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sábado, 19 de agosto de 2017
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
A técnica ou a ciência não são culpadas, nós é que somos culpados
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Palestra de Goiânia - Parte I
ÍNTEGRA DE PALESTRA PÚBLICA REALIZADA EM GOIÂNIA, 30/11/15
Para quem nunca fez meditação vamos
agora esquecer o passado e o futuro. Sentem bem retos, afrouxem os abdomens
para que a respiração seja abdominal e deixem os braços pousados sobre as
pernas. Vamos fazer só dois minutos de meditação e nestes dois minutos vocês
vão tentar esquecer tudo que for passado e não pensar em nada futuro. Fiquem
aqui no agora e somente isso. Olhem para baixo com os olhos semicerrados e não
se movam mais.
........................................
........................................
Pediram que eu falasse sobre início e
fim. Nós temos o privilégio, no nosso tempo, da ciência ter progredido tanto que
nos permitiu ter uma visão do passado muito mais ampla do que antes. No início
do século XIX, as primeiras avaliações de quanto tempo a Terra teria chegavam a
números em torno de 300 milhões de anos. Isso deduzindo-se através dos fósseis
analisados, quando começaram a desenvolver a geologia e a examinar as camadas
do planeta. As conclusões a partir desses estudos chegavam a esses números
fantasticamente grandes e de números fantasticamente grandes o budismo e o
hinduísmo estão cheios. O hinduísmo, por exemplo, iniciou a ideia de eras
sucessivas e na realidade é essa ideia cíclica que o budismo desenvolveu. Mas é
importante notar que quando as pessoas perguntam como é o início de tudo, ou
como é o fim de tudo, elas estão perguntando como se deu o início delas mesmas
e como serão os seus fins. É isso que elas na realidade querem saber.
Vamos examinar esse problema um pouco
mais. A teoria predominante hoje, do ponto de vista científico, é que parece
que o universo começou uns 15 bilhões de anos atrás e que tudo está se
afastando. Se revertêssemos o tempo chegaríamos a um momento em que tudo está
unido num único ponto. Quando tudo estava unido houve um momento de expansão
repentina, que anedoticamente durante uma palestra de rádio na Inglaterra foi
chamado de Big Bang. Na realidade, não teria havido uma explosão. Uma criança
de nove anos me perguntou uma vez: “o que havia antes do Big Bang?” e minha
resposta foi que ninguém ainda pôde responder a essa questão. É verdade que
ninguém poderia responder essa pergunta do ponto de visto do conhecimento, até
porque como podemos determinar algo antes do tempo existir? O tempo existe
através de um intervalo entre dois eventos. Eu tenho esse sino e bato.
Quando eu o bato de novo eu posso medir a distância entre um evento e outro,
mas se não houver sino, não houver som, não houver ar, não houver mão, se nada existir,
como eu sei se passou um minuto, um ano ou um século? Eu não posso dizer antes
ou depois. Essa é a primeira questão. A segunda é: se o Big Bang reuniu tudo
dentro dele e então tudo se expandiu, significa que havia energia. Não teria
como haver surgimento do nada. Por definição o nada não cria algo. Do nada,
nada surge. Portanto, e é essa ideia que quero trazer aqui para iluminar a
nossa conversa, nós estamos falando de um tempo sem início e estamos falando de
um continuidade permanente das coisas, porque nada surge do nada.
Agora vamos trazer isso para as nossas
vidas. Um rapaz me perguntou ontem a respeito da justiça: “como se justifica um
acontecimento?”. Tudo é consequência de uma causa anterior. Se acontece algo
com você é porque você tem carma para que isso aconteça. Você pode dizer: “mas
me parece injusto isso que acontece com uma criança”, ou coisa assim, mas não
existe nenhuma criança ou pessoa aqui que tenha surgido ontem e possa dizer:
“há injustiça no que acontece comigo”. Cada um que está aqui é muito antigo e
existe desde um tempo sem início, porque sempre nós podemos recuar para um
momento anterior onde algo aconteceu. Como eu disse, mesmo que eu recue 15
bilhões de anos, mesmo aquele momento da origem possui energia. Não teria como
não haver energia contida nele. Ninguém sabe se o Big Bang é a expansão de um
universo que se contraiu em um imenso buraco negro e então chegou a um ponto de
singularidade em que se expandiu, fazendo surgir um outro universo. Isso faria
muito sentido porque seria a expressão de uma continuidade constante. Então
quando as pessoas perguntam “qual é o meu fim?”, ou “como é a morte?” elas não
podem falar de fim, porque não existe uma coisa tal como o fim, assim como não
existe uma coisa tal como o início.
Se somos continuidade constante então
existe um momento anterior e as consequências do momento anterior fazem surgir
o momento presente, isso explicaria porque alguém nasce na Síria ou na Dinamarca,
por exemplo. É justo ou injusto? Do ponto de vista budista é simples, você
reúne condições cármicas para a sua manifestação e portanto a sua manifestação
ocorre de acordo com aquilo que você plantou. Não
existe uma coisa tal como injustiça. Há motivo para você nascer no Brasil, há
motivo para nós termos esse tipo de democracia e vivermos o tipo de vida que
nós vivemos. Eu tenho carma para estar aqui, de certa maneira eu pertenço a
este mundo, eu não pertenço à Noruega. É por isso que eu estou aqui.
(continua...)
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
O que você acredita não tem importância
Pergunta: O que fez com que o Buda visse as 500 vidas anteriores dele? O que determina isso? Há um princípio para isso?
Monge Genshô – Este assunto não interessa. O budismo não discute coisas não verificáveis. Você pode perguntar “como começou o mundo?”. Ah, não interessa. Têm várias teorias científicas para isso. Como começou o primeiro carma? Não sei. Eu sei que há carma aqui e agora, porque todas as ações tem efeitos e consequências. E é sobre isso que o budismo fala. Ele não faz especulações filosóficas que não temos capacidade de responder. Desta forma o budismo vem evitando todos os conflitos com a ciência que todas as outras religiões já tiveram. Porque o budismo não é religião de explicação, isso aí é para a ciência. O budismo é a religião do despertar, cujo interesse é saber como funciona o processo de ilusões na mente, como elas são construídas. Ah, se existe um impulso, uma consciência que resiste à morte e renasce em outro corpo. Sim, me parece bastante plausível. Mas está claro que ela não carrega um “eu”, não carrega uma personalidade. Se carregasse um “eu”, eu me lembraria de uma vida passada, e o meu eu seria o agregado das memórias da vida passada também. Mas eu não tenho memória de uma vida passada, só tenho desta. Portanto, todos os “eus” surgem agora e cessam agora. Se há continuidade, me parece evidente por uma questão de justiça. Se existe continuidade do carma, então existe continuidade de tudo o que você fez. E se eu tivesse um acesso de sabedoria superior, eu poderia rememorar vidas passadas. Mas isso é inútil aqui e agora! Completamente inútil para você. Primeiro você precisa despertar, e talvez aí isso seja útil.
Então, o budismo considera a continuidade desde impulso que irá se manifestar em novas existências, mas não ficamos discutindo isso. Até para vir se sentar e fazer meditação, isso não importa. O que você acredita não tem muita importância.
(Final das perguntas e respostas na palestra no centro de yoga em Palmas, Tocantins, decupada da gravação por Sonielson San)
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terça-feira, 8 de julho de 2014
Dogmas e leis universais
(continuação, palestra pública)
Pergunta – Para o Zen existem leis universais que regem o universo, por exemplo, causa e efeito é uma lei?
Monge Genshô - Parece que é, não é? Pode ser que um físico quântico diga que existam alguns efeitos sem causa perceptíveis, estamos investigando isso mas até o momento, parece que todos os efeitos têm causa e, pelo menos na nossa vida de mente e de carma, todos os efeitos têm alguma causa. Tudo o que acontece com vocês tem uma causa pregressa.
Se existem leis universais? Nós progredimos muito do tempo de Buda para cá em termos de ciência, muito, muito. Bem mais ainda nos últimos 200 anos. De lá pra cá, quanta coisa mudou. Na minha vida, quanta coisa mudou! Eu me lembro quando cheguei em casa e a empregada me chamou para ver um fogão novo que ela tinha ganhado e que tinha “um ar que saía de dentro e pegava fogo”. Uma coisa extraordinária, porque ate então só tínhamos visto fogões a lenha e, detalhe por detalhe é tão rápida a alteração neste momento, que é difícil acompanhar, é difícil você se informar de tudo que está acontecendo agora, nesse instante em termos de progresso e conhecimento humano.
Nós devemos manter nossa mente aberta e não nos agarrarmos a nenhum dogma. O budismo conseguiu escapar disso, porque ele nunca se comprometeu com descrições do universo, e aí, a cada nova descoberta, não há problema para o budismo. Mas, quando você tem uma religião e ela tem uma cosmogonia e descreve o universo de uma determinada forma, quando você ameaça aquele dogma, parece que o mundo vai desabar, e às vezes a solução é mandar queimar aquele indivíduo que veio com essa história, porque ela é ameaçadora do “status quo”.
Assim, o budismo se salvou desse problema do dogma, e isso é um grande privilégio. E outro grande privilégio é o fato do budismo não achar que tem que convencer os outros a ferro e fogo, então nós não temos na história, uma guerra de conquista budista nesses 2.500 anos e isso é um enorme privilégio. Não que não tenham havido perseguições ou disputas, até entre budistas, isso houve, mas não uma guerra.
Pergunta – Mais cedo o Senhor se reportou à historia de uma jovem que reencarnou numa família budista porque havia vestido um manto. Eu não sei se era uma historieta mas, se é fato, de onde vem essa informação de que ela renasceu numa determinada família?
Monge Genshô - Não, essa história é uma anedota Zen. Então ela pretende passar um “ensinamento”, de que o contato com o Dharma, mesmo que seja sobre uma forma espúria, tem um bom efeito. Agora, se informações como essa não existem, pouco importa. Aliás, se você acredita ou não em renascimento, não tem interesse. Se entra alguém aqui pela porta e diz assim: “Monge, eu queria praticar o Zen, mas queria lhe dizer que acredito que há homenzinhos verdes que vivem na galáxia de Andrômeda”. Eu respondo: “Muito interessante você acreditar nisso, mas eles por acaso falam com você”? E ele diz: “Não”. E eu digo: “Bom, então não é tão grave, pode sentar”. Agora se ele fala com os homenzinhos verdes, aí devo mandá-lo para outra pessoa, porque não é a especialidade do Zen tratar com psicoses. Então o que uma pessoa acredita ou não, não tem muita importância.
Eu estava uma vez com Saikawa Roshi e um rapaz perguntou: “E Deus”? E Saikawa Roshi disse: “Ah, esse é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem, se você não acredita, está bem também”. Não faz diferença, vá sentar. Pratique meditação e, quando tiver lucidez, aí as coisas clareiam, e você não precisa ficar discutindo, argumentando a respeito de coisas como essa.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
As respostas estáticas aos problemas humanos
Pergunta – Existe incompatibilidade entre a ciência e o budismo?
Monge Genshô - Não posso enxergar, porque, se houver uma coisa que você comprove verdadeiramente, o budismo pode mudar de idéia a qualquer momento, porque ele não é dogmático. O budismo vem mudando através do tempo. Nós começamos com um determinado budismo e ele foi sendo adaptado. Pai Tchang (Baizhang Huaihai; Japanese: Hyakujō Ekai (720–814 AC)) na China, mudou as regras para os monges zen, há 1 400 anos o monasticismo zen budista não segue o chamado Vinaya indiano, em 1872, na nossa ordem e em todo o Japão, mudamos as regras, os monges podem casar. Mês passado eu fiz um casamento de um casal de rapazes. Para o zen budismo, nós temos que ser como a água, mudar como o mundo muda. Eu cheguei em um mosteiro, olhei um monge e não conseguia decidir se ele era homem ou mulher, aí perguntei para outro: “ele é monge ou monja”? e ele disse: é um transexual, mas ele quer ser mulher, então nós demos um papel para ele de que ele é mulher e pronto, ele então é monja. Ok. Isso dentro de um monastério zen budista. É claro que podemos achar virtudes na conservação estrita de regras antigas assim como na adaptabilidade e também problemas advindos de ambas as atitudes.
Mas o zen budismo está em mudança constante, não está congelado no tempo. Esta é uma virtude da ciência, a ciência pode sempre alterar o que ela pensa. Ela diz uma coisa, amanhã aquela tese está vencida e vem outra. Essa é uma coisa que a ciência pode fazer. Mas a ciência também tem um sistema de crenças. Também tem axiomas, e também tem muitos problemas, e há problemas indecidíveis na ciência, inclusive na matemática. Se vocês duvidam é só verificar o que Godel escreveu sobre os teoremas indecidíveis. É impossível decidir isso pelo uso da matemática, pronto, acabou. A matemática tem limites, assim como a linguagem tem limites.
Há uma declaração budista antiquérrima que diz que a linguagem serve para tentar explicar algo para vocês aqui, mas vocês não estão entendendo realmente o que eu estou dizendo, estão entendendo uma boa parte. Mas uma parte não podem entender, porque o único jeito de entender é experimentando. Não adianta explicar o gosto da lichia para quem nunca experimentou lichia. “Você já comeu lichia”? Não. Se eu te explicar que o gosto da lichia parece uma mistura de morango com abacaxi e uva, deu para entender? Não. Não tem como explicar ela tem que experimentar e colocar na boca. Sem palavras para traduzi-lo. As palavras são um mau instrumento que nós temos para comunicar a realidade. É aquilo com que nós podemos comunicar a realidade na medida do que o cérebro pode entender. O que não é muita coisa.
Pergunta – É lógico que para mudar um efeito, eu tenho que mudar a causa, mas a dificuldade é saber o quê fazer, como fazer, quando fazer, para mudar uma causa que está nos trazendo sofrimento.
Monge Genshô - Às vezes eu posso ajudar, outras vezes não posso, e é você mesmo que tem que resolver. Às vezes as pessoas me perguntam: eu tenho tal e tal problema. Me separo ou não me separo? Eu não sei, quer que eu assuma a responsabilidade por isso? Não sei. Você tem que considerar múltiplas coisas.. Normalmente as pessoas estão acostumadas com livros, onde há uma “solução”. Me separo ou não me separo? Não se separa, ponto, não pode.
Agora, no budismo: Monge, me separo ou não me separo? Não sei. Problema seu. E a regra? Não tem regra. Essa história de união foram os homens que inventaram. Separação, foram os homens também que inventaram. O que você pode fazer é pensar: quais as consequências realmente? É isso. Então, o budismo é um pouco decepcionante, porque queremos respostas simples, e o budismo não dá as respostas fechadas, quadradinhas, que “solucionam” tudo e nos tiram a culpa. Não, o carma é seu.
(continua)
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Possível mas raríssimo
Pergunta: Como o Budismo vê a relação mente e cérebro? Por um lado poderíamos pensar que a mente é um reflexo do cérebro, o que poderia sugerir que somos escravos do que nos acontece. Talvez através da meditação poderíamos alterar o estado do cérebro e automaticamente a mente. Por outro lado o funcionamento do cérebro permite o uso da linguagem e é como se a mente tivesse vida própria.
Monge Genshô – Em primeiro lugar, essa colocação, “como o Budismo explica...?”. O Budismo não se dedica a dar explicações. Esse problema das explicações é com a ciência. O que a ciência faz é procurar descrições e explicações que se aproximem da realidade observada. Caracteristicamente, e por isso, a ciência é o que é, essas explicações podem ser declaradas erradas e substituídas por outras melhores e isso pode acontecer sem parar. Ou seja, não existe nenhuma afirmação em termos de ciência que possamos chamar de "verdadeira". De outro lado, o Budismo não declara nenhuma verdade. Ele usa um método para libertação e usa raciocínios para você enxergar as coisas, ou seja, tudo é demonstrável e não depende de fé. Todos os raciocínios que fiz sobre a vacuidade inerente aos “eus”, dando o exemplo da casa e do copo, não passam de raciocínio demonstrável. Qualquer um pode chegar à mesma conclusão. Isso é o Dharma em si. O Dharma de Buda não é uma exclusividade de Buda, ele está presente e pode ser redescoberto. Por isso, quando recitamos os nomes dos Budas, recitamos seis nomes de Budas míticos antes de Shakyamuni Buda. Eles não existiram, são Budas míticos. O primeiro Buda histórico foi Shakyamuni Buda. Mas então porque recitamos seus nomes? Para que todos entendam que surgem Budas e, qualquer um, pensando, meditando e despertando, pode chegar ao Dharma. Vamos dizer que a cada era surge um Buda, ou seja é possível mas é raríssimo.
O Budismo também não é dono do Dharma, nem detém uma verdade exclusiva, nem o Zen. É apenas um método e um método apropriado para algumas pessoas, outras não. Sobre a pergunta sobre mente e cérebro, eles estão ligados, assim como mente e corpo estão ligados. Não separamos isso. Se você interferir no seu corpo, sua mente se alterará, se você comer mal seu cérebro e sua mente serão atingidos, se você come muito, fica sonolento. Se tomar uma substância alucinógena, seu cérebro será perturbado e poderá ter alucinações confundindo isso com realidade ou iluminação, o que não é nem uma coisa nem outra. Estamos procurando clareza e não obscurecimento, não fantasia. Já temos fantasias demais. Para quê tomar qualquer substância que altere a consciência? É absolutamente vetado para o praticante Budista tomar substâncias que alterem a consciência, é um grave erro que não levará a lugar algum. Só pode levar a mais confusão e já somos confusos o suficiente.
(continua)
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quinta-feira, 4 de julho de 2013
Explicação não é budismo, é ciência
P: Fico me perguntando: qual a explicação que o Budismo dá para o surgimento do ser humano de forma tão “perfeita”, pois no cristianismo existe a figura de uma “cabeça pensante” que fez tudo isso. Como aconteceu essa evolução no Budismo? Qual a explicação?
Monge Genshô: Em primeiro lugar o Budismo não se dedica a dar explicações. Segundo lugar, a ciência hoje, tem explicações bastante boas. E, pessoalmente, eu acho que a evolução das espécies está muito bem comprovada historicamente. Como acontece? Através do tempo. As pessoas dizem assim: “Ah, mas eu não vejo evolução acontecer”. Como você não vê? Estamos criando novas raças de cachorros todos os dias. Temos animais e plantas que sem o homem nem sobreviveriam. O trigo atual se você deixar sozinho ele desaparece porque a semente não cai, porque escolhemos selecionar sementes que não caem porque são melhores pra colher. E assim por diante. E assim também com os seres humanos. A nossa “matriz” é toda africana. Nossos antepassados de 200 mil anos atrás, você olharia e diria: não, não é um ser humano.
Em algum momento, nós começamos a parecer humanos, mas, se você recua no passado, não é tanto tempo. 200, 300 mil anos atrás, ocorreu o surgimento da espécie do homosapiens. Então, houve evolução lenta, e nós dizemos que nosso corpo é magnífico, perfeito, etc, mas, é não olhar bem pro corpo. Ele funciona muito mal, espinha fraca para andar em pé, pelos corporais diminuindo porque não são mais necessários, calvície, 5% das pessoas tendo episódios alucinatórios na vida etc...
Pergunta: não, mas não foi este o contexto do “ser humano perfeito”, e sim, que em algum momento, pra termos chegado nessa evolução, temos que ter sido no mínimo uma ameba, e alguém tem que ter criado isso ou isso veio de “poeira das estrelas”?
Monge Genshô: Não, mas isso não é budismo, ok? Tem um experimento famoso dos anos 60, quando alguém colocou num vaso substancias que ele deduziu que eram presentes na terra inicialmente. Metano, carbono, outras substâncias. Colocou num vaso e com faíscas elétricas, essa experiência foi repetida muitas vezes em outros lugares. Essas substâncias químicas, depois de algumas horas, começam a formar na parede do vaso uma película marrom. Essa película marrom é constituída de aminoácidos, os prercurssores da proteína. A experiência é a “sopa primordial”, bem conhecida. Então, o que quero dizer é o seguinte: ao que parece, dado o tempo e determinadas condições, você juntando elementos corretos, a vida começa a surgir expontâneamente. E a vida vai fazendo experiências assim, de existência. Mutações, surgimentos, cada vez mais complexos. Nós vemos os surgimentos agora, vírus novos surgem a todo instante. Esse processo continua na vida. Você levando este processo a 2 bilhões e meio de anos que é um tempo inimaginável pra nós, surgem indivíduos suficientemente complexos. Cada vez mais complexos. E vão mudando. Nós estamos mudando. Os testes de Q.I. mostram que, do início do Século XX pra cá, há uma mudança de 20 pontos. Aquelas pessoas que eram consideradas normais em 1920, hoje são consideradas lentas, têm Q.I. 80. As pessoas que eram consideradas de inteligência superior, com 120 pontos, hoje são consideradas normais. Interessante isso. Nós viemos mudando rapidamente.
Na verdade a humanidade vem mudando tanto que por ex, as cesarianas,( nós estamos no limite da capacidade da mulher deixar passar na pélvis uma cabeça do feto). Se você deixa livremente, há uma mortalidade por enquanto discreta mas que seria proibitiva com um crânio maior. Porque a cabeça foi crescendo e está num ponto quase limite para o parto normal.
E isto é evolução chegando nos seus limites possíveis. O corpo feminino já foi sacrificado no seu funcionamento para privilegiar a reprodução, problemas que o homem não tem. Caso da articulação de ninar, nas pernas, ao correr, as mulheres as jogam para fora por causa da largura do quadril.
Então tem um monte de coisas a serem consideradas a este respeito mas eu posso te dizer, que ao que parece, a vida surge expontaneamente e vai caminhando em direção a uma maior complexidade. O Budismo surge porque há sofrimento. Aí surge a descoberta do Dharma. O que o Budismo é pra mim ou o que Buda foi pra mim, foi um grande gênio. Porque ele teve a coragem de quebrar TODOS os paradigmas e dizer: eu não sei, não acreditem em mim, vou ensinar não baseado em fé, etc, e ensinou baseado em raciocínios, nessa maneira de pensar. Me sinto muito bem dentro do Budismo porque posso dizer assim: “eu não sinto conflito com a ciência, que é o que eu sentia todo o tempo quando estive em outras religiões”. Um conflito tremendo com a ciência. E isso o Budismo não tem. Ao contrário, a ciência está cada dia mais se aproximando do budismo. Cada coisa que acontece dizem: “ah, mas o Budismo já dizia isso no passado”. Aconteceu com a física quântica, psicologia etc.
Mas isso não é Budismo, é ciência. E espero que seja útil este pensamento racional, porque nós Budistas não precisamos entrar em conflito com a ciência e dizer: “ah isso é dogma, é crença”, e é assim porque é, ou é mistério”. Mistério não nos interessa. O que a gente não sabe dizemos: não sei. O budismo não se dedica a dar respostas sobre assuntos não verificáveis.
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quarta-feira, 3 de abril de 2013
Acreditar que somos separados
Pergunta – Fiquei pensando no que o senhor disse semana passada, que somos atmosfera...Mas então me veio a idéia do carma, eu me identifico perfeitamente quando dizes que somos iguais e feitos da mesma substância, mas e o carma? O senhor falou do banco de plástico e do cabide, mas o tempo de decomposição de um é diferente do outro, eu tentei imaginar que somos atmosfera, mas onde entra o carma de cada um, como vai se formando ou de onde originou?
Monge Genshô – O budismo não responde esse tipo de pergunta, por exemplo, “qual a origem do universo?”, ou ainda, “Como surgiu o primeiro carma?”. O objetivo do Budismo não é dar explicações sobre coisas não verificáveis. Há uma história nos sutras que ilustra bem isso, adaptando: - Um homem levou uma flechada e um amigo chega perto e lhe pergunta, “quem atirou a flecha era alto ou baixo, magro ou gordo?” O homem então lhe responde, “qual a importância disso, apenas tire a flecha”, ou seja, todos estamos sofrendo mergulhados em nossas ilusões, que utilidade teria para nós saber a origem do universo? Sabemos que o carma surgiu em algum momento e de alguma forma, pronto. Explicações são objeto da ciência. Provavelmente tenha surgido naturalmente pelas irregularidades da vida e do universo. Há o primeiro ato e qualquer ato provoca um efeito. Tudo tem consequência. Todo e qualquer efeito tem uma causa anterior. Se você pergunta qual a primeira causa pode cair numa regressão sem fim e sem sentido. Há outra história também muito interessante sobre isso. Um rei perguntou à um Monge: “A Terra está apoiada sobre o que?”, e o Monge respondeu: “Sobre um grande elefante”. “E em baixo do elefante o que tem?”, “Uma tartaruga” respondeu o Monge. “E em baixo da tartaruga, o que tem?”, “Outra tartaruga, Majestade é melhor pararmos por aqui por aí em diante são só tartarugas”.
Pergunta – O senhor falou da mente que se engana, como eu sei que estou enganado?
Monge Genshô - O que você pensa sobre isso, como você sabe que sua mente está enganada? Como você sabe que está separada das outras pessoas? Você olha para todas essas pessoas e as vê separadas de você. Mas você não vive sem elas. Não vive sem nada que existe, sem sol, sem chuva, árvores, pássaros, na realidade você é tudo isso misturado. Se você pensar sobre o que é esse guardanapo de papel em sua mão, do que ele é formado? Chuva, sol, árvore, carbono, tudo igual a você. Você é tudo isso junto, no entanto você olha para tudo e diz: “Eu estou separado”. Isso em si só já é uma grande ilusão. Por acreditar nessa ilusão é que você nasce e morre. Chamamos isso de ignorância. Por sermos ignorantes nascemos e morremos e acreditamos estar separados.
O carbono presente nessa folha de guardanapo em sua mão é muito antigo, bilhões de anos, os resíduos de bilhões de anos e de resto de estrelas estão todos contidos aí nessa folha na sua mão. O que você diria se essa folha dissesse: “Eu sou um guardanapo separado”? Você não diria para esse guardanapo, para esse carbono que ele está enganado? Claro que diria, no entanto olhando para sua mão você pode dizer que ela é predominantemente carbono. É tão evidente que estamos mergulhados em uma ilusão, o simples fato de você estar vivo e dizer “eu sou” é uma grande ilusão. É um sonho. Eu sou um ser de sonho falando para seres de sonho. Se acordarmos veremos que é tudo igual, mas tudo diferente. “Antes de estudar o Zen, pensava que as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Quando comecei a estudar o Zen percebi que as montanhas não são montanhas e os rios não são rios. Agora que despertei, as montanhas são montanhas e rios são rios”, essa é uma famosa história Zen. São as mesmas montanhas e os mesmo rios, só que é tudo diferente. Por isso os mestres Zen dão tantas risadas. Em um diálogo com Shariputra, um homem da Escola de Zoroastro, que acreditava num Deus único e criador do universo, diz à Shariputra, “Nós temos a verdade e acreditamos em um Deus único”, então Shariputra ri e responde: “Ah, temos muito de deuses únicos aqui na Índia também”. (Gore Vidal)
Os homens criam muitas histórias para acreditar, todas são ilusórias. As crenças são ilusões, quando você chega no Budismo ele não lhe oferece nada em que crer ou algo do tipo, acredite no que o professor está dizendo. O Budismo é experiencial. Teste e experimente, se funciona pra você é bom se não funciona, desista. Se você não gosta do professor porque ele é muito desagradável dizendo coisas desoladoras, pode ir embora. O Budismo não faz força para atrair pessoas, mais ainda, costuma dizer coisas para as pessoas irem embora. O Zen Budismo é para despertar, não para acreditar. Uma pergunta que sempre surge é: “Em que que o Budismo acredita?”, a resposta, não sei, isso é problema seu que acha que é preciso alguma crença.
Sempre conto essa historinha ilustrativa, se vem alguém na Sangha dizendo que acredita em homenzinhos verdes de uma galáxia distante, não há problema algum nisso, podem sentar e meditar. Agora, se os homenzinhos falarem com você então o caso é grave e é melhor procurar tratamento. O zen tem sempre muitas histórias. Conta-se uma história de um monge que sentado em meditação dizia estar vendo os discípulos de Buda em seu redor cantando mantras. O mestre então mandou que os outros monges lhe dessem um banho de água gelada e dessa forma resolveu o problema.
terça-feira, 19 de março de 2013
O conhecimento
Pergunta: - E o conhecimento? E universos paralelos?
Monge Genshô – O conhecimento em si, você tem sentado ao seu lado um professor de física, mas esse conhecimento não produz a realização espiritual, aliás Nem o conhecimento sobre o Zen produz a realização. A iluminação em si é uma visão que é produzida através da meditação, é sofrendo sentado na almofada que podemos obter a libertação. A realização puramente através de algum conhecimento, pode vamos dizer, aproximar, melhorar as visões da humanidade mas não produz realização espiritual.
O conhecimento produz o poder do próprio conhecimento. E que, pode, sim, dependendo da mente que usou, ser maravilhoso ou não. Eu sempre explico isso, facas são armas, mas também instrumentos para passar manteiga no pão. Uma faca não é uma coisa ruim. Pode ser uma arma para a mente que a veja como arma e um instrumento de alimentação para a mente que a olhe dessa forma. O significado é produzido pela mente que vê. Então, a existência ou não de universos paralelos é irrelevante para nós. Buda responderia assim – Para nós agora do Dharma, como as perguntas de causas primeiras, esses conceitos não ajudam e o budismo se concentra naquilo que ajuda para diminuir o sofrimento. Por isso o budismo jamais se comprometeu com qualquer coisa como ideologias políticas, sistemas econômicos ou confessar e aprovar idéias científicas, isso é irrelevante para o budismo. O budismo tem um foco, a libertação dos homens.
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Vegetarianismo e mosteiros zen
Pergunta – Uma coisa em que eu penso muito é sobre o consumo da carne. Não é mais somente uma coisa de propaganda. Antes eu pensava que era um hábito de família. Mas se formos observar a pirâmide alimentar dos nutricionistas, a base é carne e derivados de animais. Se for ao médico, ele lhe dirá para comer carne. Meu pai, por exemplo, ficou anos sem comer carne, então teve um problema de saúde, e o médico o assustou tanto, que ele voltou a comer carne. Existe algo além da mídia, é algo da ciência mesmo.
Monge Genshô – O que existe é um sistema de crenças, e ele irá variar. Por exemplo, nós sabemos que nos mosteiros Zen budistas, desde o tempo da China - ou seja, há mil e quatrocentos anos - se desenvolveu uma cozinha vegetariana, porque não se podia matar nos mosteiros e na China a mendicância era proibida. O resultado final dessa cultura é que no Japão, por exemplo, o consumo de carne de mamíferos é uma coisa recente, tem apenas cento e poucos anos. Antes disso, comer carne era uma coisa absurda. Comiam bastante peixe, mas jamais carne de caça ou de bois e porcos. O resultado disso foi a longevidade; a tradição nos mosteiros Zen é de longevidade com lucidez, e dificilmente você vê alguém gordo, pois ali comem muitos vegetais e grãos. Mas um monge pode aceitar carne se lhe é oferecida, não pode aceitar que alguém se proponha a matar um animal com o fim de alimenta-lo, esta proibição vem desde o Vinaya (código de regras monásticas) mais antigo.
Aluno - Acho que já está na hora do meio científico começar a divulgar isso...
Monge Genshô – Eu acredito que já haja algumas correntes que fazem esse trabalho.
Aluno - Parece que todo o modelo de consumo leva para a carne, não existe um financiamento de pesquisa contra o consumo de carne.
Monge Genshô – Porque nas faculdades é ensinado assim, há um lobby industrial forte, mas existem outras correntes que questionam isso, já temos literatura a esse respeito. O máximo que posso oferecer é meu exemplo pessoal: não como carne há mais de sessenta anos, meu pai era vegetariano, fui criado numa casa onde até o cachorro era vegetariano, pois naquela época não se dava ração e ele comia o resto da nossa comida. E lembro que quando viajávamos e deixávamos o cachorro com minha avó, quando voltávamos, ele estava gordo. O cachorro pode viver sem carne, mas é essencialmente carnívoro. Sua arcada dentária é completamente diferente da nossa, por exemplo, que é semelhante à dos macacos frugívoros. Não temos dentadura típica de um animal carnívoro; nossa mandíbula é diferente também com movimentos laterais. Mas o budismo não está focado nessa questão, não é necessário ser vegetariano ou vegano se você é budista.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Ciência e o zen
P. Esta a questão de que as palavras são duais e não funcionam, sinto que o zen conseguiu burlar este problema usando as palavras para transmissão, mas jogando com esta dualidade.Isto ninguém conseguiu fazer. A ciência e outras filosofias não conseguiram fazer. Isto é uma das coisas fantásticas do Zen. As palavras são imperfeitas, mas os métodos conseguiram mudá-las.
R.Agora veja também que o texto que eu li é um poema, quantas vezes os mestres Zen usam poema ou arte para expressar aquilo que está acontecendo.
P.Antes de usar as palavras tem o pensamento e a intenção, então não seria a intenção que conta para ter valor a palavra?
R. Não estamos mais no mesmo assunto do que é a linguagem. Estamos no assunto do julgamento acerca dos atos, palavras e pensamentos e isto existe dentro do budismo a intenção está em primeiro lugar. A intenção diz muito sobre o karma que é gerado, criamos karma muito de acordo com a intenção. Isto é verdadeiro.
P. Conhecimentos milenares estão sendo estudados e desvendados pela neurociência, que explica, por exemplo, que determinados estímulos visuais ou olfativos geram vibração em determinadas ondas do cérebro. Estas percepções mentais que estão sendo desvendadas parecem infinitas.
R O interessante sobre este aspecto é que por mais que nós avancemos neste tipo de análise ela tem as limitações que a anatomia tem para examinar o amor, muitas vezes aparecem coisas interessantes como: eletro-encefalograma de um monge em meditação, ah, ondas teta, muito interessante, mas isto nada diz essencialmente sobre a experiência espiritual em si, é apenas uma aparência grosseira, uma coisa que aparece, vamos dizer assim, é como nós vermos uma pessoa chorando de emoção e pegarmos suas lágrimas num vidrinho, levarmos num laboratório e dissermos, agora eu vou entender a emoção e examinamos a lágrima e vemos que é salgada e que na realidade é parecida com a urina em muitos aspectos. Agora o que isto me disse sobre a emoção do chorar? Estas são as limitações das análises deste tipo.
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