é importante nesse período que lhe resta?

Alguém lhe diz que seu nome está no SPC, se você vai morrer mês que vem com certeza vai rir disso. Com que mente vamos morrer é determinante sob o ponto de vista budista. Os impulsos mais importantes são os últimos, são eles que determinarão a próxima manifestação. Como não sabemos quando iremos morrer, o tipo de mente que cultivamos é extremamente importante. Como não sabemos a hora da morte, devemos nos manter prontos, com a mente correta. Sentamos para meditar e treinar nossa mente. Fazemos cerimônia para treinar nossa mente. Não importa a forma com que você busque, mas o importante é seguir o ensinamento de Buda, a compreensão correta, o vazio de um eu inerente em todas as coisas, a insatisfação com a vida e também o fato da vida ser cíclica.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Felicidade está aqui, infelicidade precisa ser construída



Quando você aprende meditação, você faz um treinamento da mente. Nos primeiros estágios esse treinamento lhe aumenta a capacidade de concentração e você aprende a ficar no momento, concentrado no que é realmente importante. Quando você está viajando para passado ou futuro, nada disso é importante. A memória do passado é construída, você tem lembranças dos eventos, mas você os vê sob seu ponto de vista, em razão disso são distorcidas por suas próprias percepções. Isso é muito fácil de percebermos pois, se alguém entrar agora na sala e fizer um pequeno teatro, o relato de cada um de vocês será diferente. Não podemos dizer que o relato de um ou de outro seja verdadeiro, ele será o ponto de vista particular, carregado de emoções, um ponto de vista particular, isso é a memória. 

Hoje temos um grande numero de pessoas com depressão, tristezas ou remorsos no mundo. Esses sentimentos são predominantemente causados pelo passado. A pessoa percebe como foi sua vida passada, como se formou, como é sua mente e sua vida hoje em razão de acontecimentos passados, por isso vemos tantas pessoas tomando anti-depressivos. Nesse momento, sem passado algum, sem qualquer tipo de memória, somos plenamente felizes, pois não carregamos coisas anteriores.

Outro problema é o futuro. O que farei amanhã, dívidas que terei que pagar, problemas a serem resolvidos, tudo isso gera ansiedade. Quando você vive no futuro é ansioso, quando vive no passado é deprimido. Quando sentamos para praticar zazen, estamos treinando nossa mente para retornar para a única realidade sólida, que é o momento presente. Temos que compreender e aprender que tanto passado como futuro são construções e representações mentais e em si não são realidades.

Problemático isso, não é? Isso é porque olhamos a vida como se o presente não existisse. Observem as pessoas nas ruas e tentem perceber isso, se pudéssemos ler suas mentes veríamos passado, passado, passado, ou então, amanhã contas a pagar, problemas a resolver. Uma vez conversando com um mestre ele me disse: “Sabe o orgasmo? É o único momento em que as pessoas estão realmente ali presentes”. E não é verdade? Se a pessoa naquele momento pensar em passado ou futuro, não consegue. A experiência de viver o momento presente é uma experiência maravilhosa, é a pura felicidade. As pessoas vivem procurando a felicidade, ela está disponível, está disponível no momento presente, não no passado ou futuro. A infelicidade é que é construída, construída por nós mesmos com nossas mentes.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O destino



Aluno - E o destino?

Monge Genshô – Então eu tenho um papel e esse papel eu não posso mudar? Se eu tiver um papel que diz o que vai acontecer e eu não possa mudar, então não adianta eu fazer nada, está tudo escrito, tanto faz olhar para os lados ao atravessar a rua, se meu destino for ser atropelado serei, se não for não serei... Esse é um fatalismo inaceitável. Eu posso mudar minha vida a qualquer instante, se eu quiser. Pode custar muito esforço, mas eu posso. Então  tudo é possível. Aceitar que alguém tenha um papel que lhe foi atribuído e que não possa escapar dele, é acreditar em destino e ser fatalista. Isso é abrir mão da liberdade do homem. Nós temos, mesmo que limitada, uma certa liberdade. Quem impede qualquer um de vocês de levantar e sair agora? Quem impede ao monge Jushin de pegar seu rakusu entregar e dizer - “Eu não sou mais monge”? Ninguém.

As prisões são criadas por aquilo em que você acredita. Você crê numa determinada idéia, fica prisioneiro dela. Mas você pode mudar de idéia e não estará mais prisioneiro. Nós acreditamos na infelicidade.  Você pode falar para uma pessoa que está deprimida, que é infeliz: “Você é infeliz mesmo, de verdade”? Eu tinha uma amiga que estava ficando cega, tinha um tumor na hipófise que estava comprimindo o nervo ótico. Ela é uma artista plástica, dependente dos olhos. Ela contou que chegou em casa, fechou os olhos e andou pela casa para sentir como seria ser cego. E achou aquilo terrível. Então numa operação, conseguiram tirar o tumor e o risco de cegueira desapareceu. Nesse momento a pessoa sente o que? Imensa felicidade, porque teve a perspectiva do que seria ficar cega, para uma pessoa para quem a visão era muito importante.

Então as pessoas muitas vezes são infelizes porque não percebem o quanto são felizes. O Michel pensou que tinha um câncer, mas, recebeu a notícia que era benigno. Depois da operação ficou esperando dez dias pelo resultado. Quando saiu o resultado ele escreveu - “Esse é o dia mais feliz da minha vida”. Certamente essa felicidade já se esvaiu,  foi absorvida. Não existe mais a ameaça da morte. Então em vez de morrer em alguns poucos anos, tinha de repente a perspectiva de viver mais uns quarenta anos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A busca do significado da existência



Vamos falar um pouco sobre as motivações originais de Buda, porque suas motivações originais são as motivações de todos nós. Quando paramos para pensar, aqueles que pensam mais profundamente se perguntam se a vida é só isso. Uma vez vi uma criança perguntar “Por que eu caí nesse mundo?” Se refletirmos um pouco, nos daremos conta de que precisamos de um sentido e de um valor para a vida; se achamos que nossa vida não tem um significado, nos sentimos perdidos e deprimidos. Parece que a depressão é um dos grandes males de nossa era, porque, repentinamente, a pessoa tem a impressão de que sua vida não tem significado e que não faz sentido viver.

Nós não podemos ser somente uma máquina de processamento de alimento, uma fábrica de adubos. Este não pode ser esse o único sentido da existência. Surge, então, a necessidade de divertir-se, de distrair-se ou de entreter-se. Estas expressões são usadas a todo o momento, como se isso desse sentido à vida. Saímos, vamos a festas, bebemos e conversamos, para nos transformarmos em pessoas alegres, e de alguma maneira, nos sentirmos vivos. Isso pode ser embriagador durante algum tempo, mas, depois, vem um grande sentimento de vazio, de solidão; nos sentimos perdidos. 

Procuramos então amores, para buscar dar significado à vida. De novo, em vez de o significado da vida estar dentro da pessoa, ele está no outro. Como procuramos em outra pessoa o significado da nossa vida, em algum momento, inevitavelmente, haverá sofrimento e infelicidade. O outro não pode ser suficiente, pois ele também tem suas demandas, e também os amores acabam, e na melhor das hipóteses, a morte nos separa.
(continua)